“Quando falamos do Nordeste, falamos de luta e resistência”, me contou Marcelo Ramos, autor maranhense, professor de língua portuguesa com formação na Universidade Federal de São Paulo. Seu primeiro livro, “Vagalumes”, lançado pela Editora Patuá, traz no texto tanto a luta quanto a resistência mencionadas. Trata-se de um romance de estreia em que lendas, cores e sons que povoam o imaginário dos nordestinos, sobretudo os sertanejos, se articulam tanto na narração quanto na construção dos personagens.
Em termos de construção narrativa, “Vagalumes” é um romance que bebe daquilo que há de mais clássico na tradição romanesca. A jornada do herói, Fernando, consiste diretamente em uma viagem motivada por motivos lendários. Ao longo do livro, há, portanto, um deslocamento geográfico, mas também espiritual, uma transformação profunda diferencia o homem que sai do homem que chega. Para construir essa trama em que as lendas nordestinas e o folclore brasileiro dançam diante do leitor, Ramos convoca referências mais que especiais. Em diálogo com o trabalho de Ruth Guimarães, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, Marcelo traz uma história que nos soa familiar e nova ao mesmo tempo. Na conversa que você confere agora, o autor fala um pouco mais da construção dos personagens e suas influências.

“Não consigo me imaginar escrevendo uma obra sem a presença do realismo mágico em sentido amplo”, diz Marcelo Ramos
Quero começar pelo começo: Você dedica o livro a Ruth Guimarães. Fale um pouco desta decisão e como a literatura de Ruth te tocou.
Considero Ruth Guimarães a minha avó literária, pois foi lendo as suas obras que resgatei a vontade de escrever. O romance “Água Funda” me tocou profundamente, depois quis conhecer os outros livros e a biografia dessa incrível autora. O que mais me cativou foi a forma como ela descreve os sentimentos e mistura a dura realidade com os elementos mágicos que fazem parte da tradição popular. Ruth foi a minha principal referência, eis o motivo de dedicar o meu livro a ela.
No prefácio de Amanda Fernandes, ela apresenta o seu livro como sendo um livro “de realismo e de fantasia”, o que nos faz pensar diretamente numa ideia de “realismo fantástico” também. Há interesse de sua parte de se inserir nesta tradição literária latino-americana?
Não é uma questão de interesse, simplesmente faz parte da minha essência como leitor e escritor. Não consigo me imaginar escrevendo uma obra sem a presença do realismo mágico em sentido amplo, com algumas hesitações comuns ao fantástico. Fico feliz por saber que as minhas principais referências são brasileiras, como José Cândido de Carvalho e a própria Ruth Guimarães. Eu cresci ouvindo histórias sobre seres e acontecimentos extraordinários, minha cabeça sempre esteve habitada por elementos que não se limitam à nossa realidade. Obviamente que, quando vou escrever, esses temas surgem de maneira determinante para as narrativas.
Inclusive, esta tem sido uma classificação feita a outros autores brasileiros que estão resgatando a oralidade e os mitos fantásticos brasileiros, como Micheliny Verunschk e Itamar Vieira Jr. Como você vê a sua literatura em comparativo à desses outros autores brasileiros que estão também escrevendo sobre o “Brasil profundo”? Será que estamos vendo um novo movimento literário?
Não creio que venha a ser um novo movimento, se trata apenas de um resgate. Os tempos exigem a necessidade de manter essa tradição viva, não podemos deixar que a magia brasileira se perca. Quanto ao comparativo com os autores mencionados, ainda não posso bater o martelo. “Torto Arado” está parado em minha estante à espera do grande momento da leitura, e “O som do rugido da onça” segue na minha lista. Mas sinto aproximação com Socorro Acioli, sua obra tem uma força impressionante e fez com que eu criasse uma profunda admiração pela autora.
Seu livro parece cumprir o que há de mais romanesco possível, dentro da tradição do romance: há um herói bem demarcado, Fernando, e também é uma narrativa que envolve diretamente uma viagem ou um trânsito. Fale um pouco da construção deste herói.
Fernando é o Odisseu sertanejo. O motivo da partida tem o aspecto lendário, pois não se pode duvidar de que matar o pássaro anum leva a sete anos de azar. A viagem de retorno para casa é repleta de desafios, aparições e encontros. O herói é moldado pelo espaço rural, pelas vivências e os mistérios. O trânsito não é apenas físico, os seus sentimentos estão em frequente movimentação, como nas voltas à infância e nas inquietações em relação ao futuro. Ao longo do processo de escrita, Fernando foi nascendo e morrendo, se autoconstruindo e se autodestruindo. É uma narrativa essencialmente triste.
“O questionamento político não foi inserido [no livro], ele é intrínseco”
Este ano é o ano dos 70 anos do clássico Grande Sertão: Veredas, um livro que deu régua e compasso a todos que desejaram escrever a partir de uma fantasia realista no interior do Brasil. Guimarães foi uma influência para você?
Sem dúvidas, “Grande Sertão: Veredas” foi uma das minhas principais inspirações. A relação entre Fernando e Inocêncio tem respingos de Riobaldo e Diadorim. Há ainda as questões relacionadas às terras e ao diabo. Mas, principalmente, em como Deus põe luz nos momentos de maior escuridão. Guimarães Rosa é um escritor incomparável, não digo que “foi” porque o pretérito não existe em seu caso, afinal ele continua e continuará sendo toda essa grandiosidade enquanto a sua obra viver. Ou seja, Rosa é imortal. É lindo que a epígrafe da primeira parte de “Vagalumes” seja um pequeno pedaço do gigante sertão que há no coração humano.
Há também em seu livro um caráter político bem demarcado, uma denúncia muito forte aos poderes que controlam as terras no Brasil. Como foi para você inserir esse questionamento político, dosando com a estética e com os recursos de linguagem?
O questionamento político não foi inserido, ele é intrínseco. Em nenhum momento eu precisei parar para introduzir essas questões, pois todas elas surgiram automaticamente com os fatos. Há a questão das terras, mas a obra também deixa escancarada a violência contra as mulheres e as dificuldades para acessar alguns direitos básicos. Quem estuda História ou viveu na carne esses problemas, sabe que a região melhorou em muitos aspectos. Uma grande árvore foi plantada e deu sombra para muitas pessoas, essa é a verdade. Quando falamos de Nordeste, falamos de luta e resistência. Nesse sentido, “Vagalumes” também se torna uma obra reveladora. Hoje, Esther não morreria à míngua como tantas outras crianças.
Enquanto lia o seu livro, lembrei bastante também do trabalho desenvolvido por Graciliano Ramos, afinal, também há um teor bem íntimo e psicológico em Fernando, um personagem tomado pela culpa, pela vergonha, algo como o personagem Paulo Honório, de São Bernardo, do Velho Graça. “Vagalumes” poderia ser lido também como um romance psicológico?
Com certeza, Vagalumes é um livro narrado em primeira pessoa por um homem que precisa lidar com diversos problemas externos e internos, não tinha como ser diferente. Li “S. Bernardo” antes de escrever o meu livro, a influência existe. Menciono ainda outras duas obras de Graciliano Ramos: “Vidas Secas”, pois foi conhecendo Baleia que tive vontade de criar o cavalo Soberano; e “Angústia”, que me trouxe, assim como “Crime e castigo”, as maiores referências de cenas sangrentas e conflitos psicológicos.
Depois da escrita deste romance de fôlego, você já pensa em escrever algo a seguir? Pode adiantar para os leitores?
Estou trabalhando no desenvolvimento de muitos projetos. As ideias estão chegando e, aos poucos, vão tomando forma. O que posso adiantar é que as próximas obras ainda serão muito próximas de “Vagalumes” nos temas e no estilo. Ainda não sei a ordem em que irei concluir os projetos, mas para 2027 os leitores podem esperar um livro de contos ou um novo romance. Também tenho uma narrativa infantil finalizada, talvez não demore para chegar até vocês. A verdade é que estou muito feliz por estar construindo esta carreira como escritor, é uma vitória pessoal e familiar. Sonho em publicar muitos livros e esse apoio inicial tem sido fundamental. Gratidão a todos que deram espaço para os vagalumes, em breve nos reencontraremos!

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