
Como chorar em português: uma noite emocionante com José Luís Peixoto na Casa Acaso.
“Devemos “apreciar o sabor das palavras”, suas formas, fonemas e sentidos, longe de qualquer pudor.”
Na quinta-feira à noite (23/07), antes do apagar das luzes em Paraty por cortesia da concessionária de energia, José Luís Peixoto emocionou uma Casa Acaso abarrotada. Sob mediação de Julie Fank, curadora da Casa e professora de escrita criativa, a mesa “Como chorar em português” abordou, por meio da obra do escritor português, as nuances e possibilidades do idioma ao produzir emoções no leitor.
“Aquilo que a escrita procura é a conexão”, destacou o autor ao confidenciar, para um público em perfeita sintonia com a mesa, um pouco sobre o seu processo criativo.
“Eu penso sempre em quem lê. Eu só penso no leitor”, mas alertou: tal fato significa que se deve submeter ou pretender um conhecimento sobre o leitor, mas busca-se sempre uma “comunicação profunda com o leitor, inclusive física (…) uma sintonia entre escritor e leitor com as palavras.” Além do luto, sentimento “extremamente universal” e presente em seu vasto repertório, com destaque em Morreste-me (Dublinense), o autor recordou um comentário de um leitor que, ao ler cenas viscerais em meio às páginas de um romance, vomitou. A escrita serve como dimensão provocatória no outro, e o resultado final foi o êxito na transmissão da cena.
Perguntado sobre o seu novo livro, A montanha, também publicado no Brasil pela Dublinense, Peixoto foi categórico ao afirmar que “as palavras libertam-nos do medo”, especialmente do tabu, e citou, durante o processo de edição, a troca da palavra “cancro”, do português lusitano, termo condenado ao ostracismo, por “câncer”, próprio do idioma falado deste lado do Atlântico. “A literatura é sempre anti tabu.”
Por fim, uma lição aprendida ao longo da trajetória como escritor foi transmitida aos ouvintes: devemos “apreciar o sabor das palavras”, suas formas, fonemas e sentidos, longe de qualquer pudor. “A principal regra da língua é a compreensão.”
A programação da Casa Acaso é inteiramente gratuita; basta chegar na Rua Comendador José Luiz, n. 278. A programação completa, com os horários de todas as mesas, pode ser conferida aqui no site.
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