Entrevistas

Entre páginas brancas e miçangas coloridas: A criatividade crítica de Tereza Bettinardi

Em entrevista para o n30 da revista O Odisseu, a designer e editora Tereza Bettinardi conversa sobre seus processos criativos e os aspectos materiais e políticos do campo da editoração. Leia trecho gratuito aqui!

Foto: Nino Andrés/ Divulgação.


Em 1917, Virginia Woolf fundou, junto de seu marido Leonard, a editora Hogarth Press. Em trechos de cartas e diários, a escritora inglesa reconhecia o privilégio de que usufruía por ser proprietária do meio de produção com que dava corpo à sua obra literária experimental. O caso serve de anedota às dinâmicas desiguais de publicação e circulação no mercado editorial; dinâmicas que antecedem e se sucedem ao caso dos Woolf, e encontram na publicação de Inimigas naturais dos livros: uma história conturbada das mulheres na impressão e na tipografia (2022) um de seus mais notáveis esforços para revelar os diversos agentes envolvidos com a imprensa que costumam ser apagados pela historiografia predominante da cultura gráfica. Inimigas é o título inaugural da editora fundada por Tereza Bettinardi a partir de seu Clube do Livro do Design, pela qual acaba de sair Design Global, Crítico, Negro e Prático (2026). As publicações revelam um projeto editorial que busca trazer à tona a história do design e da imprensa sob perspectivas como gênero, classe e raça, e revelam o olhar atento e político de Bettinardi, que, nesta entrevista, conversa sobre temas transversais ao seu currículo profissional e compartilha suas visões tanto para a criação quanto para a teoria e crítica do design gráfico. Destacando o lugar da história do ofício criativo e das referências múltiplas, do pop ao erudito, Bettinardi rejeita respostas simplistas e apolíticas. Em certo momento, ao comentar gostos pessoais, recorre à estante do próprio estúdio para mostrar a vastidão de seu repertório e o encanto que surge das combinações imprevisíveis. Um exemplo é a boneca de miçangas repousando delicadamente entre os livros – os tantos que lê e os tantos que ajudou a trazer à forma visual e física. Estas facetas podem ser conferidas no podcast Lombada (meio pelo qual conheci, ao menos conscientemente, seu trabalho) e também no ensaio “Uma coreografia de páginas e tintas”, recentemente publicado no Cadernos Sesc de Cidadania (edição 22, 2026). Estas produções, dirigidas pela designer e editora gaúcha, que vive e trabalha em São Paulo, revelam ao público aspectos importantes dos produtos e processos editoriais, destacando a beleza, a funcionalidade e a historicidade de capas e projetos gráficos, cujo processo de criação inclui escolhas que podem passar despercebidas ao leitor comum (retomando o vocabulário woolfiano), mas que guardam tensionamentos políticos, econômicos e materiais. 

Confira a entrevista e alguns dos trabalhos de destaque de Tereza Bettinardi a seguir:

Tereza Bettinardi: “Eu gosto de pensar que o projeto gráfico de um livro também funciona como uma tradução

Trabalhos de Tereza Bettinardi. Fotos: Nino Andrés/ Divulgação.

Kaio Veloso: A materialidade de um livro envolve elementos que podem passar despercebidos: gramatura e textura do papel, escolha de tipografia, tipo de encadernação e acabamentos. Você teve diversos de seus trabalhos em design editorial reconhecidos por prêmios como Latin American Design Awards, Prêmio Design Museu da Casa Brasileira e um Prêmio Jabuti pelo projeto gráfico de Decameron (Cosac Naify, 2014). Ao conhecer um pouco desta trajetória, fica uma grande curiosidade em saber, afinal, como a sua mente funciona do ponto de vista criativo? Poderia compartilhar algumas histórias sobre como você constrói a dimensão visual e até mesmo tátil da leitura, pensando, é claro, que o objeto livro se comunica com o leitor durante e antes mesmo de ser lido?

Tereza Bettinardi: Eu acho que o livro acaba sendo resultado de muitas conversas com muitas pessoas. Então, acaba não sendo só como eu imagino que um leitor hipotético vai entrar em contato com aquele livro, mas também o que os editores e as demais pessoas que estão fazendo o livro também esperam daquela edição.

Bem ou mal, não dá para ignorar essa variável. E aí, isso acaba acarretando vários resultados. O primeiro é: “Como essa materialidade vai ser executada?” Porque, muitas vezes, um editor pode ter os recursos financeiros para fazer aquele livro como um designer imagina e tal. Mas, geralmente, a maneira como ele vai ser impresso e quais são os recursos materiais que vão fazer com que ele seja possível definem muito a forma do livro. E eu penso que esse é um ponto que não é muito dito – quem paga a conta. Porque acaba sendo um empreendimento, uma aposta.

Ninguém tem a certeza de que aquele livro vai vender ou quanto vai vender antes dele ir para o mundo, né? Você acaba apostando e pode apostar muito alto e não dar tão certo, ou apostar e a coisa se pagar e você conseguir seguir publicando, ou ter novas tiragens daquele livro. E aí, isso acaba definindo muito a forma final que o livro vai ter. Se vai ser uma capa dura, se não vai ser, se vai ter um hot stamping na capa ou não, que é o que vai tornar aquele livro talvez memorável, especial. Então, tu vai meio pensando em quais recursos cabem no que as pessoas envolvidas também têm em mente. Por isso que eu acho que esse é um ponto não muito falado – que a forma do livro também depende muito da disposição financeira das pessoas envolvidas. Mas, pensando como é que funciona o meu processo criativo, pensando no livro, claro que começa pelo texto. Tu vai meio entendendo o que aquela história tem como elemento e aí, geralmente, quando eu tenho a possibilidade de ler o livro… porque em alguns casos não dá tempo de ler; às vezes, é só uma capa. E aí, uma capa, tu tem um prazo muito pequeno para executar, e não vai dar para ler todos os livros que eu faço. Mas é meio pensar o que daquela história tu quer enfatizar. Quando eu tenho tempo, é claro que eu faço uma leitura muito mais atenta para pensar quais elementos eu vou pinçar e, talvez, destacar visualmente.

Eu gosto de pensar que o projeto gráfico de um livro também funciona como uma tradução. Da mesma forma que a gente também dá importância para as traduções. E aí, toda a bagagem estética e poética daquele tradutor que vai incrementar aquele livro. Com um designer é a mesma coisa; ele também tem a bagagem para fazer aquela leitura e, quanto mais bagagem ele tem, mais ferramentas ele vai conseguir para fazer essa tradução visual. 

Leia entrevista completa no n30 da revista O Odisseu, “A literatura e suas materialidades: editoração, arquivo e memória” disponível para compra na Amazon Kindle. Clique na capa e adquira.