Entrevistas

“A inteligência artificial não substitui só o nosso trabalho, ela substitui quem somos”, diz Valter Hugo Mãe

No Brasil, para lançar seu livro mais recente “O século dos Imbecis”, Valter Hugo Mãe fala sobre redes sociais, inteligência artificial e os temas que o motivam a escrever. 

Foto: Fernando Cascardo (Divulgação – FLIN)


Encontrei Valter Hugo Mãe alguns minutos antes dele lotar o teatro da Sala Nelson Pereira dos Santos, em Niterói, para mais uma mesa extraordinária na Festa Literária Internacional de Niterói, a FLIN, que acontece neste fim de semana, desde a quinta-feira, 13. A mesa “A humanidade que construímos”, mediada por Erika Neves, iria tocar em alguns pontos que eu também mencionarei na entrevista, como as tensões do contemporâneo em torno do virtual e o real e as novas formas de tirania. De certa forma, a motivação para esses tópicos surgem também com a leitura de “O século dos imbecis”, seu mais recente livro publicado pela Biblioteca Azul, sua casa editorial no Brasil. 

Como o próprio Valter menciona na entrevista, o livro busca tratar das questões atuais com um distanciamento necessário. Ao invés de criar uma ficção realista que desse conta das contradições humanas nestes nossos tempos esquisitos, o autor desloca o leitor para uma fábula em que nem tempo e nem espaço são bem definidos. De acordo com o autor, a escolha se deu porque ele, enquanto um ficcionista, quer evitar as precipitações. “Se você reparar, O Século dos Imbecis, é tudo sobre a contemporaneidade, mas é uma visão meio extemporânea”, ele me contou. 

Esse exercício ficcional localiza “O século dos imbecis” como uma obra que busca captar “o espírito do tempo” sem se preocupar com veredictos ou previsões mirabolantes. O próprio Valter parece ser um autor muito atento ao seu tempo. Com uma relação próxima com as redes sociais e status de celebridade, ele goza de uma popularidade invejável, sendo uma dessas vozes que falam criticamente sobre o momento em que vivemos. 

No começo da nossa conversa, falei que tinha visto e me divertido muito com o vídeo que circulou bastante na internet em que ele é entrevistado no aeroporto por um influenciador digital. No vídeo, ele fala um pouco sobre a carreira como escritor e o entrevistador, o influenciador Matheus Vinicius (@theusviniciusofc no instagram), não parecia fazer a mínima ideia de quem ele era. Para mim, Valter contou:

“Eu tinha acabado de entregar a minha bagagem. Era manhã e eu tinha acordado cedo. Eu estava com aquela impressão de estar mal penteado. Então eu queria só entrar e passar pelo controle de metais. Eu estava lendo um livro chamado Ru [romance de Kim Thuy, tradução de Letícia Mei] que a Âyiné publicou. É um romance de uma vietnamita. Então eu queria muito acabar o livro. É um livro curto, bonito. E eu queria entrar só. E o moço apareceu, assim, com um aparato. Com os celulares ligados. Um microfone, assim, estranho. E eu achei… Enfim, tudo bem. Eu tinha tempo.”

No instagram, Matheus Vinicius vem entrevistando pessoas no aeroporto, famosas e anônimas, com o interesse em colher histórias de vida interessantes. Trata-se de um modelo de vídeo muito popular no instagram e no tiktok, mas que de fato nem todo mundo conhece. O próprio Valter disse que demorou a entender:

“Eu acho que não entendi logo qual é o propósito da entrevista. Aconteceu alguma coisa? Qual é o sentido? Mas depois eu achei que eles eram jovens e eventualmente… Estariam à procura de… De respostas para uma nova geração.”

Na breve entrevista que fiz com o autor antes da sua mesa na FLIN, conversamos um pouco sobre as redes sociais, a inteligência artificial, as festas literárias e o que seria o papel do escritor na contemporaneidade. Confira!

Valter Hugo Mãe na FLIN 2026 (Fernando Cascardo – Divulgação FLIN)

Valter Hugo Mãe: “Eu tenho pouco interesse em uma literatura que seja demasiado radicada na sua época” 

Qual a sua relação com a rede social? E como você lida com a sua imagem nela?

Eu agradeço que apareça… Bonitinho. Mas eu já não me importo muito. Eu sinto que estamos num tempo em que tudo vai ser repensado. E eu defendo muito que nós precisamos fazer uma coisa que já devia ter sido feita com urgência, que é fazer o direito incidir rigorosamente sobre o universo virtual. O que é da internet é da humanidade. E, por isso, o centro da humanidade não pode ficar fora da legislação. Não pode ficar fora de toda a conquista que o universo jurídico fez ao longo de séculos. E, por algum motivo, movimentos tanto de esquerda, quanto de direita, foram achando que era interessante haver ali um território de certa impunidade em prol da liberdade de expressão. Mas isso é uma bobagem gigante.

Porque a liberdade de expressão está mais do que estudada. E não existe liberdade de expressão no insulto, na propagação do boato, na mentira… Isso não é liberdade de expressão, é crime. Por isso, ainda que eu não preveja um uso sério das redes sociais em breve, eu acho que nós precisávamos, para ontem, fazer as instituições cumprirem a lei e obrigar as empresas que administram as redes a cumprirem o que está mais do que definido há muitos anos.

E sobre a questão da inteligência artificial? Isso tem te preocupado?

Eu sinto que a inteligência artificial vai trazer muito milagre, porque a capacidade da inteligência artificial é tão parecida, de fato, com o milagre. Mas ela também arrisca a destituir-nos do nosso papel como um todo. O que eu tenho observado, e é preciso ver que estamos no início, é que não só tem a ver com fazer o que nós não queremos fazer, mas também ser aquilo que nós devíamos ser. Por isso, a inteligência artificial não substitui só o nosso trabalho, ela substitui quem somos. Se você reparar, qualquer aplicativo de IA lida com você com um esplendor de trato humano muito maior que o seu. Eu, por exemplo, não parabenizo e não me atrevo a agradecer à inteligência artificial. Eu trato o aplicativo de IA como se estivéssemos de regresso à escravidão.

O aplicativo, como máquina destituída da humanidade que é, eu apenas escravizo, ordeno. E acho perigoso e assustador que o aplicativo tente convencer-me que é humano. E por isso que me elogie e diga coisas como “Muito bem, Valter, que bem pensado! Você quer que eu coloque o fundo amarelo? É uma boa ideia!” É absolutamente grotesco. Porque sou eu desumanizado diante de uma máquina que imita a humanidade. O que significa que a máquina não está só fazendo o que nós deveríamos fazer. A máquina está sendo aquilo que nós deveríamos ser. E por isso está a nos colocar outra vez na posição do sujeito horroroso. Eu, enquanto sujeito diante daquela máquina, encaro aquilo como uma alteridade que eu escravizo. E o lado de lá lida comigo como um ser humano esplendoroso, gracioso. Eu acho que com o tempo isso vai subverter completamente o espírito humano. Porque nós vamos ficar convencidos de que somos umas bestas, de que jamais teremos capacidade de esplendor. E que o esplendor é uma coisa industrial, fictícia e inalcançável.

Seu livro mais recente, O século dos imbecis, aborda tudo isso. Podemos dizer então que são temas que te interessam.

São temas que me têm motivado a escrever os livros e esse livro é motivado por estas constatações. Eu sinto que ainda é muito cedo para sabermos o que está em causa. O que eu posso fazer é lidar com um certo pressentimento. Enquanto autor literário, eu evito uma precipitação. Então, se você reparar, O Século dos Imbecis, é tudo sobre a contemporaneidade, mas é uma visão meio extemporânea.

Você consegue inferir em todo o livro… Consegue inferir razões para todas as coisas que são ditas relacionadas com a época que atravessamos. Mas em nenhum momento se fala da época diretamente. Você não diz os nomes das pessoas que estão no poder. Não há nenhum celular no livro, ninguém faz um telefonema. Não existem redes sociais. 

Você tem até a sensação de estar num espaço meio antigo. E, no entanto, aquela antiguidade toda traduz na essência o que se passa hoje. O frenesi do que são os sentimentos na atualidade. Eu tenho pouco interesse em uma literatura que seja demasiado radicada na sua época. Porque ela tem tendência para não superar esse embate, essa ilustração. Ela vira uma ilustração de um tempo que, depois de passar, talvez seja difícil de recompor a partir da ficção.

Eu quero falar sobre uma questão bem interessante que eu venho pensando muito ultimamente, que é a respeito das próprias festas literárias e os cenários de literatura em Brasil e em Portugal, digamos assim. Eu queria que primeiro você falasse do que você pensa a respeito desse advento super atual aqui no Brasil, que é a festa literária. Acho que até uns 10 anos atrás a gente podia contar 10 festas literárias no Brasil, mas hoje são muitas e você mesmo participa de muitas delas aqui no Brasil. O que você acha delas?

Eu acho ótimo. Eu acho que isso é um sintoma de maturidade democrática, de maturidade do povo brasileiro. Porque, se você ver, o Brasil tem uma dimensão,  uma escala que absorve isso e eventualmente muito mais. Se contarmos as festas literárias que existem na Europa inteira, vamos eventualmente contar milhares, centenas, milhares de festas. O Brasil não é mais pequeno do que a Europa, por isso as pessoas têm o direito de serem chamadas a uma cidadania com o privilégio de ler. Quando encontramos um país de leitores e quando um país começa a ler mais, significa que a cidadania está a criar o seu próprio poder.

E é muito mais difícil tiranizar um povo informado e, por isso, todo o passo que é dado na direção da leitura de um livro fortalece o povo e fortalece o país.

E como que você vê, por exemplo, a própria figura do escritor nesse cenário? Eu sempre lembro daquela entrevista icônica da Clarice Lispector, na qual perguntam para ela qual deveria ser o papel do escritor e ela diz  “falar o mínimo possível”. Como que você vê esse dilema? 

Eu sou o oposto da Clarice porque eu falo muito e encontro, na fala, muitas respostas. Ou seja, é no momento em que você pergunta que eu coloco a mim mesmo alguma intuição em prática que me permite entender o que eu não entenderia sozinho.

Então, ao contrário do que a Clarice, eu acho que a conversa, e o que a gente está fazendo não é senão uma conversa, é puro esclarecimento. Então, eu não tenho medo de conversar. Posso entender que conversando também nos perdemos e arriscamos e fazemos o teste para determinadas ideias que por vezes falham. Mas eu aceito a falha. Eu acho que a Clarice tinha uma avidez por ser incorrupta, por ser infalível. E eu gostaria de ser infalível, mas não sou, por isso aceito a falha.

A presença dos autores nestes eventos, eu acho que tem a ver com isso. Se o autor, se for um autor bastante nervoso, e há muitos, bastante nervoso, que fica com uma certa timidez, um certo medo de plateia e tudo isso, talvez não aproveite nada, talvez até fosse bom ele não vir, porque nem os leitores presentes vão achar que foi uma boa ideia, a presença dele. Mas a partir do momento em que você conquista uma certa segurança, e você está bem consigo mesmo, a conversa nestes festivais pode ser muito muito gratificante.

Pensando ainda nessa provocação de Clarice a respeito do papel do escritor, o que você tem pensado a respeito do papel do escritor hoje? 

Ah, eu gosto que seja um bom papel, assim, de uma boa marca, eventualmente italiana ou alemã.