
Ana Paula Tavares: “A linguagem permite deambular pelos campos do sagrado e revisitar metáforas fundadoras”
Em entrevista a nilson, Ana Paula Tavares, poeta vencedora do Prêmio Camões e autora do programa principal da FLIP 2026, fala sobre a concisão, o erótico e o sagrado em seu percurso literário.
Foto: Divulgação.
Ana Paula Tavares (Huila, 1952) chega ao Brasil para participar de alguns eventos, entre eles, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Vencedora do prêmio Camões em 2025, sua obra nos dá a ver paisagem, subjetividade, história e política sem parecerem gestos apartados entre si, negando falsas hierarquias que por vezes o campo literário costuma afirmar.
Chama atenção, em sua obra poética, o caráter meditativo dos seus versos, uma musicalidade e rítmica que parecem ter uma curiosidade infinita e se adequar aos seus objetos, sejam os animais, o prazer, as dores humanas ou os mortos. Por outro lado, o tratamento desses interesses carrega, de fundo, a sua sólida formação em História, sobretudo em termos de pesquisa e ambiência, no que resulta a reunião singular dos temas que lhe são caros a personagens históricas, às formas do sagrado e à contínua reflexão sobre a realidade angolana, na medida de seus tempos. Nos expõe, assim, a uma voz que nos contamina e acompanha depois da leitura: passamos a querer prestar atenção na profundidade do mundo em suas camadas e pensamos em como aquela voz o apresentaria.
Nesta entrevista, falamos de algumas das obras poéticas de Ana Paula Tavares, passando por procedimentos formais e temáticos, pela influência da paisagem e da política angolana em sua escrita, pela pesquisa documental que empreende em suas criações, e pela convergência entre a concisão, o erótico e o sagrado em seu percurso literário.

“Procurei trazer para a poesia o universo feminino na sua totalidade”, diz Ana Paula Tavares
nilson: Muito prazer! Ouvi e li com muito entusiasmo várias entrevistas suas e fiquei muito impressionado com a polêmica depois do lançamento de Ritos de Passagem (1985), sobretudo pela questão erótica e de sua autonomia em lidar com o tema. A sua obra como um todo é desejante e o desejo/a libido é parte dos seus interesses como escritora, não é? De algum modo acho que você mapeia uma certa história libidinal, desde o desejo erótico até esse desejo que mapeia Angola de cada momento (com eventos, roupas, animais, frutas) e ensaia modos de construir o país. Comenta um pouco sobre esse papel desejante/libidinal na sua obra.
Ana Paula Tavares: Procurei trazer para a poesia o universo feminino na sua totalidade. Ouvi as vozes e deixei que elas falassem de amor, desejo, alegria e tristeza. Sentia falta das palavras ditas e sentidas pelas mulheres. Ao falar de corpo assumi o eu como sujeito da diferença. Procurei saltar a barreira do silêncio e as formas de dizer usuais para falar de dentro na exposição possível. Do meu lugar de escuta percebi a diferença. A descrição da beleza (cabelos, seios, pernas) não bastava. Era preciso ir às cicatrizes. Descer ao grito, acompanhar a vida, falar de sofrimento e submissão de sociedades injustas. Tirar da invisibilidade as coisas mais antigas para nomear. Nem sempre consegui, mas o arco do verso segue com humildade as muitas mulheres da minha terra.
nilson: Por ocasião de O lago da lua (1999), você comentou, numa entrevista para a Susana Ventura, que Portugal não afetava a sua forma de escrever. Quero saber se continua assim, e como as cidades e a paisagem entram no seu trabalho.
Ana Paula Tavares: Vivo há muito tempo fora da minha terra. É para ela que volto quando escrevo, como quem procura casa, o sítio da escrita, as fontes. Os lugares são os meus lugares conhecidos, paraísos perdidos, onde conheço os caminhos, as mulheres e os seus filhos. Sou leitora de outros universos, conheço árvores, rios, infinitas cidades, gente e burburinho. No entanto, o que me ilumina são os sítios do mel e dos frutos, os circuitos do leite que guardo desde a infância.
nilson: Amo muito os poemas longos de O lago da lua (1999), especificamente O Japão e Nossa vida é a chama do lugar que se consome enquanto ilumina a noite, que até espraiam para outras formas – uma carta, no primeiro caso, e uma espécie de dramaturgia, no segundo. De certo modo, eles fogem um pouco da sua forma, geralmente mais concisa. Gostaria que você comentasse um pouco sobre seu processo: a concisão dos seus poemas costuma surgir de pronto ou são cortes que você faz em edição? Queria que você falasse também de como se dão as exceções, caso desses poemas que citei.
Ana Paula Tavares: A concisão faz-me falta. O poema nunca está pronto. Risco, retiro muito. Gostava de ser capaz de encontrar a palavra, uma única palavra com o brilho da pedra e que guardasse todas as coisas que ainda estão por dizer. Esse é, em grande parte o meu trabalho, a rasura, a procura de um fragmento que possa sobreviver. Por vezes o poema escapa. O Japão foi escrito como se fosse uma longa carta em fino papel de arroz, manuscrita, tinta preta sobre fundo branco para explicar um lugar que nunca vi ao poeta moçambicano Eduardo White, que havia escrito, também à mão Janela para Oriente. Na minha oficina de escrita pratico a economia, o respeito pela palavra, mas cada poema tem as suas exigências.
“Não consegui reaprender a rezar”
nilson: No Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001), especialmente em seus poemas sobre o sul, há um repasse sobre a questão da filiação – os filhos parecem não mais ser um caminho de esperança, estão mortos ou foram levados. O que estava acontecendo ali?
Ana Paula Tavares: Os poemas foram escritos enquanto uma guerra terrível, prolongada no tempo acontecia em Angola. O futuro parecia ter deixado de existir tão longo era o grito das mulheres e a pequena vida dos jovens levados para as diferentes batalhas. A memória e o fio da história trouxeram, tradições antigas de outras guerras, outras resistências- A história é impaciente e nesses anos tudo parecia perturbado. O presente, a morte diária impediam o diálogo ameno com o passado. Parecia não haver tempo. Os poemas desse livro falam da morte, da notícia da morte, da violência do quotidiano, da impossibilidade de chorar os mortos, do mal.
nilson: Os poemas de Ex-votos (2003), por exemplo, parecem mais meditativos, realmente espirituais, como o título sugere. Anos depois, no Manual dos amantes desesperados (2007), existe a questão sobre a máscara Pwo, trabalhada de um modo mais extenso. Me fala sobre como as questões espirituais foram avaliadas nesses dois livros.
Ana Paula Tavares: A formação em história ajudou muito na reunião de documentação para depois completar o livro. Visitei capelas portuguesas, estudei ex-votos brasileiros, visitei lugares em Angola, verdadeiros santuários de celebrações e pagamento de promessas. Não consegui reaprender a rezar. Mas das diferentes civilizações bantu e de elementos cristãos, pude deixar-me levar pelo grande jogo da linguagem e refletir sobre esses mundos da diferença que nos ultrapassam, mas que casam bem com o poema. A linguagem permite deambular pelos campos do sagrado e revisitar metáforas fundadoras, atravessar territórios sociais e espirituais de modo a tecer articulações operativas entre cosmologia, formas de estar e pensar. Alguns poemas dão conta dessa ousadia de tocar o sagrado com mãos profanas.
nilson: A cabeça de Nefertiti (em Como veias finas na terra, 2010) é um dos meus poemas favoritos de sempre, um dos mais existenciais e me parece que diz muito sobre sua atividade como escritora. Queria saber mais sobre esse poema e sobre suas concepções acerca da relação entre a atividade de criação e seu pensamento sobre si como autora e como pessoa.
Ana Paula Tavares: Estava em Berlim e visitava o Museu Egípcio, agora chamado Neues Museum, quando a cabeça restaurada de Nefertiti foi exposta ao público. Não consegui visitar o resto da coleção. Fiquei à frente daquele busto, siderada de medo e espanto. Lógicas familiares e de parentesco em que não havia pensado surgiam claras diante de mim. Fui para o hotel para tomar notas e li poemas de grandes autores que evocavam Nefertiti. Quando voltei para casa, pude então trabalhar e reunir as histórias inacabadas sobre aquela mulher para aprender. A minha cabeça tinha uma grande confusão de verdades pulverizadas sobre Antigo Egipto, mulheres e poder, o laico e o sagrado, a história única, colonialismo e violência, os trânsitos de pessoas e bens. O poema foi uma tentativa de restituição para memória futura.
nilson: Para finalizar, indique três coisas: uma voz; um animal; um prazer.
Ana Paula Tavares: Uma voz: Billie Holiday, em Strange Fruit; um animal: boi; um prazer: escutar.

