
Casa Europa, organizada pela União Europeia no Brasil, promove encontros entre línguas e nações na 24ª Flip.
Estreante entre as Casas Parceiras da Flip, a Casa Europa realiza discussões sobre literatura e tradução, conectando o público brasileiro com a diversidade cultural dos países da União Europeia.
Fotos: Caio César Aragão/ Divulgação
Para quem vem acompanhando a Festa Literária Internacional de Paraty em seus últimos anos, não chega a ser uma novidade a maneira como a programação das Casas Parceiras, realizada simultaneamente às atrações principais, pode surpreender mais do que parte do Programa Principal. Nesta 24ª edição, a Flip conta com seu maior número de Casas Parceiras – são 44 no total, ultrapassando as 35 da edição anterior. Uma das novidades da nova leva é a Casa Europa, realizada pela Delegação da União Europeia no Brasil, por meio do Programa de Diplomacia Pública da União Europeia. A Casa apresenta-se como um espaço de encontro entre autores, leitores, educadores e representantes culturais do Brasil e dos 27 Estados-membros do bloco econômico e político. Destaca-se ainda o lugar dos agentes do livro, em especial tradutores e editores, profissionais que estão à frente da difusão da produção literária estrangeira no mercado editorial brasileiro.
O espaço, ocupado na Rua do Comércio, n. 377, busca promover a imersão nas diferentes culturas de cada país europeu por meio de fotografias, livros e objetos. Já na entrada, a literatura é destacada, de clássicos como o irlandês James Joyce a nomes mais contemporâneos, como Olga Tokarczuk, polonesa, e Kamel Daoud, autor franco-argelino, um dos exemplos da diversidade existente dentro do contexto europeu, marcado por particularidades como o fenômeno da imigração e seus efeitos culturais, sociais e políticos. Os dois autores citados, no entanto, já são conhecidos do público nacional, tendo alguns de seus títulos sido traduzidos por editoras nacionais nos últimos anos. Parte do ineditismo – e também do risco – na curadoria da Casa Europa está em apresentar autores ainda não publicados em português brasileiro, mas já reconhecidos pelo prêmio European Union Prize for Literature (EUPL) [Prêmio de Literatura da União Europeia], e, portanto, cotados para futura inserção editorial no país.
Na Mesa mediada pela jornalista Tatiany Leite (conhecida sobretudo por seu projeto Vá Ler um Livro), foram reunidos Theis Ørntoft, Nicoletta Verna e Piia Leino, oriundos da Dinamarca, da Itália e da Finlândia, respectivamente. Com a árdua missão de dialogar com autores de países, línguas e projetos literários bastante distintos, Tatiany encontrou elos possíveis pelo trabalho com a linguagem, pela dualidade entre o otimismo e o pessimismo frente ao futuro global e pela tematização do corpo, especialmente em experiências atravessadas por sua materialidade orgânica. Leite explicou ao Odisseu que teve contato com as obras de Ørntoft e Leino em inglês, e preferiu ler a obra Dias de Vidro, de Verna, em tradução para o espanhol, dispensando a tradução para o português europeu lançada em abril deste ano pela editora lusitana Alma dos Livros.



“Parte do ineditismo – e também do risco – na curadoria da Casa Europa está em apresentar autores ainda não publicados em português brasileiro, mas já reconhecidos pelo prêmio European Union Prize for Literature (EUPL)”
Esta experiência de leitura parece servir como uma anedota da diversidade linguística europeia e sua diferença com o Brasil. Diferentemente do Reino Unido, dos Estados Unidos e dos demais países de língua inglesa, o continente europeu possui um horizonte de línguas bastante vasto, com representantes latinas, germânicas, eslavas e celtas, o que apresenta, portanto, um desafio tanto para a sua tradução direta para o português quanto para a própria interação em eventos como os promovidos pela própria Casa Europa. Para uma melhor comunicação, Ørntoft e Leino abdicaram de seus respectivos idiomas e apoiaram-se no inglês; já Verna sentiu-se mais segura utilizando sua língua materna, o italiano. Mesmo com o recurso da tradução simultânea, houve momentos de desencontro entre os participantes, contornados com o bom humor da mediadora brasileira. Humor, aliás, não pareceu ser o forte dos estrangeiros, que se mostraram circunspectos. Ørntoft ainda deslizou perigosamente em uma tentativa de piada sobre a derrota do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo deste ano.
Um ponto central e mobilizador das discussões foi as próprias premiações, nas quais se inclui a EUPL. Sabe-se que os prêmios são ainda um fator importante para uma apresentação mais ampla de autores usualmente limitados aos mercados editoriais de seus próprios países. No entanto, os autores afirmam que receber um prêmio não é sinal de ascensão automática em suas carreiras. Sobre isso, Tatiany Leite, experiente como jurada de premiações literárias no Brasil, concordou com a percepção dos próprios autores quanto às limitações das premiações por corresponderem frequentemente a demandas específicas do mercado. Ainda assim, reforçou como estas “potencializam aquela literatura para chegar a outros lugares e cair nas mãos de potenciais leitores ou de potenciais editores para a publicarem em outros países”.
Tradução entre a viabilização institucional e a precariedade da profissão
Considerando os desafios para a difusão literária estrangeira, os programas de apoio à tradução apresentam-se como agentes potenciais para viabilizar as publicações de obras contemporâneas dos países europeus. Dois deles foram apresentados na Mesa “Da Europa para a Estante: caminhos para publicar literatura traduzida”, com representações do Goethe-Institut e do Programa de Apoio à Publicação Carlos Drummond de Andrade (PAP-CDA), organizado pelo Escritório do Livro da Embaixada da França no Brasil. Esta foi seguida da mesa “A Travessia das Línguas: tradução, circulação e poder cultural”, dedicada à tradução e aos tradutores, com a presença dos tradutores Marcelo Paiva de Souza, professor universitário do curso de Letras-Polonês da UFPR, e Guilherme da Silva Braga, que se especializou em idiomas escandinavos e verteu para o português obras dos noruegueses Jon Fosse e Karl Ove Knausgård, do sueco David Lagercrantz e da dinamarquesa Solvej Balle, dentre outras. Após a conversa, mediada pela tradutora do alemão Gisele Eberspächer, os convidados comentaram sobre o ofício e o estado de reconhecimento da profissão, que enfrenta a precarização e, atualmente, o embate com a má utilização da inteligência artificial, inclusive por parte de seus empregadores.
Para Gisele Eberspächer, a citação explícita aos tradutores nas menções às obras durante a Flip é uma mudança resultante da pressão dos tradutores literários nos últimos anos, inclusive a articulação do movimento Quem Traduziu. Ela faz parte do movimento desde sua gênese em 2023 e já havia conversado sobre ele com O Odisseu quando foi publicado seu manifesto. Guilherme Braga chamou a atenção para a precariedade dos contratos e reforçou a necessidade de valorização do trabalho por meio de remunerações melhores, contratos com tempo de duração definido e pagamento dos direitos autorais de tradução, para além da valorização simbólica da inclusão do nome do tradutor nas obras desde a capa. Durante a Mesa, ele ainda compartilhou uma experiência de embate com uma editora, a qual lhe propôs um trabalho de revisão de tradução automatizada, cuja remuneração estava muito abaixo dos valores praticados para a tradução humana. O episódio evidencia um entendimento por parte do próprio mercado que talvez explique tanto a adesão à IA por algumas casas editoriais quanto a presença de traduções de baixa qualidade há muitos anos neste meio – a preferência pela entrega à avaliação da qualidade das traduções entregues. Os limites da tradução automatizada são já conhecidos e alertados por profissionais do texto e podem somar-se à busca por valorização destes profissionais, que articulam a mediação cultural entre autores estrangeiros e leitores não letrados em suas respectivas línguas estrangeiras.


A Casa Europa segue com programação intensa até este sábado (25), com atividades que tocam da gastronomia à geopolítica internacional. Confira aqui.

