Nascido em Camaçari, na Bahia, e vivendo em São Paulo, Jordan é escritor, poeta, dramaturgo e slammer. Sua produção literária parte de experiências negras, periféricas e LGBTQIA+, explorando o desejo, a sexualidade, a infância e as possibilidades da língua portuguesa. Autor de Coisa feita: dois preto apaixonado na cama (Reformatório), com o qual venceu o Prêmio Caio Fernando Abreu de 2023, o poeta acaba de lançar Pivete musa (Malê), livro em que revisita as experiências de crianças negras e LGBTQIA+ que crescem em contextos de vulnerabilidade social.
A relação de Jordan com a poesia HomoAfroErótica começou nas batalhas de slam, quando passou a percorrer diferentes regiões de São Paulo apresentando seus versos. Em sua escrita, o poeta faz uso do pretuguês e do bajubá, valorizando formas de expressão que nascem e se transformam nas vivências de pessoas negras e da comunidade LGBQIA+. Para ele, essas linguagens estão entre as manifestações mais bonitas e vivas da língua portuguesa.
Em entrevista para a revista O Odisseu, Jordan fala sobre o início de sua produção HomoAfroErótica, relembra a emoção de vencer o Prêmio Caio Fernando Abreu, conta como as apresentações da artista baiana Léo Kret marcaram seu primeiro contato com a poesia falada de assuntos ligados à comunidade LGBTQIA+, reflete sobre as diferenças entre escrever para o palco e para o livro, defende a presença do slam nas escolas e comenta a publicação de Pivete musa, seu trabalho mais recente.

“O bajubá é uma tecnologia linguística de autonomia para raça, gênero e sexualidade, que o tempo inteiro desafia de Lacan a Saussure, bimbando significante e significado”, diz Jordan
Kaio Phelipe: Quando começou a escrever poesia HomoAfroErótica?
Jordan: A ideia começou quando eu estava aprendendo a jogar basquete, por volta de 2021. Mas só ganhou forma mesmo quando comecei a participar das batalhas de poesia, das batalhas de slam. Porque antes de publicar essas poesias em formato de livro, percorri São Paulo de ponta a ponta, falando essas poesias nas batalhas e ganhando algumas. Com isso, eu entendi que foi bom ter começado.
KP: Qual é a importância de escrever em pretuguês e bajubá?
J: O pretuguês e o bajubá são o que há de mais vivo na língua portuguesa no momento. Até o internetês acho que deu uma caída nos últimos anos, mas o pretuguês não.
Toda vez que eu volto na Bahia, volto com um novo repertório, e a fabricação dessa bolota de palavras é irrastreável, o que é lindo, o que inventa mistérios para o idioma.
Já o bajubá é uma tecnologia linguística de autonomia para raça, gênero e sexualidade, que o tempo inteiro desafia de Lacan a Saussure, bimbando significante e significado.
Escrever tudo isso é mostrar para o futuro que no nosso tempo a língua portuguesa tava babadeira. Porque se depender da literatura de gabinete, toda vez que falarem do nosso tempo, vai ter gente bocejando.
KP: Como foi ganhar o Prêmio CFA com Coisa feita: dois preto apaixonado na cama?
J: Foi um sonho. Eu já amava muito o prêmio Caio Fernando Abreu, amava o Festival Mix.
Logo que cheguei em São Paulo, fui assistir a programação do festival e fiquei encantado. Daí, veio uma vontade muito grande de fazer parte da história do festival.
Então, escrevi o livro Coisa feita, fui pra lavagem do Bonfim, e amarrei a fitinha no braço pedindo para ganhar o prêmio CFA.
No dia da premiação, a fitinha quebrou sozinha. Foi arrepiante, comecei a chorar quando a fitinha caiu do meu punho. E fui para a noite de premiação convicto de que ganharia. E ganhei.
No ano seguinte, voltei na lavagem do Bonfim pra agradecer e pra pagar minha promessa.
KP: Quando foi seu primeiro contato com narrativas literárias sobre a comunidade LGBTQIA+?
J: Foi com Léo Kret, uma dançarina baiana, que se apresentava numa banda de pagode chamada Saiddy Bamba, e que ela falava poesias no palco enquanto performava. Aquelas apresentações circulavam em DVD pelas casas da periferia de Salvador e Camaçari. E eu via incontáveis vezes o DVD, só para ver o trecho que aparecia Léo Kret. Foi a primeira vez que eu vi alguém performando poesia falada, spoken word e com temática LGBT.
“O slam precisa ir para as salas de aula não como disciplina, mas como intervenção freiriana”
KP: Existe diferença entre fazer poesia para slam e para publicar em livro?
J: Na minha produção, existe. Tem poesias que eu escrevo e penso “essa aqui eu quero falar nas batalhas de slam”, “essa aqui eu quero postar nas redes sociais”, “essa aqui quero mandar no zap”. O suporte, isto é, o meio onde você pretende publicar, influencia as técnicas.
Dificilmente você vai captar atenção do público numa batalha de slam se você estiver falando de amor – são poucos poetas que conseguem isso – ou se você estiver falando uma poesia sem punchline. Assim como não dá para escrever um livro inteirinho sem escrever em versos livres.
Decidir pelo suporte principal da poesia, faz parte do ofício de escanção poética.
KP: Qual é a importância da cena slam?
J: É a mesma importância da igreja para a fé. Ir numa batalha de slam faz qualquer um acreditar na poesia, acreditar num futuro melhor, na palavra, no ebó.
Eu me emociono em todo slam que vou. Sou uma pessoa muito mais feliz depois que comecei a participar da cena, e por de imediato ter me sentido acolhido por todos aqueles artistas geniais. Eu era absurdamente melancólico. Antes de conhecer a cena, achava que nunca iria me alocar como artista no mundo. A cena me deu coragem, nome, identidade, amigos, carreira. Sinto que tenho uma família que vai comemorar junto comigo cada passo dessa trajetória e que nos momentos difíceis também terão uma poesia para mim. Nós torcemos uns pelos outros, mesmo estando numa batalha, numa competição. É como se cada um ali tivesse o poder de decodificar a cifra da individualidade de cada artista, de cada sujeito.
O slam é o exercício do genial. É o esporte que cuida de promover a extensão da matéria sapiens de cada indivíduo. Coisa que nenhum teste de QI conseguiu fazer até hoje. O slam precisa ir para as salas de aula não como disciplina, mas como intervenção freiriana.
Porque no slam o sonho do oprimido, não é virar opressor, é virar poeta.
KP: Existe algum projeto literário em andamento?
J: Acabei de lançar o livro Pivete musa, pela editora Malê. Um livro sobre infâncias LGBTs negras, em contextos de vulnerabilidade social. Está lindíssimo, com capa de Maxwell Alexandre, contracapa de Geovani Martins, posfácio de Marcio Junqueira. Estou muito contente com o corpo que esse projeto literário ganhou.

A conversa continua
Toda leitura é uma viagem. Compartilhe suas impressões, lance suas ideias ao mar e descubra outros horizontes de interpretação.
O mar ainda está em silêncio. Que tal ser a primeira pessoa a lançar uma ideia à água?