
Ouvindo mugidos, silêncios e vazios: sobre As Vacas Não Me Olham Mais Na Cara, de Dora Freind
As vacas não me olham mais na cara, de Dora Freind, dilui barreiras e leva o leitor a pensar sobre a separação entre animais e humanos.
Foto: Isadora Relvas.
Por conviver com animais que podem virar comida a qualquer momento, existe nessa relação um sentimento ambíguo: o perigo de se apegar, transformar o bichinho em companheiro e, da noite para o dia, ver essa construção esmorecer, pois o animal pode morrer para alimentar toda uma família. Deve ser uma sensação que perpassa quem vive em fazendas, cuidando de vacas, bois, galinhas e afins; a possibilidade da finitude do animal surge de uma hora para outra e acaba com o vínculo construído.
Nas produções midiáticas e literárias, muitos exemplos atravessam essa relação: a cachorra Baleia morrendo no célebre romance de Graciliano Ramos, Vidas secas; ou até mesmo as reivindicações das galinhas que resultam na fuga na animação A fuga das galinhas. Ou seja, há uma relação de dependência afetiva ou econômica entre animais e humanos, mas existem casos em que essa fronteira, tensionada na Idade Moderna pelo pensamento cartesiano, se dilui – como aponta a pesquisadora Maria Esther Maciel no livro Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica (Editora da UFSC, 2011) – e percebemos uma relação em que animalidade e humanidade se misturam, se intercruzam e criam uma personagem híbrida.
É o caso do primeiro romance da escritora Dora Freind, carioca e bacharel em Artes Cênicas pela Unirio. A autora é multipremiada em alguns dos principais festivais de cinema do mundo, como o Festival de Cinema de Veneza e o Festival do Rio. O seu livro As vacas não me olham mais na cara (Editora Nós, 2026) gira em torno de uma personagem sem nome, que, ao nascer, deixa a sua mãe sem fala. A partir dessa incomunicabilidade, a menina sai de casa e vai viver uma temporada com as vacas, aprendendo a mugir e a se portar como o animal. Mas essa vida animalesca desaparece quando, na casa ao lado, surge Dona Lurdes, que toma para si os cuidados da menina e, num processo lento, a transforma em gente. O livro acompanha essa personagem, metade vaca e metade gente, e suas relações com os vizinhos que passam temporadas nessa casa após a morte de Dona Lurdes.
Daí surge a família Silvestre, que fala o tempo todo e tem o hábito de comer línguas, o que desencadeia na menina o medo de ficar sem a sua própria. Acaba acontecendo uma aproximação com a matriarca da família, quem vem a descobrir o motivo que leva os Silvestre a parar ao lado da casa onde vive; Seu Lino, um artesão e ventríloquo que leva a menina pela primeira vez ao circo; Matilda, uma moça mais velha que a personagem, que a ensina sobre amor e sexualidade, mas que tem um final trágico, marcado por muito sangue. Nesse meio tempo, entre crescimento e aprendizados, existe a figura do Juca, seu primeiro amor, cuja relação resulta em mais violência.

Silêncio: escutando as vacas conversarem
Existem, no romance de Freind, barulhos, silêncios e ruídos; é uma narrativa que também se constrói pelo som. Esse empreendimento de trazer ao leitor essas especificidades aparece costurado nas imagens iniciais: enquanto nasce a protagonista, o choro da criança é o silenciamento da mãe. Impedidas de se comunicar pela fala, mãe e filha estabelecem uma comunicação pelo olhar. Para além dessa antítese tão presente na relação mãe e filho no romance, é no encontro com as vacas que o som animal surge.
“o mugido é um dos sons mais bonitos que aprendi na vida, brota no intestino e corre uma maratona dentro do corpo da gente até saltar pela boca, aquele era nosso grito de guerra.
eu gritava bem alto os gritos que a mamãe não deu, me sentia parte de uma revolução.
a revolução das vacas.” (p. 13)
O mugido não aparece de forma leviana, marca a inserção da protagonista no seu lado animalesco, ainda na tenra infância, e estabelece uma forma de comunicação entre espécies diferentes, mas que se entendem em harmonia. Não existe, portanto, uma relação de disparidade hierárquica, o que ecoa a reflexão da pesquisadora Maria Esther Maciel sobre a literatura e a animalidade e o encontro “entre o humano e sua própria outridade animal”.
Ao sair do contato e do habitat partilhado com as vacas, o mugido dá lugar à humanização da personagem. A fala surge, assim como o andar bípede e o comer de garfo e faca. Mas, não é apenas o modo de se comportar e de estar no mundo como humana que vem à tona; o leitor se depara com as descobertas dessa personagem sem nome – outra marca que rompe a fronteira entre humano e animal, pois ela é apenas um ser em devir entre essas duas instâncias –, entre elas, a violência de gênero, o poder do homem na sociedade e as relações com as pessoas com quem se envolve: “meu pai quis ir embora e foi./ deve ser fantástico ser homem” (p. 46).
É nas relações que percebemos a complexidade do romance de estreia de Freind, que constrói uma prosa poética que ilumina os caminhos da personagem. Há, nesses encontros, um questionamento sobre a animalidade dos humanos; afinal, o civilizatório e a moralidade, base de uma concepção moderna de humanidade, são o tempo todo questionados: “mas você me comeu inteira” (p. 124). O abandono da mãe pelo pai, o estupro sofrido pela protagonista pelo seu primeiro amor e a ordenha, que estabelece uma relação de violência diferente daquela vivida pelas vacas, contrapõe-se à animalidade doce, organizada e sociável das vacas no início do romance. Mesmo ao final, quando a protagonista está muito humana para andar com as vacas, esses animais não a excluem do bando. É a própria personagem quem percebe, de forma pacífica, que já não se encaixa como uma vaca, depois de sofrer, ao longo desse processo, desilusões e violências.
“quando tomei coragem e entrei no curral, percebi que eu não era mais filhote. inventava uma vibração pela boca para me sentir menos sozinha, mas as vacas não entendiam nada do que eu dizia, éramos desconhecidas, perdi meu focinho, minha visão noturna e meu mugido para ganhar palavra.” (p. 106)
A figura masculina, na maioria das vezes, demarca um ponto de virada para a personagem e está associada ao poder patriarcal e à maneira como as mulheres sofrem sob esse poder. O pai que a abandona; o patriarca da família Silvestre chega com a travessa de línguas – imagem com amplos significados, língua de animal ou de gente? –; na mesma família, a filha foi estuprada; Seu Lino é o personagem que introduz a certeza de que a mãe não vai voltar a falar; e o pai de Matilde, que compra uma serra elétrica e demarca, mais uma vez, os modos como a sociedade mutila corpos femininos que fogem do que se espera de uma mulher; por último, Juca, que insere a violência no corpo da personagem, antes presente apenas no plano do simbólico.
“[…] o Juca começou a contorcer meu corpo como se estivéssemos no circo, mas ali não tinha holofote nem música nem ninguém aplaudindo, tinha eu segurando o choro e o cocô porque garotas misteriosas não choram nem cagam. ele me virou de frente apertou o meu pescoço bem forte e eu pensei caramba será que é assim que a gente perde a voz. ele começou a se tremer todo até dar leite que nem as vacas. me fez ordenhar e tomar direto da fonte, mas o gosto era ácido.” (p. 68)
Portanto, a personagem faz um percurso de compreender e assentar o animal que existe nela. A vaca que foi outrora não desaparece, mas está ali, vivendo, em alguns momentos, em harmonia, em outros, em embate com seu lado humano: “lembrei da época que era vaca e a vida ainda não precisava ter sentido” (p. 88). Ao final, esse percurso resulta na própria mudança de casa, como se aquele lugar não coubesse mais na personagem, o que leva a um desfecho bonito: a personagem deixa cartas para todos que a cercam e revisita, de forma crítica e afetiva, esse encontro.
A força do encontro, suas transformações e consequências que traz consigo são pontos importantes para compreendermos o livro de estreia de Dora Freind, poético e com muitos ruídos. O leitor precisa estar atento ao silêncio da mãe, ao mugido da vaca, ao grito de terror de uma mulher mutilada. As vacas não me olham mais na cara dilui barreiras e leva o leitor a pensar sobre a separação entre animais e humanos, colocando-o mais perto da animalidade que existe em nós, e ainda insere uma discussão refinada e muito imagética sobre a questão de gênero e como ser mulher nesse país. Portanto, ouvidos atentos ao som que sai da personagem: “MMMMMM” (p. 129).


