Entrevistas FLIP 2026

Mineração do genuíno na escrita de Flávia Péret

Às vésperas da Flip, Flávia Péret, autora de “Coisas presentes demais”, reafirma a memória como matéria-prima, o feminismo como um valor ético e a paixão como uma forma de curiosidade.

Foto: Acervo familiar.

Por Ana Luiza Rigueto.


“No semi-círculo das cadeiras / nota-se certo movimento. / As crianças trocam de lugar, /mas sem barulho: é um retrato.” Os versos são do poema “Retrato de família”, do inconfundível poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, e ressoam no trabalho literário que vem fazendo outra mineira, a escritora, professora de criação literária e pesquisadora Flávia Péret, que este ano é uma das autoras confirmadas da programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.

Flávia Péret nasceu entre Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, no ano de 1978. Seu trabalho mais recente, Mineração do outro: fotografia e fabulação numa palestra-performance (Relicário, 2025), reafirma como matéria-prima literária, além da fabulação, a memória e o arquivo. Neste livro, a escritora acaba por tornar indissociáveis dois universos aparentemente distintos: o arquivo doméstico de fotografias de seu pai e a mineração em Minas Gerais. Suas duas publicações anteriores a esta, Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças (Guayabo, 2021) e Coisas presentes demais (Relicário, 2025), compõe com Mineração do outro o que a autora chamou de uma “Trilogia da Memória”. “Já venho trabalhando há alguns anos com o tema da memória, um assunto que sempre me interessou. Gosto de pensar a memória em diferentes perspectivas: coletiva, individual, familiar.”

Além do trabalho com a memória, Flávia Péret também investiga a linguagem da palestra-performance e os limites entre os gêneros literários, que é quando vários gêneros se sobrepõem ou se embaralham em um mesmo texto ou livro. “Costumo chamar esses textos de livros de fronteira: narrativa e fotografia, ensaio e poesia, livro de viagem e poema. Gosto dessa bagunça entre os gêneros.”

Na entrevista a seguir, Flávia Péret, que é uma apaixonada pelo pequeno e pelo genuíno, destrincha questões atuais da literatura, reflete sobre o feminismo como um valor ético e relembra fatos marcantes da relação com o pai que a influenciam até hoje. Também comenta sobre a atuação como professora de escrita prevê responsabilidades como o cuidado para definir “boa” ou “má” literatura, conta qual será seu próximo livro e as expectativas para a Flip.

Flávia Péret, autora confirmada no programa oficial da FLIP 2026 (Foto de Patrick Arley).

Flávia Péret: “Acho que a literatura que gosto sabe que é impossível descrever as coisas como elas são, mas, mesmo assim continuam tentando”

Flávia, o que é mais difícil: esquecer ou lembrar?

Nunca tinha pensado nisso, mas, pensando agora, acho que esquecer é mais difícil.

Para lembrar, podemos lançar mão de algumas estratégias: fotografias, as falas das pessoas, pedaços de memória. Podemos, principalmente, lançar mão da imaginação, já que hoje é consenso que a memória é uma construção do passado, e não sua reconstituição fiel. As lacunas são preenchidas com a imaginação.

Esquecer, no entanto, é, às vezes, muito difícil. Em algumas situações, desejamos muito esquecer uma cena, um trauma, um acidente, uma briga, mas não conseguimos.

Eu gostaria de esquecer a última noite em que meu pai dormiu em casa, antes de ser internado novamente e, vinte dias depois, falecer. Tudo o que escrevo sobre meu pai é para esquecer aquela cena e poder me lembrar de outras imagens dele: solares e alegres. Ele se divertindo, aos 17 anos, numa cachoeira.

Seus livros me dão vontade de escrever. O que é literatura boa pra você?

Fiquei pensando naquele poema lindo da Marianne Moore, no qual ela diz que, apesar de nem sempre gostar de poesia, ainda acredita que o poema, com sorte, pode ser um lugar para encontrar o genuíno. Neste mundo insano e desigual, de tanta pasteurização das experiências, encontrar o genuíno é um presente muito grande que a literatura nos dá, acredito que o maior deles: histórias genuínas, experiências genuínas, emoções genuínas.

Essa é uma qualidade que admiro na literatura, em certos livros: textos que mostram uma visão do mundo, de si e das coisas que eu não tinha acesso, não conhecia. Livros que me ajudam a ver e a encontrar esse genuíno. E não por meio de conflitos mirabolantes ou tramas intrincadas — isso me interessa cada dia menos —, mas a partir do pequeno, do corriqueiro, do humano, das nossas contradições, dos nossos medos, daquilo que a gente não consegue comunicar, e alguém dá voz e corpo aquilo.

Também gosto muito de escritas que têm mais de uma camada e que transitam por mais de um gênero literário. Costumo chamar esses textos de livros de fronteira: narrativa e fotografia, ensaio e poesia, livro de viagem e poema. Gosto dessa bagunça entre os gêneros.

Mas, sobre a questão das camadas, para mim um texto precisa ter espessura. Espessura é a capacidade que certos textos têm de reverberar na nossa cabeça mesmo depois do ponto final. O dito e o não dito fazem uma espécie de cópula, gerando uma tensão — ou uma surpresa — que não termina quando o texto acaba.  Isso, para mim, é uma qualidade literária extraordinária: esculpir esse efeito na linguagem.

Essas camadas também têm a ver com não ser só triste, só feliz ou só trágico. Tenho um pouco de implicância com livros assim. Acho que, na vida, a dor está sempre misturada a outras emoções, inclusive ao riso. Gosto quando diferentes energias convivem num mesmo texto.

E, por último, para mim um texto bom é aquele em que 90% das frases são bonitas.  Novamente super subjetivo. Aquele texto que vou lendo e pensando: uau… uau… meu Deus. Ou seja é algo relacionado ao prazer e à beleza, ao prazer do texto.

Acho que a literatura que gosto sabe que é impossível descrever as coisas como elas são, mas, mesmo assim continuam tentando, como a personagem do livro A montanha das fúrias, da escritora uruguaia Fernada Trías, neste pequeno trecho: “E posso dizer: acácia, amieiro, alecrim, mas esses nomes não vão refletir os buracos deixados pelas mandíbulas das formigas ou a exata aspereza dos troncos. Não importa quantas vezes eu tente escrever uma nuvem, ela continuará sendo uma linha preta. Como é amarga uma palavra quando você não pode mordê-la como uma folha de louro”. E depois a narradora/personagem se pergunta: como escrever, então?

Eu acho que os livros que eu amo estão sempre fazendo esta pergunta: como escrever, então?

“Gosto de escrever textos em prosa que produzam, ao final, esse efeito de poesia”

Você comentou que as suas três últimas publicações formam uma “Trilogia da memória”, por serem escritas a partir de um gesto documental – Instruções… documenta um período em Buenos Aires pensando nas marcas da ditadura; Coisas… investiga a personalidade de uma avó por meio de seus vestígios e a humaniza enquanto o Alzheimer a desumaniza; Mineração… relê os rastros deixados pelo seu pai, as fotografias feitas por ele, depois que faleceu. Nessas escritas, o fôlego narrativo convive com a descontinuidade do fragmento. A opção pela forma breve nesses livros vem dos limites impostos pela memória e suas descontinuidades, ou do parentesco com os poemas?

Sim, já venho trabalhando há alguns anos com o tema da memória, um assunto que sempre me interessou. Gosto de pensar a memória em diferentes perspectivas: coletiva, individual, familiar.

Acho que o fragmento dialoga com essas duas questões que você traz. Para mim, ele é a forma mais precisa e honesta quando estamos no território da memória, já que lembramos os pedaços, retalhos, partes das histórias. O fragmento é uma imagem — e também um conceito — que representa a própria característica incompleta e lacunar da memória.

Mas ele também tem relação com o poético, com o que chamo de efeito de poesia. Um texto curto, enxuto, conciso, tem esse poder. Gosto de escrever textos em prosa que produzam, ao final, esse efeito de poesia. Gosto, principalmente, de fazer experimentos com os títulos. O mesmo texto, com títulos diferentes, conduz a outros sentidos. Às vezes, nos meus textos, o efeito de poesia se constrói justamente na tensão entre o título e o texto.

Há uma passagem da Autobiografia do Vermelho, de Anne Carson, em que a mãe do personagem Gerião conversa ao telefone com uma amiga, e conta que seu filho está trabalhando na própria autobiografia. Gerião, que é um “monstro vermelho”, enquanto isso, está ao seu lado fazendo escultura com um tomate. Nessa altura, ele era uma criança, não sabia escrever e encontrou um modo de contar a sua história. O que torna um rastro humano uma autobiografia?

Nossa, que imagem linda. Não me lembrava dela!!

Costumo dizer — e até escrevi sobre isso no livro sobre o meu pai — que a autobiografia não é apenas um texto escrito. Podemos entender alguns gestos humanos que fazemos ao longo da vida, como álbuns de fotografia, coleções ou tatuagens, viagens… Como gestos autobiográficos, ou seja, marcas, vestígios, rastros que vamos deixando e que, de certo modo, contam as nossas histórias.

Mas, pensando do ponto de vista literário, transformar um rastro em texto autobiográfico tem a ver com muitas coisas. A primeira — e, para mim, a mais importante — é entender que todo texto é um jogo, uma performance de si por meio da linguagem, uma construção. O eu que surge no texto não é uma representação fiel do seu autor, ou seja, é preciso transformar-se em personagem, duplicar-se e lançar-se à aventura de buscar o outro em si mesmo. Entender isso nos dá muita liberdade, liberdade para experimentar a linguagem, experimentar esta auto-figuração de si, experimentar inclusive imaginar, mentir, inventar… Por que não?

Eu entendo a escrita, de um modo geral, e a autobiográfica, particularmente, como acontecimento e não como representação. Ou seja, a imagem de si e do outro (no caso de uma biografia, por exemplo) vai aparecendo à medida que o texto vai sendo escrito e cartografar os movimentos desse acontecimento, a sua imprevisibilidade, os seus recuos, as suas dificuldades é algo que considero fundamental nos textos autobiográficos. Ir descobrindo ao escrever. Ir se transformando ao escrever. Não tem uma rota traçada previamente, pelo menos não é assim que trabalho. Estou às cegas buscando.

Cada voz é única na vida só por se enunciar. Mas na literatura, para que uma voz se destaque como autêntica ou singular, é mais difícil. Concorda?

Sim, é mais difícil. É preciso construir essa singularidade. Penso que a escrita a constrói de dois modos. O primeiro é mostrar as complexidades e contradições que toda pessoa apresenta, num compromisso de não ceder aos adjetivos que simplificam as coisas. O segundo está no olhar de quem escreve. A singularidade está no olhar, e não apenas naquilo que é olhado. Sei que estou me repetindo, mas acho, mais uma vez, que é esta busca pelo genuíno. O genuíno na leitura, na escrita.

O que não te interessa enquanto leitora?

Acho que de certo modo, já respondi um pouco. Gosto mais de falar o que me interessa. E isso tem a ver com uma posição que eu ocupo há muito tempo – a de professora de escrita – e nos efeitos (negativos) que uma opinião impensada  pode causar num aluno.  Já disse, no passado, em oficina de escrita coisas do tipo: não gosto deste livro/autor ou o que acho ainda mais perigoso não acho que isso seja literatura, porque deslegitima as escolhas literárias daquela pessoa. Hoje, não falo mais isso e me arrependo desta falta de sensibilidade. Claro que não gosto de um monte de coisa. Mas vivemos num país onde as pessoas, por uma série de motivos, lêem tão pouco. Temos que comemorar, festejar e incentivar a leitura e quem sou eu para jogar um balde de água fria no desejo de leitura de alguém. Então prefiro falar sobre o que me interessa como leitora. Sobre os livros que amo.

Você é professora de escrita criativa há muitos anos. Percebeu algum tipo de mudança no perfil das suas turmas – outras angústias, objetivos ou interesses, por exemplo – desde quando começou a dar aulas?

Nossa, não sei, precisaria pensar um pouco. Comecei a dar aulas de escrita em 2009, para jovens de periferia que tinham uma relação muito sofrida, de muita mágoa e resistência, com a escrita e com os livros. Mágoas que passavam, inclusive, por aspectos como: não gostar da própria letra, ter medo de errar, vergonha de ler em público, vergonha de mostrar o que sente. Comecei a me formar como professora nesse contexto, um contexto desafiador, mas também cheio de liberdade e experimentações. Meus alunos não queriam necessariamente ser escritores: queriam escrever uma letra de rap, fazer uma frase e colar na rua, fazer um zine. Eram menos preocupados com o que os outros iam pensar ou julgar e estavam completamente desconectados do sistema, do mundo da literatura.

Mas agora dou aula para outras pessoas. Por exemplo, sou professora em uma especialização em escrita criativa. As pessoas chegam lá com muita expectativa. Muita coisa mudou: há mais espaços dedicados ao ensino da escrita, há mais pessoas interessadas em participar desses espaços e em descobrir outras formas de escrever. Tem muito mais gente escrevendo hoje. E acho isso maravilhoso. Sou completamente a favor da democratização do acesso à escrita literária. Não acho que o mundo tenha livros demais. Tem aquele texto do Antonio Candido que é tão bonito, O direito à literatura. Lembro que, quando conheci esse texto, pensei: deveria também existir o direito à escrita. E acho que, de certo modo, ainda que não de forma tão ampla, estamos vivendo isso. Por isso, fico tão feliz quando pessoas cujo trabalho eu admiro conseguem, por meio de parcerias ou editais, oferecer oficinas gratuitas. Acho revolucionário aproximar as pessoas da escrita literária.

Às vezes, quando vejo essa discussão — ainda tão presente e, para mim, tão pouco produtiva — sobre a oposição entre arte e política, fico com uma preguiça tão grande, porque penso que eu nem teria desejado ser escritora se antes não tivesse compreendido, morando em Ouro Preto, as profundas desigualdades às quais certas pessoas e as mulheres estão submetidas.

O que ser uma escritora feminista traz para a sua literatura?

Recentemente, descobri que sou feminista desde criança. Quando meu pai faleceu, encontrei nas coisas dele, uma cartinha que eu escrevi para ele em 1988, eu tinha 10 anos, em comemoração ao dia dos pais. Eu o parabenizava, entre outras coisas, por ser um homem que não brigava com a minha mãe e que não cobrava que ela estivesse sempre limpando a casa. Eu não me lembrava, obviamente, de ter escrito isso, mas com certeza esse pensamento tão precoce era uma resposta  aos discursos e atitudes que eu começava a observar, sobretudo, de modo indireto. Dentro da minha casa, eu vivia numa espécie de bolha, meu pai é um dos homens menos machistas que conheci na minha vida, ele nunca julgou a mim e a minha irmã a partir do parâmetro do gênero – com afirmações do tipo “coisa de menina” versus “coisa de menino”. Ele nunca nos diferenciou do nosso irmão, nunca reproduziu (com gestos ou palavras) atitudes machistas dentro de casa e nunca limitou ou podou nossa autonomia enquanto pessoas. Ele respeitava nossas escolhas (por mais loucas que pudessem ser) e, principalmente, nunca tratou as filhas e a esposa como posse. Meu pai é um caso raríssimo de homem não-machista, principalmente, se tratando de um homem que nasceu no interior de Minas Gerais, em 1942. Eu tenho uma hipótese para ele ter sido desse jeito. Ele perdeu o pai quando tinha 4 anos, foi criado pela mãe e por uma irmã mais velha, ou seja, teve uma criação essencialmente feminina, sem contato com a violência masculina tão comum naquele período (e, infelizmente, ainda hoje). Acho que esta criação tão amorosa que ele recebeu de certo modo criou uma espécie de imunidade contra o machismo. Fora de casa, no entanto, na família mais estendida e, também, na casa das amigas, a experiência era radicalmente diferente. Tios e pais de amigas que, sem nenhum pudor, mandavam em suas filhas e esposas, que controlavam de modo autoritário tudo: quem podiam namorar, o que deveriam estudar, o que podiam ou não vestir e usar. Um controle total da existência dessas meninas e mulheres. Eu via tudo isso e ficava estarrecida. Acho que meu feminismo nasceu nesta tensão, a partir da empatia que sentia com as restrições e abusos que minhas tias, primas e amigas vivenciavam. E justamente porque não vivia isso em casa é que nunca naturalizei o machismo, nunca confundi machismo com amor, é possível sim ter um pai amoroso e não possessivo.  Acho que por isso é que aprendi, muito nova, a identificar o machismo e perceber o quanto é nocivo.

O feminismo, para mim, é, neste sentido, um valor ético. É a partir dele que penso minha conduta no mundo. É uma perspectiva política e histórica e é, também, uma metodologia de criação artística e de pesquisa. O feminismo está completamente enraizado no meu fazer enquanto escritora, pesquisadora e professora e meu trabalho reflete este compromisso profundo em abrir espaço e dar escuta às diversas experiências que atravessam e constituem a vida das mulheres.

Às vezes, quando vejo essa discussão — ainda tão presente e, para mim, tão pouco produtiva — sobre a oposição entre arte e política, fico com uma preguiça tão grande, porque penso que eu nem teria desejado ser escritora se antes não tivesse compreendido, morando em Ouro Preto, as profundas desigualdades às quais certas pessoas e as mulheres estão submetidas.

Meu espanto e minha indignação diante da injustiça social e da misoginia vieram muito antes do desejo de ser escritora. Acho que me tornei escritora para poder mostrar este meu espanto.

Tornei-me escritora porque acredito, de verdade, que tenho coisas importantes para dizer, que a minha visão de mundo enquanto mulher é válida, singular, importante, porque conheço histórias que precisam ser conhecidas por mais pessoas e busco escrever histórias que deem a ver essas experiências. Isso nunca esteve em dúvida para mim.

O que não me impede, como descrevi antes, de ter também um profundo compromisso com a linguagem, com a escrita e com o esforço de encontrar modos — gêneros, formatos, experimentações com a palavra — que tornem essas histórias relevantes e interessantes do ponto de vista literário. Histórias genuínas, assim espero.

Pretende voltar a publicar poemas ou deve seguir nos ensaios e fragmentos? Está planejando algum livro novo?

Não escrevo poesia desde 2022, mas tenho um livro pronto, que será publicado no ano que vem. Chama-se Passageiras e nele experimento a forma do poema narrativo. São poemas sobre diferentes mulheres e suas trajetórias marcadas por viagens, exílios, mudanças e fugas. Mulheres que estão sempre em movimento, buscando uma vida melhor.

É um livro difícil. Talvez o mais denso e pesado que escrevi. Há uma tristeza muito grande nessas mulheres. E muita violência. Justamente por ser um livro mais duro e melancólico, em certos momentos cheguei a rejeitá-lo. Falei, duas perguntas acima, que não gosto de livros que têm apenas uma energia. Só a tragédia. Só a tristeza. E acabei escrevendo um livro assim. Eu também estava vivendo um momento muito difícil, de muita imobilidade e de incerteza.

Pela primeira vez na vida, cheguei a pensar em não publicá-lo. Afinal, já estamos completamente saturadas, amortecidas, de conhecer histórias de violência contra as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, penso na importância de continuar tentando compreender tudo isso: a vida das mulheres, suas estratégias de fuga e de sobrevivência. Então, em 2027, ele será publicado.

Além disso, neste momento, estou mais envolvida com a escrita de ensaios e artigos acadêmicos, que mobilizam em mim o mesmo entusiasmo e a mesma paixão que um texto literário. Eu escrevo. Se é literatura, se é texto acadêmico, não tem muita diferença.  Na hora de escrever, a angústia e o prazer, a descoberta e a aventura é a mesma.

E tenho uma ficção guardada nos documentos do meu computador, ainda falta terminar. Uma história sobre a relação entre um pai e uma filha, numa paisagem completamente distópica, devorada pela poeira da mineração. Esse tema continua me assombrando. Preciso voltar pra esse texto, mas ainda não estou conseguindo inventar o tempo, desdobrar as horas para encontrar espaço para escrevê-lo. Não me desespero. Tenho certeza de que essa hora vai chegar, logo, logo.

Por último, queria saber como estão as expectativas para a sua participação na Flip. Animada?

Sim, super animada. Vou participar de duas mesas. Uma na programação principal, que é a mesa 11, com a escritora argentina Julieta Correa, que lançou um livro que tem muita vizinhança com o meu, impressionante, amei o livro da Julieta. Vou participar de uma mesa também com a Ieda Magri e com a Paula Lopes Ferreira, sobre memória. E vou fazer a mediação de uma mesa com uma autora que achei bem interessante, chamada Cláudia Cavalcanti. Estou com a expectativa que a gente possa ter boas conversas em torno dos livros, e conhecer as escritoras que ainda não conheço. Tenho certeza que serão encontros e conversas lindas, em torno deste objeto (livro) e desta prática (escrita). Em torno disso tudo que tanto amamos.

Ping-pong, jogo rápido:

1.             Um ensaio bom: Voyager, da escritora chilena Nona Fernández. Fabuloso. O livro ainda não foi publicado no Brasil. Espero, ansioamente, que seja.

2.             Sua primeira memória com a literatura: Ou isto ou aquilo, da Cecília Meireles.

3.             Uma escritora de formas breves: Uma só? Sylvia Molloy. Lydia Davis. Anne Carson. Margo Glantz. Matilde Campilho. Julia Raiz. Lilian Sais.

4.             Um poema que te ensinou algo sobre escrever: “Retrato de família”, do Drummond. Muitos poemas do Drummond me ensinaram algo sobre escrever, seguem ensinando.

5.             Uma fotografia: uma fotografia familiar, do acervo do meu pai, uma das mais lindas imagens que tenho dele. Ele, com 17 ou 18 anos, numa cachoeira em Ouro Preto. 

6.             O último filme que amou: Juventude, do cineasta italiano Paolo Sorrentino.

7.             O que acende um poema? A paixão, outro nome para a curiosidade.  Por lugares, ideias, pessoas. O que acende o poema é a fagulha do desejo – este bicho insaciável, doce e amargo, diria Safo.


Ana Luiza Rigueto é poeta e jornalista, doutoranda em Literatura (UFRJ), crítica literária, criadora da Trampolim e autora das plaquetes TeatrinhoBodybuilder e Maria & Maria.