Dínamo

Marcílio chegou lá!

Se você não presta atenção aos Homo Restus ao seu redor, deveria. Eles definirão as eleições em outubro. 

Arte: “Sozinho na multidão”, de Rubens Gerchman. Reprodução.


Eu tenho certeza de que você conhece um Homo Restus. Um parente, um amigo, aquele conhecido do trabalho ou do aplicativo nosso de cada dia, todos candidatos ao tipo definido pela escritora Leonilia Ribeiro no romance homônimo (Patuá, 2025). Nascida no Rio de Janeiro em 1983, radicada em São Paulo e com sólida formação jurídica, a autora apresenta, após Trabalho de Conclusão do Curso de Formação de escritores de Ficção pelo Instituto Vera Cruz, um grande livro de estreia que reflete os nossos tempos. 

Nele, acompanhamos a jornada de Marcílio, homem branco de 49 anos, símbolo de uma mediocridade que rejeita, mas lhe é impregnada. Eterno candidato aos concursos públicos (não emitirei comentários), ressente-se do mundo ao seu redor com os seus fracassos e preconceitos, o que torna a sua missão de uma fina ironia: cuidar, ao longo de uma semana, de duas crianças negras, recém-adotadas pelo casal formado por sua irmã Lena, desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado em toda a glória e sucesso que lhe são negados, e uma companheira. 

O velho se virou para os adotados com um sorriso forçado tirado do fundo do estômago, “e então, meus jovens, quais são os seus nomes?” “Eu sou o Biel”, sussurrou, abrindo aos poucos um sorriso de dentição incompleta. O mais velho completou com uma voz segura, “ele é o Gabriel e eu sou o Maique”. Até ali, não sabia o seu nome, ou não me lembrava. E, se fosse chutar, diria que se chamava Rafael, ou Lucas, ou Matheus, ou algum outro nome bíblico comum. Ainda que Michael fosse um anjo, apostaria que a progenitora desses moleques não sabia disso. (pg. 31).

Vamos às definições propostas pela autora sobre o homem que permanece:

  1. Tipo humano contemporâneo, caracterizado pela tendência à permanência, à repetição e à resistência à mudança, mesmo quando o mundo ao redor exige outra postura.
  2. O Homo restus não evolui, não progride — apenas permanece, ocupando um território emocional entre o tédio e o ressentimento.
  3. Sujeito que manifesta dificuldade de adaptação às transformações sociais, culturais e afetivas da atualidade, reagindo ao novo com resistência, desconfiança ou paralisia.

E assim vive Marcílio, preso em uma época que não existe mais. Enquanto mantém uma rotina de Sísifo dependente da mãe, sem renda própria e pouco eficiente nos estudos e resultados no concurso dos sonhos, as oportunidades vão passando enquanto não se adapta ao que o mundo lhe tenta ensinar. 

Há um conceito maravilhosamente ficcional no Direito que se aproxima deste Marcílio: o homem médio. Uma baliza comportamental básica ao qual se busca uma avaliação das condutas do agente nas situações concretas entre o que é socialmente esperado e o que, de fato, ocorreu. Algo como “qualquer pessoa com mínimo de discernimento faria deste jeito e não de outra forma”, e assim avaliar a gravidade das ações e omissões, configurar ilícitos e interpretar a volição dessa pessoa real. O filósofo John Rawls (1921 – 2002), autor de Uma teoria da justiça (1971) e um dos pensadores mais relevantes do século XX dentro da teoria política, aborda, ainda, a necessidade de vestirmos um véu da ignorância sobre nossas condições ao estruturar um contrato social com regras de equidade nesta sociedade de homens médios. 

Ora, o primeiro problema já é meio óbvio: bom senso é uma commodity cada vez mais rara no mercado. Espera-se que, por exemplo, ninguém tente dar um golpe de Estado e, ao tentá-lo, não imprima algumas vezes — uma minuta e a exponha à vista de todos, mas a vida é uma caixinha de surpresas, não é? O segundo, e mais importante, também reflete uma questão relevante: quem é esse homem médio fora da hipótese, ou seja, quem é esse homem real

“Sem projeto claro de futuro nos grupos civilizados, um mundo que faça jus aos princípios do bom senso e um futuro que possamos almejar, temo que o exército de Homo Restus será cooptado uma vez mais, e para desígnios cada vez mais sinistros.” – Breno Botelho

De acordo com o Datafolha em 2024, há uma percepção nítida de que o racismo é um problema estrutural no Brasil, presente em instituições e atitudes individuais, tem aumentado e a maior parte da população é racista1. Contudo, ninguém se considera racista. É o racismo de Schrödinger! Da mesma forma, o brasileiro aponta que há homofobia enraizada na sociedade brasileira, mas ninguém se enxerga como tal2. Identitário é sempre o outro…

Soma-se ao fato vivermos em um país extremamente desigual, cuja consciência deste fenômeno é latente e, conforme aborda Michael França em série no jornal Folha de S. Paulo3, produz, ainda que de forma pulverizada, insatisfação com o atual estado de coisas. 

“Comunicar-se com alguém é uma decisão, uma escolha sobre ceder um bem muito precioso: o tempo; e eu raramente estava disposto a isto” (p. 55)

No caso de Marcílio e sua categoria de Homo Restus, há uma tentação em culpar grupos minoritários, mais vocais em um mundo teimoso por transformações, diante dos próprios fracassos. Ainda que, ao longo da jornada, Marcílio seja confrontado com a sua própria condição e haja um vislumbre de outros caminhos possíveis, as heranças do meio, os preconceitos, todos permanecem ali, prontos para ser acionados por quem sabe exatamente como aflorá-los no momento certo, especialmente uma direita radical ávida em catalisar ressentimento aos seus projetos de poder. No íntimo, Marcílio e esses Homo Restus enxergam no outro a razão pela qual foram retirados do lugar que entendem deles por direito. “Não se pode nem ser mais um homem branco medíocre”, refletem aterrorizados em noites insones.  

Portanto, identifica-se uma distinção incontornável entre o homem médio idílico e o real, cujos reflexos ecoam no próprio Direito entre seus operadores (odeio o termo, mas isso é tema para outra coluna) e os agentes políticos contaminados por visões de mundo cada vez mais distorcidas. Sem projeto claro de futuro nos grupos civilizados, um mundo que faça jus aos princípios do bom senso e um futuro que possamos almejar, temo que o exército de Homo Restus será cooptado uma vez mais, e para desígnios cada vez mais sinistros. 

“Minha ambição era ser fiel à sociedade que temos, com suas problemáticas vivenciadas o tempo todo”, reflete Leonilia em entrevista à edição de junho da Revista O Odisseu, e o faz muito bem. Talvez Marcílio, o Homo Restus, devesse focar as suas energias e a criatividade na busca por soluções e justificativas na ficção… ou como cabo eleitoral do Centrão. Definitivamente, hoje ele teria mais sucesso com a segunda opção.

Homo Restus, de Leonilia Ribeiro/ Patuá, 2025/ 120 pp.

  1. Disponível em Datafolha: 59% dos brasileiros consideram que a maior parte da população é racista | G1 ↩︎
  2.  Disponível em PoderData: 74% acham que existe homofobia no Brasil ↩︎
  3.  Disponível em Por que (não) há uma revolução no Brasil? – 17/08/2026 – Michael França – Folha ↩︎