
Para vencer, é preciso querência: Ensaio crítico sobre o romance ‘Voz de Prisão’, de Luciana de Gnone
Em Voz de prisão, Luciana de Gnone soube reconhecer o que, dentro de uma experiência real, podia se tornar literatura.
Foto: Divulgação.
Luciana De Gnone já é uma autora reconhecida no território da ficção policial contemporânea brasileira. Escritora e roteirista, construiu uma obra marcada pelo protagonismo feminino e por narrativas investigativas que não se limitam à descoberta de um crime ou à perseguição de um culpado: suas histórias perpassam por questões sociais, expõem conflitos humanos e interrogam, sobretudo, as estruturas dentro das quais suas personagens precisam se mover. Em Voz de Prisão, essa característica de sua escrita encontra uma de suas formas mais contundentes.
O romance parte de um caso real, conforme a própria autora explica em nota: “No dia 27 de setembro de 2024,uma reportagem no jornal o Globo, assinada pelo jornalista Leonardo Marchetti, chamou minha atenção quando ainda estava deitada na cama: “Após 25 anos do crime, filha se torna policial e prende assassino do pai em Roraima: ‘Justiça foi feita’.”” (p. 07).
No entanto, o que interessa a De Gnone não é simplesmente reproduzir o drama da vida real. Para transformá-lo em ficção, a autora mergulhou profundamente na história que lhe serviria de matéria narrativa. Passou um período em Boa Vista, conheceu a cidade, além de percorrer os lugares relacionados aos acontecimentos, a fim de conversar com pessoas e ouvir memórias, refazendo caminhos que a levaram a escrever um grande livro. Há, nesse gesto anterior à própria escrita, algo que me parece fundamental: uma disposição para compreender os fatos (por meio da vivência e da curiosidade), antes de narrar. O resultado é uma obra que vai além dos acontecimentos inspiradores da trama, pois à medida que passamos as páginas, também somos apresentados a um pedaço da História de Boa Vista, capital do Estado de Roraima e seus percalços econômicos e políticos, como por exemplo quando a personagem Ana Lice relembra o Escândalo dos Gafanhotos, um caso de corrupção impressionante descoberto por meio da Operação Praga do Egito deflagrada pela Polícia Federal em 2003. (p. 105).
É nesse ponto que me vem à mente a ideia de espaço literário, de Maurice Blanchot. Quando a literatura se aproxima de uma história real, existe sempre uma passagem delicada a ser feita. Não basta transportar acontecimentos para a página, reorganizá-los ou transformá-los em sequência narrativa. É preciso que aquilo que pertenceu à experiência concreta encontre uma outra forma de existência, agora submetida às exigências da linguagem, da estrutura, do ritmo e, claro, da imaginação.
Blanchot nos ajuda a compreender esse deslocamento: a obra literária inaugura um espaço próprio, no qual o acontecimento deixa de ser apenas aquilo que ocorreu e passa a existir segundo outra lógica. A literatura não é simples reprodução do mundo. Ela transforma a matéria que recebe dele.
Talvez esteja aí uma das qualidades que mais admiro em Voz de Prisão. Luciana soube reconhecer o que, dentro de uma experiência real, podia se tornar literatura. E isso exige não apenas pesquisa, mas escolha. Nem tudo o que aconteceu precisa entrar na obra; nem tudo o que se descobre durante uma investigação pertence necessariamente ao romance. Há um momento em que o(a) escritor(a) precisa se libertar da obrigação documental para permitir que a ficção encontre sua própria verdade.
Luciana demonstra grande segurança justamente nessa passagem. Sua pesquisa profunda não a aprisionou aos fatos. Ao contrário: ofereceu a ela a matéria necessária para que pudesse se afastar deles e construir uma narrativa autônoma. Existe uma história real na origem de Voz de Prisão, mas o livro não depende desse dado para se sustentar. A partir do momento em que entramos no romance, aquelas personagens, aquela espera, aquela busca e aquele território passam a existir dentro de um universo que pertence à literatura.
A realidade, sabe-se, fornece a matéria, mas não fornece a forma. É o(a) escritor(a) quem precisa reconhecer, entre tantos acontecimentos, lembranças e informações, aquilo que poderá sobreviver quando convertido em linguagem. Nesse sentido, De Gnone ocupou com muita propriedade esse espaço literário pensado por Blanchot: soube quando permanecer próxima do fato e, sobretudo, quando se afastar dele para que a ficção pudesse começar.
Não à toa, penso que Voz de Prisão produza o efeito de uma narrativa fortemente ancorada no lugar e, ao mesmo tempo, inteiramente pertencente ao universo que a autora criou. O que encontramos é, sobretudo, uma filha ainda transtornada pela perda do pai e pela necessidade de fazer justiça. Uma mulher cuja vida passa a carregar, durante anos, uma espécie de dívida com o passado. Há algo de caçada no romance. O assassino de seu pai permanece foragido durante anos e sua existência, mesmo ausente, nunca deixa de determinar a vida da protagonista. Ele está fora de cena e, ao mesmo tempo, permanece dentro dela. A perseguição, portanto, não é apenas policial. É também íntima. O homem procurado pela justiça é aquele que mantém a protagonista presa a um acontecimento que a infância jamais conseguiu assimilar inteiramente.
Em ‘Voz de Prisão’, Luciana de Gnone demonstra domínio absoluto daquilo que escolheu escrever, tanto dos recursos do romance policial quanto da matéria humana que sustenta a história.
É nesse ponto que considero especialmente feliz a construção temporal escolhida por De Gnone. Os capítulos se movimentam entre as memórias da infância e os acontecimentos mais recentes que culminam na prisão do assassino. O passado não aparece simplesmente como explicação do presente. Ele invade o presente, permanece nele, contamina-o. Afinal, certos acontecimentos não terminam quando acontecem. Ao contrário, continuam ocorrendo dentro de nós.
Assim, mesmo sabendo de antemão que estamos diante de uma narrativa inspirada em fatos reais e podendo imaginar, em alguma medida, aonde a história chegará, isso não diminui a tensão do romance. Longe disso. Luciana de Gnone domina os mecanismos do gênero policial e sabe administrar a informação, criar expectativa e interromper os capítulos nos momentos certos. Continuamos virando as páginas não apenas para descobrir se a protagonista alcançará seu objetivo, mas principalmente para saber como conseguirá fazê-lo e o que essa chegada significará para ela.
Preciso admitir que há também uma dimensão muito pessoal nessa leitura. O romance policial não costuma estar entre os gêneros que procuro espontaneamente como leitora. Tenho certa dificuldade de entrar nesse tipo de narrativa, talvez porque meus interesses literários habitualmente se encaminhem por outros territórios. Ainda assim, gosto dos desafios que a literatura propõe, sobretudo porque acredito que, diante de uma escrita realmente boa, as fronteiras do gênero acabam se tornando menos importantes. Quando há domínio da linguagem, construção consistente de personagens e uma narrativa capaz de nos capturar, deixamos de pensar propriamente na categoria em que aquele livro se inscreve e passamos simplesmente a habitá-lo.
Foi o que aconteceu comigo em Voz de Prisão. Luciana demonstra domínio absoluto daquilo que escolheu escrever, tanto dos recursos do romance policial quanto da matéria humana que sustenta a história. A investigação não se sobrepõe às personagens, nem a tensão narrativa elimina as camadas de memória, afeto e perda. Certamente por isso o livro tenha representado para mim mais do que uma boa experiência de leitura: foi também a abertura de outras janelas literárias, dessas que nem sempre costumo escolher atravessar ou nas quais, por alguma razão, não me imagino habitando. Luciana conseguiu me fazer entrar. E, uma vez dentro, permanecer. Essa é uma diferença importante, porque Voz de Prisão não se sustenta apenas sobre a pergunta “o criminoso será encontrado?”. Há outra, ainda mais poderosa, salpicada por todo o livro: o que acontece com alguém que passa boa parte da vida esperando que a justiça finalmente aconteça?
Enquanto lia, outra prioridade eleita pela autora me chamou particularmente a atenção: a construção da dicção das personagens. Como escritora, sempre me interessa perceber de que maneira um(a) autor(a) escuta o lugar sobre o qual escreve. Em Voz de Prisão, muitas vezes tive a impressão de estar efetivamente ouvindo aquelas pessoas falarem. Há ritmo, léxico, uma maneira própria de dizer. Isso revela um cuidado importante em não universalizar vozes que precisavam conservar as marcas do território ao qual pertencem.
Essa preocupação é ainda mais significativa porque escrever sobre o Norte do Brasil, a partir de outro lugar, exige escuta. Luciana compreendeu que não bastava ambientar a narrativa em Boa Vista; era necessário permitir que o lugar interferisse na própria linguagem. A cidade não funciona apenas como cenário. Ela também é a partir da forma como as personagens se relacionam, lembram, contam e nomeiam o mundo. Tudo isso fica muito claro nos diálogos entre as personagens: “Mana, eu te entendo, mas não desacredite, não.” (p. 55). Quem é do Norte (como eu), sente-se contemplado quando lê um “mana”, vocativo que usamos não apenas para nossos irmãos de sangue, mas para toda e qualquer pessoa com quem já possuímos algum nível de amizade. E isso também se relaciona com o espaço literário de Blanchot. O espaço de uma obra não é apenas aquele no qual a ação acontece. É também o espaço que a linguagem consegue fundar. Boa Vista, no romance, não está ali somente como localização geográfica. É uma cidade transformada pela memória, pelo deslocamento, mas sobretudo, pelas vozes das personagens.
Outro aspecto importante do romance está na maneira como a autora desloca gradativamente o centro do conflito. Sabemos que existe um assassino a ser encontrado, mas existe também uma estrutura que permitiu que a espera durasse tanto tempo. É a partir daí que Voz de Prisão deixa de ser apenas a história da perseguição a um homem e passa a ser também uma reflexão sobre a morosidade, a burocracia e as falhas do sistema de justiça brasileiro. De Gnone faz essa crítica sem transformar o romance em discurso panfletário. Não há necessidade de interromper a narrativa para explicar ao leitor o funcionamento de um sistema que falhou. São as próprias personagens, suas dificuldades, seus diálogos, suas esperas e seus enfrentamentos que expõem essas fissuras: “é que, por muito tempo, o processo ficou perdido entre varas. Levou meses para o Ministério Público apresentar a denúncia.” (p. 55). Ou seja, a crítica nasce da experiência. E é por isso que ela nos alcança com tanta facilidade, pois mesmo que a maioria de nós jamais tenha enfrentado uma situação tão extrema quanto a da protagonista, qualquer pessoa que já tenha esbarrado na burocracia da justiça brasileira conhece alguma dimensão do desgaste provocado pela lentidão, pela repetição de procedimentos, pela sensação de impotência diante de estruturas que parecem existir independentemente da urgência humana.
No caso da protagonista, porém, esperar não significa apenas aguardar uma solução judicial. Significa permanecer ligada ao instante da perda. Enquanto o crime continua sem resposta, alguma coisa também permanece suspensa dentro dela. Por esse motivo penso em Voz de Prisão como uma espécie de odisseia. Não porque haja grandes aventuras no sentido clássico, mas porque toda a narrativa parece trespassada pela necessidade de voltar para casa. E há viagens em que voltar para casa não significa simplesmente retornar a um lugar. Às vezes, só conseguimos voltar quando sentimos que fizemos tudo aquilo que estava ao nosso alcance. Enquanto essa sensação não chega, continuamos presos ao tempo que deixamos para trás. É como se uma parte de nós permanecesse naquele lugar, esperando. Nesse sentido, a prisão anunciada pelo título do romance adquire uma ambiguidade interessante. Há alguém que precisa finalmente receber voz de prisão, mas há também uma protagonista que, durante anos, permanece aprisionada às consequências daquele crime. Encontrar o assassino é, de alguma maneira, tentar se libertar. E é aqui que uma palavra aparentemente pequena ganha uma força enorme dentro do romance: querência.
Em determinado momento, a personagem Ana Lice afirma que é preciso querência. A palavra continua ecoando depois da leitura porque parece condensar tudo aquilo que move a narrativa. Querência é querer, mas é mais do que vontade. É disposição. É desejo convertido em movimento. É alguma coisa que nos empurra na direção daquilo que precisa ser feito, mesmo quando o caminho é cansativo, burocrático ou aparentemente impossível.
Ao mesmo tempo, a palavra carrega consigo a ideia de lugar para onde se deseja voltar. E penso que mora aí uma das imagens mais bonitas que o romance permite construir. A protagonista procura um homem durante anos, mas procura também o caminho de volta para si mesma. Então, retorno uma última vez a Blanchot: a literatura também é, de alguma maneira, esse espaço em que aquilo que já aconteceu pode voltar a existir de outra forma. Não para que o passado seja corrigido. Ora, a literatura não tem esse poder; mas para que ele possa ser interrogado, reorganizado e experimentado sob outra perspectiva. Luciana transforma um acontecimento real em uma obra que não pertence mais apenas às pessoas que o viveram. Ao atravessar o espaço da literatura, essa história passa também a alcançar aqueles que a leem.
Voz de Prisão é um romance policial, mas é também uma narrativa sobre memória, justiça tardia, luto e persistência. Luciana de Gnone compreende que solucionar um crime não significa necessariamente reparar aquilo que ele destruiu. Algumas perdas são irreparáveis. A justiça não devolve o pai, não devolve a infância e tampouco apaga os anos de espera. Mas pode devolver alguma possibilidade de movimento. A tal querência que permanece depois da última página: a insistência em fazer aquilo que precisa ser feito para, finalmente, conseguir voltar para casa.
Obs.: A obra já está em adaptação e desenvolvimento para o audiovisual com a Intro Pictures.


