A quem caberá dimensionar a luz de uma certeza? Uma ideia segura, cercada de dúvidas sem tamanho. A proximidade entre o acerto e o erro agrava a pergunta. Haverá efeitos e é fácil escorregar. Mas, aqui, um desejo legítimo será o lastro de um barco vacilante. Poderia dizer que a protagonista dessa história está às cegas, bailando nas sombras do medo, mas seu gesto não hesita. Parece ter prazer em carregar consigo, como uma única pedra fechada na mão, uma ideia convicta. Era preciso cometer aquele crime.
O enredo não é recente, mas seu conflito ainda muito nos seduz: contra a lei vigente, uma mulher quer enterrar o seu irmão morto. O preço do discernimento poderá ser a sua morte.
Dessa vez, o ímpeto é outro, reescrito: Antigonick, por Anne Carson.
Publicada originalmente em 2012, a obra é uma tradução singular do grego antigo para o inglês moderno, a partir do texto fundamental de Sófocles, Antígona. Neste ano de 2026, recebemos a tradução de Julia Raiz para a língua portuguesa, por meio da Editora Bazar do Tempo. Um salto entre três línguas, cujo olhar embaralha as cartas clássicas em discussão há mais de dois mil anos.
Em sua extensa trajetória vital, a crise grega nunca se desfez. Fosse apenas a temporalidade o único parâmetro a se considerar na qualidade desse projeto, ainda assim seria admirável a sua realização. Em Antigonick, porém, são deslocadas as peças e o jogo de risco tensiona a tradição, desafiando o seu processo particular de traduzir.
No prefácio assinado pela autora em voz confessional, direcionado à Antígona, temos a pergunta:
“querida Antígona:
[…]
como traduzir isso?”
O elenco milenar será o mesmo de dez personagens, com mais um adicionado: Nick, personagem mudo que “mede coisas”. Sempre presente durante a evolução da crise no livro, não há falas nem gestos descritos, apenas a tarefa estável de fazer medições. O fato de não haver descrição precisa a respeito de seu papel inédito lhe delega a abertura definitiva do mistério. A falta de clareza em relação à sua origem o projeta sobre o plano do etéreo, talvez como a personificação de nossa escala particular em constante desequilíbrio e teste. Penso que muito pode se desencadear no escuro critério desse personagem, tanto o muito como o nada. O que não sabemos estará fixado sob o seu nome.
O livro segue como uma peça de teatro, mas o ritmo é novo. Pode-se ler rapidamente suas 54 páginas sem paradas obrigatórias para consultas ao dicionário. O impasse, talvez, consista em outros termos: não há pontuação nas falas nem notas de rodapé para solucionar os silêncios. O silêncio é uma novidade importante nesta tradução. Uma possível manobra da arte para manter intocado o que poderia se cumprir na prática da leitura. Assim, o leitor poderá levar adiante o processo interpretativo e preencher os vazios íntimos do texto com suas próprias interrogações – estará ele, portanto, de posse da responsabilidade das vírgulas e exclamações da obra, o que possivelmente altera o balanço de ideias e efeitos propostos pela autora. O tom da tragédia se fará na voz do destinatário.
Duas leis cindem a cidade: a do rei e a dos deuses. E, na fenda que se abre, cairá Antígona, sozinha. Para o misógino Creonte, Polinices traiu a pátria e será punido com a segunda morte se não receber seus rituais fúnebres. Para a irmã, nenhum mortal possui o direito de legislar sobre aquilo que não morre. Sua certeza será a de que o direito do céu é inviolável porque precede e preserva o direito dos homens. Embora estejam de acordo todos os que testemunham o inflamado caso, ninguém poderá afirmar publicamente sem compartilhar do destino dos traidores. A palavra certa é condenável, e a morte, uma ameaça eficaz a favor do silêncio. Calados, como em um baile de máscaras, assistem à vitória do tirano. Antígona terá de reivindicar o corpo do irmão como em um último grito.
“Antígona:
na verdade não todo mundo pensa que nem eu
mas você pregou todas as línguas no chão”
Hoje o grito é pós-moderno. Em Tebas, o caos será conduzido em nova linha: a metalinguagem. Com menções diretas a nomes como Hegel, Brecht e Beckett, que seguramente não pertencem à obra original, os personagens estão conscientes de seu lugar dentro do palco e parecem brincar com os propósitos de sua lucidez. Como quando, capturada a protagonista, à par das consequências incontornáveis de seu gesto insubordinado e refém de um discurso moralizador, interrompe a poderosa lógica do rei com um direto e apressado comentário:
“Antígona:
podemos acabar logo com isso”
Será sintoma da clara ciência de seu destino? Representará a sua impaciente renúncia, revolta resignada ou enjoado tédio? O horizonte das hipóteses denuncia a instabilidade do movimento: Carson não fará concessões didáticas nem explicações adicionais. Referência segura dentro de Antigonick, o dramaturgo irlandês Samuel Beckett também não costumava poupar o leitor, conduzindo-o de mãos dadas com suas ideias – uma estratégia radical frequentemente associada à literatura perplexa do pós-guerra, período em que a brutalidade do real desconcerta o testemunho da violência, desorienta as pupilas do Ocidente. Em contraste com certa tendência utilitarista assumida por parte da literatura contemporânea, Beckett fazia do limiar confuso da linguagem o seu método de expressão. A ambiguidade foi a sua fonte. Especialmente em Esperando Godot (1953), estirou os limites da palavra escrita de modo que se projetasse sobre as divisas do sentido. Para comunicar o invisível, desestabilizava o modelo concreto de representação, subvertia o posto visível. Exceder a borda para libertar o núcleo contido pelo contorno.
Pelo desvio das convenções formais em relação à sua estrutura narrativa, tanto Beckett quanto Carson exigem um olhar para além do imediato.
Anne Carson suprime o que outras traduções costumam manter e insere expressões populares. A dinâmica veloz e coloquial pode soar quase como um improviso, mas é na espontaneidade do momento que registra sua crítica a partir de seu tempo presente. Criativa, mescla o distante com o próximo e o diálogo fabrica um terceiro lugar. Zona de elasticidade contraposta à firme posição dos personagens. A vida é insubstituível, mas a imposição de decretos impróprios é recorrente. Não há condições justas para viver e pouca margem de manobra nos sobra para operar a vida. Antígona, porém, muito trabalha com o pouco que lhe é reservado.
O cenário se modifica, mas o livre-arbítrio é a pedra trabalhada que sucede de mão em mão. A pedra é porosa e, assim como o rigor da Lei, possui seus furos. A força do que é justo não se restringe ao oficializado, como lembramos em “Mineirinho”, crônica de Clarice Lispector em que o corpo de um jovem de 28 anos recebe o fuzilamento como a resposta à justiça por seus próprios assassinatos. Treze tiros partem da polícia do Rio de Janeiro em 1962 para crivar a carne de um fora da lei. Depois da punitiva primeira bala contra o vivo, os disparos seguintes foram apenas para castigar o morto. Assim procedeu a execução. Clarice reconhece o mal-estar na transferência da violência e a desnaturaliza pela raiz. Em paralelo, na canção “Onze Fitas” da carioca Fátima Guedes, o herói trágico também é brasileiro e se opõe à herança do destino marcado pelo terror dos homens e pelo amor dos deuses. Onze tiros racham o seu corpo e a letra suspeita do número é desproporcional. A justificativa do excesso terá sido “engano, vingança ou cortesia”. Sem cerimônias ou honrarias, privado de seu direito ao sepultamento, o desregrado esteve exposto em abandono em um terreno baldio durante três dias. Junto de si, encontram onze fitas que o acompanharam em seu sofrimento sem luz. Senhas de seu contato divino, sinais de promessas de fé e de infinito.
“Deus o livre morrer assassinado
Pro seu santo não era um qualquer um
Três dias num terreno abandonado
Ostentando onze fitas de Ogum”
O grito da margem é rouco e desigual. O desfecho dessas histórias será descobrir que a morte do criminoso expõe o crime daquele que possui permissão para matá-lo. A vontade de matar antecede o infrator e se realiza desenfreada na mão de alguns. Um corpo dilacerado não poderá gritar. A surpresa, portanto, não será duvidarmos da culpabilidade de Mineirinho, do Desregrado ou de Antígona, mas constatar, perplexos, que os agentes armados pela paz não poderão ser considerados inocentes. O vil e o justo empunham a mesma arma.
No cálculo moral, a autoridade instituída possui um impacto determinante na realidade, mas aquilo que é fiel ao sentimento não deixa de ser igualmente verdadeiro. Fosse feita uma varredura sem disfarces nos cômodos do coração, apontaríamos, entre luz e sombra, que a indisciplina rege seu compasso contraditório. Sentir é não obedecer. E nem um mortal é capaz de escapar a essa música insubmissa. Mesmo o mais valente irá vacilar frente a um sentimento cheio de si. Estar mudo e ouvir a sonora percussão do próprio peito, amedrontado. A vitória não será escapar ao medo, mas dirigi-lo. O princípio do combate se constituirá em ouvi-lo e confiar no que ele anuncia.

Bazar do Tempo, 2026. 57 pp.
Reincide nos contraventores de cada dia a contravenção de Antígona. O lume de sua certeza não apresenta desgastes nem carece de reformas. Joia imperecível. Poderia ela receber muitos outros nomes e lembraríamos continuamente daquela que confiou no que lhe parecia justo. O amor por seu irmão, seu pavor e sua honra se prorrogam feito um prisma. O desdobramento de sua luz é frutífero, irradia e traduz. Mil pontas de uma única estrela.
Penso: haverá maior papel do que medir o valor de uma vida?
Talvez Nick guarde a métrica perfeita.
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Patrick Rosa é estudante de literatura, arte e linguagens. Graduando em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Lê e escreve como quem ouve canções.
