Entrevistas

Priscilla B M Navas: ‘Aos 40 anos eu percebi que dificilmente a realização de um sonho cai no colo da gente, e que esse lance de virar escritora precisava de mim pra acontecer’

Em entrevista à revista O Odisseu, poeta e escritora Priscilla B M Navas fala como decidir publicar foi um ato de ousadia e liberdade. 

Fotos: Divulgação.


São muitas as questões que envolvem a escrita artística e a publicação de um livro. Para além da contribuição com o mundo da arte, há uma dimensão, presente em todo escritor — embora alguns não assumam — que é justamente o caráter pessoal, o da emancipação daquele que escreve e publica. Essa dimensão de forma alguma é ignorada por Priscilla B M Navas, poeta autora de Versos para acalmar o vento e Mulher ausente: derivações quase poéticas, ambos títulos da editora Patuá. Em entrevista, Priscilla conta que escrever foi uma forma de reivindicar a autonomia da própria vida e do próprio destino e de se recusar a esquecer os sonhos que cultivou. 

Sua obra, que perpassa uma dimensão íntima e confessional, mas também de inventividade poética e ficcional, gira em torno de alguns temas bem interessantes, o que vai desde um exercício metalinguístico, pensando a poesia e seus diversos significados, até a experiência de ser mulher. Sobre este último, Priscilla conta que sua escrita, de fato, tem muito da vivência da mulher, mas que não se esgota aí. Defende que haja uma leitura por ambos, ou quaisquer outros, gêneros, apesar de defender que existe uma dimensão do seu fazer lírico que parece segredado às mulheres. Confira agora como ficou o papo!

Priscilla B M Navas, autora de Mulher Ausente: derivações quase poéticas (Patuá)/ Foto: Divulgação.

“Certos versos e o espaço vazio entre o dito e o calado, é compreendido mais facilmente (?) por mulheres”, diz Priscilla B M Navas

Há uma palavra que aparece em ambos os seus livros e que também aparece quando você se apresenta. Esta palavra é sonho. Notei que você relaciona muito a escrita a um sonho. Poderia falar um pouco disso?

Falo mesmo bastante em sonhos, os que tenho dormindo e aqueles que cultivo acordada. Sendo bastante objetiva, um dos sonhos que já tive, quando adolescente, era o de ser escritora, como todo mundo que ama literatura. Por causa disso, prestei vestibular para jornalismo: era um jeito de escrever, ser lida, e chamar também de profissão. Aos 17  comecei as faculdades de direito e jornalismo, juntas, uma pela manhã e a outra à tarde. Consegui, mais ou menos, levar as duas por dois anos, ao final dos quais fiz uma escolha pragmática, a de concluir primeiro Direito, porque meus pais estavam pagando pelo curso numa universidade particular. Formada, em 2005 foi hora de estudar, prestar concursos, e os planos de concluir a outra faculdade ficaram temporariamente suspensos. De suspensão em suspensão, a vida foi acontecendo, como invariavelmente ocorre, distraída ou propositalmente. Eu me mantive sonhadora, só que mais consciente do que era certo, possível ou provável. Aos 40 anos eu percebi que dificilmente a realização de um sonho cai no colo da gente, e que esse lance de virar escritora precisava de mim pra acontecer. Ou que eu precisava antes ME CHAMAR de escritora, perceber que o primeiro passo era comigo. Quanto aos dois livros, meus filhotes-sonho, considero a materialização da minha expectativa, e quando os toco, são as mãos da adolescente sonhadora que sentem a textura do papel.

Ainda no rastro do sonho, você também elabora os livros de modo a nos fazer pensar que decidir escrever foi um grande romper na sua vida. Quais foram as principais dificuldades quando você decidiu que queria ousar escrever?

Eu levo uma vida bastante comum (consciente dos meus privilégios ao chamá-la de comum): casamento, filhos, rotina, cidade pequena. Escrever é ampliar tudo isso, sair do meu espaço/tempo conhecido e previsível. Mostrar o que escrevo, seja nas redes sociais ou com as publicações, foi mesmo um grande romper: experimentei, ousei, transcendi os lugares, vivências e temporalidades.

Um dos temas que também está presente em seus dois livros é a questão do lugar da mulher no mundo. Vivemos em um tempo de conquistas dos movimentos feministas, mas ainda há muito a ser conquistado. A partir da sua própria experiência, é mais difícil para uma mulher escrever e publicar? E por quê?

Pra começar, nessa esteira de realizar sonhos, queria contar que antes de escrever as coisas que hoje estão publicadas, eu me candidatei a vereadora na minha capital. Conto este fato de dez anos atrás pra explicar que na política e na literatura há muito espaço nosso usurpado por quem sempre ocupou os palanques, vitrines e lugares públicos. Nunca foi e ainda não é democrático, equitativo. Fosse assim, não ostentaríamos percentuais tão baixos de cargos eletivos ocupados por mulheres, assim como também são diminutas as oportunidades de destaque como autoras. Se a conta não bate, e somos maioria do eleitorado e maioria de leitoras no país, é porque algo de estrutural foi forçadamente nos empurrado como normal. Tentando responder à pergunta, sim há muito a ser conquistado, e eu chamaria a conquista, na verdade, de retomada. É simples assim: temos conteúdo, material, qualidade, mas nos falta visibilidade para nossa metade. E essa metade vai das cadeiras no parlamento, executivo e judiciário, às listas de mais vendidos e dos prêmios literários.

Seus versos falam muito da experiência da mulher no mundo, mas também são questões que podem ser lidas como universais, ou seja, independente de gênero. O medo, a paixão, o desejo, a solidão… Infelizmente, existe uma cultura que insiste em dizer que há livros escritos para ser lidos para homens e outros para mulheres. Na sua opinião, como a sua poesia, escrita a partir de sua experiência enquanto mulher, pode também ser significativa para leitores homens?

Sempre que meu livro chega a um homem e eu consigo algum feedback sobre o texto, percebo que conseguem fazer essa conexão com a universalidade das emoções. Sentimos, queremos, rejeitamos, elaboramos porque somos humanos, então pouco importa quem escreveu ou quem lê, não é? Entretanto, hoje já consigo perceber que as mulheres enxergam nuances diferentes de cada palavra que escolhi (ou não) para traduzir sentimentos, e que possivelmente essa habilidade foi construída e desenvolvida a partir de um silêncio cultuado entre nós. explico: Certos versos e o espaço vazio entre o dito e o calado, é compreendido mais facilmente (?) por mulheres. Escrevo a partir de como imaginei (ou vivi, experimentei) certos momentos, e a forma de não dizer nos conecta bastante. Acho que o leitor entende igual o que está lá, mas uma mulher também vê o que não está. 

Priscilla B M Navas: “Ninguém é tão bom pra sofrer quanto os poetas”

A propósito, como tem sido o feedback que você tem recebido dos leitores? Há algum comentário em especial que te marcou?

Foram bem variados. Do primeiro livro, muita gente me fala do quanto a leitura foi leve e tranquila (me surpreende porque escrevê-lo não foi uma experiência doce, e há textos que eu sequer revisito). Uma leitora, pouco tempo depois do lançamento, me mandou uma mensagem muito bonita, e eu entendi que poderia ser enxergada naquelas páginas. Nunca me senti tão vulnerável e tão forte ao mesmo tempo.

Sua poesia parece sugerir que existe algo de muito íntimo, ou confessional, sendo versado, o que faz com que sejamos tentados a entender esse eu-lírico como você mesma. Dito isso, gostaria de entender como funciona a sua “inspiração”. Quais são os acontecimentos ou os temas que te inspiram a escrever poesia?

Eu brinquei com o eu-lírico em muitos poemas e contos. Tentei ser homem, mulher, idoso, criança e, claro, eu mesma. Nos poemas mais confessionais, Priscilla virou personagem e a cada verso era menos eu mesma. Minha inspiração vem de tudo o que eu vejo, leio, ouço falar, do que aconteceu e do que poderia, do que é apenas fantasia. O bom de escrever é poder brincar de voltar no tempo e recontar o que não aconteceu, inventar como deveria ter acontecido, depois voltar no presente e, muitas vezes, pensar: ainda bem!

E, aliás, por que a poesia e não a prosa? Como e quando acontece o aparecimento da poesia em sua vida?

A poesia aconteceu quando eu precisei das pausas, das interrupções dos versos. Quando eu registrei até meus silêncios, a prosa me machucava, como se exigisse mais do que eu conseguia dar.

Fui acolhida pelo que hoje chamamos prosa poética e por versos sem métrica, experimentais. Depois passei a construir histórias assim, pela insinuação do que não está lá.

Há quem diga que o mercado de leitura em poesia pode ser ainda mais difícil que em prosa num país que lê pouquíssimo. Essa ideia fez com que você se sentisse desanimada em algum momento?

Eu tive a sorte e felicidade de ser acolhida pela Patuá. Meu editor é um poeta, o Eduardo Lacerda, e um entusiasta da poesia. Eu sei que o mercado da literatura sempre foi um tanto mais cruel com o nicho, e ainda é assim, mas isso nos forja mais fortes. Ninguém é tão bom pra sofrer quanto os poetas. 🙂

Qual o efeito pessoal/subjetivo que publicar trouxe para a sua vida?

Me estimulou a treinar outras formas de expressão, claramente. 

De modo mais íntimo, quando alguns no meu entorno falam em coragem, eu tendo a concordar. Porque é corajoso mesmo se expor à opinião e julgamento alheios. As pessoas não precisam ser elogiosas comigo, elas podem simplesmente ignorar ou odiar minha arte. Isso me encouraça de uma forma positiva

Mas, além da coragem, eu prefiro achar que encontrei uma nova forma de ser feliz, e que estou experimentando sem moderação. 

A gente não sabe quando a vida acaba, e eu quero escrever, a sério e de brincadeira, sem parar, até o fim.

Mulher Ausente: Derivações quase poéticas, de Priscilla B M Navas/ Editora Patuá, 2026/ 120 pp.

Versos para acalmar o vento, de Priscila B M Navas/ Editora Patuá, 2025/ 200 pp.