Num dos ensaios que compõem o livro Constelações: ensaios do corpo (Relicário, 2023), de Sinéad Gleeson, a autora aborda a relação complexa e de muitas camadas entre as mulheres, a maternidade, o corpo em transformação e o bebê. Tudo poderia desaguar num clichê sobre o tema, comum em muitas produções literárias, artísticas e midiáticas, mas Gleeson faz um caminho interessante e fora da curva, ao pensar a maternidade a partir de si mesma como mulher, com suas subjetividades, medos e questionamentos sobre a prole que está prestes a colocar no mundo.
Gleeson descentraliza e retira a figura da mãe de uma aura canônica para explorar o que há de mais conturbado e de temeroso nessa relação: o medo de não dar conta e, ao mesmo tempo, como não perder a sua individualidade no ciclone que é a maternidade. Num dado momento, ao passar pelas etapas de desenvolvimento dos filhos, os sustos e perrengues de ser responsável por outra vida, a autora conclui: “a experiência, como um todo, é como estar à deriva no mar” (p. 87).
Essa imagem é muito interessante, pois estar à deriva no mar implica alguns riscos: o mar pode ficar revolto, tempestades podem se aproximar e animais podem atacar. Uma imagem que associo à vida nada retilínea e tranquila que a função materna impõe à mulher e que, como a autora pontua, afeta não apenas o corpo, mas outras esferas da vida. Essa vida de altos e baixos, traz outras representações da maternidade e difere das santificadas, é o empreendimento do primeiro livro de Gabriela Zambiazi.
A autora, nasceu em Belo Horizonte, vive em São Paulo e é advogada, lançou neste ano seu primeiro livro, o romance Durou um momento, não teve fim (Todavia, 2026). Na obra, acompanhamos três mulheres, de gerações diferentes, mas são ligadas por serem ramos da mesma árvore genealógica. A narrativa começa com um enterro, de Iraci, que antes de morrer deixa uma mensagem pedindo que a sua filha Amélia não comunique a sua morte à sua avó, Magda. A partir dessa morte, que finda uma vida e dá início a um retrospecto, acompanhamos Magda, ainda adolescente no interior de Minas Gerais, se casa com César para morar na cidade e fugir do lugar ermo em que vivia. Entretanto, a vida conjugal apresenta espinhos, sangue e violências, afinal, César é um homem violento, controlador e ciumento, com quem Magda precisa conviver e sobreviver. Do fruto dessa relação, nasce Iraci, que não recebe amor materno, pois Magda está sofrendo muito com todo o seu contexto pautado em murros e pontapés, e a filha passa a enxergar na figura do pai um espelho de conduta e de futuro, e exemplo a ser seguido.
Iraci segue os passos do pai, se distancia da mãe mesmo vivendo na mesma casa, mas, no meio da faculdade, engravida de Mauricio, e ele se torna seu marido. Contudo, ao decidir continuar com a gravidez, corta o vínculo com o pai, que recebe de forma violenta a notícia e a obriga a se casar para poder ficar em casa na gravidez e no puerpério. Iraci consegue se formar na faculdade e ter sua filha, Amélia. A vida de Iraci sai dos eixos, entre suas crises e ondulações de humor ficam mais recorrentes quando o pai morre. Essa morte representa a liberdade de Magda, mas também provoca o afastamento da filha e da neta da casa em que cresceu.
Amélia é a última ponta dessa trinca de relações complicadas entre mães e filhas e aquela que sofre com as mudanças de humor da mãe, o afastamento da avó, provocado por Iraci, e a violência constante que a mãe inflige ao corpo e ao psicológico da filha. Essa situação melhora com o diagnóstico de Iraci, mas só chega ao fim quando Amélia sai de casa.

Das duras relações familiares
Há no romance de Zambiazi três personagens que estão no centro dos acontecimentos narrativos: Magda, Iraci e Amélia. Para além de serem ligadas pelo sangue, são mulheres e mantêm entre si a estreita relação de mães e filhas. Por estarem nessa função familiar, são construídas expectativas pautadas em discursos sociais e também quebras do imaginário sobre maternidade, que, no decorrer da narrativa, vai sendo posto à prova. O primeiro romance de Zambiazi não possui mulheres perfeitas ou felizes em terem seus filhos, ou mães amorosas e cuidando da sua prole como se não houvesse amanhã. As personagens estão confrontando um imaginário imaculado sobre a representação da maternidade na literatura: “Aos oito meses a parasita foi expulsa da hospedeira” (p. 135)
Todavia, os personagens masculinos exercem seu poder, representam a virulência da sociedade patriarcal e, nos dois casos, o marido de Magda e, posteriormente, o marido de Iraci são personagens que atestam e inserem, de forma direta e indireta, o discurso do papel da mulher como dona de casa e de mãe que vive apenas para cuidar do filho, a provedora. Para além disso, no caso de César, essa forma de compreender a relação de gênero, demarcando uma dita superioridade, foi presenciada dentro de casa.
Magda contaminava seus pensamentos. Havia dias em que acordava e estava certo de que odiava a mulher. Desprezava sua burrice, não era capaz de suportar sua voz ou seu olhar afetado. Enxergava-a vulgar. Queria mesmo matá-la. Esteve por momentos certo de que o faria. (p. 96)
Mas a passagem do tempo e o discurso de emancipação feminina e de entendimento sobre o corpo se fazem presentes. Iraci, inserida num outro tempo, se divorcia e consegue ser mãe e trabalhar como médica, seguindo os passos do pai, que, mesmo depois de morto, ainda mantém determinada influência na filha. Contudo, o que outrora não tinha nome ou não era levado a sério pelos mais velhos, com a proximidade dos tempos atuais, passa a ser reconhecido como um diagnóstico psiquiátrico, com o uso de remédios e uma relação mais amena com a filha. Esse é um ponto interessante do percurso narrativo; o tempo está ali costurado à narrativa e percebemos essas mudanças nas pequenas atitudes que as personagens tomam de forma sutil e muito coerente.
A presença dessa figura autoritária representada pelo homem, marido, pai, médico e avô só tem fim quando Magda a questiona e se rebela, ao dizer que vai sair de casa. A libertação da matriarca também evidencia a presença do pai como um fantasma inconsciente que acompanha Iraci, e tem nele sua devoção, um caminho a seguir. Essa presença é sintomatizada na violência com Amélia, repetição da violência que Magda sofria do marido.
– Depois dessa noite, acabou para mim. Vamos embora, e você que fique sozinho nesta casa maldita. – As palavras saíram robóticas, resultado da fala ensaiada centenas de vezes na frente do espelho. A chegada da neta fora o gatilho. Dessa vez não cometeria os mesmos erros, não iria permitir que também Amélia fomentasse naquele ódio. Magda por anos tinha se preparado: juntou algum dinheiro, pesquisou seus direitos e esperou o momento certo. Com a formatura de Iraci, não precisariam mais dele. (p. 147-148)
A construção das personagens é constante, apresentando novas facetas e os espaços também dizem muito sobre a subjetividade das protagonistas: a casa asséptica e organizada da Magda, que esconde, ao olhar atento, manchas, rachaduras e nódoas. Na casa, após a saída da filha, o quarto fica trancado, representando como a mãe quer esconder e não revisitar Iraci. A casa de Iraci, pequena e cinza, com objetos espalhados pelo local – resultado das compras compulsivas da personagem –, e o quarto da filha ao fundo, pequeno e sem janela, representam como essa relação está escondida e obscurecida para Iraci. Amélia ressignifica aquele espaço, no canto da casa, com seus ursos de pelúcia e, posteriormente, os livros, como fuga e pulsão de vida no meio de tanta desgraça.
Por tratar de relações tão amplas e com consequências múltiplas, o texto apresenta analogias com tons poéticos, do qual o exterior perpassa e dialoga com o interior das personagens. As imagens que o livro apresenta estão ali em prol da fluidez da narrativa, como na cena em que Magda joga o carro sobre a casa, mas não derruba nem destrói – uma metáfora sobre a figura fortificada de César e a dificuldade de destruir esse homem: “Na luta entre a casa e o corpo, perdeu o corpo, venceu a casa” (p. 102). Ou, ao final, quando Amélia e Magda se encontram, após um mês da morte de Iraci, o trançar do cabelo aparece como símbolo da construção desse vínculo, num momento muito delicado.
Além disso, há toda uma presença de outras mulheres que vieram antes de Zambiazi e são citadas de forma direta ou indireta no romance. Mulheres acionadas por reverberarem em outras mulheres: há uma referência embalada por Clarice Lispector, quando Magda visita um jardim, ou a própria cidade no período em que o marido está no hospital, experiência no limiar do erótico e dialogando com o conto “Amor”; Sylvia Plath também é citada de forma direta; o olhar microscópico para as relações domésticas, ecoando os romances da Carla Madeira; e o vestido da vingança de Lady Di, aparece quando Magda assiste ao seu algoz morrer de infarto fulminante, são alguns exemplos dessas conversas e reverências.
Durou um momento, não teve fim, é pungente e muito bem construído. As relações complexas entre mães e filhas saem do óbvio no passar das páginas e ganham novas dimensões, sem deixar de lado a influência do patriarcado nessas vidas e subjetividades e, principalmente, sem esquecer o desenvolvimento narrativo, o movimento e a transformação das personagens ao longo do tempo, o trato com a linguagem e os ganchos no enredo. Gabriela Zambiazi escreve um ótimo primeiro romance.

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