FLIPEI 2026 Reportagem

Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI), realizada na cidade de São Paulo, chega à sua 8ª edição

Após tentativa de censura, a festa teve início na última quarta-feira com atividades em cinco espaços e uma programação que busca reafirmar seu posicionamento político.

Texto e fotos: José Felipe


No centro de São Paulo, a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI), teve início na última quarta-feira (5 de agosto) e segue até este domingo (9 de agosto). A programação mostra-se crítica e politizada, promovendo mesas, feira do livro e festas. 

A história da FLIPEI começou em 2018, na cidade de Paraty (RJ), como Casa Parceira da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), que este ano chegou à sua 24ª edição e contou com cobertura pela Odisseu. Ao longo de seus nove anos de existência, a FLIPEI buscou tensionar os debates urgentes da contemporaneidade e a centralidade do livro como elemento de mediação entre a literatura e a sociedade. 

Entre suas edições, destaca-se a de 2019, quando o jornalista americano Glenn Greenwald participou de uma mesa da programação, então realizada em um barco atracado às margens do rio Perequê-Açu. A mesa “O desafio do jornalismo em tempos de Lava Jato”, que contava ainda com a participação do humorista Gregorio Duviver, do jornalista Alceu Castilho, do sociólogo Sérgio Amadeu e com a mediação da socióloga Sabrina Fernandes, provocou a revolta de manifestantes pró-Lava-Jato. Àquela época, as camisetas verdes e amarelas já haviam sido cooptadas como símbolo da extrema-direita brasileira, e a manifestação foi marcada não somente pelo uso da vestimenta pelos manifestantes, como pelo lançamento de rojões e a utilização de caixas de som, a fim de dificultar ou impedir a execução da mesa.

Já na edição de 2025, às vésperas de iniciar o evento, então migrado para a capital paulista e programado para acontecer na Praça das Artes, a FLIPEI teve sua execução impedida pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), sob a alegação de que o evento se constituía de cunho político e eleitoral. Apesar disso, a festa foi realizada com a colaboração de diversos espaços culturais, os quais acolheram a programação prevista. O evento então bateu o recorde de 50 mil pessoas presentes.

A FLIPEI tem buscado afirmar-se enquanto um evento crítico, sem medo de se posicionar, o que se reflete inclusive em práticas realizadas durante a festa, questionando a lógica comum do mercado editorial por meio de iniciativas como a distribuição gratuita de livros para professores e a participação a custo zero para as editoras – neste ano, a Feira do Livro, parte importante da programação, congrega mais de 200 casas editoriais independentes. 

O evento conta com uma gestão horizontalizada e composta por diversos nomes conhecidos, inclusive por seu posicionamento crítico em diversas frentes, como a escritora Cidinha da Silva. Na edição deste ano, o barco pirata, símbolo do evento, foi batizado em homenagem a Maria Filipa, uma importante liderança negra nas lutas pela Independência do Brasil na Bahia, responsável por comandar um grupo de mulheres que atuavam politicamente por meio da interceptação de embarcações portuguesas.

Na quarta-feira, às 14h, o galpão foi palco da primeira mesa, intitulada “Parasitas Bilionários: Poder Caviar da Burguesia Internacional”, contando com a presença do antropólogo Michel Alcoforado e do professor e economista Ladislau Dowbor, com mediação do jornalista Xico Sá. A conversa tratou das mudanças na caracterização da elite financeira contemporânea e das consequências cotidianas da manipulação do mercado por grandes corporações. O professor Ladislau Dowbor exemplificou:

Se você vai em uma padaria e a moça do caixa pergunta crédito ou débito, e você escolhe crédito, 5% de cada compra no crédito é direcionada a Visa e às grandes corporações”. 

Ele ainda mencionou o bilionário Larry Fink, da BlackRock, a maior gestora de investimentos do mundo, detendo inclusive participação acionária na Visa. A empresa administra a quantia de 14 trilhões de dólares (o que equivale ao dobro do orçamento federal do governo Trump, de 7 trilhões de dólares). 

Mesa de abertura da FLIPEI 2026: “Parasitas Bilionários: Poder Caviar da Burguesia Internacional”, com participação de Michel Alcoforado, Ladislau Dowbor e Xico Sá. Foto: José Felipe/O Odisseu.

Dowbor também criticou as excessivas taxas de juros cobradas às pessoas físicas no Brasil. Segundo ele, em qualquer país europeu, tal prática se configuraria como crime. O professor apontou também que em 2003, através de uma emenda parlamentar para atender aos interesses empresariais, foi revogado o art. 192 do 3º parágrafo da Constituição Federal, limitando a taxa de juros a 12%. As consequências disso são o enorme número de endividados no Brasil atualmente. Sobre a taxa média de juros cobrada pelas instituições financeiras hoje, o professor afirmou categoricamente: “55% ao ano é agiotagem!

Michel Alcoforado, antropólogo e autor do livro Coisa de rico (Todavia, 2025), falou sobre como as elites utilizam marcadores de diferença para se distanciar e defender suas posições de privilégio. Inicialmente, ele falou sobre o simbolismo do caviar como um objeto raro, parte de uma dieta de diferenciação. Por essa lógica, não basta comer um simples atum do mercado, mas sim um atum bluefin; para beber, é preciso o licor secreto de algum monge distante; o pão precisa falar outras línguas e se torna sourdough

Alcoforado também citou o caso Master:

O moço lá do banco Master inventou o mecanismo perfeito. Ele ganhou muito dinheiro, investiu muito dinheiro na mise-en-scène e, porque era rei da mise-en-scène, ele conseguiu fazer mais dinheiro e envolveu a república inteira. Sem suruba em Trancoso, sem show do Coldplay, sem casamento na Toscana, sem pagar aviãozinho para deputado e para senador, sem comprar veículo de imprensa, sem fazer isso tudo ele não tinha feito todo mundo acreditar, ou pelo menos parte da sociedade brasileira acreditar, que o banco dele tinha lastro para fazer o que estava fazendo”.

Comentando sobre as plataformas digitais, Xico Sá mencionou a figura do coach e seu fim, sendo respondido por Alcoforado, que observou como, em parte, ela ainda existe, mas apontou também que a naturalização e padronização de percursos, “como se todo mundo que levantasse cinco da manhã e tomasse banho de sol fosse ficar rico”, encontram pouca sustentação. Alcoforado ainda apontou que a lógica por trás das Bets advém de uma crença mágica, sustentada na fé da mudança provocada por um certo acontecimento, como na imagem lendária do pote de ouro no fim do arco-íris. Em resumo, a mesa pontuou a necessidade de desnaturalizar o enriquecimento e de ampliar o debate quanto ao tema. 

A FLIPEI continua a tocar em temas espinhosos através dos lançamentos, debates e shows realizados simultaneamente nos seguintes espaços: o Café Colombiano, o Boteco Pratododia, o Sol y Sombra Bar, a Central 1926, o ônibus da Trupe Zózima e o já citado Espaço Cultural Elza Soares. A programação pode ser conferida no site do evento.

José Felipe é graduando em Letras Português e Italiano pela USP. É tradutor e pesquisador de literatura.