78 anos de Caio Fernando Abreu

Para Caio F., de seu amigo póstumo

Primeiro, fui leitor. Depois, poeta. E agora retorno a Caio como pesquisador.

Por Ramon Nunes Mello.

Foto: Juvenal Pereira (Estadão)/ Reprodução.


Hoje, 12 de setembro, Caio Fernando Abreu faria 78 anos.

Conheci Caio quando estudava na Escola Estadual de Teatro Martins Pena, no Rio de Janeiro, no início dos anos 2000. Foi na Biblioteca Procópio Ferreira que encontrei seus livros. Li Morangos Mofados no mesmo período em que começava a descobrir minha própria sexualidade.

A literatura de Caio me aproximava de coisas que faziam parte da minha vida ou que eu começava a conhecer: a música, a cultura underground, o universo gay, a noite, o desejo, a cidade. Eu reconhecia ali um mundo que raramente encontrava representado daquela maneira na literatura brasileira.

Nessa época, também assisti a algumas montagens teatrais de seus textos. Entre elas, Os Dragões, da Companhia de Teatro Íntimo, de Renato Farias, com a atuação inesquecível de Fernanda Boechat; Aqueles Dois, da companhia mineira Luna Lunera; e Sapatinhos Vermelhos, com Natasha Corbelino, por quem me encantei. Essa admiração acabou se transformando, muitos anos depois, em parceria de trabalho e de vida.

“Em 2012, recebi o diagnóstico de hiv/aid$. Voltei aos livros de Caio.”

Em 2009, publiquei meu primeiro livro de poemas, Vinis Mofados. O título guardava uma homenagem a Caio, à música, aos discos, ao universo homoafetivo e à memória.

Em 2012, recebi o diagnóstico de hiv/aid$. Voltei aos livros de Caio. Reli contos, crônicas, poemas. Passei a procurar neles outras coisas. Sobretudo, a maneira como ele havia escrito sobre a epidemia antes mesmo de saber que ela faria parte de sua própria vida.

O hiv/aid$ não começa em sua obra com o diagnóstico de Caio. Em Pela noite, de Triângulo das águas, publicado em 1983, a palavra “AIDS” aparece duas vezes. Em 1987, na crônica “A mais justa das saias”, publicada em O Estado de S. Paulo, Caio conta que ouviu falar de “AIDS” pela primeira vez quando Markito morreu. Estava na sala de televisão do antigo Hotel Santa Teresa, no Rio de Janeiro, assistindo ao Jornal Nacional.

Em 1988, em Os dragões não conhecem o paraíso, aparece “Linda, uma história horrível”. A palavra não é dita. Está nas manchas, no corpo que emagrece, no medo, no silêncio. A doença permanece sem nome, mas o leitor sabe o que está diante dele. É uma narrativa espelhada.

Em 1990, com Onde andará Dulce Veiga?, a “AIDS” passa a ocupar um lugar mais explícito. Márcia e o narrador são atravessados pela doença. Caio chegou a definir o romance como “uma história de amor entre dois contaminados”.

Só em 1994, depois do próprio diagnóstico, a experiência passa a ser escrita a partir de seu corpo. Em “Primeira carta para além dos muros”, ele escreve:

“Alguma coisa aconteceu comigo. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela.”

Gosto dessa frase porque ela não resolve a experiência. Caio ainda não sabe como falar sobre aquilo. A doença aparece primeiro como uma coisa estranha, depois ganha nome.

Herbert Daniel escreveu sobre o hiv/aid$ de maneira direta, com uma clareza e uma força fundamentais. Caio seguiu outro caminho. Sua escrita foi atravessada pela epidemia antes que ele pudesse explicá-la. O corpo, o desejo, o medo, a doença e as relações já estavam ali.

Por isso considero Caio um dos escritores brasileiros que melhor escreveram sobre o hiv/aid$, mas também um dos que melhor escreveram com aquilo que a epidemia produziu na linguagem, nos corpos e nas relações.

“Hoje me considero um amigo póstumo de Caio.”

Em 2016, quando trabalhava com curadoria literária no Sesc RJ, participei da exposição “Caio Fernando Abreu – Doces Memórias”, no Sesc Copacabana, dentro de A Palavra Líquida | Caio F. Epifanias, sob a gestão cultural de Maria José Motta Gouveia e sua equipe.

Foi uma aproximação diferente com Caio. Estavam ali pessoas importantes para a preservação e a circulação de sua obra, como Liana Farias Carneiro de Sá, Lara Souto Santana, Márcia de Abreu Jacintho, Cláudia de Abreu Cabral e Jefferson Cephane. Também reencontrei amigos e interlocutores de Caio, entre eles Italo Moriconi, Gil Veloso, Marina Lima, Gilberto Gawronski, Luiz Arthur Nunes, entre outros.

Guardo especialmente a lembrança de Gilberto Gawronski, que, depois de quinze anos apresentando “Dama da Noite”, voltou ao texto e o encenou dentro de uma gaiola no Palácio Quitandinha, em Petrópolis.

Por meio de Paula Dip, conheci também alguns lugares de São Paulo frequentados por Caio, como o Ritz. Fui algumas vezes a Porto Alegre falar sobre sua obra. E, durante minha pesquisa sobre Cazuza, reencontrei os textos que Caio escreveu sobre ele.

Numa dessas pesquisas, encontrei uma entrevista de 1978, publicada na revista Inéditos, em que Caio dizia: “Eu sou o Ney Matogrosso da literatura brasileira.” A frase continua me interessando. Há nela liberdade, desejo de escapar de definições e uma espécie de coragem para ocupar a própria diferença.

Em 2018, organizei Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv/aids. O título vinha de “Primeira carta para além dos muros”. Eu não sabia, naquele momento, que a frase de Caio continuaria me acompanhando tantos anos depois.

Primeiro, fui leitor. Depois, poeta. E agora retorno a Caio como pesquisador. 

Hoje pesquiso sua poesia, uma dimensão de sua obra que muitas vezes fica à sombra dos contos, das crônicas e dos romances. Primeiro, sobre o desejo. Depois, sobre o corpo. Mais tarde, sobre o hiv/aid$. E agora, sobre a linguagem poética e o vírus.

Hoje me considero um amigo póstumo de Caio.

Não o conheci em vida. Cheguei depois, infelizmente. Mas continuo encontrando Caio nos livros, nos poemas, nas cartas, nos personagens e nas palavras.

Na semana em que vim para a Bahia, para participar do festival Mínimos Óbvios, a convite de Djalma Thürler, sonhei com ele.

Caio apareceu como se a nossa conversa já estivesse acontecendo havia muito tempo. Falava poemas no meu ouvido. Acendeu um cigarro. Riu alto. Não lembro de tudo. Quando acordei, lembrava destes versos: “quero um amor de suor e carne / agora: enquanto tenho sangue”

Foi assim que Caio voltou.

Não em um livro, nem numa fotografia, nem numa lembrança antiga: num sonho. E talvez seja por isso que, tantos anos depois, eu ainda possa dizer que sou seu amigo póstumo.

Porque continuo escutando.


Ramon Nunes Mello é poeta, escritor, jornalista e ativista de direitos humanos. Pesquisador, possui mestrado em Poesia Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente é doutorando em Ciência da Literatura pela mesma instituição. Autor de diversas obras publicadas, entre elas: Vinis mofados (2009), Poemas tirados de notícias de jornal (2011), Há um mar no fundo de cada sonho (2016) e A menina que queria ser árvore (2018) – livro infantil em parceria com o artista André Cortês. Organizador de projetos editoriais, como: Escolhas – autobiografia intelectual de Heloisa Buarque de Hollanda (2010), Ney Matogrosso – Vira-lata de raça (2018), Tente entender o que tento dizer – poesia + hiv/aids ( 2018), Do fim ao princípio – poesia completa de Adalgisa Nery (2022), Meu lance é poesia – Cazuza (2024) e Protegi teu nome por amor – Cazuza (2024). Curador das exposições Rodrigo de Souza Leão – Tudo vai ficar da cor que você quiser (2011) e Cazuza – Exagerado (2025/2026).