Escrevo esta matéria com muita felicidade, pois um dos livros que eu mais esperava finalmente está prestes a chegar. “Os anti-identitários” (Hucitec Editora, 2026), livro do professor Leandro Colling, professor titular do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos da Universidade Federal da Bahia. Nos últimos dois anos, Leandro tem feito um trabalho fundamental de desarticulação de discursos conservadores disfarçados de crítica materialista aos movimentos de minorias sociais. Estou falando dos chamados “críticos ao identitarismo”, intelectuais — em sua maioria homens cisgênero, heterossexuais e brancos — que dedicaram muito tempo a falar sobre como os movimentos da militância negra, LGBTQIAPN+, feminista, indígena e PCD seriam os “culpados” pelo afastamento das “massas” ao debate da esquerda. Esses intelectuais pedem a volta de uma esquerda firmada na questão do trabalho, uma suposta questão unificadora, e que ignore as questões de raça, gênero, sexualidade e afins.
Um dos principais problemas desse pensamento, é que ele pensa a classe trabalhadora como essa massa amorfa, ignorando que o trabalhador brasileiro é, sobretudo, de maioria negra, de maioria mulher. A questão do racismo não apenas é um desdobramento da questão do trabalho, mas está em intersecção, para citar o termo tão importante da professora estadunidense Kimberlé Crenshaw.
Em contrapartida, os críticos do identitarismo possuem um perfil bem demarcado, como contou Leandro Colling para a revista O Odisseu: “com algumas exceções, esse perfil é de pessoas brancas e heterossexuais, a maioria delas homens e todas elas cisgêneras”, isto é, esse perfil também demarca uma identidade estável, mas que se vê como universal (sendo essa ideia de universalidade altamente perigosa como já nos apontaram Sueli Carneiro e, mais recentemente, Denise Ferreira da Silva).
Foi a partir do incômodo que essa teoria provocou que Leandro decidiu se dedicar a estudar não apenas quem eram os identitários, mas principalmente quem eram os anti-identitários. A pesquisa em questão foi o seu pós-doutorado na PUC-SP e agora se transformou em livro.
Mas quem são os anti-identitários?
Para a revista O Odisseu, Leandro contou que o advento da crítica ao identitarismo surge com as perdas que a esquerda sofreu em eleições presidenciais importantes, com destaque para as eleições presidenciais no Brasil, de 2018 e dos Estados Unidos, em 2016. Leandro conta:
“Muitos intelectuais que elaboraram a perspectiva que eu estou chamando de anti-identitária responsabilizaram ativistas e movimentos sociais negros e LGBTQIAPN+ pelas vitórias da extrema direita nos últimos anos. Na minha pesquisa, aponto que um dos primeiros intelectuais progressistas a elaborar essa falácia foi o professor Mark Lilla, da Universidade Columbia. Primeiro ele escreveu um artigo para o jornal NYT, publicado no final de 2016, logo depois da primeira vitória de Donald Trump. Esse texto foi o mais lido do ano na editoria de política do jornal. Logo depois, ele escreveu um livro a partir da mesma ideia, que foi logo traduzido no Brasil. Lilla veio ao Brasil para palestrar no Fronteiras do Pensamento e deu várias entrevistas na imprensa local. Assim, essa falácia se espalhou rapidamente entre os intelectuais brasileiros que passaram a usá-la no contexto local.”
(Continua após a foto)

Ao fazer esse mapeamento, Colling levanta uma questão já central para nós: o nascimento desse pensamento nos Estados Unidos. É que nós, os chamados pensadores identitários, somos constantemente acusados de reproduzir o pensamento woke da esquerda liberal estadunidense. Mas o professor vai além disso, pois, pensando como essa falácia não se sustenta uma vez que os “identitários” podem e foram decisivos para as eleições:
“Eu argumento no meu livro, que foi finalizado antes dessas duas eleições, que essa ideia é muito equivocada por pelo menos duas razões: primeiro, carece do mínimo de comprovação empírica. Segundo, os chamados ‘identitários’ também podem ser fundamentais para vencer uma eleição muito disputada. O que essas duas eleições (a vitória de Lula no segundo turno e as de meio mandato nos EUA) nos mostram é que sem os chamados ‘identitários’ a esquerda não teria vencido. Ou seja, uma das principais teses dos anti-identitários progressistas caiu por terra. Mas não foi apenas essa ‘tese’ que caiu por terra. A ideia de que os ‘identitários’ só pensam e agem politicamente de forma particularista, narcisista e neoliberal também se mostrou completamente equivocada. Os ‘identitários’ não reduzem as suas políticas a si próprios. Ao mesmo tempo em que valorizam e usam as suas identidades, suas políticas estão muito mais focadas em temas como imigração, guerras, economia, democracia, trabalho.”
Com isso, o professor também mostra como não são esses grupos minoritários que pensam unicamente em suas identidades e ignoram questões interseccionais ou o trabalho. Na verdade, é o inverso. “Eu estou chamando essa forma de fazer política identitária de ‘exidentificação’. Não se trata de identificação e nem de desidentificação (a la José Esteban Muñoz). Os anti-identitários eram feio ao reduzir os ‘identitários’ às suas identidades.”
A falácia do cancelamento
Outro ponto apontado por Colling em seu livro consiste na falácia do cancelamento, ou seja, esses autores anti-identitários se dizem “cancelados” ao criticar as políticas de gênero, raça, sexualidade e afins. Para ele, esse cancelamento não existe e justamente por não existir é que podemos reconhecer no meio acadêmico brasileiro o pacto narcísico da branquitude (para citar Cida Bento):
“No meu livro, eu compactuo com as ideias do Pedro Tourinho, que escreveu um belo livro sobre esse tema, intitulado Ensaio sobre o cancelamento (Editora Planeta, 2024). O Pedro evidencia que a categoria do cancelamento tem sido usada por pessoas importantes para fugir ou se proteger das críticas. Nenhum dos anti-identitários que eu analiso foi cancelado. Todos continuam vendendo seus livros falaciosos, possuem enormes espaços na grande imprensa e milhares de seguidores em suas redes sociais. Entre tantos outros privilégios (da branquitude e da cisheteronorma), eles também possuem o privilégio de serem imunes ao cancelamento”, conta Colling.
“Os anti-identitários” está em pré-venda no site da Editora Hucitec, portanto é vendido com desconto. Leandro Colling tem dois lançamentos agendados, por enquanto, para este mês de novembro. Os lançamentos acontecerão nos dias 18 de novembro, às 17h, no Cine Satyros Bijou (Praça Roosevelt, 172, Consolação – SP) e 1 de dezembro, às 17h, no vão livre do IHAC/UFBA (campus de Ondina, Salvador).

A conversa continua
Toda leitura é uma viagem. Compartilhe suas impressões, lance suas ideias ao mar e descubra outros horizontes de interpretação.
O mar ainda está em silêncio. Que tal ser a primeira pessoa a lançar uma ideia à água?