Pular para o conteúdo
Entrevistas

Julia Baranski: “Tudo o que trata sobre o feminino ou que é escrito por uma mulher pode ser lido sob uma perspectiva de gênero”

Em entrevista, Julia Baranski mostra a complexidade do seu projeto estético presente em “As prostitutas vos precederão no reino dos céus”.

Durante esta entrevista com Julia Baranski, autora do excelente “As prostitutas vos precederão no reino dos céus”, publicado pela editora Nós, há uma série de termos (ditos por mim ou por Julia) que dizem respeito gêneros textuais não-ficcionais e não-poéticos: genealogia, documento, leis, enciclopédia, inventário, acervo. Entendi o livro como uma genealogia de mulheres insubmissas, um inventário que se organiza através da palavra poética. Como Julia diz em determinado momento, não se trata, essencialmente, de um livro de poemas. Essa conversa direta com outros gêneros, como o documento histórico, a legislação e a reportagem, garante ao livro um caráter documental e de manifesto. 

Ao longo da entrevista que você confere agora, você irá perceber que o projeto estético de Julia Baranski é muito complexo e utiliza da lacuna, da impossibilidade de mapear todas as histórias de feminicídio e de insubmissão, como um motor criativo. Baranski conversou um pouco sobre as suas referências, me explicou alguns detalhes que eu não havia compreendido muito bem, e jogou luz sobre esta obra tão interessante da literatura brasileira contemporânea.

Julia Baranski, autora de As prostitutas vos precederão no reino dos céus (Divulgação).

“Eu acredito que poesia é uma palavra aberta, capaz de agasalhar diversos gêneros literários — todos híbridos, ao meu modo de ver. A poesia é uma maneira de olhar para o mundo, de escrevê-lo.”, diz Julia Baranski

Ewerton Ulysses Cardoso: Julia, em seus poemas, você constrói praticamente uma genealogia das mulheres insubmissas. Como foi o processo de estudo da história da rebeldia das mulheres para a escrita do livro?

Julia Baranski: O processo de estudo ocorreu basicamente a partir das leituras que eu já tinha feito ao longo da vida e dos livros que estavam no meu radar de leitura durante a escrita do livro. Uma coisa foi puxando a outra. Um livro foi puxando o outro. Uma mulher citava outra mulher que citava outra mulher e eu fui atrás dessas fontes para, através de um trabalho intenso de curadoria, decidir quem ficava dentro e quem ficava fora. Virginia Woolf, Angélica Freitas, Mar Mecker, dentre outras, são escritoras que eu já havia lido antes mesmo da intenção de escrita de As Prostitutas. Quando busquei no google as circunstâncias e características dos feminicídios mais famosos do Brasil, descobri (ou relembrei) que Mércia Nakashima foi encontrada morta numa represa em Nazaré Paulista, o que logo me remeteu ao livro A mulher submersa da Mar Mecker. Embora o livro da Mar não seja sobre violência contra a mulher, tudo o que trata sobre o feminino ou que é escrito por uma mulher pode ser lido sob uma perspectiva de gênero. Assim, os estudos e as analogias foram sendo costurados, devagar e inusitadamente.

EUC: A liberdade da mulher, em seus poemas, em muito é relacionada à liberdade sexual. Há muita controvérsia a respeito desta liberdade do sexo. Muitas feministas, por exemplo, reivindicam que a liberdade do sexo, como feito por mulheres públicas, tem apenas ajudado o patriarcado. Gostaria que você falasse um pouco do que pensa sobre o tema. 

JB: Não vejo o livro desta forma. A última parte “Estatuto da mulher histérica” não trata em absoluto sobre liberdade sexual, mas sim sobre o desejo de sermos reconhecidas como seres pensantes e lúcidos à revelia do diagnóstico médico reducionista da histeria, este sim sexualizante porque ancorado no útero. A segunda parte “Estatuto da mulher adúltera” trata sobretudo do nosso anseio por liberdade, o qual pode ou não se traduzir e se concentrar no desejo sexual. Há poemas sobre travestis que foram prostitutas e que, apesar de trabalharem com o corpo, o utilizam à maneira de uma pequena vingança, apresentando nos poemas sua subjetividade e seus conflitos. Nesta mesma parte, há ainda poemas que são manifestos de quem tem medo de morrer todos os dias unicamente por ser mulher. Ao trazer para o livro, histórias reais e fictícias de feminicídios, como o de Ana Mendieta, Mércia Nakashima, Eliza Samudio, etc, pretendi, na realidade, dessexualizar estes corpos —, estes cadáveres boiando nas represas e enterrados nos sítios — que, um dia, foram sexualizados em demasia por seus algozes, todos homens. Por fim, a primeira parte “Estatuto da mulher casada” trata da liberdade sexual, o que é bastante diferente da liberdade do sexo. Eu trago documentos, mini biografias, uma arqueologia poética que vai desde cantigas de roda à cantigas de amor e cantigas de amigo que denunciam que não somos nós quem nos reduzimos à esfera sexual e reprodutiva, mas o Outro. E, ainda que não fosse assim, eu não vejo como problemático, pelo contrário, vejo como benquisto e necessário, a inscrição do corpo na literatura. Citando Helene Cixous Não serei uma mulher sem corpo. Uma mulher sem corpo não é uma boa combatente. Isto significa que o corpo é um território de disputa — o útero, o seio, o leite materno, o sangue menstrual, o gozo —, de modo que ele precisa aparecer mais nos discursos, a fim de que, aos poucos, sejamos nós a escolher quando e com quem iremos (por vontade própria e livre) sexualizar os nossos corpos. 

EUC: Algo muito interessante em seu fazer poético, é a presença de outros formatos de textos e gêneros textuais. As leis, por exemplo, são muito importante para entender o seu projeto estético. Como surgiu essa ideia e qual a função desses outros textos na sua literatura?

JB: As prostitutas é e não é um livro de poemas. Numa mesa, durante a Flip, Nanni Rios o definiu como “um livro para quem gosta de poesia”. De fato, não é um livro de poemas, mas não deixa de ser um livro de poesia. Eu acredito que poesia é uma palavra aberta, capaz de agasalhar diversos gêneros literários — todos híbridos, ao meu modo de ver. A poesia é uma maneira de olhar para o mundo, de escrevê-lo. Para Octávio Paz, em “O Arco e a Lira”, o romance contemporâneo alcança a sua plenitude ao se transfigurar em poema, isto é, quando alcança uma recriação mítica e rítmica do mundo. É a esta corrente do fazer literário a que me filio. Portanto, não abro mão de utilizar qualquer recurso que possa aumentar o efeito pretendido. No caso das leis, foram elas que deram título às partes do livro e, através delas, quis demonstrar que o olhar do Outro moldou durante muito tempo a subjetividade, o desejo, o corpo, a história de nós, mulheres. Eu sai de dentro do eu lírico feminino de muitos poemas e trouxe um dado de realidade; procurei demonstrar ao leitor que aquilo contra o que bradaram as Mulheres do Boulevard de Clichy não é uma quimera nascida do útero, mas uma verdade nascida das leis.

EUC: Você também faz referências diretas a outras mulheres escritoras, como é o caso da Rosa Monteiro. Como e por que se dá essa referência?

JB: A referência a Rosa Monteiro decorre da leitura de dois livros dela que foram importantes para a construção do As prostitutas. O primeiro Nós, mulheres: Grandes vidas femininas, através do qual tomei conhecimento de muitas histórias de mulheres que acabei trazendo para o livro, a exemplo da Papisa Joana e da rainha Irene. O segundo A ridícula ideia de nunca mais te ver me trouxe informações sobre Marie Curie, a quem eu também dedico um poema. Além disso, Rosa Montero é uma escritora que brinca com os postulados da ficção e da realidade, misturando as esferas do que é e do que não é real. No livro A louca da casa — dedicado a sua irmã gêmea Martina que, depois, descobriu-se que nunca existiu —, ela mistura ensaio, ficção e memórias de maneira a derrubar as fronteiras entre realidade e fabulação. Esta não deixa de ser a proposta estética de As prostitutas, um livro de poemas que não é um livro de poemas e que traz em si o fabuloso e o noticiário, a lírica de personagens de romance e a tragédia de mulheres reais. 

EUC: Em termos de forma, consigo localizar os seus poemas em projetos da contemporaneidade que desafiam o que pensamos que pensamos enquanto um livro de poemas convencional, como acontece com o “Asma”, de Adelaide Ivánova. Quais são as autoras contemporâneas que têm te inspirado?

JB: Eu leio de tudo: poesia, conto, romance, ensaio, crônica. Ultimamente, para ser sincera, tenho lido muitos livros sobre maternidade, inclusive, livros não literários. Porém, no próprio apêndice — índice onomástico — do As prostitutas eu trouxe uma série de escritoras que são fonte de admiração e que me ajudam a encontrar o meu próprio caminho na literatura: Angélica Freitas, Mar Becker, Daniela Rezende, Amara Moira, dentre tantas outras.

EUC: A propósito, muito tem se dito a respeito da poesia brasileira contemporânea ter as mulheres como protagonistas. Você concorda com isso?

JB: Acho que o cenário atual está, sim, mais inclusivo. Contudo, acredito que ainda temos bastante chão pela frente, principalmente quanto à tendência de classificação da literatura feita por mulheres como algo menor ou, em outros termos, nichado. 

EUC: Você sente que ainda há resistência no que se refere à produção de mulheres na poesia brasileira?

JB: Eu sinto que, embora haja uma profusão de novas poetas, muitas com reconhecimento de público e de crítica, ainda existe uma tendência de classificar a literatura feita por nós como panfletária, nichada, menor e que não trata de temas universais. A resistência, portanto, aparece quando estamos diante de temáticas, léxicos, gramáticas, performances que são pensadas e propostas por outros corpos, por pessoas que vivem e experienciam o mundo de maneira distinta daquelas a que o cânone está acostumado. Aqui entra, por exemplo, a questão do corpo, sobre a qual falamos acima.

EUC: Na minha leitura, a sua obra ganha uma dimensão de manifesto. Muito tem se discutido sobre o caráter político de uma obra, afirmando que na contemporaneidade se prefere o tema à forma, mas você mostra que é possível conciliar os dois. Como, na sua poesia, forma e conteúdo se articulam?

JB: Como dito acima, As prostitutas não é um livro de poemas, mas um livro de poesia, um palimpsesto; um manuscrito que não termina de nunca de dizer o que quer dizer: “eterno palimpsesto/de palavras recém-chegadas/ de cabras recém-paridas/ com as moleiras ainda abertas/ onde está o começo de todas as coisas.” Minha ideia era a de que fosse um livro fragmentado. A união não óbvia de fragmentos da História e da história (herstory) que, através de personagens reais e fictícias, fosse capaz de traduzir a experiência de ser mulher ao longo do tempo. E porque são múltiplas as mulheres em sua experiência, individualidade, inserção sócio-cultural e econômica, foram múltiplas as ferramentas e técnicas empreendidas para estruturar o livro. Busquei meios de me aproximar e de me distanciar do real, permitindo que o jogo entre realidade e ficção ficasse bastante evidente ao longo da leitura.

As prostitutas vos precederão no reino dos céus, de Julia Baranski/ Editora Nós, 2025/ 96pp.

E, considerando que eu queria explorar um número muito grande de coisas, pessoas, personagens, documentos, fatos históricos, etc., o poema em verso, o poema em prosa e o fragmento acabaram sendo ferramentas mais convenientes, não apenas em razão do tamanho diminuto, mas também por permitirem uma maior liberdade estética e de forma. Eu queria explorar muitos personagens e também desejava atribuir ao livro certo ar enciclopédico — à semelhança do palimpsesto que já comentamos. Uma enciclopédia não termina nunca de dizer o que quer dizer. Uma enciclopédia não se encerra em si mesma. Aquele que cria e/ou escolhe os verbetes, num exercício de curadoria do que entra e do que sai, tem consciência de que não esgotou todos os assuntos da humanidade. Eu buscava isso. Essa sensação de lacuna, de incompletude, de inconclusão. Embora tantas mulheres tenham sido inseridas no livro, embora tantos textos tenham sido escritos e lidos, embora haja tantos fatos e documentos e leis dentro dos poemas, há o fantasma daquilo que foi deixado de fora e que é imenso, incomensurável. Esta abertura insuportável só o poema aceita.

MAR ABERTO

A conversa continua

Toda leitura é uma viagem. Compartilhe suas impressões, lance suas ideias ao mar e descubra outros horizontes de interpretação.

Comece a conversa

O mar ainda está em silêncio. Que tal ser a primeira pessoa a lançar uma ideia à água?

Seu e-mail não será exibido publicamente. Os comentários podem passar por moderação antes de aparecer no site.

Continue lendo

Relacionados

CAMPANHA DA REVISTA O ODISSEU

Apoie O Odisseu e faça parte da nossa comunidade.

Escolha sua faixa de apoio e tenha acesso a benefícios exclusivos da revista.