
Escritoras baianas: Leia gratuitamente livro com traduções de contos de autoras baianas para o inglês
Em entrevista para a revista O Odisseu, Sarah Rebecca Kersley, organizadora e tradutora da coleção de contos “Escritoras Baianas – Women writers from Bahia” fala do seu interesse pela literatura baiana escrita por mulheres.
Foto [da esquerda para a direita]: Kátia Borges (Reprodução)/ Amanda Julieta (por Ana Reis) e Calila das Mercês (por Marlon Chagas).
A historiografia da literatura, em muitos momentos, exemplificou, por meio da divulgação e do lançamento de livros, o espaço geográfico como uma importante porta de entrada e manutenção do capital simbólico e da hegemonia na literatura, mais precisamente nas regiões Sul e Sudeste do país que, durante muitos anos, centralizaram as ações e foram consideradas locais de propagação de novas vozes.
Contudo, com o mercado editorial e o tempo trazendo novas mudanças e novos cenários, regiões que outrora tinham pouca visibilidade hoje surgem no cenário da literatura, apresentando escritores e escritoras diversos. É o caso da Bahia, que, mais recentemente, sob a batuta da poeta, editora e tradutora Sarah Rebecca Kersley, lançou o livro Escritoras baianas – Women writers from Bahia.
Neste livro, lançado em e-book, Kersley selecionou 14 escritoras da Bahia, que publicaram em editoras do estado e/ou de outros lugares do Brasil, e apresenta ao leitor a produção em português e a tradução em inglês, feita pela própria organizadora. Compõem o livro as escritoras: Aidil Araújo Lima, Amanda Julieta, Ane Kethleen Pataxó, Bruna Pereira, Calila das Mercês, Carluce Couto, Carmen Ortiz, Fabíola Cunha, Katia Borges, Luciany Aparecida, Mariana Paiva, Moema Franca, Mônica Santana e NegaFyah. Para além disso, há, na edição, um ensaio de posfácio assinado pela pesquisadora, escritora e professora Maria Dolores Sosin Rodriguez.
Com o lançamento tão recente, não poderia deixar de dar a devida importância ao livro. Para isso, fiz uma entrevista com a organizadora, que elucidou as etapas do processo de produção e seleção das escritoras, entre outras informações relevantes.

“A literatura produzida na Bahia pulsa de forma extraordinária e com uma vitalidade só sua”, diz Sarah Rebecca Kersley, organizadora e editora do livro “Escritoras baianas”
DS: Como surge a ideia de fazer a tradução dessas autoras para o inglês?
SRK: Escritoras baianas – Women Writers from Bahia surgiu como uma expansão e continuação natural do meu trabalho anterior, Poetas baianas – Women poets from Bahia, publicado em 2021, que apresentou uma amostra dos trabalhos de vinte poetas baianas junto com traduções dos poemas na língua inglesa. Enquanto a coletânea anterior focava na poesia, este novo eixo do projeto reúne textos de quatorze escritoras que trabalham nos gêneros romance, novela, conto, memória, cartas, textos híbridos e crônicas. Com essa ampliação do escopo, a ideia permanece a mesma: apresentar um recorte da produção de escritoras de diferentes gerações e diversas regiões do estado da Bahia, com traduções para o inglês junto com os textos em português brasileiro, e um ensaio de posfácio de uma pesquisadora intelectual que contextualiza a produção literária das autoras, que na edição anterior foi escrito por Milena Britto e nessa edição por Maria Dolores Sosin Rodriguez. A coleção pretende ser apenas uma breve amostra da vasta produção literária de mulheres do estado.
Ao longo dos anos em que estou radicada na Bahia, trabalhando com tradução de obras de escritores contemporâneos brasileiros e também atuando como editora e livreira, tenho acompanhado de perto e interagido de várias formas com os diálogos literários e o mercado literário daqui, ao mesmo tempo acompanhando os de alguns outros países, especialmente os de língua inglesa. Fui percebendo que ainda há uma grande lacuna no exterior de traduções de escritoras brasileiras no geral, e, mais especificamente, da produção da Bahia, uma produção que me dá cada vez mais alegria de conhecer e acompanhar e desejo de compartilhar com novos públicos. Nos últimos anos, um número maior de escritoras contemporâneas tem sido traduzido para o inglês, e dentro disso, há exemplos notáveis de obras de escritoras baianas sendo lidos mundo afora. Mas elas ainda são poucas, e essa falta permanece evidente tanto no mercado editorial quanto no meio acadêmico. O crescente interesse pela literatura brasileira, assim como o sucesso internacional de algumas traduções de obras escritas por mulheres, demonstra que existem leitores atentos e um mercado internacional receptivo. No entanto, a produção que alcança esse público ainda é composta, em grande parte, por escritoras associadas ao chamado eixo Rio–São Paulo. A partir dos retornos e resultados positivos que recebi da edição de 2021, o objetivo é continuar levando adiante essas pequenas pontes, levando aos leitores de língua inglesa parte dessa produção contemporânea de escritoras da Bahia.
Além da ampliação dos gêneros literários e de outras mudanças na estrutura, uma novidade desta edição é a inclusão, no site, de gravações em áudio das escritoras lendo seus próprios textos em português. A ideia é que quem não conhece a língua portuguesa possa ler os textos em inglês enquanto escuta as escritoras lendo suas obras. E a experiência permite que o leitor tenha contato com a sonoridade, o ritmo e a musicalidade da língua e da escrita de cada autora, contribuindo para uma leitura-escuta mais sensorial e aprofundada.
Entre as outras novidades nessa edição são a participação, na escrita do posfácio, da professora, crítica literária, poeta, artista e pesquisadora Maria Dolores Sosin Rodriguez, que contextualiza os trabalhos da edição e amplia e aprofunda as possibilidades de olhar para essa produção literária, e a participação do poeta e revisor Alex Simões, que além de revisar as traduções, foi imprescindível em algumas questões do bainanês e das baianidades que naturalmente surgiram ao longo do processo de tradução. E, como não cabe falar aqui de cada texto e preciso me controlar para não dar nenhum spoiler, rs, só posso dizer que conviver com o trabalho dessas escritoras durante o desenvolvimento das versões em inglês, foi bacana demais. Agora estou ansiosa para compartilhar o resultado e convido a todas as pessoas a irem conferir o site assim que terminarem de ler essa entrevista, rs.
DS: Como se deu a curadoria e escolha dessas mulheres para compor o livro e, consequentemente, a escolha do texto literário?
SRK: Eu quis juntar escritoras que se relacionam com a contemporaneidade de formas interessantes, com uma pluralidade de estéticas, temas e gêneros literários e com trabalhos que fogem dos clichês. São escritoras com sólidas trajetórias na escrita, sejam as que estão no início dos seus caminhos ou as que já são renomadas e premiadas. Sobre as escolhas dos textos específicos, procurei identificar, na obra de cada escritora, um texto ou trecho que pudesse iluminar alguma singularidade do seu trabalho, que funcionasse como texto isolado e ao mesmo tempo pudesse despertar, em quem lê, a vontade de ir atrás de conhecer mais da obra da autora.
Algo que também me deixou muito feliz, e que não estava especificamente planejado, já que queria focar nos textos em si antes de considerar qualquer outro critério, foi que o recorte final inclui trechos de livros publicados por diversas editoras, algumas baianas e algumas de outros estados, com portes e abordagens editoriais variadas. Isso também reflete a riqueza da produção editorial que há no Brasil e na Bahia.
Pesquisar e selecionar as escritoras e os textos foi desafiador, com a grande quantidade de trabalhos literários sendo produzidos nessa Bahia tão grande e plural, e como em todo recorte, muitos textos bons que foram surgindo na etapa da pesquisa tiveram que ficar de fora dessa vez.
DS: Como uma obra com tradução para o inglês, quero saber como você compreende o lugar da literatura baiana no exterior?
SRK: Como quem está vendo daqui bem sabe, nas últimas décadas a literatura produzida na Bahia pulsa de forma extraordinária e com uma vitalidade só sua. Algumas vozes baianas contemporâneas têm chegado no exterior e recebido excelente acolhida, graças também a um número crescente de editoras com boa visão e sensibilidade para prestar atenção aos acenos vindos do lado de cá, dessa Bahia do século XXI, mas ainda é pouquíssima produção daqui que chega a outros países. Nos países de língua inglesa, apenas uma porcentagem minúscula de o que sai corresponde à literatura traduzida, e menos ainda à literatura contemporânea escrita por mulheres. Isso é uma lástima, especialmente para o público que procura ativamente conhecer mais da literatura e da cultura da Bahia.
O meu trabalho pretende contribuir, ainda que seja um pinguinho, para mudar esse cenário. Também quero destacar a importância do apoio recebido nesse momento de fortalecimento das políticas públicas voltadas para a literatura na Bahia, através de programas que reconhecem o potencial de publicações como essa e acreditam na importância de apoiar projetos focados na circulação da literatura contemporânea, permitindo que o material possa ser acessado gratuitamente.
DS: Por último, quais são os próximos passos? Pretende fazer algum lançamento ou, no futuro, ter uma edição física, para além do e-book?
SRK: Fazer a coleção em formato digital foi pensado por causa das possibilidades de circulação. Embora eu não descarte a possibilidade de uma edição física, formato que faço questão de prezar e valorizar sempre, no âmbito desse projeto direcionado principalmente a leitores em diferentes partes do mundo, optei pelo potencial do alcance digital e também pelas possibilidades da experiência estendida com as gravações em áudio, que mencionei em cima. O formato digital também facilita que cada escritora possa facilmente compartilhar a coleção no seu portfólio, para leitores ao redor do mundo de forma rápida e gratuita. E sobre os próximos passos, já tenho planos para continuar expandindo o projeto e contribuindo para a divulgação do trabalho de escritoras baianas no exterior. Espero seguir buscando novas oportunidades de circulação para essas obras.
Convido todas, todos e todes a acessarem o site https://escritorasbaianaswomenwritersfrombahia.com, lerem os textos, ouvirem os áudios, conhecerem essas escritas dessa Bahia dessa agora.


