Entrevistas

Maria Luísa Lembrança: “Feri o feminino para mantê-lo vivo em mim”

Em entrevista à revista O Odisseu, Maria Luísa Lembrança defende que existe uma estética que só pode ser acessada por mulheres e fala de onde nascem os seus poemas. 

Foto: Divulgação.


“Anima Feminea”, livro da poeta mineira Maria Luísa Lembrança, apresenta imagens que se relacionam diretamente com o feminino, seja pela aproximação daquilo que foi estabelecido pela cultura hegemônica, ou pelo afastamento. Como eu menciono na entrevista, é uma pluralidade de representações do que é ser mulher e todas elas podem, inclusive, habitar uma única mulher. Para a O Odisseu, Maria Luísa diz que a maioria dos poemas vem da sua experiência pessoal, mas que também pega “emprestado” vivências de outras mulheres. 

De todo modo, a sensação que fica para nós, leitores, é que a poeta constrói uma obra polifônica, evocando diversas vozes-mulheres que desembocam em um texto poético denso e perene. É surpreendente, inclusive, pensar que este é apenas o primeiro livro de poemas de Lembrança. A mineira estreou, na verdade, na prosa. Em 2025, publicou o romance “O Quartzo Rosa”, que inclusive foi premiado pela Academia Mineira de Letras. O que a autora pode revelar enquanto poeta poderá ser lido pelo leitor em “Anima Feminea”, livro que ainda está em pré-venda. 

A poeta mineira Maria Luísa Lembrança, autora de “Anima Feminea”/ Divulgação.

“Acredito que muitos textos somente poderiam ser escritos por mulheres, sejam ela cisgênero ou trans”, diz Maria Luísa Lembrança

Maria, uma coisa super interessante do seu ótimo livro de poemas, é que embora ele parta da afirmação do feminino, ele traz diversas representações, que inclusive se contradizem entre si, do que é ser mulher. Você pensa que ainda existe, na literatura e na cultura, uma imagem homogeneizante do que é ser mulher?

Acredito que não.  As construções do Anima, partem do que é ser mulher na minha vivência, porém, essa vivência não é a mesma para todas as mulheres. O próprio Lacan, quando afirma que a mulher é a outra dela mesma, nos direciona a compreender que a mulher é “não toda”, ou seja, não existe uma forma “final” para ela. E isso se traduz na literatura e na cultura. Embora a arte feminina seja de resistência, ela parte de lugares e vivências que variam de acordo com a classe, localização geográfica, etnia, etc, o que torna uma imagem homogeneizante do que é ser mulher distante do que acessamos na cultura e na literatura nos dias de hoje. 

No texto em que abre o livro, você fala de sempre ter se interessado, enquanto leitora, por temas relacionados à mulheridade em algum nível. E quanto à escrita? Enquanto poeta, esse também foi o tema que sempre te interessou?

Não de maneira consciente, mas de maneira inconsciente, acredito que sim. Comecei a escrever ainda criança, e quando mais jovem, costumava escrever sobre o que tinha relação com as minhas vivências, expectativas e frustrações. Ainda que eu quisesse escrever contos de fantasia, por exemplo,  emprestava algo de mim e das minhas vivências pessoais para o texto (algo que hoje nem sempre é necessário). E, nesse processo, eu estava me tornando mulher, entendendo o que era ser mulher para mim. O meu primeiro romance, escrito dez anos atrás, é absolutamente um livro sobre o feminino, ainda que eu não o tenha escrito com esse nível de consciência. Então, o interesse sempre estava ali. 

A propósito, algo que eu fiquei pensando, enquanto lia este texto introdutório, em que você afirma que os poemas nascem a partir da experiência de ser mulher, é que ainda existe essa discussão a respeito de existir uma “literatura feminina”, ou seja, um tipo de literatura que só poderia ser escrita por mulheres e que demarque uma estética própria feminina. Você acredita nisso? E você acha que você escreveria uma “literatura femina”?

Acredito que sim, pelo papel de resistência da mulher na escrita. Não sei como isso é encarado dentro da Academia ou da Crítica Literária, por exemplo, mas eu acredito que o teor de resistência presente na literatura feminina tem um papel crucial na forma em que ela se manifesta. Ainda que não exista uma única forma de literatura feminina, estamos falando de um movimento que nem sempre foi natural, levando em consideração os contextos históricos. A mulher sempre foi silenciada na maioria das sociedades, de forma que o mundo literário foi por anos comandado por homens. Por isso, acredito que muitos textos somente poderiam ser escritos por mulheres, sejam ela cisgênero ou trans,  pois são reflexo de vidas que tocadas pela opressão de gênero desde sempre. 

“Eu não tenho interesse em construir uma literatura alienante, que não se implique de forma alguma nos horrores que presenciamos no mundo.”

Outra discussão que a pergunta anterior sugere é que existem livros que seriam destinados exclusivamente a leitoras. O que você teria a dizer a leitores homens que de algum modo rejeitam ler livros escritos por mulheres e que falam do tema mulher?

É muito comum na cultura masculina contemplar muito mais artistas homens do que artistas mulheres, seja na música, na escrita, no drama. A admiração masculina é frequentemente destinada a outros homens, e acredito que isso é um reflexo do machismo e do patriarcado. Eu diria que um homem que recusa, ainda que de forma não consciente, a consumir conteúdos produzidos por mulheres, está limitando sua experiência artística e literária, além de perder a oportunidade de eventualmente ser tocado por textos escritos por mulheres e até mesmo por textos que tragam a temática do feminino, uma vez que o tanto o masculino quanto o feminino vivem dentro de todos nós. 

Diversos temas e tópicos interessantíssimos são suscitados em seu livro, como as relações afetivas, a insônia, o desejo. Fiquei com a impressão de que a poesia é algo de sua intimidade. Como nascem os seus poemas? Exclusivamente da experiência pessoal?

Eles nascem de forma extremamente natural para mim. Sempre foi assim. Por mais que eu goste muito de me aventurar em poesia tradicional com métrica e ritmo pré estabelecidos, eu tendo a escrever versos livres de forma muito espontânea, o que propositalmente é uma das características do Anima. O nascimento dos poemas pode ser considerado exclusivo da minha experiência pessoal quando penso que escrevo sobre o que me toca de alguma forma, mas atualmente, consigo pegar emprestadas vivências que não são necessariamente minhas e transformá-las por meio do processo criativo. 

Percebo que existe uma dimensão política em seu livro, mas não há o esgotamento da obra nessa questão. O mundo e as questões políticas têm te inspirado a versar?

Com certeza. Eu acredito que tudo é político, inclusive o meu lugar como mulher, latino-americana e escritora independente. Eu não tenho interesse em construir uma literatura alienante, que não se implique de forma alguma nos horrores que presenciamos no mundo. Não consigo me separar dessas questões quando estou escrevendo. 

Mas também, voltando à subjetividade, versar exerce algum efeito positivo sobre você enquanto autora? Tenho lido sobre muitos poetas que contam que versam como se fosse uma “salvação”. O que você acha disso?

Acho instigante que a escrita possa exercer um papel de salvação para muitas pessoas. Eu mesma, escrevo por necessidade, porque preciso da escrita para me manter sujeito. Os efeitos da escrita para mim são diversos, mas se destaca uma frequente sensação de alívio, de ter conseguido colocar pra fora algo que estava preso. Além de uma sensação de sublimação e, até mesmo, maior compreensão da minha própria realidade. Muitas vezes, me vejo prevendo questões da minha própria vida em textos aleatórios e penso: a resposta já estava ali, na minha frente, mas eu não havia percebido naquele exato momento. 

Quais foram as suas influências literárias que aparecem neste livro? O que você tem lido que te inspira?

Neste livro, principalmente, Hilda Hilst, Fernanda Young, bell hooks, Anaïs Nin. Atualmente tenho lido autoras latino-americanas fascinantes como Mónica Ojéda, Mariana Enriquez, Camila Sosa Villada. Mas meu maior referencial de escrita e expressividade feminina, ainda que não escrevesse poesia, é Lygia Fagundes Telles. 

Os poemas no livro foram escritos especificamente para este livro, ou temos aqui uma reunião de poemas que foram escritos em momentos diversos da vida?

Os poemas foram escritos em momentos diversos, mas em um período da minha vida que se alastrou mais do que eu gostaria. Então, por mais que tenham sido escritos em momentos diferentes, eles têm algo em comum. Alguns, entretanto, foram escritos no mesmo dia. Não imaginava que fariam parte de um livro, mas quando comecei a colocar a construção do livro em prática, eu já sabia exatamente quais poemas fariam parte dele. 

Se você pudesse resumir seu livro em uma frase curta, qual seria?

Feri o feminino para mantê-lo vivo em mim.