Adriana Vieira Lomar conseguiu um feito e tanto alguns anos atrás: concorreu em duas categorias distintas do Prêmio Jabuti no mesmo ano, com os livros Ébano sobre os canaviais (José Olympio, 2023), semifinalista na modalidade Romance de Entretenimento, e Corredor do tempo (Patuá, 2023), finalista na categoria Juvenil. Após dois anos, a autora lança seu mais novo romance, Onda Cabocla (Faria e Silva, 2026).
Segundo a autora, a escrita de Onda Cabocla passou por anos de gestação após a premiação no Jabuti, durante os quais o romance mudou de título. Lomar afirma, no decorrer da entrevista, compreender as premiações como consequências, estando mais preocupada com a construção das suas narrativas e com o trabalho de escrita e reescrita, leitura e releitura ao longo dos anos.
O romance de formação gira em torno de Raquel e sua vida em um povoado de pescadores, onde o rio se encontra com o mar, e, posteriormente, de seus deslocamentos, como a saída do Brasil e a estadia em Madri, possibilitada por uma bolsa de estudo. Lomar não deixa de lado seu olhar atento aos outros modos de vivenciar o Brasil, mais precisamente, aos modos de vida dos sujeitos que vivem longe das grandes capitais, colocando em pauta seus costumes e suas formas de viver, tão diversos e próximos da natureza.
Onda Cabocla será lançado na próxima quinta-feira, dia 5 de novembro de 2026, na Livraria Janela, localizada no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Nesse dia, haverá um bate-papo entre a autora Adriana Vieira Lomar e Claudia Lage, com o tema “Paisagem, memória e ficção: de onde nasce uma história?”. Em seguida, ocorrerá uma sessão de autógrafos.
Às vésperas de lançar seu novo livro, Lomar conversou comigo e respondeu a algumas perguntas que surgiram após pesquisar e ler sobre o novo romance e sua trajetória como escritora. Abordamos o processo de criação e as representações coletivas dos povos do campo, das águas e das florestas que vivem neste vasto Brasil.

“O Brasil profundo está repleto de histórias marcadas pelo abandono e pelo descaso”, diz Adriana Vieira Lomar
Douglas Sacramento: Em 2024, você obteve duas indicações ao Prêmio Jabuti com livros distintos e em categorias diferentes: Ébano sobre os canaviais, na categoria Romance de Entretenimento, e Corredor do tempo, na categoria Juvenil. Após esse momento, como foi escrever o próximo romance, Onda Cabocla?
Adriana Vieira Lomar: Onda Cabocla não foi escrito após 2024. O romance foi construído ao longo de muitos anos e passou por um intenso processo de reescrita a partir de 2021. Prêmio ou reconhecimento são consequências, nunca a finalidade. Não escrevo pensando em premiações; escrevo por uma necessidade pessoal.
Onda Cabocla teve outro título durante muito tempo. Chamava-se Entrelinhas Estrangeiras e permaneceu guardado em minha gaveta enquanto eu o lapidava. Aos poucos, percebi que o livro havia alcançado a maturidade necessária para chegar aos leitores.
DS: No romance, com lançamento marcado para 5 de novembro, a protagonista Raquel é uma mulher profundamente ligada aos povos do campo. Qual a importância de abordar essa vivência na narrativa?
AVL: Onda Cabocla é um romance de formação que acompanha a trajetória de Raquel desde o nascimento até a morte. Seu ciclo se confunde com o das tartarugas marinhas, que jamais esquecem o lugar onde nasceram.
Mesmo após emigrar para a Espanha, Raquel continua ligada às margens da foz do Rio Doce. À distância, ela permanece habitando a casa dos afetos, as marcas do abandono paterno, os medos, a violência sofrida na própria pele e o antes e o depois do rompimento da barragem que mortificou o rio.
Sua vida é pautada por traumas e ausências que ela própria escreve e reescreve, numa tentativa constante de compreender a si mesma e ao lugar de onde veio.
DS: Atualmente, políticas públicas como o PNLD vêm ampliando a representação de sujeitos que vivem no interior do Brasil, nas populações do campo, das águas e das florestas. Quais são os caminhos percorridos por sua protagonista e como a relação com o entorno ajuda a compreender essas coletividades?
AVL: O Brasil profundo está repleto de histórias marcadas pelo abandono e pelo descaso. Há regiões com riquezas minerais exploradas intensamente que continuam mergulhadas na pobreza.
A cidade que inspirou o romance fica justamente no encontro entre o rio e o mar. É a última cidade antes do oceano e não possui uma fonte segura de água limpa. A população depende de galões fornecidos pelos órgãos competentes para evitar doenças. Na ficção e na realidade, não se pode beber da água nem pescar no rio. A vila, que vivia da pesca e do turismo, teve seu cotidiano transformado após o rompimento da barragem de Mariana.
O caminho de Raquel é o da tentativa de recomeçar. Ela encontra no conhecimento a principal ferramenta para superar o destino que lhe foi imposto. Conhecer esses territórios esquecidos foi fundamental para construir não apenas sua história, mas também a dos demais personagens.
Há uma casa de mulheres comandada por Dona Maloca, mãe solo que cria quatro filhas, entre elas uma jovem com deficiência. Também existe o arco do pai, José, além de outros personagens fundamentais para o desenvolvimento das diferentes camadas do romance.
A narrativa é dividida em três partes: A última vila antes do mar, O exílio e Os sonhos e o rio, que encerra a obra, deixando que as águas e a memória falem por si.
“Às vezes a literatura funciona como um unguento para as nossas feridas.”
DS: A localização e as paisagens têm grande importância na construção da protagonista. Entre Madri e a devastação de sua terra natal, existe uma reflexão crítica sobre o Brasil. Para você, como a literatura pode funcionar como registro e reflexão sobre o país?
AVL: Minha intenção como ficcionista não é denunciar, mas escrever sobre aquilo que me toca. As histórias brotam das minhas vivências e do que observo ao meu redor.
Durante uma viagem para Maceió, avistei o mar entre o Espírito Santo e a Bahia. A cor de abóbora das águas, especialmente na foz do Rio Doce, chamou minha atenção. Foi ali que visualizei, ainda dentro do avião, uma casa habitada por gente da terra. A imagem tornou-se o embrião do romance. Dela nasceu a casa de Dona Maloca, mãe de Raquel, e sua luta para sustentar as quatro filhas.
Era 2015. De lá até 2026, a narrativa foi sendo transformada também por uma experiência que vivi em Madri, ao visitar o Museu Reina Sofia. Diante de Guernica, de Picasso, senti algo semelhante ao que havia sentido ao observar o rio e o mar marcados pela tragédia. As guerras continuam acontecendo, e muitos bombardeios acontecem dentro de nós.
Raquel é uma metáfora desses conflitos internos. Abusada pelo próprio tio, ela encontra nos livros e na escrita uma forma de apaziguar seus traumas. Ao mesmo tempo, busca a figura de um pai até então desconhecido. Talvez a literatura possibilite esse encontro, porque às vezes ela funciona como um unguento para as nossas feridas.
DS: O corpo como documento, sobre o qual se inscreve uma narrativa, possui uma relação complexa entre lembrar e esquecer. Em Onda Cabocla, o título também evoca uma dimensão coletiva. Como funciona essa relação entre o individual e o coletivo no romance e em sua produção literária?
AVL: Caboclo Bernardo existiu e foi uma das inspirações para o romance. O homem que salvou marinheiros e recebeu uma condecoração da Princesa Isabel era negro e, anos depois, foi assassinado ao ser confundido com um macaco, em um episódio marcado pelo racismo.
A palavra “onda” remete à massa de rejeitos que atingiu a foz do Rio Doce e a vila de Regência, mas também às ondas do mar que tornaram a região conhecida internacionalmente por suas competições de surfe.
Há ainda outro significado: as ondas da própria vida. Todos nós enfrentamos movimentos de ascensão e queda, bem como os bombardeios que carregamos internamente.
Assim como Picasso pintou Guernica, Raquel escreve sua própria história. Ela registra a morte do rio de sua infância, a morte simbólica de si mesma e suas sucessivas tentativas de sobrevivência. O individual e o coletivo se encontram justamente nesse ponto: a experiência de uma personagem reflete a experiência de uma comunidade inteira, enquanto a memória de um território permanece inscrita nos corpos de quem o habita.
DS: Por último, quais serão os próximos passos na divulgação do romance? Já existe alguma ideia para um novo livro?
AVL: Espero, acima de tudo, que o romance encontre seus leitores: jornalistas, pesquisadores e o público em geral.
Quanto ao próximo livro, estou me permitindo descansar. Acabo de concluir um longo processo de escrita e reescrita e sinto que preciso de férias. Trabalhei intensamente em Onda Cabocla e agora desejo apenas mergulhar no mar; de preferência em águas limpas, sem resquícios de bauxita ou qualquer outra substância tóxica. Quanto aos rios, infelizmente, isso parece cada vez mais difícil.
Acredito que toda nova história precise de silêncio antes de nascer. Por enquanto, prefiro escutar esse silêncio.

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