FLIP 2026

Ele já pode chorar: uma resposta histórica na Casa Gueto

O Espaço Rubens Alves, no coração da Casa Gueto, foi palco da mesa Ele já pode chorar: novas masculinidades na literatura escrita por mulheres, uma das mais instigantes na programação paralela da FLIP.

Fotos de Breno Botelho (O Odisseu).


Realizada na manhã de sábado (25/07), a sala recebeu grande público para quatro das autoras mais proeminentes do catálogo da Editora Patuá: Leonilia Ribeiro (Homo Restus, 2025), Cecília Rogers (Rastro de vento, lembrança de areia, 2026), Luiza Fariello (Um corpo para Jaime, 2026) e Rhaina Ellery (Nunca gostei do mar, 2026). 

O encontro não teve mediação, o que contribuiu para a fluidez do debate e foi marca dos eventos da Casa Gueto em 2026. Com vasta programação envolvendo editoras independentes de grande qualidade e capitaneada pela Patuá, laureada com dois Prêmios Jabuti em 2025 entre tantas indicações e premiações, os presentes apreciaram a proposta alternativa de encontro e participaram ativamente do bate-papo, o que reforça a tradição da Editora, e suas parceiras, em identificar novos talentos e projetos literários que merecem maior atenção do público geral.

“É uma resposta histórica”, destacou Leonilia sobre o tema da mesa após “tantos homens investigando o feminino”. Seu romance de estreia apresenta Marcílio, um homem que estagnou na vida e foi objeto, ao longo do processo criativo, de uma extensa investigação sobre “quem é esse homem e como ele está nesse universo atual”, suas fragilidades, os sentimentos e a solidão a respeito da masculinidade dos nossos tempos. “Era inegociável que (o livro) fosse centrado em um homem”. 

Rhaina, cujo romance aborda um taxista em Fortaleza que se vê envolvido com o abandono de um bebê no banco do seu carro, aponta uma “alteridade de ser escritor e com o leitor” para “tocar o humano”. Reforça, ainda, a necessidade de “não tratar como estereótipos” a caracterização dos personagens e suas angústias e questões, bem como a importância da experimentação da linguagem voltada à compreensão sobre esse homem, fruto de um meio machista, em um ambiente de cuidado, algo “que ele não gostaria que soubessem dele”. “A gente só vive o machismo sob pontos de vistas diferentes”, concluiu. 

(Continua após a foto)

Fotos da mesa Ele já pode chorar: novas masculinidades na literatura escrita por mulheres, uma das mais instigantes na programação paralela da FLIP.

A respeito de Um corpo para Jaime, Luiza apontou como desafio, na primeira vez que “arriscou” fazer um personagem masculino na linha proposta pela mesa, de “tirar os julgamentos como mulher” e “permear de perguntas” sobre Mariano, o protagonista. Atormentado por sua inaptidão social, o personagem deseja “anular o próprio sujeito” e cria um personagem virtual em que poderia ser aquilo que sempre almejou, uma “busca de si mesmo”. 

Já Cecília abordou a importância da prosa “através do poético” para, a partir de um fato verídico, homenagear e compreender melhor o seu pai, o “último baluarte de uma família que desapareceu”. Através da voz narrativa de um neto ao tratar do próprio avô, a escritora partiu da investigação de cartas, fotografias e outros materiais íntimos para compreender esse “homem de muitos silêncios”.

Existe Literatura no Gueto.