Entrevistas

“Escrever é um atletismo”: Lucas Ferreira entrevista Édipo Ferreira

Em entrevista, Édipo Ferreira detalha a criação e os procedimentos de Ponta d’areia, seu segundo livro de poemas.


A poesia contemporânea é muito gentil conosco porque nos permite estar em companhia de poetas que são sobretudo pessoas — um maravilhoso tipo de pessoas, as vivas. E um milagre como esse nos permite, por exemplo, estar aqui, com o Édipo, e lhe fazer perguntas como “café com açúcar ou sem açúcar?”, “você prefere a palavra calêndula ou a palavra toboágua?”, “é correta a afirmativa de que o Teorema de Tales é um caso especial do Teorema do ângulo inscrito, e se os pontos AC são o diâmetro desta circunferência, então os pontos ABC formam um triângulo retângulo?”. O bom dos poetas vivos é que podemos metê-los em furadas, em táxis, em saias (justas). Quase sempre estão dispostos, quase nunca ficam mudos aos nossos convites, às nossas perguntas. Então, Édipo, aproveito sua ilustre presença aqui no Odisseu para te entrevistar não só a respeito do seu mais recente livro, Ponta d’areia (2025, Macondo Edições), mas também sobre a sua trajetória, seus procedimentos, os bastidores da sua escrita. Vamos?

Édipo Ferreira, autor de Ponta d’Areia (Divulgação).

Édipo Ferreira: “Ao escrever, bebo na língua estranha que herdei da minha mãe, minha primeira língua“

LUCAS: Muito bom ter você aqui pra essa conversa, Édipo. Pra quem ainda não te conhece, vou quebrar um pouco a quarta parede e fazer um breve resumo do seu trajeto. Em 2022, Édipo estreou na poesia com o livro Ossário (7Letras). Pela Universidade Federal Fluminense, sob orientação de Célia Pedrosa, defendeu em 2024 a dissertação Escrever com uma tesoura nas mãos: políticas da escrita em Marília Garcia. No mesmo ano publicou a plaquete de tradução dos poemas de Martin Gambarotta (Editora Fictícia). E mais recentemente, em julho de 2025, publicou seu segundo livro de poemas, chamado Ponta d’areia (Macondo Edições). Além de poeta, pesquisador, crítico e tradutor, também atua e ministra oficinas de escrita. Mas, Édipo, vamos começar pelo começo? Como você começou a escrever?

ÉDIPO: Desde a infância, possuo uma relação conturbada com a linguagem. Ainda criança, fui exposto a textos cheios de carga poética. Dois tios violeiros faziam uma espécie de disputa rimada no quintal lá de casa. Quem improvisasse o melhor verso, ou seja, realizasse a melhor rima e contasse a melhor história, vencia. Nunca me saiu da mente “Eu atravessei o rio/ montado num acará”. Lembro da inquietação que esses versos me causaram: “Como ele conseguiu atravessar o rio montado num peixe?”.  Me apropriei desses dois versos para compor um dos fragmentos de Ponta d’areia. Também me lembro de minha mãe falando por meio de enunciados que me desconcertavam o pensamento. Após passar o dia na rua brincando, jogando bola, voltava para casa já tarde para almoçar. E escutava coisas como: “O galo, onde canta, janta”. Eu tinha dificuldades para decifrar ditados como esses, sempre atrelados à repreensão: “Passarinho que acompanha morcego amanhece sem um pingo de sangue na cabeça”. É evidente, nesses textos, o tensionamento nos signos. O referente de “galo” e  “passarinho” era eu, Édipo. O que tenho feito atualmente é positivar isso que, na infância, era um problema para mim: a relação conturbada com a língua (ao menos nesses tipos de enunciado, cheios de carga poética). Ao escrever, bebo na língua estranha que herdei da minha mãe, minha primeira língua. Dessa herança, destacaria dois aspectos que me servem como dispositivos à minha escrita: a produtividade semântica e a demora, processos intrínsecos à decodificação do texto concebido para o desvelamento. Para sintetizar, comecei a escrever porque me interessa cultivar o estranhamento ante a linguagem.

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LUCAS: Sua relação estranha com a linguagem poética começou, como você disse, no quintal, na mesa de jantar. E quando foi parar nos livros? Isto é, quais livros te formaram enquanto leitor e escritor?

ÉDIPO: O livro que marcou, de forma contundente, minha experiência como leitor foi Água viva (1973, atualmente publicado pela Editora Rocco), de Clarice Lispector. Outro dia você me perguntou qual poema eu gostaria de ter escrito. Pensei um pouco e acho que a resposta é “Elegia a um tucano morto”, do Drummond. Escolhi esse porque é um poema muito bonito. Lembro, como se fosse hoje, da forma com que fui tomado pela beleza desse poema. Eu era adolescente ainda. Estava perambulando pela sala de uma tia minha. Ao me deparar com um vaso decorativo, grande, estranho, meti a mão, o braço, a cabeça, o corpo lá dentro. Parecia Alice no país das maravilhas. Entrei naquele buraco, naquela passagem que me levaria a outro mundo, um mundo deveras fascinante. Foi um caminho sem volta. Dentro daquele vaso decorativo, grande, estranho, estava Farewell, do Drummond. Dentro de Farewell, “Elegia a um tucano morto”.

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LUCAS: Já que você falou de Drummond: os poetas contemporâneos de uma geração anterior à nossa já foram assimilados pelos estudos universitários, — sua dissertação, aliás, acerca do procedimento de escrita da Marília Garcia, evidencia isso. Você acha que na produção da poesia atual, poetas como Edimilson Pereira, Ana Martins Marques, Leonardo Gandolfi e a própria Marília Garcia, entre outros, já se tornaram nossa influência mais direta, nos são mais familiares do que Drummond, Cabral, Meireles, Bandeira, como se fossem já uma segunda ou terceira dentição da influência?

ÉDIPO: Você, nossos amigos, eu, lemos (por paixão e ofício) Drummond, Cabral, e Bandeira (sua pesquisa sobre a obra deste último evidencia isso), nomes incontornáveis quando o assunto é poesia brasileira. E lemos, também com admiração esses/essas escreventes vivos/as, que você acaba de citar. Mas… faz pouco tempo, uma amiga (também poeta) estava reclamando de pessoas do seu entorno que não conhecem poesia, mas uma fração mínima da poesia brasileira escrita por pessoas vivas.  Essa indignação põe em xeque a ideia de que aqui, em Pindorama, cultuamos apenas os mortos. Em se tratando do Edimilson, é constrangedor o (não) lugar que ele ocupa na recepção, na crítica, no currículo acadêmico, nas mesas de bar, ou seja, nos principais espaços de debate sobre a poesia brasileira contemporânea (esteja este círculo de conversa reduzido ou não ao Sudeste). Não sei dizer se esses escreventes vivos, por nós acompanhados/as, “superaram” Drummond, Cabral ou Bandeira. São, sim, talvez, tão lidos quanto estes. É voyeurismo digital contemporâneo que me leva à balança pendendo assim, para os escreventes vivos, incensados com mais frequência (Não é maravilhoso o leitor, além de nossa literatura, saber o sabor de nosso picolé preferido, para qual time torcemos, se preferimos a palavra calêndula ou toboágua? Eu prefiro calêndula.  Sobre esse fight, escreventes mortos x escreventes vivos, valeria a leitura de um texto da Adelaide Ivánova, sobre a Ana Martins Marques, publicado, se não me engano, na Pernambuco (não me lembro qual o número da edição). Trata-se de um texto muito interessante para pensarmos essa “superação” da “influência”. No octógono estão Ana Martins Marques x Drummond. Ana Martins Marques, antecipo desde já, vence por nocaute. 

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LUCAS: Na contracapa do seu segundo livro de poemas, Ponta d’areia, o André Capilé te insere em uma linhagem recente formada por nomes como Edmilson, Lucas Litrento, Nina Rizzi, Eliane Marques. Ao mesmo passo que essa inserção se dá pela tangente. Como você se vê nesse bioma que é a poesia contemporânea? Consegue traçar pontos de afinidade, ou mesmo de dessemelhança, com outros poetas de agora?

ÉDIPO: Estou chegando agora. Escrevi apenas dois livros. Não consigo olhar para o que produzi como uma obra, no sentido forte da palavra. Não sei se tenho uma dicção. Não possuo um trabalho que possa comparar ao que produziram autores/as com mais tempo de/na estrada.  Sobre as afinidades, posso dizer que minha inspiração para a escrita não vem diretamente da literatura (essa mentira é muito boa). Penso em “poetas” como James Ensor, Thelonious Monk, Stanley Jordan, Aretha Franklin… pessoas cuja obra possui uma extraordinária força espiritual. Uma força que contribui bastante para que eu escreva.

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LUCAS: Por falar em contribuição, no Rio se estabeleceu uma rede muito forte entre os poetas, – uma rede afetiva, de intimidade -, e não são raros os encontros para se discutir ou editar um livro antes que ele seja impresso. Você inclusive organizou um desses encontros para discutirmos o Ponta d’areia. Esse fenômeno não é novo, perpassa quase toda a história da literatura brasileira, mesmo com seus altos e baixos. Basta lembrar, para citar um dos casos altos e mais recentes, da ideia do Cacaso de que os poetas da década de 70 estavam todos compondo, no fim das contas, um único “poemão”. Eu queria que você falasse um pouco da importância do coletivo de poetas na sua escrita. É assim desde o Ossário ou teve uma virada de chave em algum momento?

ÉDIPO: Considero essa rede fundamental: amigos, colegas, conhecidos, desafetos etc., especialistas, ou não, em literatura, opinando sobre seu trabalho é muito proveitoso para o projeto em curso. Não, em Ossário não fiz uma leitura coletiva. Quando falei que minha relação com a linguagem é conturbada, falava sério. Isso pode soar poeticamente interessante. Isso pode fortalecer a ideia do artista esquisito. Mas falo de uma dimensão demasiado concreta (e terrível). Tenho dificuldade em ler o que escrevo, em detectar problemas. Cito um exemplo. Em Ponta d’areia, você observou que eu estava fazendo uso excessivo dos pronomes, às vezes, no mesmo poema. Insisto, esse processo de “lanternagem” é precioso. Mas… pensando em nosso contexto de pouca seletividade para a produção de livros, essa rede de leitura é pouco relevante, quase nula. O que conta é o “sim”, acompanhado de um sorriso largo, os tapas cordiais nas costas. Deixo uma dica aos neófitos (como eu): leitura coletiva funciona bem quando as pessoas leitoras têm liberdade para dizer (perdão pelo eufemismo): “Amigo, isso não tá funcionando”.

“Escrever é um atletismo. Não importa quantas maratonas você tenha corrido.“

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LUCAS: Esses encontros pertencem a uma fase de pós-produção. Mas também tem o outro lado dessa linha de montagem conjunta, que são as oficinas. Você inclusive ministrou pela Escola da palavra uma oficina de “construção literária da atmosfera”. Por sinal a atmosfera de tensão no Ponta d’areia é muito bem construída, está o tempo todo esticada. Mas depois falo mais sobre isso. Voltando ao ponto oficina, não só as que você ministrou mas as que você participou, como isso forma o seu jeito de pensar o procedimento de escrita?

ÉDIPO: Ao meu modo de ver, não é tarefa de uma oficina ensinar alguém a escrever. Assim como não consigo imaginar um técnico de futebol ensinando seu jogador a jogar, não vislumbro oficineiros ensinando (no sentido forte do termo) literatura. O que espero, ao participar de/ministrar uma oficina é receber/oferecer ferramentas, procedimentos que as pessoas participantes possam experimentar. Olho para uma oficina como espaço de trabalho, um trabalho a partir de estratégias definidas. Como isso entra no que escrevo? Persigo algumas artimanhas presentes em minhas oficinas. Creio que surgem de modo “automático” quando escrevo, uma espécie de intuição programada, se é que isso é possível. O mais angustiante de quem estuda, como eu, procedimentos e os entende como ferramentas a serviço de um trabalho, é que escrever um poema é sempre uma descoberta do zero. Assim que me sentei para escrever o primeiro poema após a publicação do Ponta d’areia, me deparei com a aflição de ter que aprender, do zero, a colocar, arranjar as palavras uma após outra. Escrever é um atletismo. Não importa quantas maratonas você tenha corrido. 

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LUCAS: Num texto sobre tradução, César Aira uma vez escreveu que o ideal é que o poeta leia apenas em língua estrangeira, assim sua relação com a língua se manteria num lugar de contínuo estranhamento. Recentemente você publicou uma tradução de “9 usos para o corte”, do poeta argentino Martín Gambarotta. Para você, o ofício do tradutor se infiltra no ofício do escritor?

ÉDIPO: Cotejar línguas é uma ótima forma de adquirirmos novas possibilidades de dizer. Dou um exemplo: traduzir um simples substantivo, pode nos fazer olhar para uma palavra de nosso idioma de uma forma que não olharíamos, não fosse esse cotejo entre línguas. O que isso, a tradução, me ensina sobre poesia? Ao escrever um poema, tento verter uma palavra do meu idioma à outra palavra do meu idioma. Quanto mais distanciada for a tradução, ou seja, quanto mais afastado o sinônimo encontrado, melhor para a “tradução”. Guimarães Rosa seria um exemplo mais que ilustrativo para pensarmos um português “estrangeiro”, de modo concomitante, familiar e infamiliar. No entanto, Os sertões (1902), de Euclides da Cunha, foi o livro que mais me deu a sensação de ler uma língua “estrangeira” e familiar, minha.  Quanto mais a tradução fracassar, mais ganho terá o poema. Volto à língua da minha mãe. Certa feita, vou encurtar bem a história, ela me disse, no almoço, “A carne é só para cheirar”. Terminei a refeição, cheirei a carne e devolvi o prato para minha mãe.  Sem erro (de compreensão das palavras), a tradução não se realiza. Escrever poesia, para mim, é uma forma radical de tradução. Um tensionamento constante da palavra. Em suma, tanto na escrita de poesia quanto na tradução, a palavra perde. 

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LUCAS: Agora eu queria falar um pouquinho sobre seus livros de poemas. Existe uma continuidade entre Ossário e Ponta d’areia. No primeiro você fala sobre a violência, o assassinato, a morte e, como o nome já entrega, a cerimônia do enterro e do luto. No Ponta d’areia você também fala da violência, do assassinato, da morte e de uma cerimônia irrealizada dos corpos que foram simplesmente arremessados ao mar. Por mais que vez ou outra apareça uma voz pessoal, – singular, que aponta para um “eu” delimitado – nos dois livros há uma voz muito marcadamente coletiva (o enterro é coletivo). O que fica patente pra mim, e acho que é pouco comentado, é que você, Édipo, é um poeta que tende ao épico – a uma reformulação fragmentária do gênero – e isso ficou bastante evidente no seu lançamento mais recente. Eu queria que você falasse um pouco sobre as afinidades ou desafinidades entre seus dois livros. Como você enxerga a relação entre eles?

ÉDIPO: Embora haja pontos em comum, os procedimentos utilizados são completamente diferentes. Em Ossário, fui um catador, estava mais conectado a processos como a citação, o reaproveitamento, em suma, a estéticas da pós-produção. Em Ponta d’areia, o dispêndio criativo foi direcionado a outros modos de fazer.  O poema tomou forma a partir de um mosaico heterogêneo: junto paráfrases por mim feitas a partir do que estou lendo, pensamentos anotados, palavras que julgo interessantes, frases recolhidas em filmes, textos apanhados em conversas alheias. O poeta é um fofoqueiro profissional. Já no segundo livro, me dediquei com mais zelo à forma, principalmente no que se refere à construção de imagens.

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LUCAS: É uma crescente nessas últimas décadas o esgarçamento do prosaísmo, (algo talvez ligado à popularização do poema-ensaio). Ponta d’areia parece ir contra essa tendência. Uma das palavras-chave da quarta capa escrita pelo André Capilé é “recusa”. E a primeira palavra do primeiro poema do livro é a palavra “contra”. Você acha que há recusa de uma tendência nessa mudança de postura ou é uma questão de outra ordem?

ÉDIPO: A primeira palavra do livro é “contra”; a última, “acabando”. Sim, Ponta d’areia é uma “recusa” ao prosaísmo que não leva à conversa alguma, um prosaísmo que não me possibilita dizer nada além de “isso é prosa”. É, sim, uma tentativa de “recusa” à “prosa poética” (que pleonasmo mais insolente). É, sim, uma “recusa” à prosa poética sem poeticidade, esse oxímoro de unhas grandes, a assombrar por aí. 

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LUCAS: O André Capilé, no lançamento de Ponta d’areia, levantou uma questão importante e polêmica que é a difícil balança entre a ética e a estética do seu livro. Em “A flor e a náusea”, Drummond chama os poemas de “crimes da terra” e pergunta “como perdoá-los?”. Max Bense trata o assunto nos termos de “estilo estético” e “estilo ético”. Acho que seria importante trazer esse tema de novo pra conversa pra saber como você lida com o peso de transformar uma história de massacre e genocídio em um livro de poemas. A violência da história que você narra de alguma forma está impressa na violência da sintaxe da sua escrita. É toda fraturada, desdentada, como se a dificuldade de pronúncia exprimisse pela forma o indizível. Outro aspecto importante é que à primeira vista alguns trechos parecem eufemísticos. A potência das imagens, por outro lado, parece não querer agravar a violência gráfica das cenas. A dificuldade sintática que seu livro apresenta o torna bem pouco “dizível”: Eu transcrevi alguns dos seus poemas no word e a página na tela virou um festival de sublinhados azuis.

ÉDIPO: Havia um pouco de seriedade em minha fala, quando disse que minhas influências não vêm diretamente da literatura (nem dos temas, nem da minha indignação). Em Ponta d’areia, a forma reporta o “conteúdo”. Nesse sentido, a forma, neste livro, é uma ética. “De onde você tirou esses poemas?”, costumam me perguntar. Ninguém perguntaria a uma artesã de onde ela tirou o vaso. A resposta seria pouco empolgante, posto que o vaso não saiu de outro lugar senão do barro. Ora, tiro poema das palavras: selecionando, empilhando, combinando, cortando, deslocando, etc. Volto a Drummond para pensar ética e poesia. A voz presente em “Procura da poesia”, nos exorta a não escrevermos a partir de “acontecimentos”, nem “sentimentos”: “não tires poesia das coisas”. O enunciado “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia” daria um curso inteiro. Sim, o poema em questão é cheio de provocações, escrito por alguém que, para ficarmos em dois exemplos, escreveu Sentimento do mundo e Boitempo, este, cheio de poemas escritos a partir de “acontecimentos”. Por óbvio, sentimentos e acontecimentos são possíveis disparadores de escrita. Mas não devem, vamos lá, não deveriam, ser o fim do poema. Quando sento para escrever, a indignação, a revolta, enfim, os “sentimentos”, esperam por mim fora do escritório. Meu trabalho é com/nas palavras, são elas que, no fim das contas, perguntarão “Trouxeste a chave?”. A “chave”, a senha, que apresento é o trabalho, intrínseco à fabricação dos versos. O que acabo de dizer, contudo, não se sustenta em nenhum ambiente de debate (em torno da literatura) em que questões éticas constituem, a priori, (e por si mesmas) valor literário. Em miúdos: a ética do livro não está apenas no tema que ele escolhe, mas no modo como a linguagem se responsabiliza formalmente pelo que está dizendo.

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LUCAS: E o próximo livro? Você pretende continuar uma trilogia do sepultamento e da exumação?

ÉDIPO: O terceiro livro está bem adiantado. De alguma maneira, ele forma, sim, a trilogia do sepultamento e da exumação. Mas pratiquei artimanhas diferentes para sua composição, inclusive, diversificando os subgêneros, os registros, a colocação das vozes etc.

Em todos os três, a presença (e o extermínio) do corpo é fulcral. Em Ponta d’areia, em que pese o contexto de aniquilamento da vida, há muitas cenas de leveza e júbilo. Faço alusão às cenas de experiência amorosa. Um amigo poeta, no início deste ano, numa fala extremamente política, me disse, ao telefone: “Neste ano, quero leveza”. E eu concordei com ele. No terceiro livro, sem deixar de lado o peso, característico do que escrevi até agora, intensifico a leveza, iniciada em Ponta d’areia.

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LUCAS: Aliás, de onde saiu esse título? Tem alguma relação com a canção do Milton Nascimento e Fernando Brant?

ÉDIPO: O título vem do nome do bairro onde moro, que é, como indica o nome, o limite entre a terra e o mar.  Além disso, a ponta da areia, lugar de embarque/desembarque, aspecto que meu bairro ainda conserva, é tópos de tensão, e ponto fulcral da história contada no livro.

Ponta d’Areia, de Édipo Ferreira/ Macondo Edições, 2025/ 84pp.

Édipo Ferreira é poeta e professor. Possui licenciatura em Letras e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela UFF (Universidade Federal Fluminense). É autor da plaquete 9 usos do corte, tradução de poemas de Martín Gambarotta (Editora Fictícia), de Ossário (7Letras) e de Ponta d’areia (Edições Macondo). Em 2026, conquistou o segundo lugar no Prêmio João e Júlia do Rio (FLUP), na categoria poesia.

Lucas Ferreira nasceu em Barueri, São Paulo. É poeta, editor da Editora Fictícia e da revista Parque dos Parquinhos. Também co-edita no selo Cachalote, da Aboio editorial. Faz doutorado em poesia brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou o livro de poemas Clube dos membros fantasmas (Edições Macondo), a plaquete Sobre as artes do livro (Edição do autor) e organizou a exposição Obra incompleta, onde expôs o livro-instalação Mesa.