Há uma expressão que parece reunir as insatisfações francesas neste mês de outubro: la vie chère, a vida cara. Ela aparece nos chamados às manifestações, nos discursos sindicais, nas reportagens sobre o poder de compra e nas reivindicações de grupos que não possuem necessariamente a mesma orientação política. É suficientemente abrangente para reunir o estudante que não consegue pagar o aluguel, o trabalhador preocupado com o preço dos combustíveis e a família que enfrenta dificuldades para comprar alimentos. Mas sua aparente simplicidade esconde uma questão mais profunda. Quando uma geração protesta contra a vida cara, está exigindo apenas a possibilidade de consumir os mesmos bens que seus pais ou denunciando o enfraquecimento de uma promessa social mais ampla, segundo a qual estudar, trabalhar e participar da vida coletiva deveriam permitir a construção de um futuro?
Para mim, que venho do Brasil, onde o poder de compra dos salários é muito menor, a expressão adquire ainda outro sentido. Mesmo com uma remuneração modesta como professor em Paris, percebo que a alimentação consome uma parcela proporcionalmente menor de minha renda do que consumiria em São Paulo. Isso não diminui o peso dos impostos e dos aluguéis, que, no meu caso, não chegam a consumir mais da metade do salário, mesmo vivendo numa chambre de bonne bem localizada. Mas me faz pensar no que cada sociedade considera suportável. Faço meu mestrado na unidade de Batignolles da faculdade de Letras da Sorbonne e dou aulas para a graduação na unidade de Clignancourt, ao norte de Paris. Em ambas, a maioria dos alunos com quem convivo é estrangeira ou filha de estrangeiros. Entre estudos, aulas e deslocamentos, observo a carga horária, as exigências do ensino francês e as diferentes maneiras de ocupar a cidade. Percebo essas diferenças quando atravesso de bicicleta o Marais em direção ao norte e quando comparo o Bois de Boulogne, a oeste, associado a bairros de maior renda e situado na direção do faustoso Palácio de Versalhes, ao Bois de Vincennes, a leste, junto ao castelo medieval de Vincennes e a antigos territórios operários que passam por processos desiguais de gentrificação.
A mobilização estudantil rapidamente alcançou as unidades universitárias às quais estou ligado, trazendo para o primeiro plano reivindicações específicas dos estudantes estrangeiros. Uma delas diz respeito às taxas diferenciadas de matrícula, que podem elevar os custos anuais de aproximadamente 250 euros para valores entre 3 mil e 4 mil euros, dependendo do curso e da situação do aluno. Ingressei no último ano em que pude me beneficiar da taxa reduzida e, por isso, conservo esse direito. Outros benefícios, entretanto, passaram a ser ameaçados, sobretudo com as mudanças anunciadas em junho nas condições de acesso dos estudantes estrangeiros ao auxílio-moradia. Durante seis meses, recebi essa ajuda, que por décadas permitiu a muitos estudantes pagar parte do aluguel. Agora, vejo direitos antes considerados estáveis serem colocados em discussão, num contexto de contenção dos gastos públicos e de aumento das despesas europeias com defesa e segurança.
No último sábado, 17 de outubro, 550 mil pessoas participaram de manifestações em toda a França, segundo o Ministério do Interior, das quais 110 mil em Paris. Os organizadores estimaram a participação nacional em 800 mil pessoas, números registrados por Le Monde, pela Associated Press e por outros veículos. Secundaristas, universitários, sindicatos, trabalhadores, militantes ecologistas e antigos integrantes dos gilets jaunes encontraram-se numa mobilização que pretendia realizar uma convergence des luttes, uma convergência das lutas sociais. O movimento, entretanto, havia surgido de iniciativas distintas. Chamados difundidos nas redes sociais contra o custo de vida e dos combustíveis encontraram a mobilização secundarista iniciada em setembro, quando estudantes passaram a bloquear liceus e denunciar as condições de ensino. Os sindicatos apoiaram a aproximação, enquanto antigos participantes dos gilets jaunes reconheceram motivos semelhantes aos que haviam provocado sua revolta em 2018. A convergência aconteceu nas ruas antes que existisse necessariamente um programa político compartilhado.
“Em vez de reivindicar uma sociedade inteiramente nova, parte significativa da juventude exige que a sociedade prometida finalmente funcione, usando para isso uma ressignificação do símbolo da República, talvez o maior produto de exportação da França desde a queda da Bastilha.” – Alexandre Rabelo
As reivindicações estudantis ultrapassam a questão econômica da inflação. Organizações secundaristas e universitárias divulgaram uma plataforma de dez medidas de urgência, incluindo reformas de edifícios escolares, contratação de professores e profissionais de acompanhamento, fim da seleção pelas plataformas Parcoursup e Mon Master, criação de 250 mil vagas no ensino superior, ampliação das bolsas, alimentação universitária por um euro (já implementada este ano), moradia estudantil e fim da repressão policial. Não se trata de um programa revolucionário no sentido clássico de substituição imediata das instituições. Muitas dessas exigências procuram fazer com que instituições já existentes cumpram aquilo que deveriam oferecer. Em vez de reivindicar uma sociedade inteiramente nova, parte significativa da juventude exige que a sociedade prometida finalmente funcione, usando para isso uma ressignificação do símbolo da República, talvez o maior produto de exportação da França desde a queda da Bastilha. A escola pública, um dos pilares da tradição republicana, passa a ser questionada não porque tenha perdido seu valor, mas porque os estudantes não reconhecem nela as condições de igualdade anunciadas pelo discurso oficial.
Criado em 2018, durante o primeiro mandato de Emmanuel Macron, o Parcoursup tornou-se um dos principais alvos dessa contestação. A plataforma organiza o ingresso na maior parte das formações superiores francesas. Cada candidato pode apresentar até dez escolhas de curso, com possibilidades adicionais de candidaturas vinculadas, e precisa submeter um dossiê que reúne notas escolares, avaliações de professores e informações sobre seu percurso. As instituições analisam esses documentos, estabelecem classificações muitas vezes questionáveis e comunicam suas decisões por meio da plataforma. As respostas podem ser uma admissão, uma proposta condicionada a acompanhamento pedagógico, uma recusa nas formações seletivas ou a inclusão numa lista de espera. O sistema não é controlado por um algoritmo único que decide sozinho o futuro dos candidatos: comissões de professores participam da classificação, frequentemente auxiliadas por ferramentas informatizadas cujos critérios nem sempre são suficientemente transparentes. Quando a procura ultrapassa o número de vagas, mesmo uma licenciatura universitária oficialmente não seletiva pode deixar milhares de estudantes aguardando. Durante semanas, os candidatos acompanham mudanças nas listas e precisam responder rapidamente às propostas, enquanto aqueles que não conseguem uma vaga adequada podem recorrer a uma fase complementar. O resultado é uma experiência de incerteza que se soma à competição escolar e às desigualdades econômicas entre as famílias.
Os exemplos reunidos por Le Monde mostram as consequências concretas desse processo. Em junho de 2026, Amine, estudante de Limoges, descobriu que ocupava a 12.000ª posição na lista de espera para uma licenciatura em Direito, formação que havia oferecido propostas a cerca de três mil candidatos no ano anterior. Em outubro, outra reportagem do jornal apresentou Lina, estudante de Artes na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, que relatou ter recebido pouquíssimas respostas favoráveis apesar de um desempenho escolar próximo da menção máxima. Segundo os cálculos publicados por Le Monde em julho, 163.372 candidatos não haviam recebido proposta ao fim da fase principal, embora parte deles tivesse abandonado a plataforma ou considerado outros projetos. O governo ressalta que muitos estudantes acabam recebendo uma oferta e que abolir o sistema sem substituí-lo poderia ampliar a desigualdade de acesso. Os críticos respondem que conseguir alguma vaga não significa estudar aquilo que se deseja, nem poder pagar uma mudança de cidade. A socióloga Leïla Frouillou, da Universidade Paris Nanterre, chamou atenção para essa diferença. Segundo um levantamento ministerial citado pelos Décodeurs, 73% dos secundaristas consultados estavam satisfeitos com as respostas recebidas, mas apenas 34% consideravam o procedimento justo e equitativo. A plataforma não criou a falta de vagas ou as desigualdades escolares, mas pode reproduzi-las quando transforma trajetórias sociais desiguais em classificações decisivas para o futuro.
O Lycée Paul-Éluard, em Saint-Denis, tornou-se outro símbolo dessa situação. Antigo território industrial e operário, marcado pela imigração e por grandes projetos urbanos associados aos Jogos Olímpicos de 2024, Saint-Denis reúne investimentos metropolitanos e desigualdades persistentes. Os estudantes denunciam salas deterioradas, problemas de temperatura, falta de professores e reformas atrasadas. Uma das frases difundidas durante a mobilização sintetiza sua percepção: On demande des profs, ils nous envoient des flics — pedimos professores, eles nos mandam policiais. O contraste entre as duas figuras do funcionário público representa, para esses jovens, uma presença desigual do Estado: insuficiente na garantia de oportunidades e mais visível na contenção da contestação. As autoridades anunciaram medidas emergenciais, mas também denunciaram tentativas de instrumentalização política por organizações de extrema esquerda, interpretação contestada pelos estudantes. A disputa envolve tanto os recursos destinados à educação quanto a legitimidade de quem fala em nome da juventude.
A expansão do movimento para liceus prestigiados e grandes escolas introduziu outra linguagem: a solidariedade. Estudantes de instituições favorecidas reconheceram suas melhores condições de ensino, mas defenderam a necessidade de um sistema mais igualitário. Para os jovens que enfrentam diretamente a precariedade, a reivindicação nasce de uma experiência material; para parte dos estudantes privilegiados, organiza-se em torno do reconhecimento de uma injustiça que atinge outros grupos. Essa aproximação amplia a mobilização, mas suscita uma pergunta sobre representação: quando estudantes com maior acesso à imprensa e aos códigos do debate público passam a falar em nome de uma causa comum, suas vozes reforçam ou acabam substituindo as daqueles que deram origem ao movimento?
Um dos rostos mais conhecidos do movimento foi o de Elwan Benoît, aluno do Lycée Jacques-Decour, no 9º arrondissement de Paris. Depois que um vídeo de seu confronto verbal com o influenciador de extrema direita Vincent Lapierre circulou nas redes sociais, o jovem tornou-se um dos interlocutores mais solicitados pela televisão. Sua eloquência e sua capacidade de formular argumentos políticos o transformaram num mediador entre a mobilização e a opinião pública. Uma reportagem de Télérama examinou justamente esse mecanismo de construção de um porta-voz midiático. Elwan, entretanto, reconheceu publicamente sua posição relativamente privilegiada e afirmou não representar formalmente o movimento. Sua autocrítica revela a diferença entre falar em solidariedade a um grupo e falar em nome dele.
A trajetória de Soumaya Sarré oferece um contraponto decisivo. Aos 18 anos, a jovem de Bondy, Seine-Saint-Denis, ingressou numa dupla licenciatura de História e Língua Árabe na Sorbonne. Participou de mobilizações contra o racismo e a precariedade escolar, denunciou a ausência de professores e ajudou a organizar estudantes dos bairros populares. Sua trajetória acadêmica e sua experiência em concursos de eloquência confrontam estereótipos frequentemente associados à juventude das periferias. Em 6 de outubro, Le Monde publicou um perfil de Soumaya, destacando sua atuação política e as condições escolares que denunciava. Uma semana depois, Mediapart reuniu Elwan e Soumaya numa entrevista conduzida por Mathieu Dejean e Garance Forasté. Mais do que um confronto pessoal, a conversa evidenciou uma tensão interna à solidariedade: como construir uma mobilização comum sem reproduzir as desigualdades de acesso à palavra que se pretende combater?
O escritor e roteirista Frédéric Debomy, em texto publicado no Club de Mediapart, criticou a visibilidade insuficiente concedida a Soumaya pelos grandes meios de comunicação. Trata-se de uma interpretação assinada, não de uma demonstração estatística, mas ela aponta para um problema importante: a imprensa não apenas registra os representantes de uma revolta; participa da escolha daqueles que serão reconhecidos como seus rostos. A questão envolve classe, raça, gênero e religião, sem que essas características determinem automaticamente as posições políticas. A participação feminina ultrapassa as figuras que alcançaram notoriedade na televisão. Reportagens registraram mães acompanhando manifestações e questionando a atuação policial, além de professoras preocupadas tanto com a violência quanto com a interrupção das aulas. Entre as estudantes, existem divergências sobre os bloqueios: algumas defendem sua continuidade; outras temem comprometer resultados e oportunidades futuras. A mesma precariedade que leva alguns jovens a protestar pode levar outros a evitar a suspensão das atividades. Essas posições são fundamentais para compreender uma revolta que não pode ser reduzida à oposição entre manifestantes e autoridades.
A presença das mulheres permite reconsiderar também a história das revoltas francesas. Em outubro de 1789, mulheres dos mercados e dos bairros populares de Paris protagonizaram a marcha até Versalhes, mobilizadas inicialmente pela escassez e pelo preço do pão. Sua ação contribuiu para transferir a família real para Paris e alterou o curso da Revolução. A associação entre subsistência, presença feminina e ação política é anterior aos movimentos estudantis contemporâneos. A marcha não constitui um equivalente histórico direto das manifestações de 2026, mas oferece um contraponto à representação predominantemente masculina da revolta, organizada em torno de barricadas, confrontos e figuras de liderança. A vida cara envolve também alimentação, moradia, educação e cuidados, dimensões que frequentemente desaparecem quando a contestação é narrada apenas por seus episódios de violência.
Debaixo do guarda-chuva de la vie chère encontram-se reivindicações que não apontam necessariamente na mesma direção. Para os gilets jaunes, a expressão recupera a experiência de 2018, quando o preço dos combustíveis desencadeou uma contestação sobre poder de compra, desigualdade territorial e representação política. Para os sindicatos, envolve salários e financiamento dos serviços públicos; para os estudantes, moradia, alimentação, acesso à universidade e perspectivas profissionais; para determinados ecologistas, o modelo econômico e a distribuição dos custos da transição ambiental. Alguns participantes desejam respostas econômicas imediatas, outros defendem mudanças estruturais e há quem reivindique transformações constitucionais. Partidos políticos procuram interpretar o movimento a partir de seus próprios programas. Jean-Luc Mélenchon e a França Insubmissa manifestaram apoio aos estudantes, enquanto adversários criticaram a influência de organizações de esquerda e denunciaram riscos de violência. A convergência não elimina divergências sobre prioridades, estratégias e horizontes políticos.
O verão excepcionalmente quente de 2026 acrescentou à crise do custo de vida uma disputa pelo próprio usufruto de Paris. O calor foi sufocante também para os estudantes, inclusive os de classe média que dependem de escolas, transportes e espaços públicos: salas superaquecidas, dificuldades de concentração e noites mal dormidas tornaram a rotina mais penosa. Todos foram afetados pelas temperaturas extremas, mas não da mesma maneira. Enquanto famílias mais abastadas costumam passar as férias em outras regiões da França ou no exterior, muitos moradores permaneceram em apartamentos abafados e bairros com acesso desigual a piscinas, parques e áreas de sombra; os pontos autorizados de banho no Sena e nos canais ofereceram algum alívio, sem substituir uma infraestrutura urbana adequada. Nos edifícios históricos, exigências patrimoniais e restrições à instalação de equipamentos externos de climatização dificultam adaptações, embora não exista proibição geral de climatizadores. A analogia histórica é sugestiva, sem estabelecer uma equivalência causal: assim como as más colheitas de 1788 e o inverno rigoroso de 1788–1789 agravaram a crise de subsistência anterior à Revolução Francesa, o verão de 2026 expôs desigualdades materiais e os limites do direito de habitar e usufruir da cidade, sem que se possa atribuir diretamente a ele a origem das manifestações de outubro.
“Às vésperas da eleição presidencial francesa de 2027, a contestação das políticas econômicas e educacionais convive com uma disputa mais ampla sobre os rumos da democracia.”
A mobilização francesa encontrou ressonância em outros países europeus, embora seja necessário distinguir os protestos diretamente inspirados pelos acontecimentos de Paris daqueles que já estavam em curso. Uma reportagem de Le Monde publicada em 20 de outubro examinou a multiplicação das manifestações na Itália, Bélgica, Espanha e Portugal. Na Itália, a contestação reúne críticas ao preço da energia, às condições das escolas e às políticas do governo de Giorgia Meloni, enquanto agricultores, pescadores e transportadores protestam contra os combustíveis. Em Roma, a central sindical CGIL reuniu cerca de 100 mil pessoas em 17 de outubro, segundo o relato do jornal. Na Bélgica, estudantes e sindicatos contestam reformas educacionais e medidas de austeridade, com episódios de violência registrados em Bruxelas e Liège. Na Espanha, a questão habitacional ganhou centralidade, com mobilizações contra aluguéis elevados e despejos. Em Portugal, sindicatos reivindicam aumentos salariais e das aposentadorias, enquanto movimentos pela moradia denunciam o encarecimento dos imóveis; manifestações ocorreram em Lisboa, Porto e Coimbra, e acampamentos foram instalados em praças de Lisboa e do Porto. A França não criou essas insatisfações, mas sua mobilização contribuiu para tornar mais visível uma conjuntura europeia compartilhada. Não se trata de um movimento continental único, mas de protestos simultâneos que convergem em torno do custo de vida, dos serviços públicos e da insegurança quanto ao futuro.
A coincidência desses protestos ocorre num momento de instabilidade política, marcado pelo desgaste da presidência de Emmanuel Macron e pela influência crescente de partidos de extrema-direita em diferentes países europeus. Às vésperas da eleição presidencial francesa de 2027, a contestação das políticas econômicas e educacionais convive com uma disputa mais ampla sobre os rumos da democracia. A mesma revolta que setores da esquerda interpretam como expressão de desigualdades sociais é apresentada por dirigentes da extrema-direita como prova de uma crise de autoridade. O Rassemblement national, de Marine Le Pen e Jordan Bardella, critica a resposta do governo aos distúrbios e procura associar a crise à incapacidade do Estado de garantir a ordem. A disputa não se limita, portanto, às ruas: envolve interpretações concorrentes sobre as causas do descontentamento e as soluções políticas consideradas legítimas.
Nesse ambiente, as eleições brasileiras de outubro acrescentam uma dimensão transatlântica. A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro mobiliza comunidades brasileiras residentes na Europa e produz debates sobre democracia, desigualdade e extrema-direita. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, em 17 de outubro, entre 300 e 500 brasileiros participaram de um ato de apoio a Lula diante do Portão de Brandemburgo, em Berlim, com críticas à família Bolsonaro e a movimentos de extrema-direita. A Mídia NINJA registrou ainda manifestações de brasileiros em Lisboa, Londres, Paris, Barcelona e outras cidades europeias. Esses atos não devem ser confundidos com as mobilizações francesas contra a vida cara: possuem organizações, objetivos e contextos nacionais distintos. Sua simultaneidade, entretanto, revela como diferentes conflitos políticos podem ocupar o espaço público europeu e compartilhar preocupações sobre representação, direitos e futuro. Não há evidência suficiente para afirmar que a eleição brasileira tenha influenciado diretamente a organização das manifestações francesas.
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É nesse contexto que a comparação com Maio de 1968 se torna especialmente interessante. Uma interpretação recorrente apresenta aquela revolta como uma contestação da abundância e a de 2026 como uma contestação da escassez. A formulação identifica uma mudança no horizonte de expectativas. A juventude de 1968 cresceu durante a expansão econômica do pós-guerra, quando a sociedade de consumo se consolidava e parecia oferecer possibilidades relativamente amplas de ascensão material. Parte do movimento estudantil contestava o conformismo, o autoritarismo e os valores de uma sociedade que prometia prosperidade, mas mantinha hierarquias rígidas nas universidades, nas famílias e no trabalho. Entretanto, seria incorreto reduzir Maio de 1968 a uma revolta de estudantes privilegiados contra o excesso de conforto. Milhões de trabalhadores participaram de greves, e os acordos de Grenelle previram aumentos salariais importantes. A crítica à sociedade de consumo coexistia com reivindicações materiais, assim como a atual revolta contra a precariedade convive com demandas por participação política e contestação da autoridade.
Em 2026, parte do discurso estudantil parece deslocar a contestação para as condições materiais de acesso ao futuro. A pergunta já não é apenas por que aceitar uma sociedade organizada em torno do consumo, mas como estudar, morar, alimentar-se e construir uma vida num contexto de insegurança econômica. A crítica ao Parcoursup é reveladora: a escola continua exigindo esforço e desempenho, mas os estudantes questionam se isso será suficiente para garantir oportunidades. A escassez, nesse sentido, não se limita à falta de dinheiro ou de bens; envolve também a restrição das possibilidades de futuro. A memória de 1968 fornece símbolos e formas de ação coletiva, mas não determina o conteúdo das reivindicações atuais.
A comparação pode ser ampliada até a Revolução Francesa. Em abril de 1789, antes da abertura dos Estados Gerais e da tomada da Bastilha, o faubourg Saint-Antoine foi palco dos tumultos ligados à manufatura Réveillon. A região reunia artesãos, trabalhadores e oficinas numa economia dependente dos preços dos alimentos e dos salários. Rumores sobre a intenção do empresário Jean-Baptiste Réveillon de reduzir os salários contribuíram para desencadear uma revolta violentamente reprimida. A relação entre custo de vida, trabalho e autoridade política já aparecia como uma das dimensões da crise revolucionária. O faubourg Saint-Antoine, situado a leste da antiga cidade, tornou-se um território importante de atividades artesanais e manufatureiras, especialmente ligadas à madeira e ao mobiliário. Sua população trabalhadora desempenhou papel relevante nas mobilizações revolucionárias, enquanto a Bastilha, situada nas proximidades, representava um símbolo visível do poder monárquico.
A tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, não pode ser explicada exclusivamente pela fome: envolveu a busca de pólvora, a organização de forças insurgentes e uma crise política nacional. Ainda assim, a mobilização dos bairros populares do leste parisiense foi decisiva para transformar a crise institucional em acontecimento revolucionário. A história posterior conservou essa associação entre o leste da cidade e as insurreições de 1830, 1848 e a Comuna de 1871. A região passou por transformações econômicas e urbanas profundas, com a industrialização, a expansão operária e as intervenções do século XIX. Não existe, contudo, uma continuidade social simples entre os artesãos de 1789, os trabalhadores industriais e os habitantes atuais. Parte do antigo leste popular passou por valorização imobiliária e mudança de perfil social, enquanto concentrações de pobreza e desigualdade permaneceram ou se deslocaram para municípios da periferia metropolitana, como Saint-Denis. A geografia da desigualdade foi transformada, mas não desapareceu.
A transformação da geografia social de Paris torna especialmente significativa a relação entre Saint-Denis e o centro de Paris. A République e a Bastille permanecem lugares privilegiados de reunião política, enquanto os municípios do norte metropolitano concentram parte das desigualdades que antes eram identificadas mais diretamente com os bairros populares da cidade histórica. A mobilização secundarista torna esse deslocamento visível: estudantes das periferias levam suas reivindicações ao centro, enquanto jovens de instituições prestigiadas se aproximam de suas causas. A cidade torna-se o espaço onde experiências territorialmente diferentes procuram adquirir uma linguagem política comum.
No trajeto de bicicleta até Clignancourt, o Boulevard Magenta é parte de minha rotina, não apenas uma avenida citada nas reportagens sobre os confrontos. A dispersão das unidades da Sorbonne torna visível uma geografia universitária que ultrapassa o prestígio simbólico do Quartier Latin, onde a Faculdade de Letras passa por obras. Sem estabelecer uma hierarquia automática entre centro e periferia, o percurso diário revela diferenças de acesso, infraestrutura e circulação que também atravessam a vida acadêmica.
A literatura francesa permite compreender essa relação entre território e revolta. Em Les Misérables, Victor Hugo situa a insurreição republicana de junho de 1832 nas ruas estreitas do antigo centro popular, especialmente na barricada da rue de la Chanvrerie, próxima às Halles, antigo centro comercial, ainda importante, alvo de atuais medidas de toque de recolher. A barricada interrompe a circulação e transforma uma rua de comércio em território político, que as forças de ordem precisam reconquistar. Em L’Éducation sentimentale, Flaubert acompanha a Revolução de fevereiro de 1848 pelos bulevares, pelo Palais-Royal e pelas Tulherias, desde então altamente protegidos, mostrando como a multidão atravessa lugares associados à autoridade monárquica e altera seu significado. Nas duas obras, a revolta depende da configuração das ruas e da possibilidade de ocupar determinados espaços. A cidade não é apenas cenário; participa da construção do acontecimento.
O uso dos espaços da urbe parisiense em outubro de 2026 exige reconhecer diferenças fundamentais. Não estamos diante de uma insurreição destinada a derrubar imediatamente o regime, nem de barricadas que mantenham bairros inteiros sob controle durante dias. O Estado contemporâneo dispõe de instrumentos jurídicos, tecnológicos e policiais muito diferentes daqueles do século XIX. Ao definir o roteiro dos cortejos para a manifestação de 17 de outubro, a Prefeitura de Polícia estabeleceu perímetros de restrição em diferentes setores da capital, incluindo áreas próximas ao Eliseu, a Matignon e a outros edifícios do poder. Segundo Le Parisien e a cobertura ao vivo de Le Monde, foram definidos dois itinerários alternativos: um cortejo dos sindicatos e dos gilets jaunes, da République à Place de Clichy, pelo Boulevard Magenta, e outro destinado à mobilização estudantil, da République à Nation, pelo Boulevard Voltaire. A marcha inicialmente pretendida pelos estudantes até a Place de la Concorde, próxima aos prédios do governo e da alta burguesia, foi proibida. A disputa territorial começou, portanto, antes que a multidão ocupasse as ruas.
A definição de um itinerário não é uma questão exclusivamente administrativa. Uma manifestação que se aproxima do Eliseu ou atravessa a Concorde produz um significado político diferente daquela que percorre bairros comerciais afastados dos principais edifícios do poder. Para as autoridades, as restrições procuram garantir a segurança e preservar o funcionamento das instituições; para os organizadores, podem limitar a visibilidade de suas reivindicações. Enquanto os insurgentes do século XIX procuravam impedir a entrada das forças de ordem em determinados territórios, o Estado contemporâneo procura antecipar a ocupação de espaços considerados sensíveis. São situações históricas distintas, mas ambas demonstram que o controle da circulação constitui parte do conflito político.
Os acontecimentos de 17 de outubro revelaram os limites desse planejamento. Enquanto o cortejo autorizado avançava pelo Boulevard Magenta, grupos se deslocavam por outras ruas e enfrentavam a polícia em diferentes pontos da margem direita. Houve confrontos em áreas como République, Réaumur, Strasbourg–Saint-Denis e Bastille, além de distúrbios em outras cidades francesas. Uma investigação publicada por Le Monde em 20 de outubro mostrou que os serviços de inteligência haviam subestimado a mobilização e que o governo empregara 60 mil agentes de segurança em todo o país, número considerado insuficiente diante da dimensão dos acontecimentos. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, reconheceu problemas de antecipação e de dimensionamento do dispositivo. O governo contabilizou 997 agentes feridos, dos quais sete gravemente, e milhares de detenções ao longo dos episódios de violência. As forças de ordem enfrentaram grupos organizados que procuravam o confronto, mas também saques oportunistas, situações que não devem ser confundidas com a participação dos manifestantes pacíficos.
O Boulevard Magenta tornou-se um dos lugares mais reveladores dessa contradição. Próximo das grandes estações ferroviárias e atravessado por uma economia comercial popular, participa da circulação cotidiana entre a capital e os municípios do norte suburbano. Durante os acontecimentos, estabelecimentos foram depredados e saqueados, incluindo lojas de telefonia, supermercados e pequenos negócios. Uma reportagem de Le Monde publicada em 18 de outubro descreveu os prejuízos de comerciantes e a sensação de abandono de proprietários que não conseguiram obter proteção policial a tempo. A escolha dos alvos não permite afirmar que todos os envolvidos compartilhassem uma intenção política ou integrassem redes criminosas organizadas. Uma mobilização contra as desigualdades foi acompanhada por ataques a estabelecimentos cujos proprietários dependem diretamente de seu trabalho, contradição que impede interpretar a destruição exclusivamente como ação contra grandes símbolos do poder econômico.
Moro no Marais, perto da Place de la Bastille, e vivi os dias mais tensos sem participar diretamente dos cortejos. Da vizinhança, ouvi sirenes, gritos e ruídos de confrontos; depois, ao passar de bicicleta, vi vestígios da destruição nas ruas que costumo atravessar. Não vi os confrontos em si nem sei quem provocou cada dano. Ainda assim, a proximidade alterou minha leitura das notícias: a Bastille, tão carregada de memória revolucionária, não era apenas uma referência histórica, e o Boulevard Magenta deixava de ser somente um itinerário de trabalho para aparecer também como espaço de disputa e de perdas concretas.
A associação entre saques, pobreza e periferia tornou-se, ela própria, uma narrativa em disputa. Autoridades atribuíram parte da violência a grupos de ultraesquerda e a delinquentes, enquanto participantes do movimento contestaram a identificação automática entre juventude suburbana e criminalidade. É necessário distinguir manifestação, confrontação política, depredação e apropriação de mercadorias, comportamentos que podem coexistir no mesmo espaço sem possuir os mesmos responsáveis ou objetivos. A disputa aparece também no vocabulário: manifestants, casseurs, émeutiers, pilleurs e délinquants não são termos equivalentes. Uma reportagem centrada nos estudantes de Saint-Denis apresenta reivindicações educacionais; outra, dedicada aos saques, destaca crimes e prejuízos; uma investigação sobre a polícia procura reconstruir decisões e responsabilidades institucionais. Os jornais selecionam aspectos distintos de uma realidade complexa, e a escolha dos personagens, das imagens e das palavras participa da construção do acontecimento.
A imprensa não constitui um bloco homogêneo, assim como o movimento não possui uma posição única. Alguns estudantes defendem os bloqueios; outros temem as consequências das aulas interrompidas. Parte dos manifestantes considera que a violência prejudica a legitimidade das reivindicações, enquanto outros interpretam a confrontação como expressão de insatisfação social. Organizações sindicais procuram negociar medidas concretas; grupos políticos disputam a direção do movimento; comerciantes exigem proteção; autoridades defendem a manutenção da ordem. Na noite de 19 para 20 de outubro, a Prefeitura de Polícia impôs um toque de recolher localizado, das 23h às 6h, em setores da Place de la République e de Les Halles, medida noticiada por Le Parisien, Reuters e Associated Press. O prefeito Emmanuel Grégoire, em comunicado oficial da Prefeitura de Paris, pediu que a restrição permanecesse excepcional e temporária. Não se tratou de um toque de recolher generalizado para toda a capital. O debate envolve obrigações simultâneas do Estado democrático: garantir o direito de manifestação, proteger a circulação e assegurar a segurança das pessoas.
A legitimidade da revolta também se tornou objeto de intervenção de escritores, professores e intelectuais. Uma tribuna coletiva publicada no Club de Mediapart denunciou a violência policial contra adolescentes e reivindicou o direito da juventude de se mobilizar. Em Le Monde, a historiadora Manon Pignot e a professora de letras Benoîte Bureau defenderam que as desigualdades escolares são tão profundas que determinados estudantes vivem sua escolarização como uma forma de relegação social. Outras intervenções questionaram as representações contraditórias que os adultos projetam sobre os adolescentes, ora tratados como crianças frágeis, ora como participantes perigosos de tumultos. Essas posições não constituem uma interpretação unificada do mundo cultural, mas revelam que a disputa envolve também a maneira como a sociedade reconhece a capacidade política de sua juventude.
Talvez a questão mais profunda de outubro esteja na relação entre reivindicação material e expectativa histórica. Em 1789, tensões sobre salários, preços e subsistência participaram de uma crise que se transformaria numa revolução política. Em 1848, a reivindicação republicana conviveu com demandas sociais e conflitos sobre trabalho e representação. Em 1968, a contestação das hierarquias e da sociedade de consumo coexistiu com greves e reivindicações salariais. Em 2026, estudantes e trabalhadores voltam às ruas diante de dificuldades materiais e da percepção de bloqueio das possibilidades futuras, com uma redução de seu horizonte de expectativas. Essas situações não são equivalentes, mas revelam como experiências cotidianas de desigualdade podem se transformar em questões sobre a legitimidade das instituições. E essa é uma tradição de revolta bem francesa, como todos sabemos e eles mais do que ninguém. As falhas da polícia parisiense são alvo de escrutínio internacional, como no comentário irônico do líder do Irã, para quem as forças de ordem da grande república francesa estariam agindo de modo muito truculento com seus estudantes, numa inversão das noções de civilidade.
Para além de comentários interessados como este, o mais importante é notar que a grande diferença dos movimentos de outubro de 2026 talvez esteja no fato de que parte da juventude já não reivindica prioritariamente a superação de uma sociedade que oferece prosperidade, mas a recuperação das condições que permitiriam participar dela. A escola, a universidade, a moradia e o trabalho continuam sendo apresentados como caminhos de integração social, mas os estudantes questionam sua capacidade de cumprir essa promessa. O desejo de transformação convive com a exigência de que direitos e serviços já reconhecidos sejam efetivamente garantidos. É possível enxergar nisso uma revolta contra a escassez, desde que ela seja compreendida não apenas como falta de dinheiro ou bens, mas também como restrição das oportunidades, da segurança e da possibilidade de imaginar um futuro.
O estudante que exige professores em Saint-Denis, o jovem de um liceu prestigiado que manifesta solidariedade, a estudante de Bondy que reivindica o direito de falar em nome de seu território, a mãe que acompanha os filhos diante da polícia, o trabalhador preocupado com o combustível, o comerciante que encontra sua loja destruída e o policial encarregado de proteger os arredores do Eliseu vivem o mesmo momento histórico, mas não compartilham necessariamente a mesma interpretação. Para alguns, outubro representa uma luta por igualdade; para outros, uma crise de autoridade; para outros ainda, uma ameaça à segurança ou uma oportunidade de transformação política. Compreender esses relatos exige verificar suas afirmações sem apagar as contradições entre eles.
Talvez a pergunta central não seja se a França está vivendo um novo 1789, um novo 1848 ou um novo Maio de 1968. As analogias históricas ajudam a compreender continuidades, mas podem obscurecer aquilo que existe de específico no presente. Importa compreender o que uma geração está dizendo quando afirma que a vida se tornou cara demais e que as instituições já não oferecem as condições necessárias para construir um futuro. Debaixo do guarda-chuva de la vie chère encontram-se demandas econômicas, educacionais, sociais e políticas que nem sempre apontam na mesma direção. Enquanto as manifestações continuam, Paris permanece atravessada por essa disputa. Seus bairros, escolas, universidades, avenidas e edifícios do poder não são apenas lugares onde os acontecimentos se desenrolam: são espaços nos quais diferentes grupos procuram tornar visíveis suas experiências e legitimar suas reivindicações. A revolta francesa de outubro não disputa somente o preço da vida. Disputa o significado de uma vida que possa ser considerada digna, as instituições responsáveis por garanti-la e o direito de participar da definição do futuro coletivo, que deveria circular de forma mais democrática pela própria cidade de Paris, com tantos sonhos à venda em cada boutique. Disputa também quem será ouvido quando essa vida for narrada: o estudante cuja eloquência se adapta aos códigos da televisão, a jovem dos bairros populares que exige falar por si mesma, a mãe que protege os filhos ou a professora que testemunha a precariedade cotidiana. A história das revoltas costuma conservar alguns nomes e apagar muitos outros. O que está em jogo em outubro é também a possibilidade de que essa seleção não seja feita exclusivamente pelos mesmos intermediários de sempre.
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