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Crítica

A geografia íntima da violência

"As quintas que eu perdi", de Kátia Valevski, um romance sobre violência contra a mulher, mas seria pouco reduzi-lo a isso.

Kátia Valevski, autora de "As quintas que eu perdi"
Kátia Valevski, autora de "As quintas que eu perdi"

Em As quintas que eu perdi, Kátia Valevski parte de uma história que, à primeira vista, poderia ser resumida como o encontro de uma mulher madura com um homem de seu passado. Mas o romance, publicado pela Folhas de Relva Edições este ano, vai rapidamente para outro lugar. Úrsula é uma arquiteta de 58 anos, independente, bem-sucedida, acostumada à própria companhia, que reencontra pelas redes sociais Ignácio, músico que conheceu na juventude. A aproximação vai se transformando, aos poucos, numa relação de manipulação, controle e violência. Uma das qualidades do livro está justamente em não construir Úrsula como uma mulher ingênua ou indefesa. Ao contrário, ela é experiente, inteligente e dona da própria vida, e é a partir dessa contradição que o romance ganha força.

Kátia Valevski também não escolhe uma linguagem convencional para contar essa história. Há alguma coisa de inquieta, às vezes quase indisciplinada, na escrita. As frases mudam de ritmo, palavras são torcidas ou inventadas, registros cultos convivem com a oralidade, pensamentos atravessam a narração e a música aparece não apenas como assunto, mas como uma espécie de pulsação do texto. Já nas primeiras páginas, a autora faz a narrativa oscilar entre uma prosa mais elaborada e uma fala muito próxima do cotidiano, sem se preocupar em uniformizar essas vozes. É uma escolha arriscada, que em alguns momentos exige mais do leitor, mas é justamente essa linguagem muito particular que dá personalidade ao romance.

O Nordeste ocupa um lugar especial no livro. Não apenas como cenário, mas como território afetivo e linguístico. João Pessoa e a Paraíba aparecem com especial força, assim como Recife, o Cariri e outros lugares atravessados pela memória das personagens. Ignácio é paraibano, sua trajetória está ligada à cena musical e a Úrsula guarda uma relação importante com João Pessoa, onde viveu e estudou. O Nordeste entra ainda nos sotaques, nas expressões, na música, nas praias e numa geografia que deixa de ser pano de fundo para participar efetivamente da narrativa. Essa presença é particularmente interessante porque o romance também põe em contato diferentes regiões do Brasil e diferentes modos de falar, sem transformar o Nordeste em paisagem exótica.

“Em As quintas que eu perdi existe desconforto quase o tempo inteiro, mesmo quando a narrativa parece oferecer algum abrigo”

Há ainda Janete, a psiquiatra de Úrsula, personagem fundamental para que o livro não se limite à dinâmica entre vítima e agressor. A relação entre as duas vai progressivamente ultrapassando os limites esperados entre terapeuta e paciente, e o romance passa a investigar também quem observa quem, quem conduz quem e até onde é possível permanecer distante da dor do outro. É nesse sentido que concordo com uma observação muito precisa da jornalista Raquel Cozer no texto de orelha. Para ela, o livro cria, por meio de sons, imagens e odores que se contrapõem, “um estranho terreno de amparo e perturbação”. É uma boa maneira de definir a experiência da leitura, porque existe desconforto quase o tempo inteiro, mesmo quando a narrativa parece oferecer algum abrigo.

As quintas que eu perdi é, no fim das contas, um romance sobre violência contra a mulher, mas seria pouco reduzi-lo a isso. Há desejo, envelhecimento, solidão, sexo, música, memória, amizade, culpa e a dificuldade de reconhecer o perigo quando ele chega disfarçado de afeto. Kátia Valevski não trata esses assuntos como uma pauta colocada de fora para dentro da literatura. Eles aparecem encarnados nas personagens, sobretudo numa mulher que acreditava conhecer muito bem a si mesma e descobre que lucidez não é sinônimo de imunidade. Talvez seja essa uma das ideias mais incômodas do livro: não existe inteligência, experiência ou independência capazes de nos proteger completamente daquilo que desejamos acreditar. E é justamente nessa zona vulnerável, tão humana, que o romance encontra sua melhor literatura.

As quintas que eu perdi, de Kátia Valevski/ Editora Folhas de Relva, 2026/ 222 pp.

MAR ABERTO

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