Crítica Ensaio

Navegando meus próprios abismos: Ensaio crítico sobre o romance “Como navegar o abismo”, de Paula Gicovate

Em ‘Como navegar o abismo’, Paula Gicovate resiste à narrativa de superação do luto, mas acompanha a lenta reorganização de uma existência que perdeu seu eixo.

Foto: Kenny Hsu/Divulgação.


Em 2008, acompanhei a doença da minha avó até a sua morte. De origem judaica, a despedida cumpriria rituais muito específicos. Fui avisada de que ela havia partido por volta das seis horas da manhã do dia 17 de dezembro. Minha prima foi a primeira a chegar ao hospital e iniciou os procedimentos: cobriu o rosto da minha avó para que não fosse mais visto e aguardou a liberação do corpo para o cemitério judaico. Ali, as mulheres responsáveis pela lavagem-ritual já nos esperavam. Minha irmã e eu também participamos daquele momento.

Lembro-me de que não chorei durante aquela purificação do corpo. Apenas agi, enquanto passava a esponja úmida nas mãozinhas que por tantos anos me afagaram. As lágrimas que guardei desse momento só vieram anos depois, quando precisei narrar, em um romance meu, a morte de uma personagem que atravessaria o mesmo ritual vivido pela minha avó. Foi somente ao escrever aquela cena que consegui, enfim, chorar a despedida que permanecera suspensa dentro de mim.

Algo semelhante aconteceu durante a leitura de Como navegar o abismo, novo romance de Paula Gicovate (Record, 2026). A cada página, eu revisitava meus próprios abismos. No momento que lia, lembrava-me constantemente do ensaio Olha-me e narra-me, da filósofa italiana Adriana Cavarero (Bazar do Tempo, 2025), quando afirma que “todas as dores são suportáveis se as inserimos em uma história, ou se uma história é contada sobre elas.” (p.07). Mais adiante, Cavarero acrescenta: “as histórias de vida são narradas e ouvidas com interesse porque são similares e, no entanto, novas, insubstituíveis e inesperadas. Do início ao fim.” (p.08).

Esse trecho me fez compreender melhor aquilo que me havia acontecido anos antes. Eu não chorei diante do corpo da minha avó sendo preparado; chorei diante da ficção. Não porque a literatura substitua a vida, mas porque ela oferece uma forma para aquilo que a experiência, sozinha, não consegue organizar. A narrativa não elimina a dor; ela lhe confere um contorno, um ritmo, uma possibilidade de permanência. Talvez seja justamente essa uma das belezas da literatura: tornar narrável aquilo que, vivido, permanecia sem linguagem. É sob essa perspectiva que Como navegar o abismo revela toda a sua força.

“Paula Gicovate compreende que o luto não transforma apenas os sentimentos de quem perde alguém; ele transforma também (sobretudo) a percepção do tempo”, Myriam Scotti sobre “Como navegar o abismo”

No romance, somos apresentados à narradora Nara, uma chef de cozinha que vive no Rio de Janeiro e recebe um importante prêmio profissional no mesmo dia em que descobre a doença da mãe. A partir desse instante, sua vida desmorona. Ela abandona o emprego e retorna para Fontana, onde a mãe vive com a avó, figura com quem mantém uma relação marcada por ressentimentos e afetos contraditórios.

Pouco a pouco, compreendemos que a história daquela família é permeada de sucessivas falhas de cuidado. A avó jamais conseguiu amar plenamente Cecília, mãe de Nara, e pequenas frases ou atitudes cruéis, espalhadas pela narrativa, revelam uma violência cotidiana, como na vez em que a avó comeu os iogurtes de Cecília, que já estava em dieta restritiva por causa do câncer; ou quando Cecília conta que sabe que a mãe a culpa pela traição que sofreu do marido com uma viúva, mãe de sua melhor amiga. Cecília, entretanto, não se deixa contaminar pelo rancor de sua mãe, rompendo parcialmente esse ciclo ao construir com a filha uma relação de intimidade rara. Mais do que mãe e filha, eram companheiras de alegrias e dores. Essa é justamente a intensidade que torna a orfandade insuportável para a narradora-protagonista.

Depois da morte da mãe, Nara teria todas as razões para retornar ao Rio e reconstruir a própria vida. Mas ela não consegue. Permanece na antiga casa, cuidando da avó, dividida entre o amor, a culpa, a obrigação e a raiva. Já não consegue cozinhar. Afasta-se dos amigos, do trabalho e do namorado. Suspende a própria existência como se, permanecendo imóvel, pudesse impedir que o tempo continuasse correndo.

É justamente aqui que reside, a meu ver, a maior qualidade literária de Como navegar o abismo. Paula Gicovate compreende que o luto não transforma apenas os sentimentos de quem perde alguém; ele transforma também (sobretudo) a percepção do tempo. Quem vive uma perda importante passa a habitar uma temporalidade própria, dissociada da urgência do mundo. Enquanto a vida continua acontecendo para todos, quem está enlutado experimenta a estranha sensação de existir à margem dela, como se o relógio coletivo continuasse avançando, mas o tempo interior permanece interrompido.

O romance encontra uma forma para essa experiência. Gicovate resiste à lógica narrativa da superação, que costuma conduzir personagens desde um sofrimento inicial até uma resolução final. Seu interesse não está em mostrar como Nara vence a dor, mas em acompanhar a lenta reorganização de uma existência que perdeu seu eixo. O luto deixa de ser um episódio da narrativa para tornar-se sua própria estrutura. Isso se manifesta na construção do romance. Os acontecimentos deixam de obedecer ao ritmo acelerado da produtividade e passam a seguir o tempo interno da protagonista. A narrativa desacelera, insiste na rotina ordinária, nas pausas, nas repetições, nos dias aparentemente iguais. Há uma recusa deliberada da pressa. O leitor é convidado a permanecer nesse tempo outro, e não simplesmente a observá-lo de fora. Por vezes, confesso, me senti entediada e essa sensação é proposital. Gosto quando percebo a intenção de quem escreve. As escolhas narrativas de Gicovate demonstram a segurança e a maturidade de quem sabe o que está provocando no leitor.

Não à toa a reflexão de Adriana Cavarero ecoe de maneira tão profunda durante a leitura. Não é apenas porque Nara conta sua história, mas porque a forma encontrada por Gicovate permite que o leitor reconheça a própria experiência naquela narrativa. A história de Nara permanece singular, mas sua temporalidade torna-se compartilhável.  Essa experiência estética nasce também da escolha de uma linguagem sobretudo contemporânea. A autora escreve sem ornamentos desnecessários, apostando num léxico direto e coloquial, que cria uma identificação quase imediata com o leitor, de modo que não há distância entre quem narra e quem lê. 

Essa aparente simplicidade, no entanto, resulta de uma escrita de grande precisão. A autora sabe que, diante da perda, são os detalhes que sustentam a memória. Em vez de recorrer a grandes cenas dramáticas, concentra a emoção em experiências aparentemente simples e por isso mesmo tão humanas, como nesta cena:

“Minha mãe só partiu quando eu saí do quarto. Só se deixou ir quando eu não ocupava mais a cadeira ao lado da cama. Quando em um minuto eu soltei sua mão para ir ao corredor. Deu o último suspiro enquanto eu respirava fundo do outro lado da porta, pensando até quando aquela agonia ia durar. Ela partiu, a enfermeira avisou. E eu senti um alívio tremendo, uma paz mística, uma serenidade ancestral. E nunca mais senti isso de novo.” (p. 34).

O trecho sintetiza uma das experiências mais difíceis de admitir durante o luto: o alívio. Paula não teme aproximar sentimentos contraditórios. Ao contrário, compreende que a perda de alguém muito amado não produz apenas tristeza. Há exaustão, culpa, e, às vezes, um instante inesperado de paz. Ao permitir que sua personagem nomeie esse sentimento sem julgá-lo, a autora humaniza uma experiência que costuma permanecer interditada pela sociedade.

Gicovate confia na inteligência emocional do leitor

Outro aspecto particularmente sensível do romance é a maneira como revela a culpa provocada pelo retorno à vida cotidiana. Depois da morte de alguém, as tarefas mais banais parecem adquirir um peso desproporcional. Comer, escolher uma roupa, conversar sobre assuntos triviais, sentir desejo ou até rir podem parecer pequenas traições contra quem já não está mais presente. Paula capta esse deslocamento sem precisar explicá-lo; basta uma cena para que o leitor (se)reconheça (n)essa estranheza:

“Depois da missa, fui jantar com Marta e Cris, em um restaurante antigo da cidade. Queria um lugar velho, com comida de qualidade duvidosa e gosto afetivo, onde eu pudesse ficar longe dos olhares condescendentes.” (p. 45).

Ou ainda quando narra a primeira transa após a morte da mãe:

“A cada movimento eu lembrava que tenho barriga, peito, pele, bunda. Ele metia e eu senta que voltava aos poucos, retornava das profundezas e tomava de volta o corpo que tinha perdido.” (p. 129).

É nesse sentido que a prosa de Gicovate confia na inteligência emocional do leitor, oferecendo-lhe espaço para reconhecer, na narrativa, as próprias emoções. Assim, a experiência do luto deixa de ser apenas representada e passa a ser esteticamente compartilhada.

O romance também lança um olhar atento sobre aqueles que cercam Nara. Amigos e namorado desejam ajudá-la, mas pouco compreendem a natureza daquela experiência. Seu companheiro, apresentado inicialmente como o parceiro ideal, revela aos poucos uma necessidade constante de controlar seus movimentos e determinar quando ela deveria “voltar ao normal”. A dificuldade de aceitar a transformação provocada pela perda acaba expondo os limites desse amor.

Ao mesmo tempo, Paula evidencia, sem qualquer discurso panfletário, a permanência de uma divisão profundamente desigual do cuidado. Cecília foi a filha que permaneceu ao lado da mãe, apesar de nunca ter sido verdadeiramente amada por ela. Depois de sua morte, espera-se naturalmente que Nara assuma esse lugar. Os filhos homens, tão valorizados pela avó ao longo da vida, pouco participam desse processo.

A crítica social surge sem interromper a delicadeza da narrativa. O romance apenas mostra como o cuidado continua sendo percebido como uma vocação feminina, quase uma herança transmitida entre gerações, enquanto aos homens permanece reservado o direito de seguir vivendo suas próprias vidas.

Ao longo desse percurso, Nara compreende que o luto não modifica apenas sua relação com a mãe ausente; modifica sua própria identidade. A mulher que existia antes daquela perda deixou de existir. Voltar ao Rio significaria retomar uma vida que já não lhe pertence mais. O romance mostra com delicadeza que sobreviver a uma perda não significa recuperar quem éramos, mas aprender a existir como alguém transformado por ela.

Ainda assim, permanece uma fresta de esperança. Nara recorda a canção que a mãe gostava de cantar, porque “mistério sempre há de pintar por aí”. A frase funciona como uma promessa discreta: não a promessa de esquecer, mas a de que a vida, um dia, voltará a encontrar passagem.

Hannah Arendt, lembrada por Adriana Cavarero em Olha-me e narra-me, afirma que a narração revela o sentido sem cometer o erro de defini-lo. Provavelmente esse o maior mérito de Como navegar o abismo. Paula Gicovate não pretende explicar o luto, tampouco oferecer respostas sobre como sobreviver a ele. Sua escrita recusa qualquer vocação terapêutica ou pedagógica. Em vez disso, constrói uma narrativa capaz de devolver forma a uma experiência que, para quem a vive, costuma parecer desforme.

Cavarero escreve que é preciso recebermos nossa própria história por meio da narrativa de outro, porque cada ser humano, “ainda que não deseje saber, sabe que é um ser narrável imerso na autonarração espontânea da própria memória.” (p. 54).

Ao terminar Como navegar o abismo, compreendi novamente aquilo que havia experimentado anos antes, quando escrevi a cena inspirada na morte da minha avó. Algumas dores permanecem mudas enquanto as vivemos. É somente quando uma narrativa as acolhe, seja a nossa, seja a de outro, que elas começam, enfim, a adquirir um contorno palpável.

É dessa maneira que o romance de Paula Gicovate ultrapassa a história de Nara. Ao narrar um luto singular, torna narráveis tantos outros. Penso residir aí uma das tarefas mais profundas da literatura: oferecer ao leitor uma história capaz de devolver forma àquilo que, durante muito tempo, permaneceu sem vocabulário. Esse romance não narra apenas a dor da perda; ele inventa uma forma literária para esse tempo suspenso em que continuamos vivendo enquanto tudo em nós parece ter parado. É nesse delicado descompasso entre o tempo do mundo e o tempo da dor que Como navegar o abismo encontra sua forma e beleza.

Obs.: No dia seguinte à leitura do romance, não resisti e fui preparar um bolo de milho. Assim como a avó da narradora, vovó preparava sobremesas como ninguém e eu adorava observá-la bater as massas dos bolos, mexer a panela até chegar ao ponto exato do doce de cupuaçu que cobriria a mousse e acabei herdando seu talento para a cozinha. Hoje, quando a saudade bate forte, faço um bolo para assim tentar aplacar a saudade e o vazio que ela deixou…

Como navegar o abismo, de Paula Gicovate/ Record, 2026/ 145 pp.