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De Quando em Quando, faz-se um passado permanente

Em "Quando", o mais recente romance de Carla Madeira, somos arremessados a questões cuja atualidade nos impede de acomodar a violência à distância de uma época.

A escritora brasileira Carla Madeira, autora de "Quando" (Foto de Marcia Charnizon/ Divulgação)
A escritora brasileira Carla Madeira, autora de "Quando" (Foto de Marcia Charnizon/ Divulgação)

Há passados que não se deixam encerrar. Em Quando, o mais recente romance de Carla Madeira, publicado pela editora Record em 2026, somos arremessados a questões cuja atualidade nos impede de acomodar a violência à distância de uma época. Embora um acontecimento decisivo da narrativa se situe no Brasil de 1986, a truculência policial, a homofobia e as questões de gênero que percorrem suas páginas nos devolvem (infelizmente) ao agora. Aliás, penso que o desconforto que experimentei durante a leitura nasce justamente desse reconhecimento: avançamos no calendário, mas ainda nos deparamos com formas de brutalidade que insistem em decidir quais vidas merecem respeito e quais podem ser violentadas.

Na história, somos apresentados a Viridiana, mãe de Margarida, Valquíria e Tito, uma família cujos afetos se constituem sob uma autoridade paterna desigual. O pai desrespeita a esposa e enaltece o filho homem, concedendo-lhe liberdades que revelam o valor atribuído ao masculino naquele núcleo. Seria cômodo reconhecer nele apenas como um homem de seu tempo. Entretanto, essa caracterização exige cuidado: situar historicamente o machismo não pode servir para atenuá-lo, sobretudo quando seus mecanismos continuam, ainda hoje, tão familiares, como se comprova neste trecho do livro: “Afonso começou a me ocupar de propósito, não por necessidade, acho que queria passar pra frente a raiva dele, já que não podia fazer nada com o que estava por trás dela. Pobre Afonso, devia ser difícil ser ele. Ele me chamava o tempo inteiro, estivesse eu com ou sem clientes no ateliê, pedia que eu achasse seus óculos e os óculos estavam na cara dele, implicava, tumultuava, não me deixava trabalhar.” (p. 23). 

Além disso, a casa participa da formação de uma ordem que distribui permissões e interdições conforme o gênero. Essa desigualdade também se percebe na relação entre os três irmãos, tendo em vista que pertencer à mesma família não significa receber o mesmo reconhecimento nem dispor das mesmas regalias:

“Afonso foi um pai para Margarida e Valquíria, e outro bem diferente para Tito; com as meninas, mal seus olhos pousavam nelas, levantavam voo na minha direção, ele tinha gastura de perder tempo e muita pressa de devolvê-las; já com Tito… com Tito… […] ainda é difícil lembrar que Afonso não perdia as oportunidades de criar o filho: lutar, jogar bola, mostrar o muque, dar ordens, repetir frases feitas sobre as meninas, constranger o choro, exibir a coragem, não ter medo de inseto nem de escuro e não levar desaforo para casa.” (p. 26).

Também nesse romance, os casamentos são marcados pela violência masculina e, por isso, merecem atenção própria. O desrespeito às mulheres e os conflitos conjugais expõem a distância entre a promessa de proteção associada à família e aquilo que se vive dentro dela. A intimidade, ao invés de segurança, pode se tornar um espaço de medo, no qual o vínculo afetivo não impede a humilhação nem contém a agressividade, como na relação entre Margarida e Otávio: “[…] e foram muitas as vezes que ela acordou imobilizada no meio da noite com Otávio metido dentro dela sem autorização, fazendo arder o que poderia fazer vibrar.” (p. 68). Essa violência alcança também quem é obrigado a presenciá-la. 

As personagens infantis vivem as consequências de relações que não escolheram e sobre as quais quase não podem intervir. Afinal, “o peso das coisas não ditas e impossíveis de serem processadas por uma criança imobiliza seu corpo, como seu pai fizera com sua mãe ao concebê-lo.” (p. 76). É nesse tecido de relações emaranhadas que a violência de Tito contra Nino, o irmão caçula de Maria, por quem Tito se apaixona na adolescência, precipita a decisão extrema de Viridiana: denunciar o próprio filho à polícia. O que acontece com o pequeno Nino marca seu futuro e o de sua família, enquanto a denúncia de Tito abre um abismo de vinte anos entre mãe e filho. A passagem do conflito familiar à esfera policial torna-se especialmente perturbadora quando o poder de punir também se associa à violência. A leitura nos obriga, assim, a considerar a distância entre um ato e seus desdobramentos, entre aquilo que alguém faz num instante e tudo o que já não conseguirá desfazer, feito uma flecha lançada.

Não à toa, a homofobia não aparece como um assunto lateral. Ela se entremeia no romance: o desprezo pela diferença pode se converter em autorização para a brutalidade. Lidos em conjunto: o machismo doméstico, a homofobia e a truculência policial permitem pensar como a intimidade e a vida pública se encontram. Embora não sejam violências idênticas, compartilham a imposição da força e a recusa em reconhecer o outro como alguém digno de respeito. Afinal, a instituição família não está apartada do país que a cerca.

A presença das crianças em dois momentos da narrativa aprofunda essa discussão. Primeiro Nino, o garoto espancado por Tito; depois Francisco, filho de Margarida. Aproximá-los não significa equiparar o que lhes acontece, mas perceber como a infância permanece exposta às decisões, aos conflitos e à agressividade dos adultos. Nino sofre um ato cujas consequências atravessam sua vida e a de seus familiares. Francisco, por sua vez, precisa conviver com as brigas dos pais, a separação e as sucessivas tentativas de suicídio da mãe. O sofrimento de Margarida atinge o filho, que se vê diante de situações para as quais não dispõe de amparo suficiente.

Francisco presencia ainda o conflito entre a mãe e a tia, que tenta protegê-lo, enquanto teme perder a avó, em quem encontra um cuidado mais constante do que aquele que recebe de Margarida. A possibilidade da morte de Viridiana adquire, sob seu olhar, outra dimensão: além da perda de alguém amado, está em jogo a continuidade de seu próprio amparo. O menino não é apenas testemunha do drama dos adultos. Ele o vive com seus recursos de criança, sentindo medo, solidão e a insegurança de depender de pessoas absorvidas por suas próprias dores, como revela essa passagem: “E, desde então, Francisco começou a se perguntar como seria não doer mais; minha mãe caída no chão da cozinha não doía nada; meu pai quando foi embora não doeu nem uma vez e o passarinho de asa vazia, no chão… só murchava, sem doer; e Francisco experimenta murchar, murchar, vai encolhendo, se apertando e, quanto mais murcho fica, mais perto fica de não doer mais.” (p. 85).

“Interessa-me como a autora mobiliza o conceito de engrama, associado aos vestígios que as experiências deixam na memória. No universo do romance, essa noção oferece uma chave para pensar a permanência do trauma: aquilo que aconteceu continua a agir sobre quem o viveu.” – Myriam Scotti

Ao colocar essas infâncias em relação, o romance nos faz perceber que a violência contra uma criança não se limita à agressão direta. Ela também se manifesta no abandono, na incompreensão, na falta de escuta e na obrigação de suportar o que os adultos não conseguem resolver. Há uma solidão particular em estar cercado de familiares e, ainda assim, não encontrar quem reconheça o que se está sentindo. Nino e Francisco exigem que a leitura desloque sua atenção para aqueles cujas necessidades tão facilmente ficam em segundo plano. Suas experiências dão espessura à pergunta sobre quem a família efetivamente protege.

Nesse sentido, Quando pode ser aproximado do pensamento do crítico literário Karl Erik Schøllhammer, que afirma: “[…] o contemporâneo é aquele que, graças a uma diferença, uma defasagem ou um anacronismo, é capaz de captar seu tempo e enxergá-lo. Por não se identificar, por sentir-se em desconexão com o presente, cria um ângulo do qual é possível expressá-lo.” (Editora Civilização Brasileira, 2009). O recuo temporal do romance cria um ângulo a partir do qual podemos reconhecer o que persiste. O Brasil de 1986 nos perturba porque suas violências não se tornaram inteiramente passado. Longe disso.

No plano íntimo, essa persistência adquire a forma de uma ausência. Muito doente, diante da possibilidade de morrer, Viridiana pede que Tito venha visitá-la. Vinte anos de afastamento passam a conviver com a urgência de um encontro para o qual talvez já não haja tempo. O pedido da mãe não dissolve a história que os separa. Antes, torna incontornável a pergunta sobre o que ainda pode ser dito quando uma relação foi tão profundamente ferida. Nem a passagem dos anos assegura a reparação, nem a proximidade da morte torna simples o retorno.

Dessa maneira, interessa-me como a autora mobiliza o conceito de engrama, associado aos vestígios que as experiências deixam na memória. No universo do romance, essa noção oferece uma chave para pensar a permanência do trauma: aquilo que aconteceu continua a agir sobre quem o viveu. A ausência de Tito, portanto, não corresponde a um intervalo vazio. Ela ocupa a vida de Viridiana, interfere no presente e se inscreve na maneira como a mãe chama pelo filho. O tempo decorrido não equivale ao tempo elaborado. Isso porque silêncio e distância não costumam solucionar problemas, apenas adiam confrontos inevitáveis.

É preciso ressaltar que a construção narrativa definida por Carla Madeira participa dessa experiência. Os múltiplos narradores e os saltos temporais revelam gradualmente as cicatrizes dos envolvidos, deslocando nossa compreensão à medida que outras perspectivas se apresentam. É nessa convivência de vozes, e não apenas na variedade de temas, que se pode reconhecer a dimensão polifônica de Quando. A história dessa família não se entrega de uma só vez, tampouco se esgota em um único ponto de vista. Somos levados a rever o que julgávamos compreender e a reconhecer que a experiência de um acontecimento não é a mesma para todos os que ele atinge. A forma descontínua da narrativa pode ser lida, assim, em relação a uma memória que retorna, insiste e reorganiza o vivido.

A relação entre Margarida, Valquíria e Tito participa dessa multiplicidade. Os três partilham uma origem familiar, mas ocupam lugares distintos dentro dela, marcados desde cedo pela valorização desigual do filho homem e das filhas. O vínculo fraterno não assegura entendimento: nele também cabem o afastamento, o conflito e as diferentes maneiras de responder às exigências do cuidado. A tentativa de proteger Francisco, por exemplo, põe mãe e tia em confronto e mostra como os laços se tensionam quando está em disputa aquilo que se considera melhor para uma criança. A família se revela por meio dessas relações cruzadas, nas quais ser filha, irmã, mãe ou tia implica responsabilidades e impasses que nem sempre podem ser conciliados.

Nos momentos em que Viridiana chama pelo filho, percebemos a linguagem da insistência. Há algo que não se encerra, um apelo que parece procurar passagem por entre os anos de afastamento. Enquanto escritora, reconheço-me nessa escrita convulsionada, em que a maternidade não encontra uma expressão apaziguada. A voz materna importa pelo que deixa transbordar e pelo que não consegue resolver. Sua urgência torna sensível a experiência de alguém que precisa falar antes que o corpo já não permita.

“O trabalho estético não é ornamento e participa da maneira como o percebemos. Pois é, a singularização da palavra que a torna poética, retirando-a do uso automático e ampliando os possíveis sentidos do que se quer dizer.” – Myriam Scotti

A maternidade entrelaçada à literatura há muito é meu objeto de pesquisa, ensaio, prosa e poesia. Por isso, detenho-me especialmente nessa mãe que ama e, ainda assim, toma uma decisão de consequências devastadoras. Viridiana permite interrogar a idealização que exige das mulheres uma disponibilidade sem falhas, como se tornar-se mãe significasse deixar de ser um sujeito afetado por medo, contradições e impulsos. Reconhecer sua complexidade não exige absolvê-la. Exige sustentar o incômodo de uma personagem que não cabe inteiramente na condenação nem na imagem sacrificial da mãe. Essa proximidade com minhas questões de escrita e pesquisa, porém, não encerra a leitura: o romance pede que se escutem também os filhos, os irmãos e as crianças atingidas pelas escolhas e pelos sofrimentos dos adultos.

Também nossas leituras precisam abrir espaço para mulheres que escapem às representações e aos mandamentos cultivados no seio da sociedade patriarcal ainda vigorante. A literatura participa desse esforço quando permite que a mãe exista para além da função que lhe foi atribuída. Em Viridiana, o amor materno convive com a culpa, a ausência e o desejo de reencontro. Em Margarida, o sofrimento psíquico e a relação com Francisco tornam incontornável a tensão entre a dor de uma mulher e a necessidade de proteção de seu filho. Desidealizar a maternidade não significa minimizar o desamparo infantil, assim como reconhecer esse desamparo não exige reduzir a mãe a um veredicto. A narrativa nos mantém diante de necessidades que coexistem, sem que uma anule a outra.

É certo que a literatura não precisa reproduzir a realidade tal como ela é. Sua força está também na possibilidade de provocar elucubrações a respeito daquilo que nos cerca e nos move. A prosa pode nos aproximar do lugar do outro, tornando-se espaço de possibilidades e de pluralidade. Essa aproximação, contudo, não se faz necessariamente pelo conforto. Textos nem sempre afáveis nos confrontam com experiências que desafiam nossas certezas; podem ampliar nossa escuta sem nos oferecer a tranquilidade de uma resposta definitiva. Em Quando, acompanhar os diferentes envolvidos implica permanecer diante da ferida, resistindo à pressa de encerrá-la num julgamento.

Para além dos temas, é patente o trabalho de Carla Madeira com a linguagem. Mas esse “além” não significa separação: a alternância das vozes, os deslocamentos temporais e o fluxo da fala de Viridiana dão forma àquilo que o romance investiga. O trauma e a ausência se tornam experiências de leitura também por meio do ritmo e da organização do relato. O trabalho estético não é ornamento e participa da maneira como o percebemos. Pois é, a singularização da palavra que a torna poética, retirando-a do uso automático e ampliando os possíveis sentidos do que se quer dizer. Na estranheza, quando já não nos deixamos conduzir apenas pelos caminhos habituais da língua, surge a possibilidade de perceber de outro modo. Quem trabalha com o literário embrenha-se nessas camadas mais profundas, tal qual um minerador que adentra a caverna, escavando possibilidades. 

Essa elaboração convém em um romance que nos lança ao encontro de violências tão reconhecíveis. A familiaridade com o que vemos e ouvimos pode tornar automático até mesmo o horror. Ao deslocar nossa percepção, a literatura nos obriga a demorar onde tantas vezes passamos depressa. Entre o Brasil de 1986 e o presente da leitura, entre o instante da violência e seus efeitos duradouros, Quando abre espaço para essa demora. A permanência da homofobia, da violência nos casamentos e do desrespeito às crianças impede que leiamos essa história como o retrato de uma época superada. A voz de Viridiana chama pelo filho, mas não é a única a exigir nossa escuta. Ao seu lado, outras vidas reclamam o direito de ser ouvidas. Talvez seja esse um dos desconfortos mais engenhosos do romance: reconhecer o quanto ainda há de presente naquilo que gostaríamos de poder chamar apenas de passado.

Quando, de Carla Madeira/ Editora Record, 2026/ 280 pp.

MAR ABERTO

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