
Bruna Pereira: “A literatura, para mim, tem uma responsabilidade para com o leitor”
Em entrevista à revista O Odisseu, Bruna Pereira conta como surgiu seu livro de estreia “As faces que somos” e sobre sua expectativa para a Bienal do Livro de São Paulo.
Foto: Divulgação.
Lançado em 2025 pela Patuá, “As faces que somos” é o primeiro livro de Bruna Pereira, baiana do Recôncavo graduada em letras e mestranda em literatura pela Universidade Federal da Bahia. Como ela conta na entrevista, o livro surge a partir do encontro da vida, aquilo que ela percebeu e viveu, e a ficção. O próprio título, como reintera Bruna, convoca essa dualidade entre quem somos e aquilo que a escrita literária pode elaborar. Todavia, os contos não necessariamente firmam um pacto com a escrita realista. Em alguns momentos, o irreal ou o mágico invadem as histórias e trazem maior densidade para os debates abordados por Bruna no livro.
Bruna Pereira escreveu um livro de contos em que a experiência da vida é sempre vista pela ótica do assombro. São contos em que a existência e também a vida em sociedade são questionadas, e a autora faz isso de maneira muito sólida, especialmente para uma estreante. Em entrevista para a revista O Odisseu, ela, que participa amanhã pela primeira vez da Bienal do Livro de São Paulo, como foi a escrita do livro (feita durante o período em que foi mentoranda da Academia de Letras da Bahia) e sobre o lugar de onde nascem os seus personagens.

Bruna Pereira: “Cada personagem me levava a algum lugar ou a alguma pessoa que um dia conheci”
Algo muito interessante sobre o seu livro é que ele surge a partir de uma mentoria literária, a qual você foi agraciada pela Academia de Letras da Bahia. Gostaria que você começasse falando um pouco desse processo de escrita com acompanhamento e como isso influenciou em seu livro.
Comecei a escrever durante o ensino médio, mas sempre fui tímida em relação às minhas narrativas. Compartilhava alguns textos com amigas mais próximas e me detinha nesse espaço. Eu escrevia por hobby, vez ou outra escrevia para uma atividade acadêmica e não imaginava onde a escrita poderia me levar. Mas às vezes me toma uns rompantes de coragem e faço coisas como me inscrever no Edital de Mentoria da ALB. Enviei o conto Herança para a seleção, era o único que eu tinha pronto e que julguei bom o suficiente para concorrer. Todos os outros que estão presentes no livro eram apenas sinopses escritas em poucos dias.
Quando recebi a ligação do escritor Marcus Vinicius Rodrigues, fiquei muito surpresa. Aquela coragem toda precisaria me acompanhar por mais seis meses. É diferente escrever para mim mesma e escrever para outra pessoa ler e julgar na minha frente, mas não era assustador. Ter Marcus Vinicius como mentor fez o processo ser muito leve e a coragem foi se transformando em confiança. Tínhamos encontros semanais ou quinzenais, nos quais eu lia o que vinha escrevendo e ele acolhia, orientava, questionava pontas soltas, apresentava teorias narrativas e técnicas que eu ia utilizando para dar forma aos contos.
Conversamos bastante durante aqueles encontros e cada diálogo está presente nas entrelinhas. Eu sabia o que queria escrever, mas precisava encontrar um modo de narrar, porque não queria que ficasse repetitivo, e era na mentoria que eu entendia como poderia fazer isso de um jeito que me agradasse, porque até então eu estava escrevendo para mim, tendo Marcus Vinicius como único leitor. Pensei até que seria apenas ele. Outro rompante de coragem me tomou para publicar.
Agora propriamente sobre o livro, eu adoro o título “As faces que somos” porque ele traz justamente a diversidade de temas e de existências que os contos retratam. Como você chegou a esse título?
Eu gosto que cada conto tenha uma palavra como título, é como costumo intitular meus poemas, meus capítulos. Até no meu trabalho de conclusão de curso fiz assim (modifiquei por conselho da banca), mas unir todos em uma coisa só para intitular o livro me desafiou. Eu pensei em muitos e nenhum fazia sentido o suficiente para mim. Quase foi “Onde o tempo descansa”, pensando sobre os lugares que eu descrevia, nos momentos em que os personagens precisavam parar e encarar um dilema, mas ainda não soava bem para mim.
Eu ainda penso que “As faces que somos” poderia ser alguma outra coisa, só não sei o que, mas quando cheguei a esse título estava pensando sobre os personagens. Estava pensando nas Marias, inspiradas nas mulheres da minha família, e na minha própria relação com o meu cabelo no início da minha adolescência, quando fiz transição capilar. Estava pensando na Dona Luzia e como aquela varanda era a varanda da casa da minha avó quando eu era pequena e ficava ali sentada no chão no fim da tarde brincando. Estava pensando em Nicolas, em Douglas, em Elisa. Cada personagem me levava a algum lugar ou a alguma pessoa que um dia conheci. E todos estavam transitando pelo recôncavo, por onde também transito e por onde tantas pessoas parecidas transitam. São as várias “faces” que somos ou que podemos ser naquele lugar, diante daqueles cenários narrados. Estava sentindo os personagens muito próximos de mim, quase ganhando vida. E é isso que somos, pessoas com questões, com conflitos, com esperanças, com amores e com tristezas. Eu queria reunir todos de algum modo e encontrei esse meio a partir do título.
Em diversos contos, você traz uma narrativa de “susto”. Seus personagens parecem estar sempre se assustando com a existência, com os seus sentimentos e com a vida. Como, por exemplo, encontrar com o próprio reflexo no espelho ou se ver em uma situação que parece estar prestes a romper com tudo o que se pensava sobre o mundo. Esse “susto” ou “epifania”, como ele nasce na sua literatura?
Acho que sou uma pessoa assustada, assim, na vida. Mas, quando é com a gente mesmo, é difícil perceber esse “susto”. Perceber o ponto que nos tira do eixo e questiona as coisas à nossa volta. É na ausência da sombra que percebo que envelheci ou naquela pessoa do passado aparecendo bem na minha frente que entendo que ainda estou no mesmo lugar? Os dias vão passando na rotina, tanta coisa vai acontecendo e só quando paramos um instante para respirar é que podemos tentar entender como tudo mudou. Acredito que esse “susto” na escrita é algo que sinto como pessoa e passou para os meus contos.
Entre as narrativas, fiquei particularmente sensibilizado com a história de Maria Luiza e o reencontro com suas raízes a partir da decisão de parar de alisar o cabelo. Este é um dos contos que você aborda diretamente um tema mais social e político também. Fale um pouco sobre esse conto e sobre como você dosou a escrita entre um tema importante e o fazer literário.
Herança é o meu conto mais pessoal. Quando a minha avó leu, ela logo reconheceu aquelas cenas da infância da Maria Luiza, da avó penteando o cabelo da neta. Era assim quando minha mãe precisava de apoio. E eu não facilitava, chorava muito. Alisei o cabelo muito nova também, por volta dos onze anos. Nunca aprendi a escovar ou pranchar o cabelo, não gostava do salão. Cortei toda a parte alisada aos catorze e fui aprendendo como gostava de finalizar, o que precisava para cuidar e a me reconhecer com outro cabelo. A maioria das mulheres da minha família tinham o cabelo alisado e eu fui a primeira a tomar essa decisão. Após mim, minhas primas também passaram pela transição, mas, quando decidi passar por esse processo, eu não tinha referências familiares para me inspirar, então precisei ser minha própria referência naquela fase e não tinha noção do quanto aquilo era delicado, só sabia que não estava feliz e precisava mudar (eu e meus rompantes). Então, Herança é sobre uma experiência minha que foi ficcionalizada. Olhei para aquela Bruna tão jovem, com o cabelo tão curtinho, que só queria se sentir bem com o próprio cabelo e me apoiei nela para escrever.
Ainda sobre o que foi abordado na pergunta anterior, você faz parte de uma geração de escritores que apontam denúncias de maneira muito explícita na literatura. Como você lida com essa questão de uma escrita com função social? Isso traz alguma implicância para o modo como você escreve?
Durante a escrita dos contos, como Reflexo e Espiral, me preocupei com isso. A literatura, para mim, carrega uma responsabilidade para com o leitor, aquele que pode se ver representado nas páginas ou se ver completamente distanciado. Eu busco a aproximação. É preciso um olhar atento para os vestígios do processo histórico e político da sociedade em que vivemos para poder questioná-los. Foi o que me propus a elaborar como um exercício durante a escrita dos meus contos. Por mais que naquele momento não pensasse ainda na publicação ou no que eu faria com o livro finalizado, tinha outra pessoa me acompanhando o tempo todo durante as mentorias, então eu escrevia para que ele pudesse ler e reconhecer esse cuidado com os temas também.
Outro aspecto que eu acho interessante é a presença de aspectos do fantástico em seus contos. Quer dizer, a gente tem um personagem que perde a sombra e outro que encontra um livro que retrata a própria vida. Como é navegar entre o realismo e a fantasia na literatura?
Sou uma leitora voraz de fantasia. Quando escrevo, mal percebo quando já passei para o fantástico. O conto do espelho, a princípio, era para ser apenas um conflito interno, mas quando me dei conta, o reflexo já estava respondendo de volta e ainda me pergunto se era tudo coisa da cabeça de Eva ou se tinha outra Eva refletida ali, viva e indagadora. Acredito ser um pouco dos dois e gosto de manter essas possibilidades em aberto. No conto Cisne, tinha mesmo um cisne naquele lago?
As suas personagens mulheres parecem estar sempre precisando lidar com o paradigma do patriarcado e imposições sociais. Para você, qual a importância de abordar esse tensionamento na literatura?
Quando escrevo personagens mulheres, penso em como nós lidamos no cotidiano com essas questões. Como esperam que sejam nossos comportamentos, nossas prioridades, nossas escolhas. Tenho recebido do algoritmo nas redes sociais uma onda de conteúdos nesse sentido, coisa que nem estava acontecendo durante os meses em que escrevi. São publicações que aconselham sobre o “silêncio” nas relações, a “postura”, ensinam a como se valorizar. É preciso questionar de onde partem esses discursos e a que público eles de fato atendem. Ao escrever “Elena”, quis escrever uma mulher segura de si, mas que também tinha as próprias dúvidas e é na irmã que ela busca apoio e respostas. Acredito que esse pode ser um caminho possível para lidar com essas questões.
Depois de “As faces que somos”, qual será o seu próximo projeto literário?
Tenho escrito bastante poesia e reunido alguns poemas dos últimos anos para dar forma a um livro futuramente. No entanto, estou tirando do rascunho um romance, me desafiando mesmo nesse gênero, mas confesso que no momento tenho focado mais na escrita acadêmica e para não ser dominada por ela, encontro nos poemas um refúgio para continuar sã.
Você está indo esta semana para a Bienal do livro de São Paulo. Conta um pouco sobre a sua expectativa para participar deste festival.
Vai ser a primeira vez que viajo para fora da Bahia! Estou pura ansiedade e realização. Estou indo apenas para o dia 13, que é também o último dia da Bienal, então pretendo passar o restante do dia no evento após a sessão de autógrafos. Vou conhecer o meu editor, os colegas escritores que também publicaram pela Patuá, vou gastar um pouco com ímãs de geladeira e coisinhas em miniatura de que sou apaixonada. Também espero alcançar novos leitores e aproveitar cada segundo dessa experiência. É incrível ter a oportunidade de conhecer outro estado por causa da literatura. Ter coragem pode nos levar a muitos lugares que antes nem sonhávamos. Isso tem me feito sonhar ainda mais.


