
Melanina Acentuada celebra os 80 anos do Teatro Experimental do Negro com Leda Maria Martins, Elisa Larkin e grandes nomes das artes negras
O Melanina Acentuada realiza sua oitava edição entre os dias 28 de julho e 3 de agosto, em Salvador, celebrando os 80 anos do Teatro Experimental do Negro e o legado de Abdias do Nascimento.
Foto: Black Machine, Casa do Povo, Festival Melanina Acentuada 2025 (Cristina Maranhão/ Divulgação).
Num dos ensaios que compõem o livro O quilombismo, Abdias do Nascimento lança a pergunta: “E o negro no teatro?”. Para o intelectual, a cultura, em suas múltiplas performances, constitui um dos pilares da produção artística brasileira. Contudo, ao adentrar os textos teatrais e o próprio espaço do teatro, percebiam-se poucos atores e atrizes negros alçados ao protagonismo das peças.
O lugar da população negra estava relegado à manutenção desse espaço, em funções que ajudavam o teatro a se manter, como as de faxineira e bilheteiro. Percebendo que a presença negra estava limitada ao serviço para o outro, e pensando sobre a história do teatro no Brasil, Abdias notou que as representações eram pautadas no mesmo modus operandi racista, retroalimentado pelas peças teatrais.
Em 1944, o intelectual decidiu interferir nesse cenário, fundando, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro (TEN). O intuito era levar ao palco esses sujeitos excluídos das cenas dramáticas do país, afinal, a elite branca, sustentada por uma lógica de superioridade racial que estruturava a nação, ditava o que poderia ou não adentrar os espaços teatrais brasileiros. Assim, Abdias promoveu uma mudança no modo como o negro passou a ser representado e na função que desempenhava no texto dramático.
O foco do intelectual carioca estava voltado para o destaque das expressões culturais negras no país, por meio de textos que evocavam a ancestralidade e revisitavam o passado brasileiro. Ele recuperava figuras importantes que foram relegadas ao esquecimento e que não são reconhecidas como heróis e heroínas nacionais pela história oficial. O TEN levou ao palco eventos históricos de insurreição, experiências de vida em quilombos e a relação intrínseca entre a performance teatral e as ritualísticas do Candomblé – seu panteão e suas gnoses, que destoam do modo ocidental e cristão de pensar o mundo. O grupo também reencenou peças como Otelo, de William Shakespeare, e montagens de textos de Eugene O’Neill.
Como explana o idealizador do evento, Aldri Anunciação: “O Teatro Experimental do Negro é um dos acontecimentos mais importantes da história do teatro brasileiro, mas também da história política do país. Quando Abdias Nascimento lidera aquele movimento, na década de 1940, ele não está apenas criando um grupo teatral. Ele está abrindo uma disputa muito profunda sobre quem pode ocupar a cena, quem pode produzir pensamento, quem pode ser visto com complexidade, beleza, sofisticação e protagonismo. O TEN colocou artistas negros e negras no centro do palco num momento em que o teatro brasileiro ainda reservava a esses corpos lugares muito restritos, muitas vezes marcados pela caricatura, pela ausência ou pela subalternidade. Então, homenagear os 80 anos do Teatro Experimental do Negro é também reconhecer que muita coisa da cena negra contemporânea nasce, direta ou indiretamente, desse gesto inaugural.”
O Teatro Experimental do Negro completa, em 2026, 80 anos. Aproveitando a data, um dos mais importantes eventos dedicados às artes negras em Salvador, o Melanina Acentuada, presta homenagem ao legado do TEN. Idealizado pelo autor, ator, produtor e diretor Aldri Anunciação, vencedor do Prêmio Jabuti com a obra Namíbia, Não!, o evento foi criado em 2012. De lá para cá, mais de 40 peças foram apresentadas ao público baiano. Além disso, a programação reúne mesas de debate, lançamentos de livros e workshops com importantes nomes das artes negras brasileiras.
“Os outros espetáculos da programação não precisam tratar diretamente do TEN para dialogar com ele”, diz Aldri Anunciação, idealizador do Festival Melanina Acentuada

A programação começou ontem, terça-feira (28/07), e segue até 3 de agosto. A abertura será no Teatro Goethe-Institut, às 19h, com apresentação, apenas para convidados, do monólogo Tybira – uma tragédia indígena brasileira, de Juão Nyn. Em seguida, às 20h30, haverá um pocket show do grupo Cabokaji, no pátio do Goethe-Institut, com ingressos à venda no Sympla.
Na quarta-feira (29/07), o autor e ator Clayton Nascimento ministra um workshop na Casa das Histórias. Às 15h, o Goethe-Institut recebe a entrevista pública com a pesquisadora Leda Maria Martins, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, mediada por Aldri Anunciação.
Ao longo da semana, o Melanina Acentuada se expande pela cidade, ocupando os teatros Sesc Casa do Comércio e Sesi Rio Vermelho, com apresentações das peças Macacos, nos dias 30 de julho, e Namíbia, Não!, no dia 31.
Além dos espetáculos, o evento inclui mesas dedicadas aos 80 anos do Teatro Experimental do Negro. Há leituras dramáticas de textos de Luciany Aparecida (31/07) e Amir Baraka (01/08), esta última com leitura de Antônio Pitanga, além de Ateliês de Ideias em dias variados, envolvendo troca de ideias sobre assuntos ligados ao grande homenageado do evento.
Os encontros do Ateliê de Ideias seguem a todo vapor. Contam com a participação de Elisa Larkin e Jessé Oliveira (01/08), Guilherme Diniz, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026 (02/08), e da pesquisadora Mabel Freitas (03/08), aprofundando as discussões sobre o legado do Teatro Experimental do Negro e de Abdias do Nascimento.
Para mais informações e acesso ao cronograma completo, com locais e horários das atividades, consulte o Instagram do evento @melaninaacentuada.

