(Este texto foi imaginado no momento em que, pela janela de um avião prestes a pousar no aeroporto do Galeão, com as urnas em reta final de apuração, avistaram-se fogos de artifício comemorativos no Complexo da Maré. Na poltrona ao lado, um importante diretor da Confederação Brasileira de Futebol ligava seu celular em pleno voo e, surpreso com o que via na tela, se pôs a admoestar os demais passageiros de que nosso país só terá solução no dia em que Donald Trump invadi-lo.)
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A quarta vitória de Lula na eleição presidencial representou um triunfo extraordinário da resistência democrática e da esperança popular no Brasil. Mais do que apenas e tão somente uma glória inesquecível nas urnas, foi a afirmação vigorosa de um projeto de país que aspira à justiça social, à redução das desigualdades e à dignidade dos trabalhadores. A virada histórica e sem precedentes desde a redemocratização, em sua dimensão mais grandiosa, simboliza a força de um povo que, malgrado todas as adversidades, ainda acredita na possibilidade de construir um futuro mais justo e humano para as próximas gerações.
Porém, após o primeiro turno, a atmosfera de tristeza e melancolia tomou conta de parcelas significativas da esquerda brasileira: frustração e perplexidade diante da constatação de que o bolsonarismo não somente permanecia profundamente enraizado na sociedade como provavelmente ocuparia o centro do poder de Estado nos próximos quatro anos. Naquele momento, parecia difícil converter o medo, a paralisia e a dispersão em desejo, ação e força coletiva. Foi justamente diante desse horizonte desalentado que a vitória de Lula se revelou não apenas uma conquista eleitoral, mas a demonstração de que, mesmo quando a esperança parece esgotada, as forças dispersas da sociedade ainda podem se reencontrar e desencadear uma transformação não menos do que histórica.
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Psicologia das multidões foi escrito pelo psicólogo social francês Gustave Le Bon (1841-1931) em 1895. O livro rapidamente tornou-se uma referência importante e quase inaugural para compreender as relações entre a política e a psicologia. Ele via as multidões como forças irracionais, destrutivas e bárbaras que ameaçavam a civilização. Por isso, não queria apenas compreender a multidão, mas também descobrir como conduzi-la.
Ele sustentava que ao integrar uma multidão, os indivíduos tornavam-se mais suscetíveis à sugestão, à influência emocional e à propagação de crenças coletivas, respondendo mais fácil e intensamente a símbolos, palavras de ordem e figuras de autoridade. Assim, a adesão a ideais quaisquer não dependeria majoritariamente de argumentos racionais, mas, sobretudo, da repetição e do contágio promovidos por uma liderança carismática que conduziria a massa.
Embora as intenções de Le Bon se prestassem inicialmente à elite, o livro serviu de inspiração prática para distintos movimentos políticos. Entre tantos outros líderes carismáticos, Benito Mussolini declarou ter lido e relido a obra, Adolf Hitler foi associado à influência de suas ideias, Theodore Roosevelt acompanhou suas lições, Getúlio Vargas inspirou-se nelas. A psicologia das multidões, afinal, tornou-se uma questão incontornável: foi, em certo sentido, um modelo de condução fundamental na relação entre o governo e o povo no século XX.
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O fenômeno multitudinário, entretanto, não surgiu do nada. A Comuna de Paris, primeiro e breve governo proletário da história, advindo da massa que tanto assustara Le Bon, por exemplo, fazia eco a direções políticas específicas. Em 1848, Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) haviam publicado o Manifesto Comunista, encerrando-o com o célebre chamado à união dos trabalhadores do mundo. Trabalhadores isolados, dispersos e submetidos à competição podiam ser dominados individualmente. Unidos, organizados e cientes de seus interesses comuns, poderiam sabotar a máquina.
Se a fábrica é, para Marx, um dos lugares privilegiados da exploração capitalista, ela é, também e paradoxalmente, como espaço concentracionário, palco de encontro e organização dos trabalhadores: a mesma estrutura que reúne corpos para extrair deles o máximo de trabalho dá condições para que se juntem para interromper a produção. O espaço da exploração torna-se, assim, potencialmente, espaço de resistência. Sindicato, greve e multidão, afinal, colocam-se numa mesma cadeia semântica.
O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, emerge dessa história íntima ao século XX que imbrica a fábrica, a multidão e a liderança carismática: o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, as greves do ABC, a figura de um torneiro mecânico que se torna aos poucos uma magnética referência nacional e em 2003 é o primeiro operário a chegar à Presidência da República.
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“A virada histórica e sem precedentes desde a redemocratização, em sua dimensão mais grandiosa, simboliza a força de um povo que, malgrado todas as adversidades, ainda acredita na possibilidade de construir um futuro mais justo e humano para as próximas gerações.” – Danichi Hausen Mizoguchi
Defender que o capitalismo e a política permanecem hoje iguais ao que eram no século XX é ignorar as profundas transformações históricas, tecnológicas, econômicas e culturais que redefiniram as sociedades contemporâneas. Obviamente, isso não significa abdicar de colocar em jogo a luta de classes e a multidão, mas entendê-los em sua mais fina lâmina contemporânea. Acelerar, portanto, a análise e a prática.
O capitalismo deixou de se organizar quase exclusivamente em torno das grandes fábricas e incorporou, em escala crescente, a financeirização da economia, as plataformas digitais, a circulação global de dados, a inteligência artificial e novas formas de precarização do trabalho. As redes sociais, os algoritmos, a fragmentação da esfera pública, a desinformação e a formação de comunidades digitais modificaram profundamente a maneira como as pessoas constroem identidades coletivas.
Foi justamente nesse cenário que a lentidão e a frieza de setores da esquerda institucional brasileira revelaram, até boa parte da campanha eleitoral, um descompasso agonizante em relação ao presente. O fascismo miliciano, nativo digital, demonstra, ao menos desde 2018, uma capacidade impressionante de mobilizar indignações e pertencimentos ocupando intervalos de atenção curta e transformando ressentimentos em narrativas simples. Parte da esquerda, em contrapartida, parecia responder, ao longo destes quase dez anos, com a linguagem burocrática dos comitês, a cautela excessiva dos cálculos eleitorais e a previsibilidade de discursos renitentes e antigos. Se o meio é a mensagem, o problema não era necessariamente a ausência de militância, de organização ou de compromisso de luta, mas a dificuldade de transformar esses recursos em uma presença política ágil, sensível e convincente diante de uma realidade que já não obedecia aos códigos do século XX.
A frieza e a lentidão eram insuficientes. Era preciso aquecer e acelerar.
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A física nos lembra que para que um corpo se aqueça ou acelere, na maioria das situações, exige-se uma perturbação advinda de um agente externo. Na política também é assim: ela conhece suas faíscas, seus pontos de ignição e suas reações em cadeia. Foi o que aconteceu na campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Quando tudo parecia frio e lento, agentes externos à lógica mais convencional da campanha produziram uma perturbação decisiva.
O filósofo francês Gabriel Tarde (1843-1904) gostava de compreender a sociedade a partir de movimentos microscópicos que, ao se multiplicarem, produzem grandes transformações sociais. Para ele, a sociedade era um processo contínuo de circulação de ideias, desejos, crenças e comportamentos: uma ideia ou ação surge, passa de indivíduo para indivíduo e se expande. Essa perspectiva permite compreender como as mudanças sociais acontecem a partir de transformações microscópicas que se acumulam e se propagam até modificar a sociedade em escala mais ampla.
A estranha articulação entre os atos de rua iniciados por estudantes da Universidade Federal Fluminense e o exército digital criado por André Janones rompeu a inércia e alterou a temperatura da campanha ao injetar novas velocidades e ativar uma energia coletiva que parecia ameaçada pela desmobilização. Uma mensagem circulava pela rede, encontrava um corpo na rua, ganhava uma imagem, retornava à rede e alcançava novos públicos. A rua alimentava a rede e a rede alimentava a rua: um movimento contínuo de retroalimentação e ampliação de potência.
A velocidade, nesse caso, é uma condição da disputa política. Fazer a atualização e tomar as rédeas das redes significava disputar o enquadramento dos acontecimentos antes que a narrativa adversária se consolidasse. Traduzir um tema complexo em uma mensagem compreensível significava reduzir a distância entre a elaboração e o cotidiano. Disseminar um conteúdo significava criar oportunidades para que indivíduos isolados reconhecessem preocupações comuns e se percebessem como parte de uma coletividade.
Talvez tenha sido essa a descoberta mais importante: o Brasil algorítmico não era um território exclusivo da extrema-direita. Embora dirigido pela Meta com intenções claras, a esquerda também poderia ocupá-lo, disputar seus códigos, acelerar suas mensagens e produzir nele outras formas de encontro para construir uma maneira própria de fazer circular cálida e velozmente a esperança: hackeá-lo para, com garra e graça, alterar autônoma e temporariamente seu sentido.
Uma multidão, afinal, não é apenas um conjunto de pessoas que concordam entre si: é também uma espécie de experiência de intensidade. Um corpo percebe que não está sozinho, um gesto se repete e ganha escala, o medo vivido privadamente se transforma em coragem compartilhada. A rua e a rede aquecem e aceleram porque aproximam, fazem circular afetos e tornam visível uma potência que, quando dispersa, pode parecer inexistente. A relação que incandesceu rapidamente o Brasil, afinal, tornou-se case mundial.
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“Uma multidão, afinal, não é apenas um conjunto de pessoas que concordam entre si: é também uma espécie de experiência de intensidade. Um corpo percebe que não está sozinho, um gesto se repete e ganha escala, o medo vivido privadamente se transforma em coragem compartilhada.” – Danichi Hausen Mizoguchi
Em O saber como crime, entrevista concedida no Japão em 1976, Michel Foucault (1926-1984) propõe uma questão fundamental sobre o esvaziamento do imaginário revolucionário: a necessidade de restituir à revolução sua taxa de desejabilidade, isto é, sua capacidade de despertar esperança, mobilizar afetos e tornar imaginável uma existência radicalmente diferente daquela imposta pela ordem vigente. Recuperar a desejabilidade da revolução significa devolver à política a capacidade de fazer as pessoas não apenas temerem o futuro ou defenderem o que ainda resta, mas desejarem ativamente outras formas de vida.
Em sua reflexão, Foucault menciona o Brasil como um exemplo a ser seguido. A referência ganha uma ressonância particular quando colocada em diálogo com a frase de Caetano Veloso segundo a qual o Brasil deve ser um sinal de salvação para o mundo. A vitória eleitoral de 2026 talvez seja a síntese dessa posição. Derrotar os anjos tronchos do Vale do Silício, enfrentar Donald Trump, Marco Rubio e a onda global de extrema-direita e tantas outras coisas não é pouco. É um acontecimento que nos devolve a memória de nossas insurreições históricas e nos lembra de que o Brasil não está condenado a reproduzir os destinos políticos que parecem se impor ao restante do mundo pelos grandes centros econômicos e de poder.
O nome Brasil carrega a memória da madeira que forneceu o pigmento vermelho que alimentou o comércio colonial. Mas podemos também escutar, nesse nome, a ressonância daquilo que arde, daquilo que guarda calor, daquilo que pode voltar a incendiar-se. O Brasil tem uma história de brasa escondida sob as cinzas, de forças que parecem adormecidas até que uma faísca as faça despertar. Mas o tição não basta se permanecer isolado, protegido do vento e incapaz de transmitir seu calor. É preciso propagá-la, alimentar a combustão e produzir um fogo que não se apague no primeiro sopro contrário.
Foi o psicanalista e teórico político Wilhelm Reich (1897-1957) que, meses depois da ascensão do nazismo na Alemanha, e ecoando Le Bon à sua maneira, alertou: as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo. Quase um século depois, era preciso lembrar: para vencer a extrema-direita, é ainda imperativo disputar o desejo – todavia, agora, com as novas armas de um novo exército. Vencer o fascismo miliciano, afinal, era questão de sobrevivência. Transformar essa vitória em uma nova capacidade de desejar, imaginar e construir outros futuros é o desafio que vem. O Brasil precisa mesmo ser um sinal para o mundo: um sinal que acelere e incendeie a brasa quente, veloz e sempre vermelha como o Boitatá, o manto Tupinambá, a argila do chão de Canudos e as bandeiras tremulantes da multidão que dançou alegre no último domingo de um inesquecível e eterno outubro.
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