Bienal do Livro de São Paulo

Monique Bonomini: “A leitura crítica não pode interferir na ideia do autor”

Prestes a ministrar uma Masterclass sobre Leitura Crítica na Bienal do Livro de São Paulo, Monique Bonomini defende uma leitura que respeita o projeto estético de cada escritor. 

Foto: Monique Bonomini, Bienal de São Paulo, 2024, crédito: Cissa Coutinho.


Se você está atento ao mundo literário na contemporaneidade, então você certamente já deve ter ouvido falar no termo leitura crítica. Estamos falando de uma leitura feita em um original ainda não publicado, com o interesse de aperfeiçoar a sua estrutura para a publicação. Esse serviço é oferecido por “leitores especializados” e criou todo um setor econômico na cadeia do livro, aproveitando sobretudo as brechas de um sistema editorial em que a figura do autor não é muito presente. Monique Bonomini, escritora e leitora crítica, destaca que esse trabalho beneficia principalmente os autores independentes. 

Entre apoiadores e críticos, um fato é que não é novo o mecanismo de distanciamento de um original não publicado através da leitura de outra pessoa. O que muda em questão parece ser justamente a criação de um setor específico na economia do livro. Na entrevista que você confere agora, Monique Bonomini desmistifica esse processo e rebate algumas inverdades muito repetidas como, por exemplo, a de que a leitura crítica seria uma etapa indispensável. Bom, se não é indispensável, então por que existe? É sobre isso que conversamos. 

Monique Bonomini fala sobre sua Masterclass de leitura crítica (Marina Savioli/ Divulgação).

“A primeira coisa que eu faço na leitura crítica é entender que história o autor deseja contar”, diz Monique Bonomini

Há um crescimento muito interessante em torno do que chamamos de “leitura crítica”. Para algumas pessoas, a leitura crítica parece servir como um aval ou um selo de qualidade sobre o texto. Mas eu gostaria de ouvir de você, que tem feito esse trabalho com muita seriedade: quais os limites da leitura crítica? O que ela pode e o que ela não pode?

Pra mim, o mais importante é o autor sentir, depois da minha leitura, que o texto ainda é dele. A leitura crítica precisa respeitar o momento de cada escritor. Ela pode apontar aspectos a melhorar, mas não pode interferir na ideia do autor.

Grande parte do desafio em fazer uma leitura crítica talvez seja encontrar o leitor crítico. Me conta, qual é a formação de um leitor crítico, ou melhor: o que é preciso para se transformar em um  leitor crítico?

No meu caso, formalmente, eu tenho graduação em Direito e História e fiz alguns cursos livres de formação em leitura crítica, no entanto, no mercado editorial é possível encontrar profissionais que são de áreas como o Jornalismo, a Sociologia e, claro, das Letras. No entanto, acredito que o diferencial para ser um bom leitor crítico é a bagagem de leituras e a capacidade de observação.

O que você observa num texto? Trata-se de uma leitura que classifica de maneira fechada o que é “bom” ou “ruim”?

De forma alguma, a primeira coisa que eu faço é entender que história o autor deseja contar, a partir disso minhas intervenções vão indicar: isso está contribuindo, isso talvez esteja sobrando, isso aqui talvez possa ser colocado de uma maneira mais fluida, a ideia não é julgar o texto, mas ajudar o escritor a transmitir da melhor maneira sua mensagem para o leitor.

E enquanto ao contato com o autor: como se dá essa parceria? Existe muita resistência em relação à crítica?

Nestes anos de trabalho, eu sempre consegui ter uma boa troca com quem trabalhei, as resistências são naturais e eu diria até saudáveis, afinal um bom escritor também precisa saber defender seu livro, quando eu aponto uma questão que considero precisar de atenção e o autor me responde “não, isso eu quero que fique assim”, pra mim é um sinal de maturidade de quem está assumindo o risco da decisão que está tomando.

Nas oficinas de leitura crítica, quais os temas que você busca trabalhar? E qual o método?

Seja na elaboração dos diálogos, seja na construção das personagens, o importante é ficar claro para o escritor o benefício de se distanciar do próprio texto. É natural ficar envolvido a ponto de perder o foco na questão central da história, por isso, um outro olhar pode ser benéfico. Eu gosto de propor perguntas para o texto, tipo: Se eu tirar essa cena o conflito se sustenta? Essa personagem está conduzindo a história? E através dessa dinâmica investigar o que pode ser melhorado.

Na sua opinião, a formação de mais leitores críticos e também a busca, cada vez mais forte, por leitura crítica, pode significar mudanças positivas no cenário da literatura nacional?

Com certeza, especialmente no cenário de autopublicações e publicações independentes em que a atuação do editor, em muitos casos, está mais voltada para a publicação do livro do que para a edição do texto propriamente dita. Submeter a uma leitura crítica eleva a qualidade dos livros que entram em circulação.

“Não acho a leitura crítica uma etapa indispensável”

O que você diria para alguém que tem alguma resistência em fazer uma leitura crítica? Que de algum modo acha que a escrita não precisa de um aprimoramento?

Eu não acho a leitura crítica uma etapa indispensável se você é um escritor que já encontrou sua voz e o mote da sua escrita. No entanto, basta uma olhada nas entrevistas com os escritores que ganham prêmios, ou que já têm uma carreira consolidada, para descobrir que seus livros passaram por várias reescritas ou são fruto de períodos extensos de dedicação, quem deseja se profissionalizar deve ter em mente que a escrita é um processo intencional e envolve uma série de escolhas: as palavras mais precisas, a perspectiva mais interessante, o que fica na luz e o que fica na sombra, e isso só é possível com prática. 

Me fala um pouco de como vai ser a sua atuação na bienal do livro em São Paulo! Onde podemos te encontrar?

Vou oferecer uma masterclass para esclarecer a função da leitura crítica e mostrar como os apontamentos podem favorecer o texto, terei a companhia de duas autoras que acabam de lançar livros que tiveram leitura crítica feita por mim, Fabiana C.O., que publica seu segundo romance, O buraco, pela VR Editora e Monyque Evelyn, que está estreando nas publicações com o romance Arquitetando o futuro, elas vão trazer exemplos práticos de intervenções que acolheram. O evento vai ter entre 50 minutos e 1 hora e acontece no dia 10/09, às 18h, na Areninha do estande Escreva, garota! (G-80).