
Aquilo que só a ficção se atreve a fazer: em sua segunda mesa na Casa Acaso, a revista O Odisseu reúne Samir Mesquita, Gabriel Stroka Ceballos e Myriam Scotti.
Segunda Mesa da programação da revista na Casa Acaso reuniu Myriam Scotti, Samir Mesquita e Gabriel Stroka Ceballos.
Foto da capa: Bia Duarte/ Divulgação
Dando sequência à sua programação específica na Casa Acaso, a revista O Odisseu reuniu outros três autores notáveis, com origens geográficas e projetos autorais distintos. Contando novamente com a mediação do editor-chefe Ewerton Ulysses Cardoso, a Mesa partiu da ideia de que apenas a ficção é capaz de elaborar certas perspectivas, experiências, sentimentos, valorizando assim a criação imaginativa dos autores, ainda que possam partir, por vezes, de suas próprias memórias e histórias de vida.
Myriam Scotti, manauara que assina a coluna Escrevernar, falou sobre seu livro de contos Sol abrasador prepara solo fértil (Editora Orlando, 2025), que trata da complexidade da Amazônia e da vastidão das experiências de vida presentes no contexto da floresta e suas proximidades; Samir Mesquita, curitibano, comentou seu livro de estreia, Hum (Editora Quelônio, 2025), e seus processos de criação em palavra e imagem; Gabriel Stroka Ceballos, paulistano, tratou de seu trabalho com a linguagem em Coração Pequeno (Editora Cachalote, 2025), e suas temáticas ligadas à infância.
Na seção de perguntas do público, Scotti falou também sobre o processo de escrita de um projeto anterior, o livro Terra Úmida (Editora Penalux, 2021), que narra o percurso de uma família de judeus marroquinos que chega à Amazônia durante o ciclo da borracha. A autora explicou que a produção do romance exigiu uma imersão histórica e geográfica para além do conhecimento que já possuía, advindo de suas próprias raízes: “Logo que eu comecei a escrever, achava que daria conta só com o que os meus antepassados falavam, porque eu sou descendente de judeus marroquinos. Mas havia lacunas que eu não sabia responder. [Então] falei: ‘Agora é hora de parar para eu poder estudar.’ […] Não satisfeita, fui ao Marrocos. ‘Agora para fechar o livro, eu quero ter as mesmas sensações que eu gostaria de descrever com a minha personagem’”
Ela ainda contou uma anedota sobre seu encontro com o autor conterrâneo Milton Hatoum, que a aconselhou a dar ao texto tempo para que respirasse. Isto levou Scotti a postergar o envio do livro a uma editora e, em vez disso, inscrevê-lo no Prêmio Literário de Manaus 2020, no qual terminou por ser eleito na categoria Melhor Romance Regional.

O título do livro de Mesquita, resenhado por Antonio Martinelli para O Odisseu, refere-se a uma cidade medieval e murada na Croácia, tratando-se da menor cidade do mundo. A obra verbo-visual conta com ilustrações feitas pelo autor anos depois de tecer o texto, e é ainda abraçada por uma capa impressa em papel lixa, representando a aspereza da história e da localidade em que ela se passa. O autor aproveitou a oportunidade para mostrar o trabalho ao público enquanto explicava seus processos, e ainda revelou que o processo de edição foi demandante: “O meu editor ficou maluco com o livro porque até a última prova eu ainda estava corrigindo coisas, até que ele falou: ‘cara, ou para ou não vai sair’ [risos].
O livro Coração Pequeno já havia aparecido por aqui, em resenha assinada por Ewerton Cardoso. Sobre o narrador–personagem da obra, Ceballos explicou: “A gente acompanha o fluxo de pensamento de uma criança que está convencida de que é Deus, e ela é convencida [disso] pela maneira como os pais a tratam. A gente a acompanha dividida entre suas expectativas como uma criança versus as expectativas que os pais colocam sobre ela”.
A programação da Casa Acaso, disponível aqui, segue até este sábado, dia 25.

