
Brenda Rodrigues na Bienal do Livro de São Paulo: “A publicação independente permite ao autor ser quem ele quiser”
Em entrevista à revista O Odisseu, Brenda Rodrigues fala sobre o seu livro Memórias Inesgotáveis, seu processo de auto-edição e publicação independente.
Foto: Divulgação.
Brenda Rodrigues já foi entrevistada pela revista O Odisseu anteriormente. Na ocasião, estávamos mais interessados no surgimento do Selo Editorial Independente, que ela coordena, e por onde sai o seu livro Memórias Inesgotáveis. Desde então, me interesso muito por esse processo realizado por Rodrigues, que é o da auto-edição e que de certa forma reverbera em seu título mais recente. Como ela mesma diz nesta entrevista, Memórias Inesgotáveis é um livro de auto-observação, mas que não se limita ao trabalho puramente autobiográfico. Com o uso da ficção, a autora costura experiências próprias com reflexões existenciais.
Trata-se de uma obra híbrida e que inclusive recebe a catalogação de “ensaio poético”. Nele, a autora passeia entre diferentes temas sem o compromisso de estabelecer uma definição específica sobre aquilo que escreve. Brenda estará com este livro para uma sessão de autógrafos na Bienal do Livro de São Paulo, no estande Escreva, Garota! nesta sexta-feira, 11, das 13h às 19h.

Brenda Rodrigues: “Costumo ter certa dificuldade em catalogar o que escrevo”, autora estará na Bienal do Livro de São Paulo
Você estará lançando o seu livro “Memórias Inesgotáveis” na Bienal do Livro. Fale um pouco dele para os leitores!
Na verdade, Memórias Inesgotáveis foi lançado durante a FLIP 2026. A Bienal faz parte dessa agenda de fazer o livro circular, e haverá uma sessão de autógrafos. Eu gosto de pensar em Memórias Inesgotáveis não como um livro de memórias convencional, porque não tive nenhum compromisso com a exatidão dos fatos brutos; meu compromisso foi com o conceito emocional do que decidi trazer nesta obra. Considero este livro como o meu ponto de partida ou de chegada, a depender de onde se observa.
Ele é um compilado de escritos dos 14 aos 30 anos, período oficial em que escrevo. São páginas feitas de contrastes, para quem gosta de olhar para as próprias camadas decorrentes dos acontecimentos com uma certa veracidade, uma autopiedade medida e, no fundo, uma dose de acidez nas entrelinhas (risos).
Algo que me atraiu muito na sua obra é o caráter híbrido que ela apresenta, sendo inclusive catalogado como um “ensaio poético”. Como foi para você encontrar o tom narrativo do livro?
Fico feliz que você tenha se sentido atraído, principalmente por saber que você é um crítico exigente. Acho que foi o tom que me encontrou. Costumo ter certa dificuldade em catalogar o que escrevo, pois parto de experiências que são inesgotáveis, e gosto de manter a minha escrita livre, sem um fluxo rígido. Rótulos são confortáveis para quem lê, mas limitantes para quem cria. Eu precisava da crueza do ensaio para analisar o caos e, ao mesmo tempo, da leveza da poesia para conseguir respirar no meio dele. Misturar esses dois mundos é como costumo dizer para exemplificar: é meio fronteiriço; um pé na sanidade, outro na loucura, mas sem romper com o fato concreto. Isso acaba me levando a esse formato híbrido.
Muito tem sido debatido sobre as chamadas “narrativas” ou “escritas de si”, algo como uma autoficção. Seu livro se encaixa nesta qualificação?
Todo livro é, de certa forma, uma escrita de si; afinal, ninguém consegue escapar da própria pele para criar. Memórias Inesgotáveis flerta com a vivência, mas talvez a ficção seja o caminho. Eu pego a realidade, desmonto suas engrenagens e a reconstruo da forma que me convém (risos). Acredito que é por isso que as pessoas se identificam: por gerirem as próprias reflexões sem um molde pronto. Até o momento, recebi retornos que me mostraram interpretações diversas para um conceito que eu considerava mastigável, o que me dá um certo alívio. Se o livro se encaixa ou não nessa caixinha literária, vou deixar com os possíveis críticos. Eu prefiro a liberdade do enigma (risos).
Além de escrever o livro, você também esteve presente diretamente no processo de editoração. Como é o trabalho de auto edição para você?
É bem estranho. Tente imaginar um cirurgião se auto-suturando (risos). Foi como me senti e sempre me sinto editando algo meu. Existe aquela parte técnica, centrada, de lógica pura. Mas aí entra o coração, a emoção, o auto-acolhimento para buscar a fundo o sentido que existia quando aquele texto foi escrito. Eu escrevo no limbo, nunca num flash descartável, por isso não fiz a edição sozinha. As pessoas que me acompanham no processo e a equipe que trabalha comigo são as grandes responsáveis por a obra ter esse quê de nudez da minha própria reserva.
E a respeito da publicação independente? Para você, quais as principais oportunidades e dificuldades oferecidas por esse tipo de publicação?
A grande dificuldade é que o mercado independente exige que você opere em todas as frentes. Você é responsável pelo seu próprio topo ou pela sua própria queda. Não há uma grande corporação para pavimentar o seu caminho ou mascarar os seus erros. Mas é exatamente aí que mora a oportunidade extraordinária. O mercado tradicional costuma pasteurizar as mentes para torná-las digeríveis para a massa. A publicação independente permite ao autor ser quem ele quiser: ácido, complexo e incompreendido quanto desejar, sem precisar pedir licença ou suavizar palavras para agradar a comitês editoriais. Embora o preço do trabalho independente seja de exaustão e alto investimento, eu digo que vale muito a pena. Aliás, eu pago esse preço com prazer.
Como eventos como a Bienal do Livro são importantes para autores independentes?
A Bienal é um grande palco da literatura, a maior feira literária da América Latina. Para quem publica de forma independente, a importância do evento não está em tentar ser aceito pelos grandes conglomerados, mas em provocar e oferecer um caminho de não-obviedade. É a nossa vitrine para mostrar que a literatura autônoma pode ser incrivelmente sofisticada e de altíssima qualidade. O evento é o espaço perfeito para encontrar aqueles leitores raros, que entram na feira procurando algo que os tire do “mais do mesmo” e que desafie o intelecto de verdade.
Quais são as suas expectativas para esta bienal?
Sempre são boas. Participo da Bienal desde 2018 como leitora, editora, escritora… Este ano, espero que meu livro encontre as mãos certas e que eu esbarre em pessoas incríveis. A expectativa é de um dia cheio de trocas. Espero todos lá! Dia 11, sexta-feira, das 13h às 19h, na Rua G80, no estande Escreva, Garota!. Estarei cercada por um coletivo de mulheres inspiradoras que também merecem ser apreciadas. Deixo aqui o convite: passe lá e conheça mais da literatura nacional e independente.
Gostaria de agradecer à você, Ewerton, pelo espaço. Parabéns pelo trabalho de excelência à frente da Odisseu. Obrigada e abraços! 🙂


