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Entrevistas

Viviane de Freitas: “As mulheres ainda têm muito a dizer”

Em entrevista à revista O Odisseu, Viviane de Freitas fala da escrita dos contos de Trajetória de um mergulho.

“Trajetória de um mergulho” (Mondru, 2025), livro de contos da jornalista, poeta e escritora Viviane de Freitas, insere-se em uma tradição de contos escritos por mulheres na literatura brasileira que pensam a questão do feminino em múltiplas formas e temas. O livro apareceu na lista de melhores livros de 2025 da revista O Odisseu e se destaca justamente por apresentar diferentes pontos de vista sobre o que é ser mulher, ao que a escritora explica: “Não tenho interesse em encontrar uma definição do que é ser mulher”. 

Essa literatura anti-essencialista e anti-identitária, foca em apresentar personagens que contradizem e rasuram as expectativas do feminino. Nos contos de “Trajetória de um mergulho”, o insólito invade o cotidiano, e a descoberta de um segredo da existência abala as certezas das personagens, mulheres que, bem clariceanas, se percebem sem referencial de realidade, imaginação e sobrenatural. “O cotidiano é cem por certo extraordinário”, explica Viviane. Na entrevista que você confere agora, Viviane conta um pouco sobre sua trajetória enquanto escritora, que passa tanto pelos contos quanto pela poesia e que agora vem se desenvolvendo em um romance. A autora também aproveitou para falar sobre as oficinas de escrita criativa que participou e sobre o quanto essa formação foi importante para sua escrita.  

Viviane de Freitas, autora de Trajetória de um mergulho (Mondru, 2025)/ Lucas Marcelino (Divulgação).

“A materialidade não basta, estou sempre à procura do transcendente”, diz Viviane de Freitas, autora de Trajetória de um mergulho

Ewerton Ulysses Cardoso: As personagens mulheres são um destaque em sua obra, o que faz a gente pensar que se trata de um livro que está pensando em questões “do feminino”. Entretanto, são personagens e vivências de mulheres bem diferentes. Você acha que, de alguma forma, ainda existe uma visão única sobre o que seria ser mulher nos textos literários?

Viviane de Freitas: Como é possível notar, meu interesse é pensar e escrever sobre questões do feminino. Não descarto trabalhar com personagens masculinos mais adiante, mas traduzir a vivência das mulheres – tanto a minha quanto a das mulheres ao meu redor, é mais urgente.

As mulheres de Trajetória de um Mergulho têm vivências distintas, mas nada impede que sejam compreendidas como uma mesma mulher em diferentes fases de sua vida.

Mulheres podem mudar de opinião e direção em períodos curtíssimos sem considerar que estão traindo suas personalidades ou biografias, assim como as personagens.

Acho que os textos literários estão cada vez mais diversos e mostrando exatamente isso, essa pluralidade feminina. O que coincide com um dos meus maiores interesses, observar como uma mesma mulher pode ser muitas ao longo da própria vida, e não encontrar uma definição absoluta do que é ser mulher. Aliás, se há uma possível definição sobre o que é ser mulher nos textos literários e na vida – não vejo diferença entre uma coisa e outra – é que mulheres são múltiplas, contraditórias e não lineares. A mutação contínua é nossa única constante. 

EUC: O Brasil tem uma grande trajetória de contistas mulheres. Posso pensar rapidamente em Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector ou Marina Colasanti. Como é a sua relação com o gênero conto? E houve alguma influência dessas mulheres em específico na sua escrita?

VF: Todas são maravilhosas e fizeram parte da minha formação como leitora em alguma fase, mas meu contato maior com o gênero só aconteceu durante a especialização em literatura na PUC-SP, há uns 10 anos. Foi quando passei a ler contos com mais frequência, conheci Marina Colasanti e Lygia Fagundes Telles. Desde então, as duas me inspiram, mas não posso dizer que chegaram a me influenciar. 

Já com Clarice Lispector a história é diferente. É dela o único conto que me marcou antes dessa época. Li Felicidade Clandestina na puberdade e aquele amor da personagem pelos livros me arrebatou. Eu não conhecia nenhum leitor e encontrei alguém que me compreendia, descobri que não estava sozinha. Aquela mulher sabia como os livros eram parte fundamental da minha existência.

Clarice tornou-se uma confidente, uma amiga distante, porque sentia o mesmo que eu. Então, sim, imagino que haja influências desse impacto até hoje no que escrevo, mas confesso que não li a maior parte de suas obras. Tenho medo de ficar tão impregnada da beleza de suas palavras que não conseguiria me desvencilhar da comparação e de uma influência excessiva na minha escrita. 

EUC: Notei em alguns contos que existe um tom um tanto melancólico em sua escrita, assim como um caráter íntimo. Como foi para você achar o tom narrativo em suas histórias?

VF: Achar o tom narrativo foi difícil e demorado porque não comecei a escrever de um lugar racional. A maioria dos contos foi, ou começou a ser escrita, na primeira oficina de Escrita Curativa da professora e poeta Geruza Zelnys, em 2014. A Escrita Curativa é um método desenvolvido por ela para elaboração do trauma através do corpo textual.

Por esse motivo, os textos carregam essa melancolia e esse caráter íntimo. Eles surgiram de forma muito visceral a partir de memórias e gatilhos pessoais. Ao final da oficina, relendo, reconheci valor literário nos textos e escrevi outros utilizando o mesmo procedimento.

Em 2019, organizei o livro e contratei uma revisão profissional. O crítico foi bastante duro na avaliação e abandonei o original sem intenção de voltar a pensar em publicação. Porém, em 2021, entrei na oficina do professor Luiz Antonio de Assis Brasil e decidi submeter alguns textos para avaliação dele e dos colegas. O retorno foi muito positivo. O Assis sugeriu mudanças pontuais, mas gostou da maioria. Reanimada, retrabalhei os textos de forma mais consciente e encontrei um meio termo. 

Costumo dizer que a Geruza me ajudou a liberar a palavra, fez jorrar algo precioso, e os textos nasceram em carne viva. No entanto, eles precisavam de um esqueleto e o Assis Brasil me ajudou a encontrar essa estrutura. Foi um trabalho longo e tortuoso, mas que me deixou muito satisfeita. Esse livro não existiria sem o que aprendi com os dois, eles são fundamentais na minha formação como autora. 

EUC: Ainda em relação à pergunta anterior, posso pensar que também existe um tom poético em sua obra. E, inclusive, você é poeta! Você sente que a poesia também invade o seu texto?

VF: Acredito que é o contrário: o texto invade a minha poesia. Meu primeiro impulso é sempre transformar uma ideia em poesia, em versos, mas às vezes a poesia não dá conta. Quando isso acontece, elaboro uma forma de dizer, uma narrativa que abarque a subjetividade com certa coerência. Nesse momento, a ideia se transforma em um conto. Ou até em algo mais longo. Agora estou trabalhando no meu primeiro romance e já tenho anotações para outras narrativas. 

E como se dá essa transição entre prosa e poesia em sua escrita? O que viria primeiro?

VF: Quando escrevo alguns versos e a poesia não se concretiza, começo a testar outras formas: frases, parágrafos, uma voz narrando um trecho que dialogue com o que pretendo dizer. Vou testando. Se funciona, parto para pequenas sinopses do que pode vir a ser um conto ou novela. A transição entre poesia e prosa acontece mais ou menos dessa maneira.

A prosa é menos natural pra mim, exige mais, e demoro para chegar a um bom texto. A poesia flui com mais facilidade e vem antes, mas já aconteceu de achar que tinha um conto, escrever e perceber que ele não se sustentava. 

Na oficina de Escrita Curativa já mencionada, também escrevi poesias e elas deram origem ao meu primeiro livro publicado pela Editora Moinhos em 2017, o Poesia de Geladeira. Um leitor mais atento conseguirá perceber pontos em comum entre os livros, apesar dos gêneros distintos.

EUC: Alguns contos como “A Notícia” ou “Oxigênio” convocam uma elaboração muito clariciana de um romper da normalidade pelo insólito ou pelo acontecimento. Fico pensando naquela frase do Guimarães Rosa “viver é muito perigoso”. Digo isso porque sinto que da normalidade, em seus contos, surge sempre uma tensão. Como foi para você pensar esse cotidiano em conversa com o extraordinário?

VF: Esses contos são o exemplo perfeito do processo que mencionei na pergunta 4. Em “A Notícia”, queria transmitir a sensação de irreversibilidade diante de um fato que muda a história de uma pessoa. A poesia não funcionou para o que gostaria de expressar. Então, surge uma narrativa fora dos moldes convencionais porque não queria uma história convencional, com começo, meio e fim. Queria falar sobre uma vida dividida entre antes e depois. Já em “Oxigênio”, há mais camadas e não aceito que a vida dessa mulher termine junto com a de seu marido. Quero que ela reaja, desejo transcender esse aprisionamento, romper a realidade junto com ela. Então, algo de insólito escapa no texto.

Meus textos refletem a forma como compreendo a existência. A materialidade não basta, estou sempre à procura do transcendente. Outro dia, passou pela minha timeline um vídeo que propunha um rápido teste de audição. Havia uma contagem decrescente e você deveria pausar o vídeo no momento em que ele silenciasse. Nos comentários, algumas pessoas diziam que o vídeo silenciava no início, em 90; para outras, em 50; para uma minoria, em 20 ou menos. O som existia até chegar a zero, mas nem todos os ouvidos conseguiram captá-lo.

O cotidiano é cem por cento extraordinário, pensá-lo dessa forma é uma consequência natural. Existem coisas desconhecidas ao meu redor, coisas além do palpável. Meu grande desafio é captar a tensão entre aquilo que percebo e aquilo que existe, mas ainda não consigo provar.

EUC: Me interessa muito esse ato da escritora mulher que escreve escolher a partir da perspectiva feminina. Por quê? Por que dar destaque às mulheres em sua escrita?

VF: Nos últimos anos, vimos autoras conquistando espaço e destaque. Pudemos conhecer e nos emocionar com histórias nunca antes retratadas na literatura. Junto com essa expansão, surgem também questões de validação e espaço. Já ouvi que a maternidade, a relação mãe e filha, por exemplo, tornaram-se um nicho quase saturado na literatura contemporânea. Mas as mulheres ainda têm muito a dizer. Muitas experiências e subjetividades nunca foram narradas. Por isso, como autora, sinto necessidade de seguir escrevendo sob esse ponto de vista.

Ao escrever, penso nas mulheres da minha família e do meu convívio. Muitas que nem conheci pessoalmente e nunca tiveram voz. Penso em suas existências limitadas, suas dores nunca mencionadas e seus mecanismos de sobrevivência. Não vejo os homens como vilões; os da minha família nunca foram violentos ou maus, mas eram frutos do seu tempo. E, apesar das barreiras sociais impostas a todos, eles tiveram mais voz e vez. Também quero contar a história deles no futuro, mas a perspectiva feminina merece ser narrada em primeiro lugar.

EUC: Você acredita que exista algum tipo de texto que apenas mulheres conseguem escrever? Ou que existiria uma “escrita feminina”?

VF: Não acredito que exista uma escrita feminina ou textos que só autoras consigam escrever, mas existe uma experiência humana feminina, um lugar que as mulheres ocupam no mundo que lhes permite enxergar a realidade sob outros prismas. A relação com o corpo e a sociedade, com a família e a maternidade, ou a possibilidade de maternar, com o que se espera de uma mulher, tudo isso molda a nossa forma de perceber e reagir à vida.

Um escritor capaz de imaginar o que significa ocupar o lugar e o corpo femininos pode escrever com sensibilidade sobre a experiência de ser mulher. O mesmo vale para mulheres escrevendo sobre personagens masculinos. 

Acreditar que somente mulheres são capazes de escrever sobre mulheres poderia me conduzir à falácia de afirmar que apenas quem viveu certas experiências pode escrever sobre as mesmas. Um escritor não precisa ter ido à guerra para imaginar como se sente uma personagem prestes a matar ou morrer. A ficção não tem amarras e a base de uma boa escrita é o constante exercício de alteridade. 

EUC: Entre a poesia e o conto, o que te motiva a escrever?

VF: O que me motiva é um certo incômodo diante de circunstâncias que observo ou experimento. Uma sensação de deslocamento que, muitas vezes, desencadeia pensamentos obsessivos. Esse sentimento só vai embora quando materializo em um texto, seja poesia, conto ou outros gêneros, até mesmo um post.

Há uma poesia no meu primeiro livro chamada “Motivo” em que digo: “escrevo para fazer silêncio/ acalmar o sentimento/ deixar tudo parado/ quietinho aqui dentro”, e essa imagem continua a ilustrar muito bem o meu estímulo criativo.

Preciso colocar para fora tais pensamentos e, enquanto não faço esse trabalho, o barulho interno continua. Quando consigo transformá-los em um texto aceitável, chego ao silêncio almejado. Um breve momento de paz e adequação, até que surja o próximo intruso.

Trajetória de um mergulho, de Viviane de Freitas/ Mondru, 2025.

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