
O que resta quando a esperança vai embora
Em O Massacre de Gaza (Elefante, 2026), o jornalista Gideon Levy desafia seu próprio país, Israel, denunciando os horrores persistentes no território palestino.
Capa: Flavio/ Flickr/ Reprodução
Tem um jeito de ler um calhamaço sobre uma tragédia em curso que é diferente de ler qualquer outro. A gente pesa ele com a mão antes de começar. As quase 400 páginas de O Massacre de Gaza, de Gideon Levy (Elefante, 2026), pesaram assim na minha, não como um compromisso de leitura, mas como um aviso. Peguei o livro e senti uma urgência nas suas páginas. Urgência de ler. Urgência de saber, pois naquelas páginas eu sabia que encontraria cento e tantas colunas escritas ao longo de mais de dez anos – uma de cada vez; um domingo de cada vez – por um homem que escreve para quem prefere não ler.
Esse é o primeiro dado estranho e essencial do livro: ele não foi escrito para nós. Levy é colunista do Haaretz desde 1982, e desde o fim dos anos 1980 assina a coluna “Twilight Zone”, sobre o cotidiano da ocupação. Ele escreve em hebraico, num jornal israelense, para israelenses. O livro que a Editora Elefante lança agora no Brasil, com tradução de Rafael Domingos Oliveira e um posfácio inédito, datado de janeiro deste ano, é uma espécie de desvio de rota; um recado endereçado a Tel Aviv que acaba, por tradução e por uma visão editorial, caindo também no nosso colo. Ler essas páginas é, portanto, um gesto meio clandestino, como abrir uma carta que não era para a gente, escrita por alguém que nasceu em Tel Aviv em 1953, é filho de judeus tchecoslovacos que fugiram do nazismo a tempo e que passou a vida inteira documentando o que o próprio país prefere não enxergar.
O que Levy enxerga, ano após ano, é sempre a mesma história contada de um jeito novo. Levy faz um retrato do povo de Gaza, narra com detalhes uma jaula.. Dizem os textos: um curral, um território onde duas milhões de pessoas foram trancadas com a expectativa tácita de que aceitassem viver – e morrer – sem fazer barulho, sem incomodar. O livro não é sobre um evento, é sobre uma continuidade. Essa é a aposta mais literária de Levy, talvez sem querer: ele escreve crônicas no sentido mais estrito da palavra – textos presos ao tempo em que foram feitos, e é só quando reunidos, um atrás do outro, que revelam o padrão, a repetição, o cansaço, a mesma frase de indignação sendo escrita de novo e de novo porque nada muda. Tem algo de insuportável nisso que também é, friamente, uma escolha de forma: a compilação como evidência.
Não sei se uma resenha desse livro deveria terminar com uma opinião. Acho que deveria terminar com uma constatação mais modesta e, por isso, mais honesta. Levy escreve, no posfácio, que em janeiro de 2026 não havia mais demanda, em Israel, para a palavra esperança. É uma frase que dói menos pelo que diz sobre Gaza e mais pelo que diz sobre quem escreve de dentro, sabendo que ninguém do outro lado da rua vai ouvir. Fechei o livro pensando que talvez essa seja a definição mais precisa de testemunha: não quem convence, mas quem insiste em registrar mesmo sabendo que o registro, sozinho, não salva ninguém.
Esse livro não vai salvar o povo de Gaza. Essa obra não vai resgatar vidas dos escombros, dar esperança para os civis, ou alimentar as crianças dizendo que o futuro será melhor. Mas eu, aqui em São Paulo, a 10.785 quilômetros de Gaza, sei o que está acontecendo. Agora, na minha estante há relatos reais de vidas reais, que sofrem na rotina. Pode parecer pouco, pode soar fútil, mas é com livros como esse que se muda o mundo. De leitor em leitor, de voz em voz, de livro em livro.
Continuamos precisando de gente assim, que não se contenta com as tragédias tão repetidas que se tornam rotina. Gente que não esquece da notícia que já se tornou velha. Gente que faz questão de registrar o que muitos olham de suas janelas, todos os dias, e preferem não ver.

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