A literatura nos permite viver experiências que talvez nunca tivéssemos a oportunidade de conhecer de outra forma, colocando-nos em contato com realidades diferentes e nos ensinando a exercitar a alteridade e a questionar uma lógica egoísta que naturaliza a exclusão e estabelece que algumas vidas valem menos do que outras. A ficção, sobretudo, tem o poder disruptivo que nos permite imaginar outras realidades, questionar o que nos é apresentado como natural e compreender que o mundo poderia ser diferente.
É por isso que a literatura incomoda tanto os governos autoritários. Livros ensinam a imaginar, refletir e duvidar, operando no sentido oposto ao controle social e à uniformidade que esses regimes tentam impor.
“Nenhum governo autoritário consegue controlar tudo. Por mais autoritário que seja, você não consegue controlar a imaginação das pessoas”, falou o imortal da Academia Brasileira de Letras Milton Hatoum, em 2023, durante a Feira do Livro de São Paulo.
No sistema penitenciário brasileiro, a leitura é um dos mecanismos de redução de pena por conta da sua capacidade de promover a ressocialização e estimular a educação. Os livros abrem espaços de liberdade, e esse é um dos fatores que mais apresenta o poder que eles têm.
A literatura também pode ser um mecanismo de diálogo com o nosso próprio tempo. Compreender como algumas sociedades e épocas reagiram ao poder dos livros é fundamental para entender o papel que ele desempenha na história e na vida social.
Em maio de 1933, poucos meses depois da chegada de Hitler ao poder, estudantes alemães organizaram queimas públicas de livros. Em diversas cidades da Alemanha, obras de escritores considerados indesejáveis pelo nazismo, como Bertolt Brecht, Karl Marx, Freud, Thomas Mann e Franz Kafka, foram destruídas pelo fogo. A perseguição aos intelectuais e à intelectualidade fazia parte de um projeto maior de controle da sociedade, que encontraria na censura alguns de seus principais instrumentos.
A Alemanha nazista não foi a única experiência histórica em que a literatura se tornou alvo do poder. Durante as ditaduras militares latino-americanas, escritores foram presos, exilados e impedidos de publicar seus livros. No Brasil, Cassandra Rios, a autora mais censurada pelos militares, teve 36 títulos vetados ou tirados de circulação. Ferreira Gullar, Darcy Ribeiro e diversos outros autores foram exilados. Em outros países, Isabel Allende, Julio Cortázar e Reinaldo Arenas são alguns dos nomes que sofreram nas mãos dos ditadores. Embora cada episódio tenha suas particularidades, todos eles ajudam a evidenciar que governos autoritários enxergam na circulação do pensamento uma ameaça à manutenção do poder.
No último domingo, 25 de outubro de 2026, o Brasil viveu mais um capítulo importante de sua história política. Lula foi reeleito presidente da República pela quarta vez, com 51,79% dos votos, derrotando Flávio Bolsonaro, que recebeu 48,21%. Mais de 64 milhões de brasileiros optaram pela reeleição de Lula. Vale lembrar que, em 2022, Lula derrotou Jair Bolsonaro. Pai e filho foram vencidos nas urnas pelo mesmo homem, um operário que chegou à Presidência da República pela primeira vez em 2003, que é apontado como o melhor presidente que o país já teve e está se tornando um símbolo mundial no combate ao fascismo.
Foi uma campanha bonita e, por vezes, exaustiva, marcada pela mobilização popular. Trabalhadores, estudantes, artistas, professores, movimentos sociais, mulheres, idosos, moradores de favelas e periferias, movimentos antirracistas, comunidade LGBTQIA+, pessoas com deficiência e todos que conhecem minimamente o país em que vivem se mobilizaram para eleger Lula mais uma vez. (É importante ressaltar que houve um fenômeno incomum – ainda que eu julgue importante não dissociar o bolsonarismo da direita, pelo bem das próximas eleições –, a própria direita se manifestou contra o representante do PL e votou em favor do candidato do Partido dos Trabalhadores.) O Nordeste, mais uma vez e sempre, teve papel decisivo nessa vitória. Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe mostraram sua força política, e é a esses estados que devemos a continuação da democracia. Todos juntos, conseguimos derrotar a Meta, bigtechs, a interferência dos Estados Unidos, emissoras de televisão, facções criminosas, bilionários e homens sem escrúpulos e sem compromisso com a justiça e com a verdade.
O Brasil é um país construído pelo trabalhador. Um território de dimensões continentais, diversidade cultural e riquezas naturais. É um território indígena, onde povos originários resistem há séculos à violência praticada contra suas terras e seus modos de vida. (Aproveito para fazer um adendo: os assassinatos dos povos originários começaram a tomar escalas maiores depois do resultado de domingo. É preciso que a gente proteja e se manifeste por eles.) Defender o Brasil deveria significar, para todos os seus cidadãos, defender os direitos da população e do território. Entretanto, Flávio Bolsonaro, que se apresentava a todo instante como patriota, até essa palavra ficar enraizada em nossas cabeças como referência a ele, encontra mais facilidade em atacar os próprios brasileiros do que em reconhecer a importância do que temos aqui.
O discurso conservador apresentado como se fosse em defesa da família, da moral e dos bons costumes disfarça manifestações de racismo, xenofobia, classismo, homofobia e capacitismo, sem nenhum conhecimento de economia e educação. E esse discurso parece ter encontrado acolhimento em seus eleitores.
Lula soube nomear parte dessas contradições durante a disputa eleitoral. Diante de seu adversário proferindo mentiras — só no debate exibido pela Globo foram mais de 70 confirmadas —, o presidente escolheu bem suas palavras para denunciar o concorrente miliciano, preconceituoso e envolvido em diversos crimes. Flávio Bolsonaro parece estar em uma corrida para gabaritar o Código Penal e seus pupilos insistem em segui-lo, acobertando todo seu mau-caratismo e se recusando a se opor a um criminoso, se tornando também maus-caracteres confessos.
O resultado das urnas deveria ter encerrado a disputa eleitoral. Mas, para os bolsonaristas e seus eleitores, a derrota parece ter inaugurado outra campanha. Desta vez, dirigida contra cidadãos e estabelecimentos comerciais identificados como apoiadores de Lula. (Apesar do autor desta matéria ser petista, deixo claro aqui que nem todos os eleitores de Lula são, só viram na figura do estadista a única opção possível no segundo turno para o futuro do Brasil e da democracia.) No dia seguinte à eleição, começaram as ameaças e as listas de boicotes, organizadas por cidades, reunindo nomes de empresas, comerciantes e profissionais que teriam manifestado apoio ao presidente eleito.
“Fiquei com medo, mas resolvi divulgar, denunciar, expor e procurar a justiça“, conta Sabrina Travassos, proprietária da Livraria Favorita em Três Rios, interior do Rio de Janeiro

É importante distinguir o direito legítimo de um consumidor escolher onde gastar seu dinheiro das campanhas de intimidação que expõem pessoas, promovem ameaças ou procuram prejudicar trabalhadores por suas posições políticas. Ninguém é obrigado a frequentar determinado estabelecimento. Entretanto, transformar a preferência eleitoral de alguém em justificativa para perseguição representa um problema muito maior do que uma variedade de consumo.
Entre os estabelecimentos citados nas listas de boicotes estão algumas livrarias, como a Martins Fontes, em São Paulo, a Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro, e a Favorita, em Três Rios, interior do Rio.
Procurei Sabrina Travassos, proprietária da Favorita, para conversar sobre as ameaças e as listas de boicote. Ela aceitou falar sobre o episódio e sobre o que significa administrar uma livraria em um momento de tamanha intolerância política.
“Na terça-feira de manhã, acordei com um monte de mensagens de amigos me perguntando se eu tinha visto a lista. Confesso que já esperava encontrar o nome da livraria lá.
Em 2022 e depois do golpe do 8 de janeiro, a Favorita também apareceu em listas como essa. Eu fiquei nervosa e tensa, mas não divulguei. Fiquei calada e com medo. Falei com algumas outras pessoas que apareceram na lista, mas resolvemos não expor.
Mas, agora, foi diferente, foi mais intimidante. Senti um movimento maior por parte da cidade, com mais gente declarando boicotar o comércio da cidade, o ‘comércio de petistas’, postando stories indicando a demissão de funcionários petistas. Clientes deixaram de nos seguir e não estão indo na loja.
Dessa vez, não dá pra ficar calada e resolvi reagir. Fiquei com medo, mas resolvi divulgar, denunciar, expor e procurar a justiça. Vou fazer uma movimentação porque estou sentindo que, se isso escalonar, vai ser muito prejudicial pra nossa economia.”
Entre tantos absurdos proferidos e cometidos por Flávio Bolsonaro, um deles era o fato de ser contrário ao fim da escala 6×1, tanto que ele faltou à votação da PEC que previa mais um dia de folga para os trabalhadores. O ex-candidato à presidência defende que o ideal seria negociar diretamente com o patrão. No entanto, em menos de 48 horas após o resultado das eleições em que foi derrotado, seus apoiadores encontraram espaço para promover boicotes a comerciantes e demissões de trabalhadores por suas posições políticas.
À primeira vista, essas listas podem parecer só uma reação infantil à derrota eleitoral, feita por meninos mimados que esqueceram de crescer para além da adolescência.
E é, sim, imatura a incapacidade de aceitar que milhões de pessoas fizeram uma escolha diferente da sua. Mas seria um erro considerar essas atitudes como inofensivas. Campanhas de intimidação estimulam agressões, provocam prejuízos financeiros e psicológicos e instauram um ambiente de medo.
Vale ainda ressaltar que, enquanto seus eleitores se empenham em disseminar a violência aqui no Brasil, Flávio fugiu para os Estados Unidos, mesmo estando com o passaporte cancelado, e divulgou uma carta se autoproclamando o presidente eleito do Brasil, e editada, meia-hora depois, para “líder do Brasil”.
Para os bolsonaristas, a violência e a intolerância se tornaram uma forma de pertencimento político, deixando de importar o futuro coletivo. Para eles, é importante criar e combater inimigos e demonstrar fidelidade aos seus líderes por meio da hostilidade.
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“Aconteceu um episódio: um adolescente de 14 anos entrou na livraria e perguntou se eu tinha livro do Bolsonaro. Eu respondi que não, ia perguntar se ele queria que encomendasse, como eu sempre faço, e qual título ele queria. Aí ele começou a rir e debochar. Aí eu entendi o que estava acontecendo. Um adolescente teve a audácia de vir aqui debochar. Fiquei um pouco estarrecida.
Apesar do medo, o que eu posso dizer é que a gente encontrou também o outro lado. É uma onda de apoio gigante, de pessoas me mandando mensagens. Algumas pessoas que não vinham na livraria há um tempo vieram para demonstrar apoio e se posicionar contra a barbárie. Eu estou sentindo o apoio das pessoas que não concordam.
Foi assim na Segunda Guerra e na ditadura de 1964. Realmente, estamos sendo marcados por apoiar a democracia, um governo que olha para o povo, que apoia o nosso mercado, que apoia a cultura, que apoia os livros, que tem projetos sobre livros no seu plano de governo.” – Sabrina Travassos, proprietária da livraria Favorita, em entrevista à revista O Odisseu.
Não há nada de democrático nessa postura. A democracia pressupõe a possibilidade de perder. Pressupõe reconhecer a legitimidade de um resultado eleitoral mesmo quando ele contraria nossas expectativas. (Foi por isso que, em 2018, Jair Bolsonaro ganhou as eleições, e Fernando Haddad, sendo professor, no dia seguinte, voltou a dar aula). Quem só aceita a vontade popular quando ela coincide com seus interesses não está defendendo a democracia, está tentando submetê-la à própria conveniência.
A Constituição Federal de 1988, o livro mais importante da história do Brasil, estabelece os princípios que orientam nossa convivência e foi escrito depois de duas décadas da ditadura militar e representa uma conquista de gerações que lutaram pelo restabelecimento das liberdades democráticas. Não é um documento perfeito e não está acima de críticas. Mas é nele que encontramos garantias fundamentais como a liberdade de expressão, o direito à educação, a igualdade perante a lei e a proteção contra diferentes formas de discriminação.
É especialmente grave quando movimentos políticos que se apresentam como defensores da ordem passam a tratar essas garantias como obstáculos, como Flávio Bolsonaro fez ao atacá-la. A Constituição não existe para proteger só aqueles que concordam com o governo ou com a maioria. A Constituição assegura os direitos de qualquer e de todas as pessoas, inclusive os que pensam de maneira diferente da maioria.
Nas 76 páginas do plano de governo de Flávio, as palavras “livro” e “leitura” não apareceram nenhuma vez. Um governo que não valoriza bibliotecas, museus, arquivos, editoras e instituições de ensino contribui para ampliar as desigualdades no acesso ao conhecimento.
Por isso, devemos sempre nos questionar o que justifica a tentativa fascista de Flávio Bolsonaro não querer formar novos leitores. É difícil atravessar determinadas leituras sem sair delas com algumas questões e com vontade de questionar o que lhe é imposto.
Seria ingênuo acreditar que a leitura, sozinha, é capaz de eliminar o fascismo ou qualquer outra forma de autoritarismo. O conhecimento não impede, por si só, a barbárie, assim como o acesso aos livros não garante o respeito ao outro. É necessário que a leitura esteja acompanhada de reflexão crítica e do compromisso ético.
Nesse sentido, considero importante transformar a indignação provocada pelas listas de boicote em uma mobilização de apoio aos estabelecimentos ameaçados. Se há pessoas tentando prejudicar livrarias por razões políticas, podemos responder fortalecendo esses espaços. Frequentá-los, comprar livros quando possível, participar de lançamentos, divulgar suas atividades e recomendar suas obras são maneiras de demonstrar que a literatura não deve ser submetida à intimidação. Sei que os descontos oferecidos pelas grandes plataformas digitais muitas vezes fazem diferença no orçamento dos leitores. Não seria justo ignorar essa realidade. Mas, sempre que for possível, vale considerar comprar em livrarias independentes de bairro.
E mais: visitem bibliotecas e voltem a sentir orgulho de participar de clubes de leitura. Procurem o que estão publicando as editoras independentes, leiam jornais e veículos de comunicação comprometidos com a apuração dos fatos, conversem sobre os livros que estão lendo, postem trends no Instagram sobre livros. Presenteie amigos e familiares com obras que possam despertar interesse por assuntos que ainda são desconhecidos.
Deixo aqui o link das livrarias para que, caso seja possível, comprem diretamente com elas:
Livraria Favorita: https://instagram.com/livrariafavorita/
Livraria Leonardo da Vinci: https://www.leonardodavinci.com.br/
Livraria Martins Fonte: https://www.martinsfontespaulista.com.br/?srsltid=AYCX9vJo11nBzfdbfYHDF4jyYjhc_5Hrw7fxs5d5n0wf2544SSgyy4-s
A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro é o começo do fim do bolsonarismo. O resultado da última eleição demonstra que existe uma parcela expressiva da sociedade brasileira disposta a se mobilizar contra os males que os bolsonaristas causam. Essa mobilização precisa continuar depois das eleições. A defesa da democracia não pode ficar restrita ao período de campanha.
Caso os leitores tenham conhecimento de livrarias, editoras, bibliotecas ou outros estabelecimentos ligados à literatura que estejam sofrendo ameaças ou campanhas de intimidação, peço que entrem em contato por meio dos comentários ou de mensagens inbox. Com a autorização dos envolvidos, poderemos atualizar esta matéria e ampliar a divulgação dos casos.
A todos que estão enfrentando ameaças por defender a democracia e o Presidente Lula, deixo minha solidariedade. Nenhuma divergência eleitoral justifica a violência. Juntos somos mais fortes!
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