
Fellipe Fernandes Cardoso: “A literatura tem essa capacidade de transformar o que parece muito particular em alguma coisa profundamente compartilhada”
Em entrevista para a O Odisseu, Fellipe Fernandes Cardoso fala sobre o impacto de ter sido semifinalista do Oceanos em seu primeiro livro e o processo de escrita de Uma tragédia latino-sertaneja.
Foto: Divulgação.
Autor de Sem mim não há dia (Urutau, 2023) e Uma tragédia latino-sertaneja (Urutau, 2025), Fellipe Fernandes Cardoso estreou na literatura já como semifinalista do Prêmio Oceanos. Atualmente, prepara o lançamento de seu próximo livro, que será publicado pela Editora Planeta.
Fellipe precisou de dezessete versões para concluir Uma tragédia latino-sertaneja, o que evidencia o rigor estético de seu trabalho. No romance, a relação entre Ernesto e Miguel serve de ponto de partida para uma investigação sobre limites territoriais, linguísticos, culturais e identitários, colocando o Brasil e a América Latina “diante um do outro, dentro um do outro”.
Em entrevista para o O Odisseu, o escritor fala sobre suas primeiras referências de narrativas LGBTQIA+, o impacto de ter sido semifinalista do Oceanos em seu primeiro livro, o processo de escrita de Uma tragédia latino-sertaneja, as maneiras de fazer um livro circular no Brasil e os caminhos para sua próxima publicação.

“Eu sou um homem gay, então tudo o que eu leio, tudo o que eu ouço e tudo o que eu entendo do mundo passa, inevitavelmente, por essa lente”, diz Fellipe Fernandes Cardoso
Quando foi seu primeiro contato literário com narrativas LGBTQIA+?
Acho que eu começaria deslocando um pouco a própria pergunta, porque, para mim, narrativa LGBTQIA+ nunca foi apenas uma narrativa com personagens LGBTQIA+. Eu sou um homem gay, então tudo o que eu leio, tudo o que eu ouço e tudo o que eu entendo do mundo passa, inevitavelmente, por essa lente. Nesse sentido, meu contato com narrativas LGBTQIA+ começou com a minha própria, antes da própria literatura.
Além disso, eu nasci e cresci no interior de Goiás, numa cidade em que as histórias circulavam mais pela boca das pessoas do que pelos livros, em conversas de calçada, comentários de família, fofocas, alertas, piadas, crueldades. Foi nesse lugar, com essas pessoas, que ouvi, pela primeira vez, histórias sobre pessoas que hoje eu reconheço como parte da comunidade. Quase sempre eram narrativas preconceituosas, construídas pela violência ou pelo escárnio, ainda que também houvesse, em menor número, histórias afetuosas, preocupadas, cuidadosas.
Lembro muito do Jonas, um enfermeiro do hospital municipal de Goianésia, minha cidade, a quem inclusive rendi uma pequena homenagem no meu último livro, Uma tragédia latino-sertaneja, pois ele encarava aquela hostilidade de cabeça erguida e, infelizmente, não sei a que custo, porque soube que ele faleceu e nunca tivemos chance de conversar. Enquanto a cidade inventava histórias sobre ele e o transformava em personagem da boca miúda, era ele quem cuidava daquelas mesmas pessoas quando elas chegavam ao hospital. Essa contradição é fascinante, ainda que seja de enorme perversidade para com a existência dele.
Quando a minha adolescência chegou, vieram outros tipos de narrativa. Os contos eróticos escondidos em revistas, os livrinhos de piadas que reforçavam estereótipos, toda uma produção cultural que ajudava a moldar uma ideia muito estreita do que significava existir como uma pessoa gay. Foi só depois que encontrei O terceiro travesseiro, livro do Nelson Luiz de Carvalho, que foi um acontecimento para as bichas contemporâneas minhas. Acho que esse foi o primeiro livro em que vi uma história que estava interessada num mundo por ele mesmo. Hoje percebo que é um romance muito marcado pelo seu tempo, pelo fim dos anos 1990, mas que, para aquele adolescente que eu era, abriu uma possibilidade de imaginar que nossas vidas também podiam estar contadas e representadas por nós mesmos (o livro do Nelson acaba de ser reeditado pela Planeta, numa versão atualizada, inclusive).
É muito simbólico, aliás, que, quase trinta anos depois, eu vá mediar uma mesa com o próprio Nelson na FLIP deste ano, na Casa Estante Virtual. Gosto de pensar que esse encontro fecha um ciclo e, ao mesmo tempo, abre outro. Hoje eu também escrevo livros que, de alguma maneira, entram nessa conversa. Falaremos sobre se, de fato, existe o que chamamos de uma narrativa queer, se e por que ainda precisamos dessa categorização, o que ela ilumina, o que ela protege etc. Para mim, uma discussão super relevante.
Como foi concorrer ao Prêmio Oceanos já no seu primeiro livro publicado?
Estar naquela lista de 30 semifinalistas, num universo de tantos inscritos, foi uma grande surpresa para mim, não porque me via incapaz de estar nela, mas sim pela confirmação de minha capacidade.
O prêmio, para mim, não diz ao leitor se um livro é bom ou não, já que isso é muito subjetivo. O que eu penso que um prêmio deveria dizer é que há nesse livro, indicado ou ganhador, algo de interessante para aquele júri de seleção, no contexto das obras apresentadas, e que, eventualmente ganhando, que esse diferencial pode ser explorado em diálogo com as dinâmicas do mercado.
Um prêmio é só um instante capturado, um olhar que se fixou em determinada direção. Os prêmios dão visibilidade, mais gente acaba sabendo sobre seu trabalho. Meu nome, por exemplo, circulou um pouco melhor nas rodas do mercado. Mas, em termos práticos, só para quem ganha ou para quem já tem uma navegação política mais consolidada é que a coisa rende mais em relação a indicadores de negócio.
Foi, sem dúvida, um momento inesquecível e prestigioso na minha jovem carreira, uma lufada de autoestima para um autor no primeiro livro publicado por uma editora independente. Acho lindo e celebro todos os meus colegas que passaram e passarão por uma situação similar, como aconteceu com você mesmo, semifinalista do mesmo Oceanos com seu belo livro Todos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda, como Marcelo Henrique Silva, que ganhou o Jabuti com Sangue neon, e tantos outros. O que realmente importa é que cada livro continue a brilhar, encontrando seus leitores, acendendo suas próprias fagulhas no escuro.
Sem mim não há dia e Uma tragédia latino-sertaneja se encontram em algum momento?
Os dois livros se encontram na superfície daquilo que me interessa investigar e compreender mais a fundo, sendo cada um uma expedição distinta a esse abismo. Formalmente, eles são muito diferentes. Têm vozes narrativas distintas, estruturas diferentes, ritmos diferentes. Mas ambos nasceram da mesma pergunta, que foi “o que acontece com uma pessoa quando ela não consegue ser plenamente quem é?”
As minhas personagens são pessoas deslocadas, não necessariamente porque rejeitam a própria identidade, mas porque vivem em mundos que lhes impõem um preço muito alto para existir. Um dos temas que mais me interessam é, por exemplo, a falácia do pertencimento. A gente cresce acreditando que precisa encontrar um lugar ao qual pertençamos, mas pertencimento é um acordo sempre provisório, inclusive o familiar. No instante em que você precisa da validação do outro para existir, você também entrega ao outro o poder de revogar esse pertencimento. O tempo me mostrou a crueldade dessa lógica e como isso reforça o normativo, o padronizador.
Embora eu escreva, muitas vezes, a partir de personagens LGBTQIA+, essa inquietação não me parece exclusiva da experiência queer. Mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência, pessoas pobres, gordas, neurodivergentes, introspectivos, gente considerada emocionada demais, pessoas traumatizadas, enfim, todo mundo, em algum momento, conhece essa sensação de negociar a própria existência para caber em algum lugar. O que muda é que, para alguns grupos, há um sistema estabelecido de negação, de apagamento, de invisibilização, de subjugação. É uma violência muito cotidiana e talvez, por isso, tão relevante para que a compreendamos.
Sem mim não há dia e Uma tragédia latino-sertaneja dialogam com tudo isso. Cada um encontrou a linguagem que a sua história exigia, mas ambos investigam personagens que tentam construir uma identidade possível num mundo que insiste em dizer quem elas deveriam ser, ou pior, que exigem delas o que não ser.
E eu não me coloco fora dessa investigação. Sempre digo, ainda que em tom de brincadeira, que nasci com setenta e cinco anos. Desde criança eu me sentia um pouco deslocado, não pertencia ao grupo das outras crianças, mas também não era do mundo dos adultos. Durante a minha vida, foram muitos os não-lugares: não tinha voz grave, então me mandaram para a fonoaudiologia; me obrigaram a jogar basquete e futebol, porque eram coisas de menino, não ficar lendo introspectivo; não podia andar de tal jeito, usar determinadas palavras, vestir cores específicas etc; não tinha, depois, um corpo desejável; a mais recente foi ouvir de um acadêmico em teoria queer que eu e minha literatura não somos “gays o bastante”. Agressões por pessoas de fora e de dentro da comunidade.
A literatura acabou sendo a forma que encontrei de conversar com o mundo sem precisar resolver esse desencontro, porque não há nada de errado comigo. Em vez de buscar um lugar onde eu finalmente pertença, prefiro construir, pela linguagem, um lugar onde essas perguntas e dúvidas possam existir. A cada leitor que me lê, a leitura abre um espaço que é só meu e da pessoa leitora, usando o meu texto como uma ferramenta para compreender que nós não precisamos nos desconstruir, ainda que estejamos nos refazendo todos os dias. Meu lugar é e sempre será dentro de mim.
Você escreveu algumas versões de Uma tragédia latino-sertaneja até alcançar o resultado que foi publicado, certo? Como foi conviver com essa história durante o processo de escrita?
Eu escrevi dezessete versões de Uma tragédia latino-sertaneja, mas a verdade é que eu não convivi dezessete vezes com a mesma história. A cada versão, ela também mudava, porque um romance é um organismo vivo, algumas coisas brotam dele mesmo, outras exigem que o escritor intervenha, corte, provoque, espere. Então, conviver com a história nunca foi um problema. Mais difícil é conviver comigo, com as minhas obsessões, com a minha insatisfação, meu grau de exigência e autocobrança.
Eu tenho uma rotina muito intensa no mercado corporativo, no outro trabalho como executivo de RH, e, por isso, preciso de método para a literatura. O capitalismo exige da gente energia, produtividade, entrega. Eu tento preservar também um espaço para o questionamento, porque é ele que me reumaniza e faz com que, ao fim do dia, eu ainda me reconheça. Escrever exige disciplina, não porque a escrita seja uma linha de produção, mas porque, sem organização, a vida e suas necessidades e desejos simplesmente ocupam os espaços.
Quando uma ideia aparece, eu tento entendê-la antes de escrevê-la. Pergunto quem conta essa história, por que ela precisa existir, o que ela está tentando dizer, por que ela me escolheu. Essas respostas nem sempre permanecem as mesmas até o fim, mas preciso partir de algum lugar. Depois estabeleço metas possíveis, escrevo, reescrevo, deixo o texto descansar por meses, volto a ele com algum estranhamento. Não tenho nenhum leitor durante o processo. Só mostro quando sinto que a história chegou a um ponto em que outra inteligência pode ajudá-la.
Lembro muito de uma passagem do documentário José e Pilar, do diretor Manuel Gonçalves Mendes, em que o José Saramago diz que escrevia duas páginas por dia quando começava um romance. Durante muito tempo achei isso modesto. Hoje, acho ambicioso. Escrever duas páginas pode significar um dia inteiro tentando encontrar uma única frase que justifique a existência daquelas duas páginas. O trabalho do romance não está apenas na escrita. Está, sobretudo, na reelaboração.
No caso de Uma tragédia latino-sertaneja, houve mudanças muito profundas. O narrador, por exemplo, não era o mesmo que veio a ser. Em determinado momento entendi que aquela história só poderia ser contada por um mexicano, e isso obrigou o livro inteiro a encontrar outra voz, outra perspectiva, outra respiração, essa coisa de cantor de boleros que era importante que ele tivesse. Muitas das dezessete versões são, na prática, livros diferentes tentando chegar ao mesmo destino.
Acho que escrevo meio que fazendo artesanato. Não acredito na ideia de que um romance esteja pronto quando a primeira versão termina. Ele precisa de tempo, de silêncio, de maturação. A página em branco continua sendo difícil hoje e não há nenhuma ferramenta hoje que dê conta de fazer o que eu faço. Nenhuma tecnologia resolve a grande questão que é sobre aquilo que a história exige para ser contada que apenas eu (tudo o que sou e o que também não sou) tenho condições de entregar.
Então, se houve algum desafio no período de escrita do livro, não foi conviver tanto tempo com a história, mas aprender a negociar com a minha própria exigência, com a minha tendência de lapidar um texto até que ele comece, enfim, a emitir algum brilho. Eu sou o meu leitor mais difícil. Acho que o trabalho de um escritor escrever o romance nem é, sozinho, o mais complexo da relação com o texto, e sim saber reconhecer o momento em que ele já pode dar conta de si mesmo.
“Eu não cabia exatamente no tradicional daquilo que se esperava de um homem goiano”
Você nasceu em Goiás e Uma tragédia latino-sertaneja também se passa lá. Como foi retornar à cidade através da ficção?
Eu tomaria um pequeno cuidado com a palavra “retorno”, pois acho que ela parte de uma premissa que, para mim, não é exatamente verdadeira. Não sinto que tenha retornado a Goiás, ou seja, um mesmo lugar, uma mesma relação. Todo retorno é uma visita diferente, porque o lugar muda, o tempo muda e, principalmente, quem visita. Sabe aquela coisa da música do Lulu Santos, que no fundo contém todo o pensamento da filosofia do devir, Heráclito de Éfeso, quando canta “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”? A memória e a experiência transformam tanto o espaço quanto o nosso modo de percebê-lo. Tudo é ficção.
Por isso, eu nem quis ambientar o romance na minha cidade, Goianésia. A cidade de Uma tragédia latino-sertaneja é fictícia, uma espécie de amálgama de muitas cidades goianas que conheço. Há um pouco de Goianésia, de Jaraguá, de Uruaçu, de Porangatu, de Barro Alto, de Niquelândia, de Caldas Novas, de Morrinhos, de Catalão, Cafelândia, Ceres, Rialma, Nerópolis, Anápolis e de tantos outros lugares. Eu queria construir um espaço que fosse reconhecível sem estar preso à geografia de um único município. O meu interesse nunca foi retratar uma cidade específica, mas uma experiência de Brasil.
Acho que o sertão do livro está tanto no mapa, quanto nas relações humanas, na maneira como as pessoas nesses lugares (entre as quais também estou, mesmo tendo saído de lá há vinte anos) trabalham, amam, desejam, silenciam, exercem poder, sobrevivem, também em correlação com o espaço. São aspectos de uma formação social, econômica e cultural que ultrapassam Goiás e que é, de alguma forma, comunitário. Talvez por isso tantos leitores de Minas Gerais, do interior de São Paulo, do Mato Grosso, do Nordeste e do Norte me escrevam dizendo que conhecem esse lugar e que meu trabalho na ambientação seja uma constante nas resenhas que recebo. E, na verdade, é porque eles conhecem mesmo, não porque tenham estado naquela cidade, que nem existe, mas porque reconhecem uma experiência que também é deles.
Então eu diria que o romance não chama o leitor a voltar para um lugar geográfico, mas para uma visita a uma parte de si mesmos, que talvez tenham experiências em lugares semelhantes como memória nesse porta-retratos. E, se não tiverem, o livro ajuda a apresentar. A literatura tem essa capacidade de transformar o que parece muito particular em alguma coisa profundamente compartilhada, universal. No fim, não é um livro sobre a minha vida, nem um retorno autobiográfico. O autor não é o narrador e a ficção não é um depoimento.
Sobre o título de Uma tragédia latino-sertaneja, como ele se relaciona com a ideia que a gente tem, no Brasil, do que é sertanejo e latino?
Nós vivemos muito isolados e muito entrópicos dentro da nossa própria cultura, quando olhando para a região geopolítica em que estamos inseridos. O Brasil é um país latino-americano, mas passa boa parte do tempo tentando se desapegar dessa ideia, tentando provar que somos imagem e semelhança de um referencial de bom e civilizado que vem da Europa ou dos Estados Unidos. Durante muitos anos e ainda agora, a nossa cultura foi e segue sendo bombardeada por referências colonizadoras e imperialistas, como se fosse preciso olhar para fora, para um lugar supostamente mais evoluído e rico, para entender quem nós deveríamos, de fato, ser, se tudo tivesse “dado certo”, se fossemos mais eficientes. E, nesse movimento viciado, a gente vai se afastando daquilo que nos aproxima dos nossos vizinhos, daquilo que nos torna parecidos, daquilo que poderia nos fazer compreender que somos filhos de uma mesma história, de violências muito parecidas, de processos similares, ainda que com diferenças evidentes. Ou seja, nos afastando de nós mesmos.
Roberto DaMatta, dos meus tempos de universidade, perguntava “o que faz o brasil, Brasil?”, que é título inclusive de um livro dele. Justamente por meus livros estarem alicerçados nessa ideia de deslocamento ontológico, territorial e naquela percepção de que o pertencimento é uma falácia, penso que o meu romance também está perguntando isso de certo modo para as figuras que vivem nele, para cada leitor. O que faz esse Brasil profundo ser Brasil? O que faz esse Brasil profundo ser também latino? Quando eu olho, por exemplo, para o interior (sabendo que é de lá que eu venho), para as cidades fora dos grandes centros, para a forma como as pessoas falam, amam, trabalham, exercem poder, violentam e também cuidam umas das outras, existe uma série de símbolos que não pertencem só ao Brasil (como pude perceber passando algumas semanas no México em duas ocasiões diferentes), conversando com uma experiência latino-americana mais ampla.
Eu quis que Ernesto, vindo do México, olhasse para Miguel, um peão goiano, e reconhecesse nele alguma coisa que também era dele, que se visse tão sertanejo quanto o peão. E eu quis que Miguel pudesse se entender tão latino quanto Ernesto, para além de uma categoria turística, exótica, domesticada, mas latino como uma experiência histórica, cultural, territorial e afetiva, fincado numa terra que também foi violentada, disputada, explorada, organizada por relações de poder muito antigas e que ainda hoje persistem, sejam tanto lá, quanto cá. O livro toca, inclusive, nessa estrutura sociopolítica como pano de fundo para que as experiências vividas por esse amor (im)possível entre dois homens, naquele contexto, pudessem ser reconhecíveis em qualquer canto.
Ainda sobre a ideia do sertanejo, quis recuperar essa palavra para além da ideia mais normativa de que o sertão está ligado apenas ao Nordeste e ao ideário imagético que vem associado a ela. O sertão conversa com essas elaborações de Brasil profundo, popular, hegemônico, de uma realidade que está longe dos grandes centros ou que, mesmo quando urbanizada, ainda carrega formas muito específicas de organização social, simbólica, econômica, política, sentimental. Goiânia é uma capital, claro, mas a experiência goianiense não é a mesma experiência de São Paulo ou do Rio, e a experiência de Baíra, a cidade fictícia que criei, construída de uma forma que pudesse se refletir em Goianésia (GO), em Uberlândia (MG), em Presidente Prudente (SP), em Paragominas (PA), em Patos (PB), e em qualquer outra cidade desse interior brasileiro, assim como em Guadalajara, no México, ou Guayaquil, no Equador. E Goiás, de muitas maneiras, que é reconhecido por ser profundamente sertanejo, esquece-se que esteve mais influenciado ao longo de toda sua formação cultural pelo México do que pelas nossas duas maiores cidades, ou pelo country do centro-oeste estadunidense. A simbologia do peão tradicional goiano é mais irmanada do “ranchero” mexicano do que do cowboy do cinema, sendo que grande parte, inclusive, das músicas que nos formaram emocionalmente são versões de canções típicas dos peões do México, razão pela qual eu também quis fazer um romance musical. Só que as pessoas não se dão conta dessa herança e sabemos bem o porquê.
De um ponto de vista pessoal, durante muitos anos, eu senti que me foi negado o direito de exercer a minha goianidade, porque eu não cabia exatamente no tradicional daquilo que se esperava de um homem goiano, de um homem do interior, de alguém que vinha daquele lugar, “um homem de verdade”. Eu era e sigo sendo divergente demais para pertencer sem provocar confusões, atritos, repúdios, rechaças. Então, quando eu escrevo esses personagens a partir desse arcabouço, eu também estou lidando com investigações próprias de que território fazemos todos parte, mesmo quando esse território tentou e ainda tenta nos expulsar a todo custo.
O Brasil de hoje aparece, no livro, também na conjunção dessas ideias todas, pois a meu ver essa disputa de imaginário do que é ser sertanejo e latino está cada vez maior e mais voraz, com o sertanejo querendo virar country, o latino querendo se imaginar norte-americano, o famoso latino de Miami, com o interior tentando se aproximar de uma ideia importada de progresso fincada na ostentação do dinheiro, na estética dubaiense, entendendo uma concepção de civilização ao se balizar pelas sociedades de consumo e de performance, vinculando tudo isso a uma estética política, econômica e moral muito conservadora, mas que renega o tradicional empobrecido, rústico, arcaico. E, ao mesmo tempo, tudo aquilo que somos continua insistindo, resistindo, não importando o quão escondido ou subversivo cada um de nós estamos nessa dinâmica social.
Em relação à palavra tragédia, não a pensei pelo cânone do teatro grego, aproximando-a, por outro lado, mais do melodrama, da ópera, da novela brasileira, da novela mexicana, dessas histórias em que todo mundo já sabe, desde o começo, que alguma coisa vai dar errado e, claro, o título do livro não engana ninguém. Quem abre o romance para lê-lo já sabe que há uma tragédia anunciada e isso era interessante para mim, porque a tragédia, nesse caso, não viria de um evento isolado, fazendo, entretanto, parte do cotidiano, nas violências que continuam acontecendo, especialmente contra pessoas LGBTQIA+.
Às vezes me perguntam por que contar mais uma história LGBTQIA+ marcada por violência, que “serviço” eu acho que estou prestando para a própria comunidade ao fazer isso e eu até entendo a pergunta, mas também acho perigoso quando a gente começa a delimitar quais realidades podem ou não ser narradas, quem é que dita isso, o quanto a nossa própria comunidade está intoxicada por arquétipos que nos transformam, aliás, em dissidentes dentro do que já é dissidência. É claro que precisamos de histórias de alegria, de amor, de vitória, de conquista, negar, porém, a tragédia é negar uma parte concreta da realidade do que segue acontecendo aqui, no México, no interior, na capital, em qualquer lugar, praticada tanto por indivíduos normativos, quanto por pessoas LGBTQIA+ numa espécie de fogo “amigo”.
Então, para mim, o título Uma tragédia tatino-sertaneja foi a minha maneira de costurar essas ideias territoriais, linguísticas, culturais, políticas, sociais e identitárias, numa tentativa de colocar Brasil e América Latina diante um do outro, dentro um do outro.
Como tem sido trabalhar na circulação do livro por meio de uma editora independente?
Tem sido uma experiência bonita, mas também muito desafiadora. Acho importante dizer as duas coisas, porque não quero romantizar as dificuldades nem desconsiderar o trabalho que existe por trás de uma editora independente.
Uma editora independente trabalha com outra escala, outro alcance, outra musculatura de circulação. Isso faz com que o livro, muitas vezes, dependa de uma espécie de labor contínuo da editora, do autor, dos leitores, dos clubes, dos livreiros, das pessoas que indicam, compram, presenteiam, fazem o livro andar. Eu entendi cedo que, dentro desse modelo, o autor também precisa participar muito ativamente da vida pública do livro.
No meu caso, eu também sou um ponto de venda. Faço eventos, converso com leitores, apresento o trabalho a clubes de leitura, tento abrir caminhos possíveis. Ao mesmo tempo, os livros estão disponíveis pelos canais de distribuição da editora, mas isso não significa, automaticamente, que eles estarão nas mesas das livrarias ou nas vitrines. Existe uma diferença enorme entre estar disponível e estar circulando.
Acho que esse é um desafio do mercado como um todo. A gente precisa defender as livrarias de rua, mas as livrarias também precisam olhar com mais atenção para o que está sendo produzido fora das grandes editoras. Do mesmo modo, instituições culturais, mediadores de leitura, clubes e promotores de eventos precisam ajudar a ampliar essa circulação.
Isso fica ainda mais evidente quando pensamos fora do eixo mais consolidado do mercado editorial. Uma pesquisa recente, não me lembro ao certo agora os números específicos, mostrou que o Sudeste segue com o maior percentual de leitores entre as regiões (claro, é também a região mais populosa, natural), mas a discrepância com as outras regiões mostra que a estrutura de circulação, visibilidade e legitimação ainda é muito concentrada.
Tentei, por exemplo, viabilizar eventos em Goiás para Uma tragédia latino-sertaneja, e não foi simples, nem por falta de desejo meu. Não encontrei abertura institucional, agenda, estrutura ou interesse local para acolher esse tipo de ação. E isso mostra como ainda precisamos criar redes de fomento à leitura que não dependam apenas da força de grandes centros.
Então, trabalhar a circulação tem sido uma experiência de parceria, invenção e insistência, com limitações reais, quase sempre muito frustrantes, mas também com uma possibilidade muito legal de construir uma comunidade ao redor do livro, que é o que vem acontecendo. Eu tenho tentado fazer a minha parte para que esses livros cheguem o mais longe possível.
Há um algum projeto de livro em andamento?
Sim! O romance já está escrito e assinei contrato para publicá-lo pela Editora Planeta, no selo Tusquets, um dos mais prestigiosos no mundo. A previsão é que ele chegue aos leitores no início do ano que vem, o que me deixa muito contente, ciente do meu papel como autor, porém sabendo que é um passo importante na minha carreira, considerando inclusive novos aspectos para o desafio da circulação, sem que eu perca, obviamente, minhas responsabilidades nesse processo.
Ainda não posso falar muito sobre a história, mas posso dizer que ela continua dialogando com as questões sobre as quais falamos aqui, tais como identidade, pertencimento, memória e os modos como tentamos nos reconhecer no mundo. Desta vez, porém, essas inquietações aparecem a partir de outra perspectiva, numa narrativa muito centrada nas relações entre pais e filhos.
É bonito quando um livro consegue ser diferente dos anteriores e eu quis que o próximo também trouxesse uma dimensão de um Fellipe mais sambado, sem deixar de ampliar o território das minhas inquietações e evitando caminhos que já percorri. Já estamos em processo de edição e preparação para fazer tudo com calma. Agora é esperar o momento do livro chegar aos leitores, o que, para mim, é sempre um baita de um privilégio.


