Entrevistas

Andreone Medrado: “A literatura brasileira sempre teve experiências muito potentes de desobediência, inclusive porque a própria literatura é um espaço em que podemos experimentar outras formas de existir.”

Em entrevista para O Odisseu, Andreone Medrado fala sobre a relação entre experiências pessoais, academia e o caráter político de quem escreve.

Foto: Divulgação.


Andreone Medrado é psicóloga, bióloga, pesquisadora e escritora. Doutora em Psicologia pela USP, publicou O amor nunca vem só (Planeta, 2026), Políticas afetivas da desobediência (Mandaçaia, 2026), Ensaios sobre o colonialismo: higienização, corpos, fé e subjetividade em disputa (Telha, 2025) e, em parceria com Rhuann Fernandes, Não monogamia: trânsito entre raça, gênero e sexualidade (Telha, 2023). 

Seu trabalho parte dos estudos sobre afetividades e desobediências para investigar como as relações de amor, desejo, amizade, intimidade e família são inerentes ao contexto histórico-social. A pesquisadora relaciona essas questões ao colonialismo, às normas de gênero, raça e sexualidade e às diferentes formas de existência que escapam aos modelos padronizados.

Em entrevista para O Odisseu, Andreone Medrado fala sobre a relação entre experiências pessoais, academia e o caráter político de quem escreve. A autora e psicóloga também comenta seus primeiros contatos com autorias trans, o papel da literatura brasileira na criação de outras formas de existência e o projeto que vem desenvolvendo para um novo livro.

Andreone Medrado, autora de O amor nunca vem só (Planeta, 2026).

Andreone Medrado: “Escrever sempre foi uma maneira de me manter viva no mundo. E, ao escrever, eu sentia que precisava conhecer outras narrativas.”

Kaio Phelipe: Quando começou o interesse em estudar sobre afetividades?

Andreone Medrado: Arrisco dizer que meu interesse pelos estudos sobre afetividades começou antes mesmo de nomeá-los como campo de estudo. Para pessoas como eu (negra e travesti) – minhas narrativas geralmente são contadas a partir da perspectiva de quem não as compreende –, costuma não ser tão comum nomear o direito ao afeto; ou, melhor dizendo, estudos e narrativas sobre afetividades negras e trans não circulam tanto quanto narrativas hegemônicas, e, quando circulam no campo geral, são ainda muito objetificadas ou abordadas pela via da dor e do sofrimento.

O que quero dizer é que, desde sempre, eu escrevo e me interesso pelo afeto que passa pelo meu corpo e por corpos como o meu, algo historicamente apagado em nossa sociedade; e me refiro ao afeto não branco, não cisgênero, não padrão, etc. Esse interesse começou, de certa maneira, pela experiência de perceber que aquilo que a gente chama de amor, desejo, amizade, família, intimidade – em suma, aquilo que parece tão íntimo e tão individual – é atravessado pela política, pela ética social e pelas relações de poder. 

Escrevo de forma pública desde 2015, quando criei uma página no Facebook, na qual eu colocava frases reflexivas. Essa página se chamava Devaneios filosóficos. Desde aquela época, eu via que escrever sobre reflexões sociais e sobre sentimentos exigia de mim, de uma maneira ou de outra, uma navegação sobre quais eram as narrativas que circulavam tanto na sociedade quanto na minha própria imaginação. Sabe quando você começa a repetir tudo que sempre ouviu sobre amor, desejo, intimidade, afetos, etc., e sente que, por mais que seja muito difundido, ainda não diz muito sobre você? Então, foi assim comigo. Escrever sempre foi uma maneira de me manter viva no mundo. E, ao escrever, eu sentia que precisava conhecer outras narrativas.

Em algum momento, que eu situaria a partir de 2015, mais precisamente, eu comecei a me perguntar por que algumas formas de sentir parecem tão naturais para o sistema social, enquanto outras precisam ser explicadas e justificadas, isso quando não são escondidas ou até mesmo combatidas. E essa pergunta foi me levando para os estudos sobre afetividades. Foi quando as legendas no Facebook começaram a ficar pequenas para o que eu queria dizer. Aí tomei a decisão de, no ano de 2017, criar um blog de mesmo nome. A partir dali, comecei a escrever, e escrevia com muito vigor sobre tudo que eu sentia e percebia em relação aos anseios. Junto com isso, vieram os meus estudos sobre afetividades.

Tenho cada vez mais interesse em pensar que não existe uma experiência afetiva completamente privada. A maneira como desejamos, como nos vinculamos, como construímos intimidade e até aquilo que entendemos como uma relação “boa” ou “normal” é produzido socialmente. Aprofundei esses temas depois que ingressei na USP, onde fiz a graduação em Psicologia e depois o doutorado na mesma área para estudar a relação entre as emoções (especialmente a do nojo) e a produção do desejo. Hoje, além dos meus livros sobre o assunto, tenho também um podcast (também de nome Devaneios filosóficos – pelo jeito gosto de devanear, né? rs) em que trago para outro modo de registro, no caso, a oralidade, os estudos sobre afetividades, pois creio que palavras faladas, com entonação, pausas e respiração aproximam a reflexão de um lugar ainda mais aconchegante e, digamos, afetuoso.

Agora, se cabe um adendo, eu diria que muito provavelmente tenha chegado às afetividades pela desconfiança: a desconfiança de que aquilo que aprendemos a chamar de afeto seja apenas afeto, mas algo muito mais complexo, atravessado por todos os lados pelas relações sociais. Talvez exista muita política escondida dentro dessa palavra – e estou de fato inclinada a dizer que existe.

KF: Como o colonialismo molda nossa forma de amar e desejar?

AM: Eu começo sempre dizendo algo que me parece importante não esquecer: o colonialismo não terminou quando acabaram formalmente as administrações coloniais históricas. Muito pelo contrário, ele continua operando nas nossas formas de imaginar o mundo, os nossos corpos, as nossas subjetividades e, por consequência, as nossas relações. Por isso, sempre reitero que o colonialismo coloniza, sobretudo, a nossa noção de intimidade.

Em termos simples, o colonialismo, que opera como um discurso e uma prática, estabelece hierarquias psicossociais: quem pode desejar quem, que corpos são considerados desejáveis, que relações são reconhecidas como legítimas, o que entendemos por família, por casamento, por fidelidade, por masculinidade, por feminilidade, etc. Isso porque tudo que parece uma escolha supostamente pessoal carrega uma história. Não existem emoções que possam ser interpretadas fora de sua história sociocultural em que elas também foram construídas.

Por exemplo, quando penso a maneira como o colonialismo afirma e impõe as diferenças, de modo segregado e hierárquico, lembro-me do que escrevi na página 38 do meu livro Políticas Afetivas da Desobediência, em que digo que, no colonialismo,

“Você só pode pertencer a um na mesma medida que rejeita totalmente o ‘Outre’. Se você pertence ao ‘Nós’ você deve assegurar, reiteradamente, submetendo a sua existência dia após dia ao exame do pertencimento e da conduta normativa, uma higienização adequada. E ainda que você não se aplique voluntariamente em protocolar a sua existência adestrada, isso será feito no silêncio do seu inconsciente, já que arrisco dizer que o inconsciente narrado pela psicanálise em sua origem é uma produção obediente do/ao colonialismo.”

Quando a gente olha para a ideia de amor romântico, por exemplo, ou para a centralidade que damos à monogamia, à família nuclear, ao casal como unidade fundamental da vida, é possível perceber que essas formas não são universais nem naturais. Elas têm uma história. E essa história é narrada de modo excludente. Algum corpo precisará ficar de fora do clube das “verdades hegemônicas” para que essas “verdades” sejam assumidas e validadas.

Então, pensar colonialmente sobre formas de amar e desejar é também se perguntar: quem (e como) ensinou a gente a amar desse jeito? Quem se beneficia dessa forma de organização dos afetos? E quais outras possibilidades foram silenciadas ou transformadas em desvio?

Talvez uma das grandes violências do colonialismo seja, ao meu ver, nos fazer acreditar que determinadas formas de vida e de viver são “naturais” quando, na verdade, são historicamente produzidas.

Apesar disso, para citar outra coisa que falei, em Ensaios sobre o colonialismo,

“Uma boa notícia que emerge dessa intensa dose de realismos talvez não tão otimistas é que, embora se note sua força e seu espalhamento radical, o colonialismo não venceu; ele não é infalível. Ao longo de toda a história da colonização, vemos que o corpo anticolonialista se movimenta, protesta, se multiplica, enfrenta e ainda atua na disputa dos afetos, dos poderes e das narrativas. Pessoas não brancas, trans, neurodivergentes, freak, gordas, com deficiência, pobres, em situação de guerra, migrantes, não monogâmicas, não cristãs e não heterossexuais, entre outras formas de existência, ainda emanam e orientam seus afetos e suas transgressões em suas comunidades, posicionando seus corpos, seus saberes e suas tecnologias como suas próprias armas de enfrentamento. Apesar da narrativa anticolonialista trabalhar sobre várias vertentes e diante de inúmeros fatos históricos, ainda não me convenci de que esse embate contra o colonialismo e essa guerra ocidentalista podem ser enfrentados por outra via que não a afetiva. A tecnologia mais poderosa da dissidência é o afeto; a comunidade é o seu meio de organização.”

“Talvez uma das grandes violências do colonialismo seja, ao meu ver, nos fazer acreditar que determinadas formas de vida e de viver são “naturais” quando, na verdade, são historicamente produzidas.”

KP: Quando decidiu incorporar suas experiências pessoais aos ensaios e às pesquisas que desenvolve?

AM: Partindo do que comentei antes, aqui eu aprofundaria dizendo que foi desde que me percebi um corpo desejante no mundo. Por mais óbvia que pareça essa afirmação, na minha trajetória ela é decisiva. Frequentei igreja por muitos e muitos anos da minha vida (cerca de 30 anos). Ali, o meu corpo e o meu desejo eram circunscritos em uma ética religiosa cristã protestante. Esses tempos (e mais intensamente nos últimos dois anos da minha [des]transição de gênero) tenho pensado muito sobre a domesticação do (meu) corpo.

Certa vez, conversei com uma pessoa – mulher negra, suburbana, de terreiro desde a adolescência – sobre o quanto, na religião cristã que eu frequentei (especificamente na Congregação Cristã no Brasil), o corpo era paradoxalmente posicionado como desejado e indesejado: por um lado, ele era precioso, pois é o “templo e morada do Espírito Santo”; ao mesmo tempo que, por outro lado, o corpo é uma coisa de certo modo até desprezível, uma vez que não pode ser mostrado, não pode ser exaltado e nem admirado em si mesmo, ao ponto de não poder ser fonte de prazer e de tesão. Como aprendemos desde cedo a fazer essa domesticação rígida, podemos ver que há uma pedagogia social que nos ensina e nos impele essa pedagogia do corpo como campo marcado na economia social do desejo e das afetividades. E diria que nem precisa ser uma pessoa criada dentro dessas igrejas para estar sob essa lógica e ética. Mais que isso, percebo que, como já sabemos a partir de vários trabalhos, as diferentes formas de usarmos o corpo variam de acordo com a raça, o gênero, a sexualidade, a classe, etc., desses corpos.

Dito isso, toda a minha pesquisa e as minhas elaborações são feitas também a partir do meu corpo e das minhas experiências pessoais. Por isso, digo que estão para além das vivências, pois vivenciar uma cena e um discurso não é o mesmo que experienciá-los. Na ordem da experiência acontece uma marca em nossa subjetividade; é quando a vivência se inscreve em nossa psiquê que passamos a tomá-la como experiência. Há registros, arrisco dizer, que podem ser da natureza do trauma, que se inscrevem de tal modo em nossa subjetividade que podem inclusive nos acompanhar por toda a vida; ser um corpo negro e trans, por exemplo, é também, de alguma maneira, carregar esses registros. Incorporo esses registros desde sempre quando pesquiso e escrevo sobre algo.

Mais que isso, estou convicta de que a associação entre quem eu sou e o que eu escrevo/pesquiso acontece desde que percebo que separar completamente a pessoa pesquisadora daquilo que ela pesquisa é uma escolha política e epistemológica que só cabe – ainda que com todos seus equívocos e violências – em um corpo que pode se autoatribuir como “neutro”. E sabemos que, embora não exista um sujeito neutro, a narrativa colonialista elege quem pode usar essa máscara e passar despercebido na história (e são as pessoas brancas, cisgêneras, de corporeidades e desejos hegemônicos).

Durante muito tempo, as Ciências e as Academias europeias construíram uma ideia de conhecimento em que o sujeito de saber deve desaparecer da cena de produção do conhecimento. Como se, para produzir conhecimento legítimo, fosse necessário falar de um lugar supostamente neutro, universal, objetivo, no mínimo distanciado daquilo de que se fala. A experiência pessoal não substitui a pesquisa, evidentemente. Mas o contrário também não poderia ter lá sua validade? Se, por um lado, as experiências pessoais não são, por si sós, uma prova decisiva de nada sobre algo, por outro, penso que elas podem produzir perguntas. Ou, no mínimo, elas podem afetar e exercer uma tensão que pode deslocar o olhar. Podem fazer aparecer problemas que talvez não fossem percebidos de outro lugar.

Então, incorporar minhas experiências aos ensaios não significa transformar tudo em autobiografia. Significa assumir que também estou implicada naquilo que investigo. E isso fere o narcisismo eurocêntrico porque eles não aprenderam a olhar as experiências não hegemônicas como dignas de serem faladas a partir de quem as vive. Eu não escrevo de fora do mundo. Eu escrevo de dentro dele, sob os efeitos que a existência como um todo tem sobre mim. E, em muitos casos, escrever é tentar compreender aquilo que nos afeta enquanto afetamos aquilo que tentamos compreender.

KP: A desobediência é um caráter político?

AM: Estou certa de que a desobediência tem, ou no mínimo pode ter, um caráter político. Mas eu gosto de pensar na desobediência para além da ideia de simplesmente dizer não. Existe uma dimensão profundamente política no ato de desobedecer às formas de vida normativa que nos foram apresentadas como “naturais”, “inevitáveis” ou “únicas”, mas que são, em vez disso, construções que regimentam um complexo sistema de poder.

Às vezes, desobedecer é não aceitar a pergunta nos termos em que ela foi formulada, recusar a obrigação de caber numa categoria, inventar uma relação que não estava prevista, produzir um arranjo afetivo que não se parece com a família que nos ensinaram a desejar, escrever a partir de um corpo que deveria apenas ser objeto da escrita e de fabulação fetichista dos outros. Entretanto, repito, existe algo muito potente nisso: a desobediência não é apenas uma reação ao poder. Ela também pode ser uma prática de criação. Eu aposto numa desobediência criativa. Afinal, a que serve uma desobediência que não possibilita criar, em bando, novos mundos e novas formas de vida, que não permite desabitar a violência colonialista?

Quando desobedecemos, não estamos somente recusando uma norma. Eu iria além para dizer que, em muitos contextos, experimentamos a possibilidade de existir de outro modo. Por isso, para mim, a desobediência tem uma dimensão política muito forte, já que ela abre espaço para imaginar aquilo que a ordem vigente dizia ser impossível. Como eu dialogo amplamente no livro Políticas afetivas da desobediência, há um trecho que eu queria trazer aqui:

“A desobediência marca um ponto que, sim, produz dissidências, ou que, no mínimo, as acolhe num ato de resistência. Um corpo desobediente também será expulso do condomínio das normatividades. Também será dissidente em alguma instância. Essa dissidência, posta por essa via, parte da agência e do posicionamento contra a governabilidade, e só termina quando o motivo inicial pelo qual se desobedece também termina. Isso nos permite ao menos inferir que um corpo tornado dissidente pelo sistema de poderes será sempre dissidente; mas um corpo que disside porque desobedeceu poderá ter seu acesso ao interior do sistema a partir do momento que interrompe a sua desobediência. Portanto, a desobediência que enfrenta o colonialismo e que se compromete com o seu fim não é apenas um estágio, mas um estado continuado.” (p. 41-42)

KP: Quando foi seu primeiro contato com autorias trans?

AM: Meu contato com autorias trans se deu principalmente na graduação de psicologia, que coincidiu com o início do meu processo de [des]transição, em 2019. E isso aconteceu de maneira muito importante, porque essas autorias produziram – e produzem até hoje – um deslocamento decisivo naquilo que eu entendia e entendo como conhecimento.

Durante muito tempo, pessoas trans estiveram muito mais frequentemente na posição epistemológica de objetos de pesquisa do que produtoras de teoria, pensamento e conhecimento. Fala-se sobre pessoas trans o tempo inteiro, na Psicologia, na Psicanálise, na Psiquiatria e até nas Ciências Sociais. E o modo como se falou por muitos anos nessas áreas foi sempre como a falta ou o excesso do desejo, uma falha na produção do ser cujo referencial era e ainda é sempre a cisgeneridade. Mas pouco se lê e se busca conhecer o que pessoas trans dizem sobre o mundo. E elas dizem muitas coisas.

Quando comecei a entrar em contato mais sistematicamente com essas autorias, ficou muito evidente para mim que não se tratava simplesmente de incluir “mais algumas vozes” no debate. Era preciso perceber que essas vozes também poderiam mudar as próprias perguntas.

Comecei lendo aspectos teóricos escritos por pessoas trans, como Viviane Vergueiro, João W. Nery, Paul Preciado, Letícia Nascimento, Jaqueline Gomes de Jesus, e depois conheci também o que era produzido no campo da literatura, e aqui, pensando em uma leitura mais recente, destaco Camila Sosa Villada, sobretudo o seu livro O parque das irmãs magníficas. Hoje busco priorizar leituras e conversas com pessoas trans para pensar novas epistemologias.

Não quero apenas uma academia que permita que pessoas trans entrem na sala e assistam caladas às violências cisnormativas do saber, como foi comigo na maior parte da minha graduação e do meu doutorado. Quero pensar o que acontece com a sala quando pessoas trans entram nela trazendo outras perguntas, outras epistemologias, outras experiências de corpo, de desejo, de linguagem e de existência e, inclusive, ensinando. A presença de autorias trans não é apenas uma questão de representatividade. É também uma questão epistemológica e desobediente.

No âmbito da minha experiência pessoal, por exemplo, destaco a minha participação na idealização e implementação, desde o ano de 2023, da disciplina “PSA3312 – Diversidade Sexual e de Gênero: epistemologias, corpos, desejos e políticas em disputa na Psicologia e na Psicanálise”, oferecida pelo Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade, no Instituto de Psicologia da USP (IP-USP). Desenvolvida em parceria com Gab Siqueira (então doutore pelo IP-USP), com apoio institucional do Dr. Paulo Cesar Endo (professor do PSA do IP-USP) e a colaboração com as pesquisadoras Dra. Yarlenis M. Malfrán (Professora na Universidade Federal do ABC) e Maria Andoyiki (Cientista Social pela FFLCH-USP), a disciplina foi incorporada à grade oficial do Instituto de Psicologia da USP em 2023, sendo, portanto, a primeira disciplina na história do IP-USP a abordar a diversidade sexual e de gênero a partir de uma perspectiva trans e anticolonialista.

Mencionar essa disciplina como a primeira na história do IP-USP tem no mínimo duas funções: I) evidencia as ainda rarefeitas discussões voltadas aos debates sobre uma psicologia dos corpos-subjetividades dissidentes, debates estes que têm crescido em outros institutos, como nos departamentos de Antropologia e de Ciências Sociais na FFLCH-USP e na Faculdade de Saúde Pública e na Faculdade de Medicina na USP; II) aponta para a abertura institucional a esse debate, uma vez que o IP-USP aprovou em primeira instância a disciplina, a qual vem sendo ofertada regularmente desde a sua primeira edição.

Esta disciplina, oferecida para estudantes de graduação da USP, aborda os temas de diversidade sexual e de gênero na encruzilhada com as relações étnico-raciais de forma transdisciplinar, privilegiando epistemologias e saberes do Sul Global, ecoados pelos ativismos e consolidados nos campos de conhecimento feministas e transfeministas, antirracistas, anticolonialistas. A proposta pedagógica da disciplina articula diferentes campos do saber – incluindo, entre outras áreas, Psicologia, Psicanálise, Ciências Biológicas, Antropologia, e Ciências Sociais – e promove o diálogo entre produções acadêmicas, saberes ativistas e experiências sociais e cria pontes entre diferentes instituições e pesquisadories, priorizando autorias trans.

Isso se deu porque tive a oportunidade de encontrar os escritos e os saberes de autorias trans.

KP: A literatura brasileira tem cumprido um papel de desobediência?

AM: Essa não é uma pergunta fácil de ser respondida. A princípio, eu diria que sim – mas eu responderia essa pergunta com alguma cautela. A literatura brasileira sempre teve experiências muito potentes de desobediência, inclusive porque a própria literatura é um espaço em que podemos experimentar outras formas de existir. Ela pode criar personagens, relações, desejos e mundos que não cabem facilmente nas normas sociais.

Ao mesmo tempo, eu não gostaria de romantizar a literatura. A literatura como campo de produção de saberes e narrativas é atravessada pelas mesmas relações de poder que atravessam o restante da sociedade. Durante muito tempo, determinados sujeitos puderam escrever sobre tudo, enquanto outros precisaram primeiro conquistar o direito de falar. Pessoas negras e indígenas, pessoas trans, pessoas que não frequentaram uma instituição de ensino são constantemente deslegitimadas em suas criações de escrita, sempre precisam escrever de outro modo, precisam higienizar seu vocabulário, exigem-lhes mais coerência e coesão. Mais que isso, essas pessoas precisam lançar mão de palavras, preferencialmente publicadas em algum espaço para serem legitimadas; palavras faladas, narrativas orais, narrativas contadas fora do saber europeizado certamente que serão postas à dúvida.

Então, para mim, a pergunta não é apenas se a literatura brasileira é desobediente. Já que há um imenso Brasil literário. Poderíamos pensar: quem pôde/pode historicamente ser uma autoria na literatura? Quem pôde/pode ser personagem? Quem teve sua experiência considerada literatura? E quem apareceu apenas como objeto do olhar alheio?

Quando penso em Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Nego Bispo, Lélia Gonzalez, Neuza Santos, Maria Clara Araújo dos Passos, João W. Nery, não tenho a menor dúvida de que compõem um conjunto de literatura desobediente. Mas seria ingenuidade minha atribuir ao Brasil como um todo esse lugar de desobediência literária.

Por outro lado, se pensarmos em relação ao mundo, eu diria que, na minha humilde percepção, há, no Brasil, uma forma muito interessante de escrever sobre as pessoas, a vida, a política e a literatura. Na literatura, percebemos como uma variedade de gêneros e narrativas tem composto um saber literário muito importante. Na maneira como se fazem as denúncias sociais, desde Machado de Assis, Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus, até escritoras vivas como Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Amara Moira, vemos uma forma muito brasileira de falar das realidades que cada corpo experimenta.

Talvez uma das coisas mais interessantes da literatura brasileira contemporânea seja a ampliação desses lugares de fala e de criação. Quando sujeitos historicamente transformados em objeto passam a produzir linguagem sobre si mesmos e sobre o mundo, alguma coisa se desloca. E talvez seja aí que a literatura possa ser, com o tempo, ainda mais radicalmente desobediente. Mas insisto em dizer que o universo literário está contido no universo político, e precisamos criar fissuras e quebras para que essas literaturas desobedientes sejam também difundidas e ampliadas, para que se conheça uma vida fértil para muito além dos protocolos e das métricas literárias hegemônicas.

KP: Há algum projeto de livro em andamento?

AM: Posso dizer que sim. E vem coisa interessante por aí. Há algumas coisas que vêm se desenhando, embora eu tenha certo cuidado em anunciar um livro antes que ele realmente encontre sua forma. 

Tenho pensado muito na continuidade dessas questões que aparecem nos meus ensaios e pesquisas: afetividades, desejo, colonialismo, desobediência, formas de vida e as maneiras como aprendemos a reconhecer algumas experiências como para além do normativo. Hoje, entre outras coisas, algo que me interessa bastante é tentar produzir um livro que não seja apenas uma reunião de textos, mas que consiga construir uma espécie de percurso. Um livro que faça perguntas sobre aquilo que parece mais íntimo; gosto de pensar o campo dos desejos em trânsito, e mostrar, de diferentes formas, como essas coisas estão profundamente relacionadas à política. Talvez eu esteja interessada em escrever um livro que não entregue respostas muito confortáveis – caso entregue alguma resposta. Tenho apostado em fazer novas perguntas.

Para esse novo projeto, tenho criado uma obra que mescla diferentes modos de escrita, desde ensaios até poemas e contos, tudo num mesmo texto. E isso me anima, porque rompe com o modelo higienizado que é mais valorizado, em que um livro de contos só pode conter contos, e um livro de teoria deve ser rígido, duro e apenas teórico (nos moldes acadêmicos tradicionais). Além disso, será um livro recheado de ilustrações minhas, o que pode tornar a experiência de leitura ainda mais interessante. Tenho optado por quebrar esse protocolo e estou fazendo isso, como você pode suspeitar, a partir da inserção também das minhas experiências pessoais. Se tudo correr bem, o livro – que não posso revelar o nome ainda – deve chegar ao público em 2027. Estou animada.

Livros de Andreone Medrado

Não-Monogamia: trânsitos entre raça, gênero e sexualidade, de Andreone T. Medrado e Rhuann Fernandes/ Editora Telha, 2023.
Ensaios sobre o colonialismo: higienização, corpos, fé e subjetividade em disputa, de Andreone T. Medrado/ Editora Telha, 2025/ 504 pp.
Políticas afetivas da desobediência, de Andreone T. Medrado/ Editora Telha, 2026/ 218 pp.

O amor nunca vem só, de Andreone Medrado
Editora Planeta, 2026
208 pp.