“Como construir vínculos sem apagar as diferenças?” Essa é uma das perguntas centrais do novo livro da pesquisadora e professora da PUC-Rio Ana Kiffer. Por meio do pensamento do filósofo e escritor martinicano Édouard Glissant, sobre quem Kiffer vem se debruçando nos últimos anos, trabalhando, inclusive, com os manuscritos do escritor, a nova obra que sai pela Bazar do Tempo busca pensar como conceitos-chave da filosofia do autor, como Relação, Opacidade e Crioulidade, podem nos ajudar a compreender temas caros para a contemporaneidade, como identidade, diferença e pertencimento.
“O mar entre nós: Pensar o mundo com Édouard Glissant” é um livro-ensaio que, como Ana me contou, surge a partir desse contato com a pesquisa do martinicano e nas andanças que tem feito no Brasil e no exterior para falar do autor: “O livro surge a partir dos anos de pesquisa com os arquivos de Glissant a partir de 2018. Algumas das hipóteses centrais do livro foram apresentadas em palestras que eu fiz no Brasil e no exterior. Então ele é consequência do esforço e do labor com os textos e com os manuscritos.”
Sem se resumir a um livro puramente teórico, Kiffer apostou na escrita ensaística como uma maneira de levantar as questões sem dar um ponto final. Na parte final do livro, algumas das questões levantadas durante a escrita são elaboradas de modo a convidar o leitor a pensar para além daquilo que já foi discutido. “Mesmo seguindo uma questão, que é a questão da releitura da noção de relação no Brasil e no mundo hoje, do início ao fim, o livro, por sua forma ensaística, vai errando e se aproximando de elementos que foram surgindo no decorrer da escrita.”

Rio de Janeiro, julho de 2024. Foto de Simone Marinho.
Ana Kiffer: “É preciso pensar o que o pensamento de Glissant tem a ganhar com as culturas indígenas e afro-brasileiras”
Nos últimos anos, cresceu ainda mais o interesse de pesquisadores brasileiros em torno da obra de Glissant. Muito desse interesse vem sendo impulsionado pelas novas maneiras de pensar identidade e identitarismo, a mestiçagem e a crioulização enquanto método artístico.
De certa forma, o Brasil começou a compreender como o pensamento de Glissant consegue oferecer oportunidades para entender os conflitos e disputas em torno da herança colonial e a relação com as culturas indígenas e africanas. Para Ana Kiffer, Glissant tem muito a oferecer em torno daquilo que ela chama de “mito da brasilidade”:
“Em primeiro lugar, eu trago uma das minhas hipóteses centrais no livro: o Brasil criou uma ilusão de que a diversidade nos unifica. Para mim, essa hipótese porta dois grandes equívocos, pois ela vai camuflar tudo aquilo que do diverso é conflituoso e também vai entender o diverso como unificador, no sentido de uma amálgama e do não conflitivo. Então o pensamento do Glissant tem muito a nos oferecer sobre esse mito da brasilidade, digamos assim, não que isso também já não venha sendo elaborado no próprio Brasil.”
Mas, para além da necessidade de pensar aquilo que nós, brasileiros, temos a aprender com o pensamento de Glissant, Kiffer também provoca sobre aquilo que as culturas que transitam em solo brasileiro têm a contribuir com a filosofia do martinicano:
“Em segundo lugar, eu também penso o contrário, ou seja, o que o pensamento do Glissant tem a ganhar entrando em contato com ramificações, rios e águas, para usar a metáfora do livro, com as culturas indígenas e afro-brasileiras? Há muita coisa da filosofia do vivente, do reencantamento e do nosso modo de conceber a experiência da vida que faz com que o pensamento do Glissant ganhe novas perspectivas.”
Ana Kiffer lança novo livro-ensaio nesta terça-feira, 3, no Rio de Janeiro
“O mar entre nós: Pensar o mundo com Édouard Glissant” será lançado hoje, 3 de novembro, no Rio de Janeiro, na Janela Livraria Laranjeiras, e contará com um bate-papo entre a autora e as professoras Aza Njeri e Eliza Araújo, com mediação de Mariana Patrício. O evento é aberto ao público e começa às 19h.

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