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‘Eu ainda estou descobrindo o interesse do Brasil pelas minhas obras’, diz Emmanuel Carrère em evento de 40 anos da Companhia das Letras

Em evento no Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio de Janeiro, Emmanuel Carrère conversou com Gregório Duvivier sobre os seus livros traduzidos no Brasil.

Foto: Lucas Oliveira/Filmart Media (Divulgação).


Na noite da última terça-feira, 23, no Teatro Carlos Gomes, no Centro do Rio de Janeiro, o público carioca teve uma noite de encanto literário com um dos autores franceses contemporâneos mais lidos no mundo. Emmanuel Carrère, autor de títulos como Ioga (2023) e Um romance russo (2024), títulos publicados pelo selo Alfaguara, da Companhia das Letras, reuniu um público de cerca de 700 pessoas no início da semana. 

A conversa foi conduzida pelo ator, humorista e escritor Gregório Duvivier, leitor e fã declarado do autor. Como provocação inicial, Duvivier questionou: “Como se sente sendo assistido por 700 pessoas que adoram sua obra?”, ao que o francês respondeu: “Eu ainda estou descobrindo o interesse do Brasil pelas minhas obras”. 

O evento no Teatro Carlos Gomes foi o primeiro de uma série que Carrère fará no Brasil nesta semana, entre Rio de Janeiro e São Paulo. Ainda no Rio, o autor estará hoje, 23, na Livraria da Travessa de Ipanema (entrada mediante distribuição de senhas, uma hora antes). Na sexta-feira, 26, o autor estará em São Paulo para mesa com Andréa del Fuego e mediação de Vera Iaconelli. A presença de Carrère no Brasil para esta pequeníssima turnê é parte da celebração dos 40 anos da editora Companhia das Letras. 

O escritos francês Emmanuel Carrère em evento no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro (Foto: Lucas Oliveira/Filmart Media/ Divulgação)

‘Eu me considero um documentarista’, diz Emmanuel Carrère em evento no Rio de Janeiro

A conversa de um pouco mais de uma hora perpassou os principais temas das obras de Carrère, um autor que tem revolucionado a não-ficção enquanto um gênero ao introduzir, às vezes de maneira radical, elementos literários. Em seus livros, personalidades reais, como o político radical russo Eduard Limonov, ou a professora de história e cultura russa Hélène Carrère d’Encausse, mãe do autor e primeira mulher a presidir a Academia Francesa, recebem o tratamento de personagens literários. 

Na conversa, Duvivier comentou que se trata de uma narrativa que, em certa forma, se aproxima da linguagem cinematográfica, o que Carrère concordou, recobrando seu amor pelo cinema e o trabalho anterior como crítico, numa aproximação mais evidente do documentário e menos do cinema de ficção. “Eu me considero um documentarista”, disse, destacando que o seu interesse era perceber como a sua figura enquanto autor e o seu trabalho artístico reverberam nas vidas — ou personagens — documentados.

Além da câmera e do cinema, Carrère também utiliza a metáfora do pintor retratista. “Não me interessa, como retratista, estar no lugar do outro, e sim em frente ao outro (para retratá-lo). Em certa medida, estar no lugar do outro pode ser moralmente ruim”. O autor aproveitou para comentar que, ao escrever sobre personagens complexos e moralmente duvidosos, como o já citado radical Limonov, era preciso fazê-lo com o compromisso de entender aquele pensamento e, para tanto, despir-se de preconceitos. “Meu trabalho é o de me aproximar e compreender. Mesmo que eu não concorde, eu quero entender um fascista”. 

“Eu não estou ao lado oposto de Annie Ernaux, eu apenas venho de outro contexto”, diz Emmanuel Carrère no Rio

Outra provocação feita por Duvivier diz respeito ao modo como Carrère descreve as personalidades. Para o autor e mediador da ocasião, o francês “não politiza as trajetórias pessoais”, no sentido de não transformar as pessoas em exemplos ou chaves de leitura para um momento sociopolítico, algo comum na tradição francesa e na obra de nomes como Didier Eribon, Édouard Louis e a Prêmio Nobel Annie Ernaux. 

Carrère, entretanto, fez um contraponto: “Não acho que a obra de Annie Ernaux e até mesmo a de Édouard Louis sejam puramente a politização das vidas, pois há também uma dimensão particular”. O autor aproveitou para destacar que se vê, de alguma forma, próximo daquilo que Annie Ernaux produz, principalmente em relação ao tema da crítica de classe: “Não estamos em lados opostos, apenas viemos de contextos diferentes”.