
O adiamento como forma de amor
Na noite desta quinta-feira (30), nossa colunista S. Ganeff compareceu ao lançamento do livro Lacunas (Relicário, 2026), em São Paulo. Nesta breve crônica, ela relata a noite passada na Livraria Espelho, com a presença do autor, Felipe Charbel, da editora Ana Lima Cecílio e do jornalista Rodrigo Casarin.
Foto: S. Ganeff.
Ontem (30 de julho), fui ao lançamento de um livro que saí decidida a não ler. Parece absurdo. E talvez seja.
Passei a noite ouvindo Felipe Charbel falar sobre seu lançamento Lacunas, enquanto Rodrigo Casarin e Ana Lima Cecilio acrescentavam à conversa uma ideia que me atravessou como poucas. Aprendi com eles que existe um prazer em deixar um livro para depois. Há livros que amadurecem fechados. Há leituras que começam muito antes da primeira página.
Voltei para casa pensando que, pela primeira vez, um livro me convenceu justamente de permanecer intacto. Soa como loucura, não é? Durante anos acreditei que amar um livro era lê-lo; que o livro amado é aquele com a lombada gasta, folhas manchadas pelo uso, com a tinta das letras quase se desfazendo ao toque, penetrando nossas digitais conforme absorvemos ideias; que só assim os livros ocupam espaço no nosso coração. Descobri ontem que existe um amor anterior. Muito antes desse momento. Um amor que não conhece a história, não conhece o final, nem sequer sabe o nome de todos os personagens. Um amor que vive exclusivamente da promessa.
Ah… e quem gosta de boas histórias de amor sabe que não há nada mais romântico do que uma promessa.
Talvez os livros tenham duas vidas – a primeira acontece na estante; a segunda, nas mãos do leitor. Há quem passe tão depressa pela primeira que nunca percebe o quanto ela também é literatura, até o Felipe Charbel se sentar à sua frente e te contar. Passei anos acreditando que os livros fechados me acusavam – eram uma espécie de tribunal silencioso. Cada lombada dizia o mesmo sussurro de “você ainda não”. Eu os via como dívidas empilhadas, uma contabilidade da minha insuficiência. Me sentia sufocada por todos os livros que não li e pelos que nunca terei tempo de ler.
Lacunas me ensinou que os livros que ainda não li talvez não estejam me cobrando
Ontem, porém, tudo mudou. Lacunas me ensinou que os livros que ainda não li talvez não estejam me cobrando. Talvez estejam apenas me esperando. Esperar é uma das formas mais bonitas de amor. Ninguém espera aquilo que não deseja encontrar.
Foi então que compreendi que uma biblioteca não é feita dos livros que lemos. Esses pertencem ao passado. Uma biblioteca é feita, sobretudo, dos livros que ainda respiram futuro. Cada volume fechado guarda uma versão de nós que ainda não existe. Talvez seja por isso que envelhecer transforme a releitura em urgência (essa parte foi a Ana Lima Cecílio quem me contou).
Quando somos jovens, acreditamos que o mundo ainda será inaugurado. Vivemos à procura do livro que mudará nossa vida. Temos fome do inédito. Queremos acumular descobertas como quem coleciona amanheceres. Acredite, eu sei. Eu sou assim! Mas chega um instante (e ninguém sabe dizer exatamente quando) em que deixamos de procurar apenas novos livros. Passamos a procurar quem éramos quando lemos os antigos.
Descobrimos que reler nunca foi voltar. É medir a distância entre duas pessoas que carregam o mesmo nome. O livro permaneceu na estante. Quem desapareceu foi o leitor. Talvez seja essa a maior crueldade do tempo; ou sua maior delicadeza. Porque não envelhecem apenas os rostos – envelhecem também as frases. Um romance que aos dezessete anos parecia uma história de amor, aos quarenta talvez revele uma história de luto. Aos sessenta, quem sabe, uma história de perdão. Os livros não mudam de ideia – nós é que mudamos de silêncio. Pensei nisso enquanto olhava para Lacunas. Tive a certeza quando cheguei em casa e me vi na minha própria estante. Em tudo o que já li e no que ainda não.
Pela primeira vez na vida, desejei proteger uma leitura do calendário. Como quem deixa uma garrafa envelhecer na adega ou como quem planta uma árvore sabendo que talvez a sombra só faça sentido muitos anos depois. Há encontros que estragam quando chegam cedo. Talvez os livros também saibam esperar. Talvez eles conheçam versões nossas que ainda desconhecemos. Talvez haja um romance que esteja me aguardando na mulher que serei aos cinquenta e que hoje morreria de tédio nas minhas mãos. Talvez exista um conto destinado ao meu primeiro luto. Um poema reservado para uma felicidade que ainda nem aconteceu. Talvez o meu futuro esteja nos livros que ainda não escrevi.
Sempre achei que eu escolhia os livros. Ontem comecei a desconfiar que alguns livros escolhem a idade em que desejam ser encontrados. O momento. O tempo. A sorte de uma chance na hora certa.
Voltei para casa sem abrir Lacunas. Pela primeira vez, não foi preguiça. Não foi falta de vontade. Pelo contrário, foi excesso. Foi cuidado. Foi amor. Porque compreendi que existem leituras cujo maior gesto de amor é a espera. E, curiosamente, foi só então que passei a amar aquele livro. Antes da primeira página. Antes da primeira frase. Antes até da primeira leitura. Talvez seja essa a mais bonita das lacunas – não a do livro que nunca lemos, mas a do leitor que ainda estamos nos tornando. Obrigada, Felipe Charbel, por me ensinar esta tão valiosa lição.

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