
Calila das Mercês: “Eu quero assumir as nódoas dessas mulheres, e que não seja algo vergonhoso”
A segunda mesa da sexta-feira da Casa Odisseu, na 10ª edição da Flipelô, foi marcada pelo lançamento do mais novo livro da escritora baiana Calila das Mercês, Nódoa. Num bate-papo com o editor-chefe da Revista Odisseu, Ewerton Ulisses Cardoso, a autora conversou sobre a obra e, em seguida, participou da sessão de autógrafos.
Foto: Denni Sales (Divulgação).
O conceito de escrevivência, cunhado pela intelectual mineira Conceição Evaristo, está pautado numa escrita que não se separa da vivência. A experiência narrada difere do lugar burguês e individual, comum às pessoas brancas e ricas, mas, por serem mulheres negras narrando e colocando suas vivências, há um teor coletivo.
Não poderia ser diferente com Calila das Mercês, escritora de Berimbau, no Recôncavo da Bahia, que lançou na sexta-feira (07/08), segundo dia de atividades da Casa Odisseu, na 10ª edição da Flipelô. Numa mesa mediada pelo editor-chefe da revista, Ewerton Ulisses Cardoso, a escritora baiana repetiu a dobradinha com o editor, que outrora mediou outro lançamento seu na Flip 2026.
A primeira leva de perguntas abordou a questão do espaço de nascimento da autora. Afinal, Berimbau mudou de nome e agora é chamada de Conceição do Jacuípe, mas os moradores da cidade continuam a chamá-la pelo nome antigo: “Berimbau é teimosa”. A autora faz um costurado entre a teimosia da permanência do nome e o ato de escrever: “Escrever também é isso, uma teimosia, como a marca da nódoa”.
A produção do romance também foi pauta. O mediador perguntou sobre o trânsito que a autora faz pela vida e como isso influencia e afeta sua escrita. Calila das Mercês faz um retrospecto de sua vida, mas sem deixar de lado as mulheres que a compuseram. Falou sobre as idas à casa da avó, em outro município da Bahia, e a saída de Berimbau para estudar em outros lugares: Cachoeira, Portugal, Salvador, Feira de Santana, Brasília e São Paulo. Contudo, não deixa de lado o chão que a criou e no qual viveu na infância: “Não esqueço dos quintais dessas mulheres mais velhas”. E conjectura: “Eu volto o tempo todo para cá”, enquanto lista hábitos cotidianos que aprendeu com essas mulheres.
“As mulheres fazem o possível no impossível”, diz Calila das Mercês no lançamento de Nódoa

A teimosia e as personagens femininas retornam à discussão. As personagens femininas são constituídas por uma teimosia, e este é o ponto de partida para criá-las: “E se eu falar de um impossível… dessas mulheres que fazem o possível no impossível”.
Ao contextualizar o romance, a autora explicou que estava pensando em dois temas. O primeiro deles é a catalepsia, quando pessoas voltam à vida depois de serem dadas como mortas, e é a partir dela que o romance se inicia. Em seguida, o contexto histórico: duas mulheres na década de 1960, no sertão da Bahia. O período da Ditadura Militar e como isso era experienciado por essas pessoas no interior da Bahia: “Pensei nessas vidas e nas aparentes vidas”, mulheres que fazem o “possível mesmo sendo impossível”.
As mulheres e suas produções de conhecimento também foram abordadas na fala da autora. E não estou falando de uma produção escrita que está no livro. Calila das Mercês destacou as “artesanias dessas mulheres”, que não deixam de ser coletivas, reverberam em outras mulheres negras e, principalmente, nela, que, em seu processo de escrita, sempre associa o fazer literário ao artesanato e à produção de arte: “Queria trazer vidas que são as nossas. Trazer reflexões sobre os nossos detalhes e movimentos”.
Calila leu trechos do seu livro, mas o que ficou naquele fim de tarde e início de noite foi a maneira como mobiliza a literatura. O espaço lotado, com pessoas em pé, ouvindo a autora costurar, pegar na terra, criar com o barro, dançar e orar sobre o poder da escrita. Ou melhor, como a própria autora exclama entre sorrisos, um ramalhete de girassóis e uma plateia atenta: “Eu quero inventar!”.
A Casa Odisseu acontece durante todos os dias da Flipelô, de 05 a 09 de agosto, de forma gratuita. A programação detalhada, assim como as datas e os horários das mesas da Casa Odisseu, pode ser consultada no Instagram da Revista Odisseu, assim como no site da Flipelô.

