
Colossal é a memória
Em Colossal: a invenção de um fóssil, a escritora e artista multidisciplinar carioca Tchuska’a fabula a existência de um fóssil pré-histórico a partir da autoficção e do imaginário caiçara.
Foto: Natália Araújo (Divulgação).
Por Ana Luiza Rigueto.
O roubo de um fóssil é ponto de partida de Colossal: a invenção de um fóssil, novo romance da escritora carioca e artista multidisciplinar Tchuska’a, lançado recentemente pela Patuá. A narrativa se constrói como uma espécie de ficção arqueológica: uma vértebra fossilizada é roubada de São Pedro da Aldeia e levada para a Europa e, então, a narradora inicia uma busca.
Tal busca vira uma investigação sobre pertencimento e histórias invisíveis da cidade, dando forma a uma espécie de mito de origem ficcional para São Pedro da Aldeia. “O romance mistura autoficção com memória ancestral e imaginário caiçara, o desejo era fabular um possível mito de origem para esse lugar. Pensei muito sobre a responsabilidade dessa iniciativa, de inventar um possível mito. Achei que seria honesto admitir a posição de onde escrevo, incluindo ali minha relação, íntima, mas também estrangeira, com a paisagem.”
Na entrevista, Tchuska’a conta sobre os processos de pesquisa para o livro, a relação com a paisagem caiçara, como entende a fabulação e como sono, sonho e esquecimento, temas tão presentes no romance, são paradoxalmente fundamentais para a construção da memória.
Leia a entrevista na íntegra:

Tchuska’a sobre Colossal: “O romance mistura autoficção com memória ancestral e imaginário caiçara”
Tchuska, o que alimenta a sua inquietação – e a sua imaginação?
Minha imaginação se alimenta do meu interesse por alguma coisa. E isso a gente não necessariamente controla ou decide. O que me interessa é aquilo que, de algum modo, me chama. Sou eu quem sou chamada. Quando isso acontece, me aproximo e fico. Então aquilo deixa de ser indiferente, começa a me dizer respeito. Falo do interesse como essa disposição para permanecer atenta a alguma coisa, insistir nela. Aí começam as inquietações, porque insistir é a aprendizagem do desaprender. Insistir, permanecer é criar intimidade, e a intimidade sempre acaba revelando algo novo e desconhecido. Quando insisto em uma coisa, ela começa a produzir outras possibilidades em mim. Ter interesse por algo é isso, é permitir que esse algo passe a ter consequências dentro de você. Aí vem a imaginação. É como se, antes de imaginar qualquer coisa, eu precisasse aprender a vê-la. A imaginação nasce nesse espaço entre mim e aquilo que me chama. Fui procurar a etimologia da palavra interesse, quer dizer “estar entre”. Não completamente dentro de si, fechado nos próprios pensamentos. Minha imaginação aparece como consequência de uma relação. Para alimentá-la eu preciso estar disponível para ser encontrada.
Me lembro, durante o evento de lançamento do livro, de você comentar que a escrita de Colossal aconteceu com honestidade. Como você acredita que honestidade e invenção se complementam na sua literatura?
Fiz esse paralelo para brincar com o vocabulário da paleontologia: se um fóssil resulta do processo chamado fossilização, um fóssil inventado é resultado de uma fóssil-ficção. O subtítulo de Colossal é honesto quando admite “a invenção de um fóssil”, ele deixa isso combinado com o leitor. Mas a honestidade está também no processo criativo, na relação entre a escrita e a pesquisa que a acompanha. Vou precisar voltar um pouco ao momento em que comecei a pensar em fóssil-ficção. Foi quando li a notícia, em 2021, de um fóssil roubado da Serra do Araripe e levado para algum instituto de pesquisa europeu. O fóssil era do dinossauro “Ubirajara Jabatus”, uma espécie ainda desconhecida até aquele momento. Na mesma época comecei a ler sobre o trabalho de Glicéria Tupinambá, que estava envolvida na pesquisa e na tentativa de recriar os mantos Tupinambás, espalhados por museus pela Europa. As histórias tinham suas semelhanças, falavam de coisas tiradas de seus lugares de origem. Glicéria diz que a ausência do manto não só impediu a realização de rituais dos quais ele participava, como tirou de sua comunidade a tecnologia para confeccionar outra peça como aquela. Seu trabalho foi realizar uma investigação para recuperar essa tecnologia. Reuniu informações que conseguiu de arquivos, pediu ajuda de seus parentes, precisou adaptar materiais e imaginar soluções. Enquanto eu pesquisava sobre São Pedro da Aldeia, me dei conta de que algumas das memórias que buscava eram irrecuperáveis. Fiz de conta que eram um fóssil roubado, como o de “Ubirajara Jabatus”. E inspirada por Glicéria, decidi confeccionar outro. Inventar um fóssil. Reuni informações de arquivos, conversei com aldeenses, adaptei materiais e imaginei pedaços que faltavam. A honestidade da ficção está em sua escrita que, assim como a de Glicéria, o inventar não se impõe ao processo, mas costura o que se apresenta.
Conta um pouco sobre a sua relação com a paisagem e a vida caiçara da Região dos Lagos do Rio de Janeiro?
Minha relação com essa paisagem está muito presente na narrativa de Colossal, que tem uma camada sedimentar das minhas lembranças. Meus avós eram aldeenses caiçaras, foram salineiros na região. Parte da família está em São Pedro da Aldeia. Uma cidade onde não vivo, mas convivo. O romance mistura autoficção com memória ancestral e imaginário caiçara, o desejo era fabular um possível mito de origem para esse lugar. Pensei muito sobre a responsabilidade dessa iniciativa, de inventar um possível mito. Achei que seria honesto admitir a posição de onde escrevo, incluindo ali minha relação, íntima, mas também estrangeira, com a paisagem. Deixar visível a fronteira de onde escrevo, acho que isso é um convite à imaginação de outros possíveis mitos.
Colossal é resultado de um longo trabalho de pesquisa. Qual seu método de trabalho, e como equilibrar arcabouço teórico e bibliográfico, com investigação pessoal?
Há algum tempo venho pesquisando o que chamo de “escrever-com as coisas”. É uma tentativa de experimentar uma escrita que não seja simplesmente sobre alguma coisa, mas que se faça com essa coisa. Isso implica embaralhar um pouco as posições de sujeito e objeto, conscientizar que aquilo que escreve e aquilo sobre o que se escreve também podem, de algum modo, agir um sobre o outro. É uma investigação sobre esse fazer junto, um esforço de estar disponível a interferência das coisas. Para isso é importante o compromisso de quem escreve de não impor suas ideias à imprevisibilidade do processo, não antecipar seu fim. Não é um método, é mais uma busca pela ética desse exercício de escrever-com. Seja pessoa, coisa, ou paisagem, este outro não é apenas objeto da escrita, ele participa da autoria. Foi por essa via que encontrei uma maneira de aproximar o arcabouço teórico e bibliográfico da investigação pessoal do romance. Entendi que precisava existir uma integridade na relação com as vozes que acompanham a pesquisa. A bibliografia não é um repertório que eu consulto para fundamentar o romance; são vozes com as quais o romance pensa. Isso começa, para mim, na escolha de quem são essas vozes, e continua na maneira como vou dialogando com elas no exercício da escrita. Por exemplo, Seu Gabriel Joaquim dos Santos, artista aldeense e personagem do livro, foi uma referência muito importante para mim. Ele construiu a Casa da Flor em São Pedro da Aldeia, durante décadas reunindo restos de objetos e materiais encontrados, fazendo com eles uma bricolagem nas paredes da obra. Foi um pouco assim que tentei trabalhar também em Colossal, fazendo com as diferentes interlocuções e memórias uma bricolagem; deixando todas elas interagirem, e eu, ficcionista, interagindo com elas.
“Não durmo desde que soube que uma vértebra foi tirada da cidade, já são muitas noites em claro. Ando esquecida, a falta de sono tem me apagado a memória.” Em Colossal, o sono e o sonho aparecem como parte fundamental da construção da memória. Concorda?
Completamente. As cosmologias originárias entendem o sonho como fonte de conhecimento, e eu me guio por essa perspectiva. Pensava nisso enquanto escrevia Colossal. Mas também pensava na qualidade do sono. Por um tempo tive dificuldade de adormecer, dormia mal. E durante esse período deixei de sonhar. Para dormir é preciso esquecer os pensamentos. Isso também está no livro. Outro dia assisti ao recorte de uma fala da Viviane Mosé que traduzia esse raciocínio, ela dizia que esquecer é sinal de saúde – se referia ao ressentimento – e que memória é sinal de promessa. Temos então um paradoxo. Porque concordo que o sono e o sonho são parte fundamental da construção da memória. Também concordo que, em alguma medida, precisamos esquecer para não perder a capacidade de sonhar. Quer dizer, é preciso esquecer para sonhar e acessar memórias. O que me leva a pensar que a memória não pode ser fixa, para que não seja uma promessa. Ela precisa ser constantemente sonhada, como diz Sony Labou Tansi nessa bonita citação: “Estou convencido de que o sonho é o primeiro passo quando se trata de acrescentar um pouco de lugar nesse mundo. Só ele mostra o quanto estaríamos enganados pensando que o Mundo já está feito […] Não, repito: cada geração vem ao mundo com sua própria parte do mundo. Temos o dever de acrescentar mundo ao mundo”.
Conta um pouco mais sobre seus projetos “Escrever-com as coisas” e “Oficina de com-ficção”.
A “oficina de com-ficção” são encontros que eu realizo para compartilhar essa pesquisa movida pelo interesse de “escrever-com as coisas”. É uma oficina de escrita, mas o exercício criativo está vinculado a uma reflexão sobre nossa conduta enquanto autores no mundo. De que modo narrar, registrar, escrever histórias? De que modo queremos nos relacionar com o outro criativamente? Este é o ponto que motiva o trabalho: a busca por outros modos de escrever, com uma autoria menos autoritária. A oficina experimenta uma aproximação entre a atividade de confeccionar e a de escrever ficção, por isso com-ficção. Aqui sou influenciada pelo trabalho de Glicéria, com o Manto Tupinambá, e pelo trabalho de Seu Gabriel, com a Casa da Flor. Escrever como quem confecciona uma história, a partir do contato e da relação com a matéria. Experimentar escrever-com as coisas, os objetos, para não escrever sobre eles. A intenção é praticar uma conduta que não objetifique as coisas do mundo.
Algumas das suas personagens apresentam problemas de surdez. O que, na narrativa, aparece até com alguma displicência informal, como um “não ouve muito bem”. Esse dado, da surdez, é um elemento tomado da sua própria biografia. E já foi inclusive o tema da publicação anterior, Almanaque da surdez – uma experiência de submersão. Sua abordagem sobre a surdez visa ampliar a percepção em torno da questão?
Em “Almanaque da Surdez” mais abertamente. Ali a narrativa tem uma voz ensaística questionando a percepção da escuta. Eu menciono a história de uma baleia surda, que não consegue ouvir o canto de sua espécie. Não pode se guiar pelo som e por isso não consegue acompanhar seu bando, nada sem a companhia de outras baleias. Ficou conhecida como “a baleia mais solitária do mundo”. No livro eu busco uma abordagem na direção oposta desta que romantiza a solidão. Busco uma perspectiva menos atrofiada, que considera a muito provável possibilidade da baleia ter suas diferentes amizades, com outras espécies, contrariando a suposição de que seria a mais solitária do oceano. Já em Colossal não existiu a elaboração dessa intenção de ampliar a percepção da surdez. Ela está ali como uma característica das personagens. É um elemento. Claro que o modo como aparece foi uma escolha que considerou possíveis efeitos. Acredito que a abordagem displicente naturaliza a presença na narrativa. É como dizer que pessoas surdas estão por aí vivendo suas vidas e histórias.
Agora que Colossal está no mundo, já está mobilizada por outros temas e novos projetos?
Agora estou com muita vontade de pensar dramaturgia. Gosto de me ver como uma artista multidisciplinar, e o teatro foi minha escola. Desde o final da pandemia até agora, quando lanço Colossal, estive muito focada e envolvida com a pesquisa desse projeto. A escrita do livro, em certos períodos, me demandou recolhimento. E isso pede fôlego. Depois de tanto tempo de submersão, estou com saudades da cena e da criação em grupo.


Ana Luiza Rigueto é poeta e jornalista, doutoranda em Literatura (UFRJ), crítica literária, criadora da Trampolim e autora das plaquetes Teatrinho, Bodybuilder e Maria & Maria.
