Professora e escritora, Bruna Mitrano é autora dos livros Ninguém quis ver (Companhia das Letras, 2023) e Não (Patuá, 2013). Também participou de diversas antologias, como Explosão feminista (Companhia das Letras, 2018) e As 29 poetas hoje (Companhia das Letras, 2021), ambas organizadas pela imortal Heloisa Teixeira. A relação de Bruna com a escrita começou em 2009, quando criou um blog, mas foi em 2016, com a publicação de seu primeiro livro, que passou a se reconhecer, ainda que com resistência, como escritora. Hoje, é considerada uma das maiores autoras de sua geração.
É na Zona Oeste carioca que Bruna tem boa parte de suas lembranças e encontra referências para o que escreve. Sua relação com o território se estende à atuação política, iniciada em 2001, quando ingressou no movimento estudantil. Desde então, mantém-se ativa nas questões sociais e políticas que atravessam o país, sobretudo os subúrbios e as favelas. Moradora de Senador Camará, há décadas Bruna acompanha o crescimento do conservadorismo e da milícia e seus efeitos sobre a vida dos moradores.
Em entrevista para O Odisseu, Bruna Mitrano fala sobre a presença da memória e do subúrbio em seu trabalho, o avanço do conservadorismo, suas primeiras leituras sobre a comunidade LGBTQIA+, além de recordar a relação com Heloisa Teixeira e adiantar detalhes de As crianças daqui, seu próximo livro, dedicado às diferentes experiências da infância.

“Publicar um livro foi um movimento difícil. Eu não me enxergava como escritora. Até hoje tenho dificuldade.”, diz Bruna Mitrano
Quando começou o interesse por escrever poesia?
Em 2009, criei um blog. Ali, eu falava de coisas da minha vida. Com o tempo, o meu jeito de contar foi adquirindo um tom mais poético, a escrita se tornou mais fragmentada, biografemática. Só em 2016, quando publiquei meu primeiro livro, tomei coragem de escrever em versos.
Eu tinha vergonha de me assumir poeta. Enquanto eu escrevesse em prosa e no blog, poderia dizer: é só um monte de bobagem que sai da minha cabeça. Publicar um livro foi um movimento difícil. Eu não me enxergava como escritora. Até hoje tenho dificuldade.
Qual é a relação da sua poesia com a memória?
Escrevi o Ninguém quis ver para minha avó, já morta. Não para ressuscitá-la, mas para guardar em livro as histórias que ela me contava e que ficaram grafadas na minha pele. A minha poesia vem da memória do corpo, que é uma memória inconsciente e, por isso, capaz de gerir afetos.
E qual é a importância de Senador Camará e do subúrbio carioca para o que você escreve?
Senador Camará é onde a infância acontece, é onde minha avó está viva, é onde Bruna encontra a Poesia. Escrevo no subúrbio, sobre o subúrbio e para o subúrbio.
Você participou da antologia “As 29 poetas hoje”, organizada por Heloisa Texeira, que também assina a orelha de “Ninguém quis ver”. Como era sua relação com a Heloisa, que foi uma das intelectuais mais importantes do Brasil?
Nunca fui íntima da Helô. Ela gostava do meu trabalho e isso me enche de alegria. Tenho poemas em dois livros que ela organizou, Explosão feminista e As 29 poetas hoje. Helô aceitou o convite para escrever a orelha do Ninguém quis ver de imediato, mas teve uma coisa que me emocionou mais do que isso. Depois de ler o livro, ela me ligou para conversar sobre minha trajetória literária. Antes de escrever a orelha, ela queria saber mais de mim, do que me levou a escrever, das minhas primeiras publicações. Passamos três horas conversando. E olha que ela não tinha tempo sobrando, não. Nessa época, Helô estava recém operada e na curadoria de um grande festival literário. Aquilo foi uma lição. Era só uma orelha! Tanta gente usando IA, mas a imortal Helô não fazia nada de qualquer jeito.
“Moro onde a milícia nasceu”
Você é bastante ativa politicamente. Como tem analisado o avanço do conservadorismo?
Conheci a UNE e ingressei no movimento estudantil em 2001. Faz vinte e cinco anos que sou ativa politicamente. Primeiro como estudante de escola pública, depois como estudante de universidade pública, finalmente como professora da rede pública e agora como poeta, pública (risos). Bom, moro onde a milícia nasceu. Acompanhei nascimento e crescimento. Vi a religião evangélica se coligar ao poder paralelo e o conservadorismo se alastrar até chegar à Presidência da República. Para a gente da favela, que vive numa espécie de ditadura militar (diferente daquela que terminou no ano que nasci, porque considera um recorte de classe), não foi nenhuma surpresa quando a extrema direita tomou o poder em 2019. É o absoluto horror. Nosso inimigo é grande, forte e bem organizado. Nas regiões onde o poder público não chega, a milícia e as igrejas oferecem o básico, comida, lazer e até atendimento médico. Nós da esquerda precisamos batalhar muito se quisermos, de fato, combatê-lo.
Quando foi seu primeiro contato com um livro sobre a comunidade LGBTQIA+?
Comecei a ler muito tarde. E comecei pelos meus contemporâneos. O primeiro livro que li com protagonistas lésbicas foi Duas iguais, de Cíntia Moscovich.
Seu último livro, Ninguém quis ver, foi lançado em 2023. Tem algum projeto de livro em andamento?
Tenho um projeto que ficou parado um tempo, mas pretendo retomar, sobre as crianças das periferias. Se chama As crianças daqui. E esse “aqui” é grande. Vai do meu bairro até Gaza. Passa pelos corpos dissidentes, os corpos malditos. Passa pela infância que não é infância. Pela infância, por exemplo, da menina que tem que cuidar dos irmãos menores enquanto a mãe trabalha, do menino que perdeu a casa na enchente e seguiu o caminho do tráfico, das crianças que brincam com latinhas em vez de bonecos e por aí vai.
A conversa continua
Toda leitura é uma viagem. Compartilhe suas impressões, lance suas ideias ao mar e descubra outros horizontes de interpretação.
O mar ainda está em silêncio. Que tal ser a primeira pessoa a lançar uma ideia à água?