
Dez mil feiras de névoa-nada e outras luzes difusas
Escritos sobre a cena cultural brasileira e os festivais literários, e breves conversas com os poetas e escritores Rei Seely e Sérgio Ortiz de Inhaúma em uma conexão Brasil-Haiti.
Foto: À esquerda, Rei Seele, à direita, Sérgio Ortiz de Inhaúma (Divulgação).
Parte 1
“Para alguma naturezas pode ser bom dar de vez em quando uma festa às suas paixões”
Nietzsche
O imenso cansaço de falar e falar e falar significando névoa, de falar contra o sistema de castas significando névoa, é importante não confundir cansaço com tristeza, é fácil elaborar tais confusões, a cada edição dos grandes eventos literários do ano no mundo a aura de autenticidade que paira em volta dos verdadeiros poetas e escritores parece encolher, um dia será do tamanho de um formigueiro de formigas brancas, obviamente Marcelo Ariel gosta de turismo literário e baldeação para o lado de fora ele quis dizer badalação até altas horas, é óbvio que tudo o que os autênticos poetas e escritores, que as verdadeiras poetas e escritoras podem dizer sobre seus livros estará sempre um pouco abaixo daquilo que seus livros realmente dizem, quando os livros são apenas uma irradiação egotista confundida com ouro derretido do espírito acontece justamente o oposto. Uma pergunta? Você lá em cima escreveu ‘ falar e falar e falar’ ? Sim, essa pode ser para mim quando o ‘falar e falar e falar’ é contra o que é falso e esquemático e a fala pode se tornar algo que possui um pacto com o pensamento a medida de uma profunda honestidade intelectual, uma alta fidelidade entre a fala, o pensamento e o ato, é um acontecimento em si, isso soa ingênuo para você? Sim. E se o grande acontecimento literário do ano fosse no alto do Monte Roraimã? No Xingú? Na favela de Heliópolis? Algo mudaria? Não, haveria ainda mais cinismo & mais daquela ridícula empáfia burguesa. E há cinismo? A cena cultural brasileira hoje é feita do evangelismo em todos os níveis aliado a um grande cinismo e do covarde elogio das castas, cada casta tem seu gênio, seu mercado esquemático e seu providencial túnel de plástico bolha que dá acesso provisório às outras castas, o desejo de status une todas as castas. Você não quer ganhar os prêmios? Se eu quero dinheiro? Claro, claro, claro… Há brancos demais com dinheiro demais, vamos distribuir a bufunfa, contudo fundos e editais mais inclusivos, poderiam dar conta disso .O que eu gostaria de ver em um festival literário? Uma aurora boreal rindo, lendo e debatendo os livros , uma aurora boreal formada por estudantes secundaristas, ex-presidiárias e ex-presidiários, moradores de calçada, indígenas , ciganas e ciganos e nestas rodas comunitárias enormes com muita comida e bebida grátis e farta distribuição dos livros dos participantes, os escritores e as escritoras misturados, quase indistintos no meio da multidão, como realmente somos quando não estamos escrevendo. É necessária mais do que nunca uma reforma agrária no espírito dos sistemas culturais do Brasil… Posso te fazer algumas perguntas?
Claro.
Você escreve muitos livros, publica muitos livros, é uma estratégia?
Não, em um sistema cultural marcado pelo apagamento do pensamento da alteridade em geral, o ideal seria escrever o mesmo livro até que ele fosse realmente lido. O meu projeto é urobórico, há um livro feito de livros que retornam mas não há repetição, apenas diferença, solidão e liberdade. Obviamente a solidão não é a liberdade e a diferença não cria uma opacidade intransitável. Quem faz isso é o Poder.
Esse mesmo sistema que considera ‘empresas mediadoras de gráficas’ como editoras, testemunhos pessoais de teor narcísico jornalístico como tesouros literários, também soterra singularidades literárias, paradoxalmente dilui promovendo gêneros como A POESIA em sub gêneros imitativos DA POESIA e relega a pseudo relevância criações literárias raras. Enfim, a dimensão dos negócios corrompe todos os processos. Neste cenário controlado o melhor do que é publicado NÃO SE TORNA PÚBLICO. Eis a tragédia…
Se você discorda tanto do sistema de espetacularização da literatura por que vai tanto a eventos? Você participou por exemplo do FESTIVAL POESIA NO CENTRO…
Ir até os lugares falar sobre poesia é bem mais do que ir até um evento falar de si mesmo, de seus processos, a poética do ego é despoetizante, todos nós temos egos mas não são os egos que escrevem os poemas, os egos são no máximo incrédulos e inseguros leitores dos poemas que saem do corpo ou seja do mundo, não escrevemos poemas com os egos, escrevermos com as mãos. O ideal é que o cérebro das mãos fale sobre os poemas, que o cérebro do coração fale sobre os poemas, o ego não é como a imaginação um órgão do corpo dotado de um cérebro próprio, ele apenas simula pensamentos roubados do contorno de uma identidade, quem realmente pensa para além de qualquer contorno é o corpo, esse estado comunista de todos os cérebros de todos os órgãos de todos as células de todas as moléculas esse estado animalesco floral iridescente e oceânico. Embora deteste essa ideia de CENTRO associada A POESIA, este evento se diferencia dos outros, é algo que poderia ser multiplicado por todas as cidades, a associação entre POESIA e CIDADE me parece mais NUMINOSA. Escapar um pouco da esfera dos negócios que artificializa e reduz a poeticidade, há um ensaio tímido disso em andamento?
Talvez, minha outra pergunta é sobre o papel da citação em seu processo criativo, você frequentemente cita outros poetas e escritores no corpo dos poemas, por que você faz isso?
Descobri há pouco tempo que existe a possibilidade de elaboração do poema como um arquivo imanente , descobri isso em um curso sobre Ana Cristina César no Maria Antônia.Criadora de um projeto sem paralelos dentro da literatura brasileira onde tradução & leitura convergem para uma criação poética que mais do que cifrada é um mapa de arquivos reveladores de processos pontuais de imanência dentro da elaboração de textos imbrincados e híbridos Ana Cristina César é um caso singular dentro da literatura brasileira. Outro caso singular com o qual aprendi muito é Clarice Lispector.
” Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome (…….) Temos organizado associações de pavor sorridente (…..) A insônia levita a cidade mal iluminada (….) Mas a Catedral está quente e aberta. Cheia de mosquitos(…..) Não, nem todo tipo de lucidez é frieza”
Trechos escolhidos ao acaso folheando o TODAS AS CRÔNICAS de Clarice Lispector. Ando relendo as crônicas para um curso que vou dar neste ano com Liliane Prata, a coisa nos leva a elaborar centenas de perguntas a partir de frases de Clarice Lispector. : Os sentimentos sem nome são tantos que é possível elaborar uma lista? O pavor pode sorrir? A insônia pode fazer uma cidade levitar? Será que a frieza da lucidez se tornou comum? Os mosquitos estão no lugar dos anjos? Fugi um pouco da resposta.
Não sinto que você fez um movimento de fuga… Explique melhor o que é um projeto urobórico de escrita ?
É uma projeto inspirado nas ideias de retorno incessante de Nietzsche e de Diferença & repetição de Deleuze, algo se repete como diferença e não como produto de consumo acabado, é também a ideia de um processo de lapidação em que a derrisão que o mercado editorial impõe aos livros que não atendem demandas publicitárias ou catárticas é parcialmente mas não totalmente anulada. Comecei com uma série onde desenvolvi o conceito de TEATROFANTASMA que evoluiu para o conceito de FICÇÃOVIDA. Não é algo fácil de explicar, os próprios títulos dos livros formam um poema que se completa através da reescrita destes livros e a noção de ONTOLÓGICO aplicada aos diários que publiquei há décadas é completada pela noção de NÉVOA-NUVEM que por sua vez é completada pela noção de NASCIMENTO COMO INCÊNDIO AO CONTRÁRIO que por sua como num movimento quase autofágico se torna a FICÇÃOVIDA. Livros diferentes dialogam entre si através de uma poética interna espectrológica. Como eu disse, não é algo fácil de compreender.
Continua na próxima coluna…
BrasilHaiti: Uma conversa breve com os escritores e poetas Rei Seely e Sérgio Ortiz de Inhaúma

Rei SEELY, escritor e poeta.
Rei Seely chegou no Brasil em 2010 e vive em Curitiba, autor de Cada dia é um amanhã ( Telaranha) e do romance Negrosa ( Kan Editora). Seely pratica uma forma de poesia confessional que ecoa procedimentos do R.A.P. e em seus textos expõe com nitidez a ferida colonial.
1-) Quais são as linhas de força de sua poética e o que o levou para a poesia?
Minha poesia se derrama na urgência de descolonizar o pensamento e a carne, movida pelo sopro da ancestralidade e pela vibração do meu zoé egrégora viva e pulsar de uma libertação que resgata mente e corpo. Fui empurrado para a poesia quando a haitianofobia conceitua minha desumanização, mas só o poema a transmuta. O verso nasce exatamente ali onde a teoria cala e encontra seu limite transfigurando os fluxos geográficos, dores e conceitos em ritmo, fogo e na restituição ontológica do meu exílio forçado. Quando a própria terra de origem se torna hostil à carne que a habita, existir vira sobrevivência e a resistência é a elegância audaciosa de tecer a própria esperança na casa do outro.
2-) Fale um pouco sobre a vida de um intelectual imigrante caribenho no Brasil, quais são a seu ver as ressonâncias, convergências e tensões culturais entre o Brasil e o Haiti?
Habitar o Brasil sob a égide do acolhimento humanitário é perceber-se na visão de um refugiado feijoada engolido pela antropofagia racial de uma hospitalidade humanitária que digere metodicamente nossa carne enquanto vomita e rejeita nossa alteridade. Ter rompido radicalmente com o État Affranchi necrótico, teorizado pelo filósofo haitiano Kervens Louissaint, é vivenciar uma fratura ontológica absoluta. O exílio se torna o espaço-tempo onde a ilusão jurídica do refúgio colide com a crueza do asfalto enquanto o sofrimento continuado evoca a miséria social e o valor do trabalho é ditado pela pigmentação do Curriculum Vitae, as ruas e as engrenagens burocráticas do Estado operam uma engenharia minuciosa de desumanização, movida por uma haitianofobia institucionalizada. Entre as duas margens do Atlântico, as convergências pulsam na egrégora subterrânea do zoé. É ali que a ontologia livre do lakou e a filosofia de resistência do terreiro se comunicam pela gramática sagrada do tambor, insurgindo-se contra a lógica da mercadoria e da necrose. No entanto, essa ancestralidade partilhada choca-se violentamente contra a barreira ideológica do mito da democracia racial e o espectro histórico do haitianismo que assombra o imaginário das elites ocidentais. Essa assombração é justa; foram os heróis haitianos, como Jean-Jacques Dessalines, que refundaram e universalizaram o conceito de direitos humanos, desvinculando-o da biologia da pele para alicerçá-lo na radicalidade da própria dignidade humana. Dois anos após essa audácia, o sistema de reconhecimento colonial que gerou o État Affranchi necrótico assassinou Dessalines no momento em que a elite oligárquica dos mulatos quis acaparar para si todos os bens da colônia, precisamente porque ele defendia uma justiça social cujo objetivo final era a soberania e a emancipação econômica do negro haytiano. É nessa fratura que se impõe o mistério da linguagem. A grafia original, Hayti, evoca o império negro e a memória da cosmogênese indígena dos povos autóctones, resgatada em 1º de janeiro de 1804 como o primeiro grupo de escravizados a fundar uma nação livre na América e no mundo. Após o infanticídio político de Dessalines, o sistema do État Affranchi domesticou o nome para Haiti. Haiti do reconhecimento é o subalternismo, forçado a pagar uma dívida espantosa à França. Embora homófonos na voz, um abismo político separa Hayti da insurreição do Haiti da capitulação burocrática. Brasil se projeta como um país acolhedor, mas ser negro, migrante e sair de um pais apobrecido como Haiti constitui uma trilogia trágica onde a sofrença vira convivência. A nossa luta não é pelo mero consentimento de um estar burocrático, mas uma força permanente pelo direito elementar de ser. A vida do migrante haitiano não transita pelo caminho da facilidade; suas lágrimas são, na verdade, (in)visíveis presentes demais na carne, mas completamente ocultadas pelos olhos de quem consome nossa força braçal.
3-) Que escritoras e escritores haitianos você recomendaria e quais escritores e escritoras do Brasil marcaram sua trajetória?
Para escritor haitiano René Depestre, para escritores do Brasil Julia Raiz,Carolina Maria de Jesus, Marcelo Ariel, Conceição Evarista e outros. Meu primeiro contato com o pensamento brasileiro se deu através de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Me lembro de que um amigo me indicou este livro para que eu pudesse ter uma compreensão inicial sobre a formação da sociologia brasileira, é uma obra que fundamenta a sociologia das relações de poder no Brasil espelhando como a colonialidade do ser continua a estruturar a subjetividade brasileira até a contemporaneidade.
#Poema inédito no livro negrocídio poético
Negrocídio do exílio
Ontem, minha mãe suspirou a dor seus olhos, velados pela miopia,
já só distinguiam o reflexo da minha mala meu filho, para onde você vai?
com este baú pesado de tinta e de sonhos.
Lá fora, as balas terminavam a ladainha do dia, cantando o luto eterno do bairro.
Minha irmãzinha, de barriga vazia,
agarrou-se àminha vida como a uma última margem. A sombra do raketè1 já me espera no carro,
preto e apressado.
O tempo se partiu é hora de ir!
Vi meu pai, truncado da perna,
oferecer um sorriso espectral,
essa piada atroz nascida da sua miséria.
Ele estava largado na cadeira,
um rei destronado diante da tela do Estado. O noticiário escarrava a imagem
dos drones famintos sobre a Cidade de Deus.
Minha mãe servia a última
sobra, herança da missa de
domingo um prato de arroz seco,
sem a graça de um feijão,
sem osso sequer de um frango industrializado, sem tempero.
E as moscas, embaixadoras indiferentes do vazio, pairavam em saudação acima da mesa.
Sua perna, ele a deixou no asfalto, ceifada pelo rastro do cortejo presidencial,
naquele dia em que vinha me buscar na escola, leve em sua bicicleta
três meses de masmorra estéril, e a infeção,
única convidada, devorou seu membro.
Através das cortinas furadas do meu quarto, eu captava a única luz,
a da lua ou o raio de sol, e o único perfume,
o cheiro dos Estados Unidos,
o daquele filho do vizinho que voltou, cujo caminhou até o exílio
seu perfume é uma bruma quem, cada vez,
asfixia a miséria no coração das nossas vielas.
Eu revi meu primeiro amor do ensino médio,
uma flor murcha nas correntes de Iquitos
ela perdeu o fôlego tentando chegar ao Brasil as autoridades só resgataram seu passaporte, um papel provando o fracasso da fuga.
Que alívio abandonar meus trapos velhos e este colchão picado de percevejos!
Meu sono era uma guerra sob um teto
que só esperava a chuva de verão para desabar.
Eu selo minha boca em um silêncio sincero Onde a tristeza da minha família
é o fogo que me assa a alma, mas eu vou
é a única porta aberta
contra este cemitério negrocídio haitiano implantado pelo Oci-dente
Notas de tradução
Raketè1:é uma palavra do crioulo haitiano que se refere a uma pessoa envolvida em atividades ilegais. No contexto da imigração ilegal, o raketèéuma figura criminosa que monetiza o desespero, explorando a fragilidade dos migrantes em sua rota de fuga. Eles são um dos múltiplos perigos que os indivíduos tentam evitar ou que são forçados a enfrentar para deixar seu país.
#Poema no livro CADA DIA É UM AMANHÃ
Cosmopoesia
Ao Este de meu Oeste
O sol emagrece
Ao Sul de meu Norte
O horizonte desaparece
Ao meu Centro a vida acontece.
Sérgio Ortiz de Inhaúma, poeta e escritor
Sérgio Ortiz de Inháuma vive no subúrbio do Rio de Janeiro, É autor do livro-projeto, Criãçação, que consiste em três partes-livros — Jaína-máquina divino (Editora CLAE, 2019), Yjá,Ygê (Independente, 2020) e A’zúluà, (Independente, 2020) —, Valdêniagô (Editora Urutau, 2020) e Tânia Trupolina (Editora Urutau 2021) e lançou recentemente Marraiorrêi em edição independente. Sérgio se destaca da cena literária contemporânea por realizar uma pesquisa de linguagem que o aproxima de uma etnopoética mas seu trabalho avança para regiões ainda menos visitadas, radicalizando de um modo surpreendente os projetos de Lima Barreto e de João Antônio.
1-) Você é um dos raros escritores contemporâneos que realiza um trabalho profundo de elaboração de linguagem, fale um pouco sobre o Livro-projeto Criãçação que a meu ver é algo sem paralelos dentro da literatura brasileira contemporânea, qual é sua filosofia, seu projeto literário ?
O Criãçação foi uma tentativa fracassada de lançar um livro maior em três partes, com um projeto gráfico que se comunicava entre si, mas ao mesmo tempo distinto, cada um mantendo sua singularidade e autonomia. Não funcionou, por inúmeros motivos, mas um deles, talvez o principal, foi o fato dele ser um projeto de autopublicação que eu quis bancar sozinho e, em minha soberba, fracassei. Não deu certo. Faz parte. A vida é constituída desses riscos, me arrisquei, e falhei.

A ideia é de um dia lançá-lo num único volume, como deveria ter sido desde o começo. Vamos ver. Sobre o projeto em si, eu quis constituir um Subúrbio (que em alguns livros chamo de Çubúrbio, incluindo o Criãçação), como território imanente onde tudo fosse possível jorrar de maneira diferente ao nosso mundo cotidiano e ordinário. Abrir uma fissura na terra, trabalhar e remanejar essas forças da terra, do chão, recombinar, mudar, quebrar e dobrar até que tudo aconteça novo, vital e potente. E acredito que daí surge essa escrita estranha, inatual, a-significante de meus livros, que atinge diretamente a linguagem, rachando-a por dentro e por fora, em todos os níveis, desfazendo seus vínculos constituídos. Meu projeto literário eu componho dessa maneira, lapidar, como pedras que necessitam de novas faces e cortes, e cada livro meu eu me permito elaborar como único, estranhamente parecido uns com os outros, mas ao mesmo tempo diferente e único. Eu escrevo/crio entre algo sem nome ou resolução, que segue num fluxo ininterrupto a água da sarjeta. Não me interessa grupos, escolas, movimentos ou gerações. Não escrevo para dar continuidade a nenhuma tradição sobre a terra. Nunca começo ou mantenho minha criação por semelhanças, mas sempre por uma diferença incisiva, que abra caminho para um fora, um fora da própria linguagem, um fora de suas marcações históricas, geográficas, sociais, econômicas.
2-) Você disse em uma entrevista no site da “editora Urutau” : ” trabalho com essas forças irreais que se intensificam e subsistem por debaixo do que chamamos de Real ” poderia falar um pouco sobre isso, qual é a força do irreal ?
O irreal nesse sentido não seria o contrário da realidade, mas algo paralelo a ela. Melhor dizendo, algo como um fora dela. Ou um avesso. Quando digo forças irreais, é porque não faço uma distinção, essa separação tão regulada das coisas e das forças que as compõe. Eu trato as coisas como forças, em muitos momentos, e daí produzo um novo mundo, não antes e nem depois desse preexistente que vivemos, respiramos, trabalhamos e comemos, mas um à beira, ou em algum lugar desconhecido, ou às vezes em lugares tão óbvios que ninguém suspeitaria. Essas forças irreais são forças ainda não constituídas, nos sobrevoando num plano de virtualidade, mas que estranhamente nos atravessa em muitos momentos e, se tivermos atentos, podemos compor com elas. Mas há sempre um risco, um desvio, muitas vezes perigoso demais, sujeito a morte, inclusive, em que podemos falhar e pôr tudo a perder. Faz parte, como eu disse antes.
3-) Depois de haver publicado poesia e prosa de forma independente e por pequenas editoras, como você avalia criticamente o sistema literário do Brasil?
Eu não sei muito sobre o mercado, publicações etc. Eu tenho muitos escritores, editores e editoras em minhas redes sociais, porque em algum momento lá atrás, há mais de uma década, quando comecei a publicar, achei que isso seria importante e crucial para mim. Rede, trocas, alianças etc. Nada disso ocorreu, entretanto, e hoje não faz nenhuma diferença e não tem nenhuma importância. Vejo mais conflitos, invejas, ressentimento, arrivismo, que qualquer troca ou generosidade. É claro que há suas exceções, mas a sensação que tenho, que isso se torna cada vez mais raro. Quem chega nesse mundo hoje, imagino, sente tudo muito combinado, regulamentado, tudo muito inflexível e rígido, e creio que o autor, principalmente o principiante, terá que ter uma determinação ainda mais férrea se quer seu livro rodando, sendo lido e publicado. As editoras que estão exatamente nesse meio, sejam elas grandes, médias ou pequenas, têm esse desafio, de se manter, ganhar algum dinheiro e publicar com o mínimo de seletividade. Deve ser uma luta, acredito. E pelo que vejo, há uma saturação no meio, muitos e muitos livros publicados, e poucas pessoas dispostas a realmente lê-los. De toda forma, muitos livros nascem póstumos, fora de sua atualidade. Eu mesmo acredito que os meus sejam assim, se não todos, a maioria. Muitas vezes os leitores de um livro nem estão nascidos, para desespero do autor que os cria. Mas o autor tem seu prazo de validade, quer ele queira, quer não, quem fica são livros, sempre à espera de mãos e olhos que os façam deles, mananciais, fontes de vitalidade e vida. E o livro, no fim, é tudo que importa.
Trecho de Iniciação ao Incêndio
Eu penso todo dia nos cavalos da manhã pisoteando as crianças.
Penso no dia em que achaste um feto morto, e ao levá-lo pra casa, vc o dependurou na parede da cozinha. Quando cheguei, vc apontou e disse: olha ali, e meus olhos se atiçaram, tu continuou, impossível: olha ali, um talismã.
Penso em minha vida aberta surtada por toda carne podre que chega aos lixões. Quando penso nessas coisas,
Há no oco de meu peito um pedaço de ventre, cheio de areia lunar e frascos de nebulosas.
Trecho de Marraiorrêi
O pequeno Marraiorrêi, agachado, com os joelhos na altura do rosto, petelecava um pequeno barco de papel sobre uma poça d’água. Tinha pego um pedaço de papel, e o dobrou, e o dobrou, um par de vezes, até que o casco e a vela do barquinho, apareceram nas dobras do papel. E ali estava, dando petelecos suaves no barquinho, que deslizava sobre a poça. Então veio um redemoinho varrendo à beira da Vilarrua Acorizal. O barquinho eriçou, dobrou-se sobre si, as duas pontas do casco se fecharam sobre a vela, e um fundo oco lhe apareceu na parte inferior. E poeira subiu. O barquinho-de-papel virou um pequeno balão, que se engravidou do fogo e soltou pingos da bucha flamejante entre o buraco inferior, subindo ao céu. E foi subindo, sobrevoando a Acorizal, navegando os ventos, até que atingiu e ganhou as funduras do firmamento, e virou apenas um ponto luminoso na imensidão. Marraiorrêi, contemplando o céu, ficou assistindo a todas aquelas dobras, fogo e voos, acocorado e olhando tudo com os olhos elétricos de uma Infância erguida.

