Entrevistas

“A literatura que me fez transitar pelas linguagens às quais me debrucei”, diz Diego Araúja artista multidisciplinar que estreia no conto com “SSAIS”

Baiano reconhecido pela sua atuação aclamada nas artes cênicas, Diego Araúja conta em breve entrevista como se encontrou no conto na escrita de “SSAIS” e sua influência da ideia de crioulidade, de Glissant e Patrick Chamoiseau. 

Foto de Laís Machado (Divulgação).


Salvador tem uma nata de artistas-pesquisadores da melhor qualidade, o que torna a cena da cidade algo único no Brasil e no mundo. Em grande parte, essa qualidade artística nasce justamente da diversidade de influências, tornando a cidade um fluxo de capacidade narrativa. Diego Araúja, uma das nossas preciosidades da cena artística de Salvador, sobretudo nas artes cênicas (sua área de formação e que o tornou bem conhecido na cidade), me contou que tentou captar esse fluxo, entrecruzamentos e crioulidade para a escrita de seu primeiro livro de contos, SSAIS, que sai pela Malê e será lançado em Salvador hoje (7) às 18h no espaço da Malê em Salvador. 

Nesta brevíssima conversa que tivemos, não pude deixar de mencionar o interesse de Araúja na questão da crioulidade apresentada pelo Édouard Glissant e que reverberou na escrita do também antilhano Patrick Chamoiseau. Segundo o autor, “o livro não deixa ser uma espécie de colagem – ou de uma crioullage, como geralmente nomeio algumas das minhas produções cênicas”.  Confira a seguir essa conversa. 

Diego Araúja, autor de SSAIS (Laís Machado/ Divulgação).

“O livro não deixa ser uma espécie de colagem – ou de uma crioullage, como geralmente nomeio algumas das minhas produções cênicas”, diz Diego Araúja

Você é um artista multidisciplinar, transitando entre a direção teatral, as artes plásticas e agora a literatura. Em que suas outras atividades artísticas influenciaram sua escrita do texto em prosa?

Apesar de estar publicando prosa pela 1ª vez, eu não transito, agora, pela literatura; mas foi, exatamente, a literatura que me fez transitar pelas linguagens às quais me debrucei: cênicas, visuais, sonoras e audiovisuais. Tudo que produzi nesses campos nasceu do que escrevi, decisivamente. No entanto, minha formação no campo das artes cênicas se justifica através de meu interesse pelas coisas compósitas – o que justifica, também, minha pesquisa acadêmica, a qual chamo de poética de Aproximações. No campo cênico, além do ato de encenar – uma técnica que, de fato, anuncia certo interesse pelas coisas, saberes e linguagens do mundo – me dedico a cenografia e a escrita dramatúrgica; e, em regra, a publicação corriqueira de um texto desse tipo se dá em obra cênica ou fílmica. Entretanto, sim, cheguei a publicar um texto dramático ou outro, em livro ou plaquete.

Penso que, para além do que sei influenciar determinada produção num novo campo de saber, devo sustentar, sobretudo, a aprendizagem crítica com o que não sei ou sei pouquíssimo – e devo dizer que essa aprendizagem, para mim, é outro nome para experimentação. Sobre meus textos dramatúrgicos, como em Prontuário da Razão Degenerada, sempre se direcionava a crítica de se estar literário demais – aqui nos sentido que se daria a um texto em prosa.

Na literatura dramática, especialmente aquela que se produz para o audiovisual, e à revelia de algumas boas exceções, se concentra uma atenção excessiva ao que se pode montar/encenar ou filmar; isto é, ao que se pode mostrar. Coisas vistas como internalizadas ou líricas demais – o que chamam popularmente de “poético” – são vistas como elementos abstrusos ou pouco objetivos para a mise-en-scène. Embora eu hoje ache minha produção dramatúrgica questionável em outras instâncias, se tratava de uma produção com longas rubricas, longos solilóquios ou de um diálogo que, sem sua natureza de réplica, poderia se tratar de um monólogo ou de alguma coisa ensaística – e tudo isso era intencional… ou inevitável. Mas, enfim… nunca tinha escrito direcionado a prosa. SSAIS, para mim, é um experimento crítico, uma aprendizagem, neste setor; e, logicamente, o fator performático que geralmente compõe minhas proposições de arte, também está lá, de modo intencional ou inevitável.  

Você estreia com o conto, um formato tão presente na literatura brasileira. Como que se deu a decisão pelo conto e não outro formato? 

Essa decisão se deve à dois fatores. O primeiro, o acúmulo de ideias. Em 2021, percebi que estava com muitas ideias narrativas acumuladas: para obras cênicas, filmes, romances, contos… Achava que, de algum jeito, eu deveria dar encaminhamento àqueles argumentos. O conto enquanto formato me apareceu o mais possível para lidar, de modo pragmático, com aquele acúmulo; o que fez com que eu fizesse uma curadoria dessas ideias.

O outro fator foi a possibilidade de experimentação. É meio que sabido que o conto ou a novela possibilitam isso, posto que, me parecem, são gêneros menos intransigentes quanto a experimentação formal, especialmente quando comparados ao romance. Nesse sentido, se trata de um bom espaço para introduzir algumas ideias ou um projeto poético – poético, aqui, em seu sentido original de produção ou proposta artística. É um gênero que à luz dos trópicos, não só a nível de Brasil, mas da América Latina, ganha esse traço experimental e quase fundamental; como podemos ver num Borges – uma das referências de SSAIS –, Mario Benedetti ou em Augusto Monterroso. Esse fator, o da experimentação, possibilitou a criação de contos que nem se quer listava no acúmulo inicial; o que me empurrou, definitivamente, para um estudo de estilo. 

A influência do pensamento de Edouard Glissant e a própria ideia de crioulidade também presente em Patrick Chamoiseau te influenciam diretamente. Como isso reverbera em seu livro?

Os pensamentos de Glissant e Chamoiseau – e especialmente Chamoiseauquanto à crioulidade, atravessam o livro à medida em que tento pôr em relação propostas narrativas, sintáticas e idiomáticas no espaço criativo do livro. O livro não deixa ser uma espécie de colagem – ou de uma crioullage, como geralmente nomeio algumas das minhas produções cênicas. Eu tentei, de fato, narrar em “fluxo de consciência crioula” e, me apoiando em Salvador, menos como cidade e mais como um território de cruzamentos quase ensaísticos, tentei invocar essa fantasma cosmopolita, e negro, da cidade. 

Fale um pouco da presença de Salvador, sua cidade, no livro. 

Ainda na esteira da resposta anterior, tanto Chamoiseau quanto Glissant, em certa medida também Césaire, sabiam disso: Salvador, o nordeste brasileiro como um todo, considerando a diversidade de suas produções poéticas, linguísticas e performáticas, é uma terra crioula. Isso é um ponto. No entanto, a cidade crioula proposta no livro talvez não exista, ou exista de modo relativo. Quando digo que tentei “narrar em fluxo de consciência crioula”, falo que tentei narrar o que é profusão, relação e contradição subterrânea, não na metrópole, mas no ser metropolitano de SSA. Portanto, seria menos uma cidade em fluxo, e mais uma Salvador influxo, o que, diga-se de passagem, não é lá uma coisa comum de se expor. Bem, não digo que, necessariamente, fui bem sucedido nisso, embora eu deseje aperfeiçoar e dar seguimento a esse projeto poético. Queria expor algumas cabeças, íntimas, emocionais, alguma coisa de internalizada. O que seria o mesmo que dizer, também, mostrar uma Salvador intelectual, que pensa sobre as coisas – tentei fazer, em alguns contos, com que o tom ensaístico favorecesse esse caminho. E, pensando bem, essa Salvador exista, humanamente, de um jeito difratado, mas recomposto. 

Quais foram os principais desafios da escrita do livro?

O maior desafio, sempre, é acreditar ou não na proposta da obra. E essa crença se situa em seus aspectos fundamentais. No caso de SSAIS é isso; “narrar em fluxo de consciência crioula” e, para tal, deve-se valer de outra consciência radical, a negra.