
Diego Itabira: “Desejei contar uma experiência LGBTQIAPN+ que não estivesse necessariamente associada aos grandes centros do Sul e do Sudeste do Brasil”
Em entrevista para a revista O Odisseu, Diego Itabira, paraense autor de Breu de Maré conta sobre como a tradição oral influenciou na sua obra e defende o “regionalismo fantástico” como categoria e gênero e da sua escrita.
Foto: Divulgação.
Antes de conhecer Diego Itabira, eu já tinha ouvido falar do livro Breu de Maré, uma publicação independente, via Kindle da Amazon, que traz como personagem principal uma travesti marajoara. Na verdade, o livro captura, com muita maestria, diga-se de passagem, a transição dessa personagem de Zé Santinho para Gisberta. O modo como Itabira constrói a história surpreende sobretudo pela densidade da personalidade representada. Sem cair em clichês, o autor nos presenteia com uma protagonista original, verossímil e envolvente. E faz isso trazendo como recurso os elementos da magia da paisagem e tradição amazônica.
Como me contou Itabira na entrevista que você confere agora, tanto a ambientação quanto o uso dos “causos”, lendas e expressões da oralidade paraense confluem para o “regionalismo fantástico”, termo defendido pela escritora Jadna Alana, uma forma de escrita que se relaciona com o “realismo maravilhoso” dos hermanos latino-americanos, mas que não se esgota nele. Na verdade, é na especificidade da localidade dos diversos pontos do “Brasil Profundo” que essa literatura reconhece as tradições e formas possíveis de narrar uma história. Como bem diz Itabira na entrevista, o mágico ou o sobrenatural não aparecem em sua narrativa unicamente como um recurso literário, mas sim porque essa magia faz parte do modo de ser e existir deste Brasil que ele apresenta no livro. Banhado pelos rios e cercado pelas matas, o Brasil que Itabira narra é um Brasil desconhecido por muitos brasileiros e por grande parte do público leitor do país.
Confira agora a entrevista!

“Ser nortista é, desde muito cedo, conviver com o lírico”, diz Diego Itabira
Diego, tive que voltar à sua mini bio para conferir se este era de fato teu primeiro livro. Sim, é! Queria saber como se dá essa sua relação com a escrita antes do livro. Me conte como e por que começou a escrever.
A lembrança mais forte que guardo da infância é a de estar no quintal da minha avó, depois do almoço, lendo gibis à sombra de alguma árvore frutífera. Minha mãe sempre incentivou a leitura, mas, como os livros muitas vezes ultrapassavam o orçamento doméstico, ela encontrava nos gibis das bancas de revista uma alternativa possível. Foi ali que tive meu primeiro contato com uma leitura que realmente me dava prazer. Eu lia e relia as mesmas histórias até conseguir outro gibi. Minha relação com a literatura, portanto, começou como leitor. Um leitor voraz. E, em algum momento desse percurso, surgiu naturalmente a vontade de criar minhas próprias histórias. Acho que existe uma passagem quase inevitável entre se apaixonar pelas histórias dos outros e começar a imaginar as que gostaríamos de contar. Escrevi meu primeiro livro por volta dos doze anos. Foi à mão, em um caderno sem uso, com uma capa que eu mesmo desenhei com lápis de cor. Naquela época, porém, eu tinha muita timidez em mostrar o que escrevia. Meus textos ficavam guardados, era algo muito íntimo, quase secreto. Havia um certo ciúme, mas também um medo de expor aquilo que eu colocava no papel. Com o tempo, a escrita se tornou um refúgio.
Na adolescência, ela funcionava quase como um confessionário: era onde eu depositava angústias, medos, desejos e perspectivas para o futuro. E foi assim durante muitos anos. Em determinado momento, criei um blog e comecei a publicar meus textos. Poucas pessoas acessavam, mas aquele gesto foi importante porque representou a primeira vez em que tive coragem de abrir uma janela para aquilo que escrevia. A partir da pandemia, decidi investir de maneira mais consciente na minha formação como escritor. Passei a buscar capacitação, estudar mais, escrever contos e ensaios e, principalmente, tentar compreender qual era a minha voz e o que, de fato, eu queria contar. Hoje, olhando para trás, percebo que Breu de Maré não surgiu de repente. Ele é resultado de um caminho que começou muito antes, naquele menino lendo gibis no quintal da avó, passou pelo adolescente que escrevia escondido e chegou ao escritor que, finalmente, encontrou coragem e maturidade para colocar suas histórias no mundo. De certa forma, tudo o que veio antes estava me preparando para escrever Breu de Maré.
Agora propriamente sobre o livro, a sua narração recorre muito ao lírico que se mistura com palavras e expressões regionais. Como foi para você encontrar essa voz narrativa?
Ser nortista é, desde muito cedo, conviver com o lírico. Ele está nos “causos”, na relação com a natureza, no saber popular e na maneira como as pessoas interpretam e narram o próprio cotidiano. Cresci cercado pelas histórias da infância dos meus avós e das minhas tias, por acontecimentos fantásticos que nunca estiveram completamente separados da realidade. Naquele universo, o extraordinário fazia parte da vida.
Esse fantástico marcou profundamente a minha infância e continua presente na minha vida adulta e, sobretudo, na minha escrita. Carregamos uma herança construída por muitas gerações, uma forma particular de olhar para o mundo que transforma as experiências — inclusive as dores — em narrativa, memória e poesia. Minha voz narrativa foi sendo construída nesse processo cotidiano de escuta. Ela nasce do contato com as pessoas, com suas histórias, seus saberes, suas crenças e sua maneira singular de interpretar a vida. Existe poesia na forma como essas pessoas contam o que viveram, assim como existe fé, seja nos santos, seja nos encantados, seja nas forças que habitam as matas e os rios.
Tudo isso atravessa a minha escrita. Breu de Maré é, nesse sentido, a concretização desse desejo de contar uma experiência LGBTQIAPN+ que não estivesse necessariamente associada aos grandes centros do Sul e do Sudeste do Brasil. Eu queria colocar essa vivência em outro território, cercada por rios, florestas, distâncias e pelo fantástico que faz parte do imaginário amazônico. Queria construir um personagem que fosse reconhecível para nós: alguém que atravessa distâncias de canoa e de barco, que conhece e reverência aquilo que permanece escondido nas matas e nos rios, que ama, odeia, sofre e sorri, mas que também carrega as marcas e os desafios de nascer e viver neste lugar. Mais do que inserir a Amazônia em uma história LGBTQIAPN+, eu queria mostrar que existem muitas formas de viver essa experiência. Breu de Maré nasce justamente desse lugar: da necessidade de afirmar que também existem corpos, afetos, desejos, conflitos e histórias LGBTQIAPN+ na Amazônia — e que essas histórias podem ser contadas a partir das nossas próprias paisagens, da nossa linguagem e do nosso imaginário.
Diego Itabira: “Meu Brasil profundo está nas cidades entremeadas por rios, nos povoados que dependem das águas para se deslocar, trabalhar e sonhar.”
Consigo te localizar ao lado de outros escritores brasileiros contemporâneos que estão escrevendo a partir de um viés estético semelhante, como Micheliny Verunschk e Itamar Vieira Jr. Esses são autores que estão sendo conhecidos por narrar um “Brasil profundo”, um Brasil que está fora das grandes metrópoles e que guarda ainda muita tradição. Qual é o seu Brasil profundo?
O Norte, por si só, já é uma região marcada pelo isolamento em relação ao restante do Brasil, não apenas pelas distâncias geográficas, mas também pela visão limitada que muitos brasileiros ainda têm sobre um território tão diverso e rico em natureza, tradição, cultura e culinária. Ser do Norte é, muitas vezes, lidar com um preconceito que se apresenta de maneira disfarçada, travestido de curiosidade diante daquilo que é tratado como “exótico”. É existir em um lugar que, apesar de suas dimensões e de sua importância cultural, ainda precisa constantemente afirmar a própria identidade diante do olhar de quem está fora. Eu vivo em Belém, mas a minha história familiar nasce muito antes da capital. Meus familiares vieram da diáspora de diferentes cidades do interior do Pará — uma trajetória comum a tantas famílias paraenses. Pessoas que deixaram suas cidades em busca de melhores condições de vida, chegaram à capital e, a partir dela, construíram novas histórias sem necessariamente romper os vínculos com os lugares de onde vieram. Meus avós paternos são marajoaras; minha avó materna é da região do Salgado Paraense, no Nordeste do estado. São territórios distintos, com paisagens, modos de vida e tradições próprias, mas que encontram uma profunda unidade cultural dentro do Pará.
É justamente nesse encontro que reconheço o meu “Brasil profundo”.
Meu Brasil profundo está nas cidades entremeadas por rios, nos povoados que dependem das águas para se deslocar, trabalhar e sonhar. Está nas viagens de barco, muitas vezes longas, feitas por pessoas que atravessam rios em busca de oportunidades, de educação, de trabalho e de uma vida melhor. Está também na contradição de uma região de enorme riqueza natural e cultural, mas atravessada por desigualdades sociais que historicamente empurram o Norte para as margens do país. Ainda assim, é nesse lugar que encontro uma extraordinária força criativa. Existe gente que escreve, que canta, que pinta, que dança, que luta, que atua nas rodas de boi, nos pássaros juninos, nas festas populares e nas inúmeras manifestações que sobrevivem porque há pessoas dispostas a preservá-las e reinventá-las. Há uma produção cultural pulsante que nem sempre alcança o centro do país, mas que permanece viva e profundamente ligada à experiência de quem nasceu ou construiu sua vida aqui.
O que mais me encanta é o olhar das pessoas do Norte sobre a vida e sobre o mundo. Há uma riqueza particular na maneira como os mais velhos narram suas experiências, relembrando a roça, os rios, as dificuldades de outros tempos, as viagens demoradas e, tantas vezes, aquela viagem só de ida em direção à capital. Escutar essas histórias é compreender que a migração em busca de uma vida melhor não é apenas um fenômeno social da nossa região: ela faz parte da memória de muitas famílias e da própria formação das cidades paraenses. Talvez seja por isso que essas histórias estejam tão presentes naquilo que escrevo. Meu interesse pelo Norte não nasce apenas da paisagem, mas das pessoas que a habitam, das memórias que carregam e das histórias que permanecem entre uma geração e outra. Os rios, as cidades do interior, os povoados e a capital são, para mim, mais do que cenários: são espaços de memória, pertencimento, conflito, deslocamento e invenção. O Norte é o meu Brasil profundo. E o povo do Norte é a minha principal inspiração para contar histórias. É a partir dessas pessoas, de suas memórias, de seus deslocamentos, de suas contradições e de sua maneira particular de enxergar o mundo que encontro matéria para a minha literatura.
Ainda sobre essa comparação que eu faço com esses outros autores: essa nova geração tem sido frequentemente comparada aos nossos hermanos latinos do realismo mágico, justamente por convocar elementos do maravilhoso e do místico para as suas narrativas. Isso também está em Bréu de Maré. Como você vê essa aproximação da categoria “realismo mágico”? Na sua literatura, você sente que isso faria sentido?
Leio muito realismo mágico, e essa vertente teve um papel importante na minha formação como leitor. O sobrenatural sempre me fascinou, mas, para quem nasce e vive no Norte, o fantástico também está profundamente ligado ao cotidiano. Ele está nos encantados, nas lendas que atravessam as matas e os rios, nas histórias que ouvimos desde a infância. Ser nortista é, de certa maneira, carregar uma bolsa repleta de causos, patuás, banhos para tirar quebranto e histórias que transitam naturalmente entre o real e o extraordinário. Por isso, considero Breu de Maré uma obra de regionalismo fantástico. Entendo essa vertente como uma literatura que parte da cultura, dos costumes, da linguagem, das crenças e das paisagens de uma determinada região e incorpora a elas acontecimentos sobrenaturais que rompem ou simplesmente ampliam as regras da realidade cotidiana.
Essa compreensão também se consolidou a partir do meu encontro com Jadna Alana, que considero uma das principais referências na discussão e na produção do regionalismo fantástico contemporâneo. Ela tem desenvolvido um trabalho importante de divulgação do gênero nas redes sociais e também constrói sua própria literatura a partir dessa relação com o fantástico. Inclusive, foi vencedora do Prêmio Kindle de 2025 com uma obra inserida nessa perspectiva. Conhecer o trabalho da Jadna ampliou muito a minha compreensão sobre aquilo que eu já fazia intuitivamente. No início, eu classificava Breu de Maré simplesmente como uma obra com elementos de realismo mágico. Hoje, porém, o conceito de regionalismo fantástico me parece mais preciso, porque ele contempla não apenas a presença do sobrenatural, mas a maneira como esse sobrenatural nasce de um território específico, de uma cultura e de um imaginário coletivo. É justamente aí que reconheço Breu de Maré: uma história em que o fantástico não é um elemento estrangeiro à realidade dos personagens. Ele pertence àquele mundo. Os rios, as matas, os encantados, as crenças e os acontecimentos extraordinários não aparecem como exceções, mas como parte da própria experiência de viver naquele lugar. Por isso, o regionalismo fantástico não é apenas uma classificação que encontrei depois de escrever o livro. É uma forma de compreender melhor a literatura que venho construindo e a tradição da qual ela se alimenta.
Aproveito para pedir que você fale mais sobre como você convoca essas histórias e vozes da tradição oral para o seu livro.
Eu não convoco essas histórias de maneira deliberada, como quem abre um arquivo, escolhe um relato e, a partir dele, constrói uma narrativa. Elas já fazem parte da minha relação com a Amazônia, do imaginário que me formou e das histórias que escutamos desde a infância. Permanecem guardadas como lembranças, imagens, frases, personagens e situações que, em algum momento, encontram naturalmente um lugar dentro da ficção. A tradição oral me interessa justamente porque ela não é fixa. Uma mesma história pode ganhar diferentes versões conforme muda a pessoa que a conta, o lugar onde é contada ou a memória de quem a escuta. E é nessa transformação que reconheço sua força. Não me interessa apenas reproduzir uma história que atravessou gerações, mas compreender o que existe por trás dela: o lugar de onde veio, as pessoas que a mantiveram viva e os medos, desejos, crenças e afetos que ela carrega. Por isso, essas vozes acabam se misturando às vozes dos meus personagens. A tradição oral não aparece em Breu de Maré apenas como referência cultural ou como recurso para criar atmosfera. Ela participa da construção do próprio universo narrativo. A ficção nasce justamente desse encontro entre memória e imaginação, entre aquilo que foi vivido e aquilo que foi contado. Eu recolho essas histórias não para preservá-las exatamente como chegaram até mim, mas para permitir que continuem se transformando. Afinal, talvez seja essa a própria natureza da tradição oral: uma história nunca permanece completamente igual quando passa de uma voz para outra.
Gisberta/Zé Santino é uma personagem múltipla e você a constrói com muito esmero a partir das tensões de gênero. Como foi para você construir essa personagem e como ela surge para você?
Zé Santino/Gisberta nasceu primeiro como personagem de um conto. As duas primeiras cenas do livro, que narram a morte e o velório de Rosário, receberam Menção Honrosa no Prêmio Máquina de Contos. Naquele momento, eu não imaginava que aquela história pudesse se transformar em um romance. A premiação, porém, me fez voltar àquele personagem e começar a formular perguntas que, aos poucos, deram origem ao livro: quem era Zé Santino antes daquela cena? Que experiências o haviam levado até ali? O que aconteceria depois?
Foi nesse processo que compreendi que aquela história precisava ser maior.
Tenho um encantamento profundo pela Ilha do Marajó, e não demorou para perceber que as raízes de Zé Santino estavam naquele território. O Marajó não seria apenas o espaço onde a narrativa aconteceria, mas parte da própria formação do personagem. Sua paisagem, seus deslocamentos, seus modos de vida e suas contradições passaram a integrar a construção de sua identidade. Construir Zé Santino foi um dos processos mais complexos da escrita de Breu de Maré. Eu precisava acompanhar um personagem durante uma fase muito delicada da vida: a passagem da infância para a pré-adolescência, justamente quando ele começa a perceber e a nomear, ainda que de maneira fragmentada, questões relacionadas ao próprio gênero e à sua identidade. Era necessário escrever essa descoberta sem antecipar uma consciência que ainda estava em formação.
Minha própria experiência de infância LGBT foi importante nesse processo. Recorri às lembranças, não para reproduzir a minha história, mas para recuperar determinadas sensações: o estranhamento diante de si mesmo, a percepção de ser diferente, a tentativa de compreender o que se sente antes mesmo de existir vocabulário para explicar aquilo. Foi a partir dessas memórias e dessa tentativa de compreender o que significa descobrir-se queer ainda tão cedo que comecei a construir a trajetória de Zé Santino/Gisberta.
A primeira parte do romance foi reescrita duas vezes. Eu precisava encontrar o tom correto para aquelas experiências e, principalmente, compreender a relação entre Zé Santino e as pessoas que formavam o seu mundo. Cada personagem precisava ter uma função na construção daquela infância e, ao mesmo tempo, revelar alguma coisa sobre o ambiente social em que ele estava inserido.
A segunda parte foi ainda mais desafiadora. A partir do momento em que Gisberta deixa para trás parte daquela infância, a narrativa exigia uma pesquisa muito mais extensa para que sua trajetória fosse construída de maneira verossímil. Era preciso compreender o abandono, a vulnerabilidade, os mecanismos de sobrevivência e, posteriormente, o acolhimento por uma cafetina local. Para isso, assisti a documentários, conversei com pessoas, pesquisei acontecimentos da década de 1980 e procurei compreender a cena travesti daquele período, especialmente suas relações de trabalho, sociabilidade, violência e proteção. Essa pesquisa foi fundamental porque eu não queria escrever uma personagem travesti apenas a partir de uma perspectiva contemporânea. Era necessário compreender o tempo histórico em que Gisberta existia e as condições específicas que moldavam a vida de uma pessoa como ela naquele contexto. Ao mesmo tempo, eu precisava evitar transformar sua trajetória em uma sucessão de sofrimentos. Gisberta deveria existir para além da violência: ter desejos, afetos, contradições, relações, humor, sonhos e uma maneira própria de enxergar o mundo.
Escrever Breu de Maré com respeito, mas também com a crueza que a história exigia, foi um dos maiores desafios do processo. Encontrar a voz de Gisberta significou equilibrar pesquisa e memória, realidade e ficção, delicadeza e brutalidade. Os elementos da narrativa foram surgindo como um grande jogo de encaixe: o território, a infância, as relações familiares, a travestilidade, o abandono, a sobrevivência e as pessoas que atravessam sua trajetória. No fim, construir Zé Santino/Gisberta foi também compreender que um personagem não nasce pronto. Ele se revela à medida que a história avança. Começou em um conto, cresceu a partir das perguntas que aquele conto deixou e, pouco a pouco, encontrou no romance o espaço necessário para existir. Dediquei-me a essa construção de coração aberto, porque Gisberta passou a exigir de mim não apenas uma história, mas uma escuta cuidadosa. Breu de Maré nasceu desse esforço de escutá-la até encontrar a voz que pudesse contar, com dignidade e sem suavizar suas dores, tudo aquilo que ela precisava viver.
“Narrar a experiência de uma mulher trans nos anos 1980 exigiu, além de pesquisa, muita responsabilidade e sensibilidade.”
Estamos em um tempo em que muito tem se questionado a respeito da validade de uma narrativa que tenha alguma denúncia ou viés ideológico. Claramente, o seu livro também se enquadraria como esses livros que vemos como livros que fazem alguma denúncia ou que possuem algum teor humanitário. Essa invalidação da escrita de denúncia interfere na sua escrita?
De forma alguma. Eu não escrevo sob amarras, e acredito profundamente na liberdade que isso proporciona à narrativa. Quando um escritor começa a se preocupar excessivamente com a possibilidade de sua obra ser invalidada, essa preocupação inevitavelmente interfere naquilo que ele quer dizer. Para mim, a literatura precisa ter liberdade para abordar aquilo que nos incomoda, nos atravessa e que, muitas vezes, preferimos não olhar. Em Breu de Maré, existem cenas bastante cruas, e elas foram escritas dessa maneira não simplesmente para provocar choque no leitor, mas para preservar a brutalidade de determinadas experiências. A vida real não suaviza a violência para torná-la mais confortável, e eu não queria fazer isso na literatura. Há situações diante das quais não é possível desviar o olhar sem também apagar parte daquilo que aconteceu.
Narrar a experiência de uma mulher trans nos anos 1980 exigiu, além de pesquisa, muita responsabilidade e sensibilidade. Era um período em que a sociedade brasileira oferecia pouquíssima visibilidade e reconhecimento às pessoas trans, e conhecer as histórias das mulheres que abriram esses caminhos significa também entrar em contato com uma trajetória marcada por preconceito, exclusão e violência, mas igualmente por coragem, resistência e afirmação de existência. Por isso, nunca enxerguei a violência como uma barreira para a minha escrita. Pelo contrário: quando ela é necessária à narrativa, suavizá-la poderia significar desonrar a experiência que estou tentando representar. Meu compromisso é construir uma narrativa honesta, inclusive quando ela é desconfortável.
A literatura não precisa proteger o leitor de tudo aquilo que existe no mundo. Às vezes, sua função é justamente obrigá-lo a olhar. Se uma cena provoca incômodo, mas também provoca reflexão, empatia ou questionamento, ela já cumpriu uma função importante dentro da narrativa. Denunciar crimes, expor violências e falar sobre grupos historicamente silenciados nunca foi, para mim, uma limitação. É uma possibilidade da literatura. E não pretendo abrir mão dela para tornar uma história mais palatável ou mais conveniente.
Queria que você falasse um pouco da experiência de publicar de forma independente. Quais foram os principais desafios e quais as vantagens que você também encontrou?
Escrevi Breu de Maré ao longo de quase dois anos, e desde o início minha principal preocupação era entregar um livro de qualidade. Quando finalizei a narrativa, não considerei o trabalho encerrado. Fiz a revisão do texto e, posteriormente, investi em uma leitura crítica com o autor Fellipe Fernandes Cardoso. Foi uma experiência fundamental. Essa primeira leitura técnica feita por outro escritor me permitiu enxergar aspectos da narrativa que eu, por estar tão envolvido com o processo, já não conseguia perceber. O olhar do Fellipe abriu novas perspectivas e contribuiu diretamente para o refinamento do texto. Também investi em profissionais para a criação da capa e para a diagramação. Tomei essas decisões porque acredito que a publicação independente não precisa significar uma publicação improvisada. O leitor percebe quando um livro foi produzido sem o devido cuidado, e isso pode comprometer não apenas aquela obra, mas também a percepção sobre o próprio autor.
Minha formação em publicidade também teve um papel importante nesse processo. Eu sabia que, depois de publicar o livro, não bastava esperar que os leitores chegassem até ele. Era necessário construir uma presença nas redes sociais, desenvolver conteúdo, investir em anúncios e, principalmente, estabelecer uma relação direta com leitores e outros autores. Desde o lançamento de Breu de Maré na Amazon, dediquei tempo e recursos a esse trabalho de divulgação. Não foi um processo simples. Construir um público para um primeiro romance exige consistência, investimento e disposição para começar praticamente do zero. Ao mesmo tempo, uma das grandes vantagens da publicação independente foi justamente ter liberdade para tomar todas essas decisões. Pude definir a identidade visual do livro, conduzir a campanha de divulgação e estabelecer a maneira como queria me relacionar com os leitores. Não precisei esperar que alguém determinasse como a obra deveria ser apresentada. O maior desafio, sem dúvida, foi financeiro. Publicar com qualidade exige investimento em profissionais qualificados, e eu não queria economizar justamente nas etapas que poderiam determinar a experiência do leitor com o livro. Foi necessário reorganizar gastos pessoais e direcionar recursos para a produção e divulgação da obra. No fim, porém, considero esse investimento parte do próprio processo de construção de Breu de Maré. A publicação independente me deu autonomia, mas também me obrigou a assumir responsabilidades que, em uma estrutura editorial tradicional, seriam divididas com uma equipe. Eu precisei ser escritor, mas também editor, publicitário e responsável pela circulação do livro. Foi trabalhoso e exigiu investimento de tempo e dinheiro, mas também foi extremamente gratificante. A maior recompensa foi olhar para o resultado final e saber que entreguei a obra com o profissionalismo e o cuidado que eu considerava necessários.
Sobre as distâncias geográficas, mas principalmente sociais: como tem sido a sua experiência de ser um autor do norte? Você sente alguma barreira ainda em relação aos espaços de circulação de literatura?
Ser um autor independente já é, por si só, um desafio. Ser um autor independente do Norte amplia ainda mais essa dificuldade. Existem barreiras concretas para alcançar não apenas os leitores, mas também o próprio mercado literário. A literatura produzida na minha região ainda é frequentemente colocada na caixinha do “regional”, do “exótico”, como se a origem geográfica determinasse o alcance ou a relevância de uma obra. Isso acontece apesar da existência de grandes autores nortistas, que produziram e continuam produzindo literatura de enorme qualidade, como Dalcídio Jurandir, Salomão Larêdo e Edyr Augusto. O problema, portanto, não está na qualidade da literatura que produzimos, mas nas condições de circulação, investimento e visibilidade que ela encontra.
Eu sinto, sim, que existe um desafio maior para fazer com que aquilo que escrevo alcance reconhecimento, especialmente fora do Norte e do Nordeste. Breu de Maré exigiu um trabalho árduo, quase de corpo a corpo, para chegar aos leitores de outras regiões. É preciso construir caminhos que muitas vezes já existem para autores e obras de outros centros do país. Gosto de pensar nisso como navegar na contracorrente de um rio. A literatura produzida em outras regiões chega até nós com uma força enorme, impulsionada por editoras, investimentos, divulgação e estruturas de mercado. Para que a literatura nortista faça o caminho inverso, muitas vezes precisamos remar muito mais — e, ainda assim, nem sempre conseguimos alcançar a mesma margem.
Nesse cenário, as redes sociais se tornaram fundamentais. Para o autor independente, elas não são apenas ferramentas de divulgação, mas parte da própria estratégia de sobrevivência e circulação da obra. A produção constante de conteúdo, o contato direto com os leitores e a construção de uma comunidade em torno do livro acabam ocupando um espaço que, em um mercado mais estruturado, seria desempenhado por editoras, assessorias e grandes campanhas de divulgação. No fim, publicar de forma independente, sendo um autor do Norte, significa não apenas escrever o livro, mas também criar os caminhos para que ele seja encontrado. E esse talvez seja um dos maiores desafios: fazer com que a literatura produzida daqui deixe de ser vista apenas como regional ou exótica e seja reconhecida simplesmente como literatura — com a mesma potência, complexidade e universalidade de qualquer outra.
O que podemos esperar de você em termos de próximas publicações? Está escrevendo algo?
Escrever é uma necessidade para mim, quase um vício. Depois de finalizar Breu de Maré, dediquei alguns meses à escrita de contos. Foi uma maneira de continuar exercitando a literatura enquanto encerrava o ciclo daquele romance e começava a compreender quais caminhos queria seguir a partir dele. Recentemente, comecei a escrever as primeiras páginas de um novo romance e retomei também o processo de pesquisa necessário para construir essa nova narrativa. É um projeto que se distancia bastante de Breu de Maré, tanto em sua proposta quanto em seus temas, mas existe algo que permanece: os cenários e o imaginário do Norte continuarão presentes na minha escrita. É um território que faz parte da minha formação e da minha maneira de enxergar e narrar o mundo, portanto, mesmo quando a história muda, essa identidade permanece.
Minha intenção é disponibilizar esse novo romance em 2027 para os leitores que construí ao longo da trajetória de Breu de Maré. Ainda não defini se a publicação será independente ou por meio de uma editora, porque quero tomar essa decisão considerando o projeto e as possibilidades que surgirem até lá. O mais importante, neste momento, é que um novo ciclo já começou. Estou novamente pesquisando, escrevendo e construindo uma história que, embora diferente da anterior, continua partindo do mesmo lugar que orienta o meu trabalho: a vontade de contar histórias a partir do Norte e ampliar as possibilidades da literatura produzida daqui.


