
Projeto Divã na Janela prepara-se para iniciar um novo ciclo com diálogo literário entre Carola Saavedra e Ursula K. Le Guin
Em entrevista para O Odisseu, a jornalista e editora Michelle Strzoda, curadora do projeto junto à psicóloga e escritora Luisa Benevides, conversou sobre a nova proposta do clube e laboratório de textos.
Fotos: Monica Ramalho/ Divulgação.
Iniciado ainda em março deste ano, o Projeto Divã na Janela está prestes a dar início ao seu segundo ciclo de encontros, em parceria com a Janela Livraria. Desta vez, as atividades irão se desenrolar na unidade do bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O projeto, criado por Michelle Strzoda, jornalista e editora, e Luisa Benevides, psicóloga e escritora, pretende ser mais que um clube de leitura: apresenta-se como um laboratório de textos, um espaço seguro para a criação literária, partindo da leitura de obras selecionadas afetivamente pelas curadoras, sem, no entanto, se limitar a elas. Com mais de 20 anos de experiência no mercado editorial, Strzoda conversou com O Odisseu sobre o novo ciclo, que será realizado mensalmente entre setembro de 2026 e março de 2027.
Mais que uma comunicadora com ampla experiência no mercado editorial, Michelle Strzoda mostra-se uma verdadeira entusiasta da literatura. É evidentemente uma dessas figuras empolgadas – além de comunicadora da Relicário Edições, é tradutora, professora universitária e mestranda em Mídias Criativas pela UFRJ. Ela explica como todas as suas experiências pregressas pavimentaram o caminho para a recente criação do Divã, iniciado em março deste ano na unidade do Jardim Botânico da Janela Livraria, na capital fluminense. A princípio, as atividades, realizadas em parceria com Benevides, correram em um modelo mais tradicional. Agora, em Laranjeiras, o projeto se ambienta em um bairro conhecido por sua vida cultural e por ter sido residência de diversos escritores, entre eles Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e Sérgio Sant’Anna. Lima Barreto nasceu na Rua Ipiranga, e Machado de Assis residiu logo no bairro vizinho, Cosme Velho.
Sobre o início do projeto, Strzoda conta: “Fui estudar esse pessoal todo, o surgimento da crônica na imprensa, o gosto do leitor brasileiro, da formação literária. Falei: ‘caramba, seria legal ter algum projeto com livros’, e eu tinha percebido essa coisa do resgate do Círculo do Livro com os clubes de leitura. Fico muito feliz com essa profusão de clubes, mas eu falei: Gente, precisa fazer mais algum? Eu acho que já tem demais, não precisa.”

“Conversando com a Luisa Benevides, que é uma grande psicóloga, doutora em literatura e saca muito de psicanálise, a gente teve essa ideia de fazer um clube que tivesse o livro ali como um disparador, mas que não se encerrasse na leitura. A gente queria fazer uma espécie de espaço de pausa, de reflexão, de escrita, porque para nós a escrita é uma forma de catarse, de expressão, de se encontrar no mundo. E aí, tivemos essa ideia de conectar interesses comuns entre nós. Eu já venho ministrando cursos independentes desde 2008, 2009… Aí, falamos: ‘Será que a nossa pegada seria um clube mesmo ou seria mais um laboratório?’, porque o que a gente quer é experimentar. Então, começamos a tatear o Divã como um clube em leitura, escrita e escuta.”
A respeito da união entre literatura e psicanálise – aliás, já consolidada como um campo dos Estudos Literários – Strzoda defende que se tratam dos dois grandes temas que, em sua visão compartilhada com Benevides, ampliam as questões essenciais para o contemporâneo, destacando o corpo, a memória e a identidade.
Sobre a conversa com Carola Saavedra, atividade associada ao Projeto e que antecede o novo ciclo de encontros, comenta: “Quando a Carola me procurou pela Relicário, falou assim: ‘Mica, estarei no Rio em setembro e pensei em fazermos algum encontro’. Ela mora na Alemanha e é uma autora sensacional. Nós fizemos, pela Relicário, um livro que é um dos que eu mais gosto dela, chamado O Mundo Desdobrável. Esse livro até hoje é muito adotado em clubes do livro, ganhou o 3º lugar do prêmio da Biblioteca Nacional, teve uma repercussão muito boa”. Porém, como O Mundo Desdobrável não se trata de um lançamento, a estratégia para promover a conversa é ainda mais autêntica: unir a visão ensaística de Saavedra ao discurso afiado da estadunidense Ursula K. Le Guin, que acaba de ser agregada ao catálogo da Relicário Edições com um volume que reúne algumas de suas entrevistas mais notáveis. Strzoda esmiuçou as razões para a união desta dupla:
“Muita gente não sabe, mas a Carola é uma grande leitora de Ursula K. Le Guin. Eu não era leitora de Ursula, mas, [com] esse livro que a gente lançou, eu redescobri essa mulher, porque é uma outra Ursula Le Guin. É a mãe, é a dona de casa, é a pessoa cidadã americana, é uma Ursula que não está na história de ficção. É como se a gente estivesse conversando tête-à-tête na mesa de bar ou assistindo a um encontro informal em livraria, batendo um papo com ela, porque no livro ela faz isso. Ela é entrevistada e se descortina completamente, sem filtro, e ela fala o que bem entende com aquele humor, com aquela ironia fina. E você vai ver a data, o contexto em que essa mulher soltou essas pérolas, e fica impressionado, porque ela era muito vanguardista, muito visionária. Eu particularmente desconhecia, até brinquei com a Maíra [Nassif]: ‘da onde você tirou esse livro?’, porque é uma loucura isso. Eu estou fascinada”, explica a comunicadora, que emenda relembrando com entusiasmo o momento em que a combinação para o lançamento do ciclo se formou: “Mandei para a Carola e ela falou assim: ‘Cara, tem tudo a ver’. Quando a Carola retornou topando a conversa sobre Ursula, pensei em unir os ‘mundos desdobráveis’ das duas autoras nesse encontro, um tema que tem tudo a ver com o que a gente exercita no Divã.”
A ideia é apresentar o encontro como uma conversa entre Saavedra e Le Guin, ainda que a presença da última, falecida em 2018, se dê metaforicamente. Ou melhor – literariamente. Em ambas as obras, há um trabalho com as experiências pessoais das autoras e suas respectivas visões de mundo. Segundo Strzoda, a exposição de uma vivência particular pode ser intimidadora, percepção que muda à medida que se percebe como muitas experiências são compartilhadas. Emerge daí a ideia de partir do texto literário, compreendendo-o como um disparador, ou ainda, como no vocabulário formal da psicanálise, um fator desencadeante.
Não chega a ser de todo uma coincidência que os livros selecionados para o ciclo se tratem de obras de gênero híbrido, ou “inclassificáveis”, como define Strzoda. Os títulos já definidos incluem Coisas presentes demais, de Flávia Péret (Relicário, 2026), e Caderno Proibido, de Alba de Céspedes (Companhia das Letras, 2022). A comunicadora ainda observa como a inespecificidade é uma característica marcante da literatura contemporânea, incluindo diversas das obras que a tocam, assim como a Benevides. Ela deixa claro que, desde o princípio, era importante que os encontros girassem em torno de obras verdadeiramente apreciadas pela dupla.
“Nós fomos percebendo, tanto a Luisa quanto eu, que as narrativas por onde a gente ia trafegar tinham muito essa verve da autoficção, da escrevivência. A gente já trabalhou na outra temporada com Conceição Evaristo, Lina Meruane, Ágota Kristóf, Débora Levy, Vivian Gornick… autoras de editoras diferentes, mas que se cruzavam um pouco na experiência da memória, do corpo, da maternidade, da dor. E aí, a gente foi entendendo que o nosso rolê era esse, e que acaba sendo um pouco o do público que procura a gente.”
Os encontros prometem estabelecer, em quatro movimentos, experiências que partem da leitura e da “desmontagem” das obras e sua aproximação com outras autorias (incluindo cartas, ensaios e poemas). Prevê-se, ainda, a oficina de escrita, que culminará em um espaço de escuta em que as criações, ainda em estágio primário, serão compartilhadas entre os participantes a fim de permitir a reescrita dos textos entre os encontros. Mais do que exercitar a escrita autoral, o projeto prevê a publicação de uma plaquete com os resultados do laboratório, a ser publicada em 2027, pelo selo Janela + mapa lab.
Strzoda comenta também sobre a dinâmica com Benevides para os encontros: “A gente une as nossas habilidades e cada uma vai conduzir um campo em que tem mais estoque para poder mediar aquele tema. Então, achamos que seria muito pertinente trazer essa visão da psicanálise. Ninguém aqui vai trabalhar conceitos técnicos aprofundados, nem é a proposta. O que fazemos é trazer o olhar da psicanálise para determinados temas, como a questão do corpo, do desejo, do silêncio, porque as autoras que a gente trabalha demandam isso; e aí vem a Luisa, que tem esse conhecimento e traz um outro conceito para que se possa balizar o que estamos fazendo.”
Como a proposta é expandir para o exercício da escrita, há uma expectativa para as produções que surgirão nos encontros. Para isso, Strzoda e Benevides propõem o “Método Divã”, que consiste no que chamam de leituras encruzilhadas, além da análise dos procedimentos literários e os momentos reservados para a escrita dos participantes e a escuta das produções uns dos outros. São norteadores do método o Ler (desmontar a escrita), o Experimentar (escrever), o Escutar (compartilhar) e o Reescrever (retrabalhar entre encontros). Este último, destacado por Strzoda, demarca o lugar de importância da lapidação das autorias anterior à reunião para a futura publicação:
“Essa experimentação tem o seu momento individual e coletivo, e ela tem o momento de retorno. Essa escuta, tanto nossa, mediadoras, mas também do grupo, nem sempre é pacífica… Ela tem uma intenção de ter um acolhimento, mas, ao mesmo tempo, tem uma intenção de desestabilizar, de provocar. Se você não desestabiliza de alguma forma, não gera o debate, e se você não gera o debate, do nosso ponto de vista, você não é relevante. Não vamos escrever 300 páginas, não é isso. Muitas vezes, para escrever pouco, você quebra muito mais a cabeça, elabora muito mais para chegar naquela síntese. Não é à toa que editar é cortar, cortar, cortar e chegar no essencial. Aí chegamos nessa fase da reescrita, porque muita gente chega armada. Falam assim: ‘Poxa, mas eu não sou escritor, não sou escritora, eu vim da medicina’. Tem médicos, tem gente que é da engenharia, tem matemático. Eu falo: ‘mas aqui a gente não está falando para literatos, a gente está falando da vida, de histórias, a gente está lidando com a imaginação’. Criamos esse método [pensando no] universo de cada um.
“Cada pessoa tem a sua rotina, a sua vida, os seus desafios, os seus desejos, os propósitos que a fizeram procurar a gente. Então, entendemos que você não tem certeza de nada, porque a literatura é um poço de incertezas. Você está nadando no desconhecido, mas entendemos que ter um método ali, ter uma forma de trabalho, poderia ajudar cada um a se encontrar nessa liberdade, de se ver em algo, se reconhecer ou não se reconhecer, e de ter algum retorno franco.”
A conversa “Os mundos desdobráveis de Ursula K. Le Guin e Carola Saavedra” é gratuita e será realizada na próxima quinta-feira, dia 17 de setembro, às 19h, na Janela Livraria de Laranjeiras, Rio de Janeiro. O ciclo de encontros inicia em 29 de setembro e as inscrições seguem abertas, podendo ser feitas presencialmente na Livraria ou pelo número de WhatsApp (21) 99219-8070. Maiores informações sobre o Divã, incluindo valores, podem ser consultadas no Instagram do projeto.

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