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Crítica

Mães e filhas: sobre ‘Durou um momento, não teve fim’, de Gabriela Zambiazi

Em 'Durou um momento, não teve fim', as relações complexas entre mães e filhas saem do óbvio sem deixar de lado a influência do patriarcado nessas vidas.

Gabriela Zambiazi, autora de Durou um momento, não teve fim (Renato Parada/ Divulgação/ Todavia).
Gabriela Zambiazi, autora de Durou um momento, não teve fim (Renato Parada/ Divulgação/ Todavia).

Num dos ensaios que compõem o livro Constelações: ensaios do corpo (Relicário, 2023), de Sinéad Gleeson, a autora aborda a relação complexa e de muitas camadas entre as mulheres, a maternidade, o corpo em transformação e o bebê. Tudo poderia desaguar num clichê sobre o tema, comum em muitas produções literárias, artísticas e midiáticas, mas Gleeson faz um caminho interessante e fora da curva, ao pensar a maternidade a partir de si mesma como mulher, com suas subjetividades, medos e questionamentos sobre a prole que está prestes a colocar no mundo.

Gleeson descentraliza e retira a figura da mãe de uma aura canônica para explorar o que há de mais conturbado e de temeroso nessa relação: o medo de não dar conta e, ao mesmo tempo, como não perder a sua individualidade no ciclone que é a maternidade. Num dado momento, ao passar pelas etapas de desenvolvimento dos filhos, os sustos e perrengues de ser responsável por outra vida, a autora conclui: “a experiência, como um todo, é como estar à deriva no mar” (p. 87).

Essa imagem é muito interessante, pois estar à deriva no mar implica alguns riscos: o mar pode ficar revolto, tempestades podem se aproximar e animais podem atacar. Uma imagem que associo à vida nada retilínea e tranquila que a função materna impõe à mulher e que, como a autora pontua, afeta não apenas o corpo, mas outras esferas da vida. Essa vida de altos e baixos, traz outras representações da maternidade e difere das santificadas, é o empreendimento do primeiro livro de Gabriela Zambiazi.

A autora, nasceu em Belo Horizonte, vive em São Paulo e é advogada, lançou neste ano seu primeiro livro, o romance Durou um momento, não teve fim (Todavia, 2026). Na obra, acompanhamos três mulheres, de gerações diferentes, mas são ligadas por serem ramos da mesma árvore genealógica. A narrativa começa com um enterro, de Iraci, que antes de morrer deixa uma mensagem pedindo que a sua filha Amélia não comunique a sua morte à sua avó, Magda. A partir dessa morte, que finda uma vida e dá início a um retrospecto, acompanhamos Magda, ainda adolescente no interior de Minas Gerais, se casa com César para morar na cidade e fugir do lugar ermo em que vivia. Entretanto, a vida conjugal apresenta espinhos, sangue e violências, afinal, César é um homem violento, controlador e ciumento, com quem Magda precisa conviver e sobreviver. Do fruto dessa relação, nasce Iraci, que não recebe amor materno, pois Magda está sofrendo muito com todo o seu contexto pautado em murros e pontapés, e a filha passa a enxergar na figura do pai um espelho de conduta e de futuro, e exemplo a ser seguido.

Iraci segue os passos do pai, se distancia da mãe mesmo vivendo na mesma casa, mas, no meio da faculdade, engravida de Mauricio, e ele se torna seu marido. Contudo, ao decidir continuar com a gravidez, corta o vínculo com o pai, que recebe de forma violenta a notícia e a obriga a se casar para poder ficar em casa na gravidez e no puerpério. Iraci consegue se formar na faculdade e ter sua filha, Amélia. A vida de Iraci sai dos eixos, entre suas crises e ondulações de humor ficam mais recorrentes quando o pai morre. Essa morte representa a liberdade de Magda, mas também provoca o afastamento da filha e da neta da casa em que cresceu.

Amélia é a última ponta dessa trinca de relações complicadas entre mães e filhas e aquela que sofre com as mudanças de humor da mãe, o afastamento da avó, provocado por Iraci, e a violência constante que a mãe inflige ao corpo e ao psicológico da filha. Essa situação melhora com o diagnóstico de Iraci, mas só chega ao fim quando Amélia sai de casa.

Gabriela Zambiazi, autora de Durou um momento, não teve fim (Renato Parada/ Divulgação/ Todavia).

Das duras relações familiares

Há no romance de Zambiazi três personagens que estão no centro dos acontecimentos narrativos: Magda, Iraci e Amélia. Para além de serem ligadas pelo sangue, são mulheres e mantêm entre si a estreita relação de mães e filhas. Por estarem nessa função familiar, são construídas expectativas pautadas em discursos sociais e também quebras do imaginário sobre maternidade, que, no decorrer da narrativa, vai sendo posto à prova. O primeiro romance de Zambiazi não possui mulheres perfeitas ou felizes em terem seus filhos, ou mães amorosas e cuidando da sua prole como se não houvesse amanhã. As personagens estão confrontando um imaginário imaculado sobre a representação da maternidade na literatura: “Aos oito meses a parasita foi expulsa da hospedeira” (p. 135)

Todavia, os personagens masculinos exercem seu poder, representam a virulência da sociedade patriarcal e, nos dois casos, o marido de Magda e, posteriormente, o marido de Iraci são personagens que atestam e inserem, de forma direta e indireta, o discurso do papel da mulher como dona de casa e de mãe que vive apenas para cuidar do filho, a provedora. Para além disso, no caso de César, essa forma de compreender a relação de gênero, demarcando uma dita superioridade, foi presenciada dentro de casa.

Magda contaminava seus pensamentos. Havia dias em que acordava e estava certo de que odiava a mulher. Desprezava sua burrice, não era capaz de suportar sua voz ou seu olhar afetado. Enxergava-a vulgar. Queria mesmo matá-la. Esteve por momentos certo de que o faria. (p. 96)

Mas a passagem do tempo e o discurso de emancipação feminina e de entendimento sobre o corpo se fazem presentes. Iraci, inserida num outro tempo, se divorcia e consegue ser mãe e trabalhar como médica, seguindo os passos do pai, que, mesmo depois de morto, ainda mantém determinada influência na filha. Contudo, o que outrora não tinha nome ou não era levado a sério pelos mais velhos, com a proximidade dos tempos atuais, passa a ser reconhecido como um diagnóstico psiquiátrico, com o uso de remédios e uma relação mais amena com a filha. Esse é um ponto interessante do percurso narrativo; o tempo está ali costurado à narrativa e percebemos essas mudanças nas pequenas atitudes que as personagens tomam de forma sutil e muito coerente.

A presença dessa figura autoritária representada pelo homem, marido, pai, médico e avô só tem fim quando Magda a questiona e se rebela, ao dizer que vai sair de casa. A libertação da matriarca também evidencia a presença do pai como um fantasma inconsciente que acompanha Iraci, e tem nele sua devoção, um caminho a seguir. Essa presença é sintomatizada na violência com Amélia, repetição da violência que Magda sofria do marido.

– Depois dessa noite, acabou para mim. Vamos embora, e você que fique sozinho nesta casa maldita. – As palavras saíram robóticas, resultado da fala ensaiada centenas de vezes na frente do espelho. A chegada da neta fora o gatilho. Dessa vez não cometeria os mesmos erros, não iria permitir que também Amélia fomentasse naquele ódio. Magda por anos tinha se preparado: juntou algum dinheiro, pesquisou seus direitos e esperou o momento certo. Com a formatura de Iraci, não precisariam mais dele. (p. 147-148)

A construção das personagens é constante, apresentando novas facetas e os espaços também dizem muito sobre a subjetividade das protagonistas: a casa asséptica e organizada da Magda, que esconde, ao olhar atento, manchas, rachaduras e nódoas. Na casa, após a saída da filha, o quarto fica trancado, representando como a mãe quer esconder e não revisitar Iraci. A casa de Iraci, pequena e cinza, com objetos espalhados pelo local – resultado das compras compulsivas da personagem –, e o quarto da filha ao fundo, pequeno e sem janela, representam como essa relação está escondida e obscurecida para Iraci. Amélia ressignifica aquele espaço, no canto da casa, com seus ursos de pelúcia e, posteriormente, os livros, como fuga e pulsão de vida no meio de tanta desgraça.

Por tratar de relações tão amplas e com consequências múltiplas, o texto apresenta analogias com tons poéticos, do qual o exterior perpassa e dialoga com o interior das personagens. As imagens que o livro apresenta estão ali em prol da fluidez da narrativa, como na cena em que Magda joga o carro sobre a casa, mas não derruba nem destrói – uma metáfora sobre a figura fortificada de César e a dificuldade de destruir esse homem: “Na luta entre a casa e o corpo, perdeu o corpo, venceu a casa” (p. 102). Ou, ao final, quando Amélia e Magda se encontram, após um mês da morte de Iraci, o trançar do cabelo aparece como símbolo da construção desse vínculo, num momento muito delicado.

Além disso, há toda uma presença de outras mulheres que vieram antes de Zambiazi e são citadas de forma direta ou indireta no romance. Mulheres acionadas por reverberarem em outras mulheres: há uma referência embalada por Clarice Lispector, quando Magda visita um jardim, ou a própria cidade no período em que o marido está no hospital, experiência no limiar do erótico e dialogando com o conto “Amor”; Sylvia Plath também é citada de forma direta; o olhar microscópico para as relações domésticas, ecoando os romances da Carla Madeira; e o vestido da vingança de Lady Di, aparece quando Magda assiste ao seu algoz morrer de infarto fulminante, são alguns exemplos dessas conversas e reverências.

Durou um momento, não teve fim, é pungente e muito bem construído. As relações complexas entre mães e filhas saem do óbvio no passar das páginas e ganham novas dimensões, sem deixar de lado a influência do patriarcado nessas vidas e subjetividades e, principalmente, sem esquecer o desenvolvimento narrativo, o movimento e a transformação das personagens ao longo do tempo, o trato com a linguagem e os ganchos no enredo. Gabriela Zambiazi escreve um ótimo primeiro romance.

Durou um momento, não teve fim, de Gabriela Zambiazi/ Todavia, 2026/ 232 pp.

MAR ABERTO

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