Pular para o conteúdo
Ensaio

Graciliano Ramos – Manifesto carcará

Graciliano Ramos, exemplo de luta contra o fascismo, expõe e denuncia, através da própria forma literária, a terrível realidade do nosso país.

Graciliano Ramos, autor de "Caetés".
Graciliano Ramos, autor de "Caetés".

Carcará pega, mata e come. Carcará não vai morrer de fome. A letra de João do Vale na voz de Maria Bethânia ressoa como possível chave de leitura dos romances de Graciliano Ramos. Caetés, S. Bernardo, Angústia e Vidas secas são, de modos distintos, atravessados pela devoração de referências e estruturas. Para esta apresentação, vou me concentrar na primeira obra, menos analisada em relação às demais, contudo, não menos relevante no projeto literário do escritor alagoano.1 

Como diz a canção, carcará não passa fome. A roça queimada, o burrego novinho. Ele não desperdiça nada que está ao seu alcance. Carcará come para continuar voando e cantando, no meio de um território degradado e hostil. Por isso, é malvado e valentão. Seu voo e seu canto dependem disso. Embora o Velho Graça fosse “indiferente à música”, certamente ele apreciaria o carcará de João e Bethânia, pois há algo nessa imagem que atravessa a sua literatura, não apenas em relação aos temas, mas, principalmente, na forma literária que utilizou para representar seus personagens, infelizes e miseráveis. Graciliano Ramos praticou quase todos os gêneros literários, mas, para ele, “o romance é uma forma superior de vida”, de acordo com Ricardo Ramos, no livro Graciliano: Retrato Fragmentado (Record, 2025).

Desde sua primeira incursão literária, Graciliano havia se ocupado dos marginalizados sociais. Em 1904, publicou o conto “O pequeno pedinte”, no periódico O Dilúculo, criado com um primo quando vivia em Viçosa, interior de Alagoas. Com apenas doze anos, ele narra a condição precária da vida de uma criança órfã pedindo dinheiro na porta de uma igreja. Em Infância, livro publicado em 1945, Graciliano relata a experiência com este e outros textos iniciais, bem como seu interesse em retratar os desvalidos sociais e os mecanismos que estruturam historicamente a sua exclusão. 

Em um dos contos mais comoventes dessa obra, em que relembra suas dificuldades iniciais com a leitura, ouve da prima que, se os astrônomos conseguiam ver as estrelas no céu, ele conseguiria distinguir as letras na página diante de si. À medida que conseguia avançar na leitura, vencendo lentamente os obstáculos à sua frente, concluía: “Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes”.

“Um aspecto construtivo nas estratégias narrativas utilizadas por Graciliano na expressão da condição dos desvalidos sociais é o silenciamento.” – Rodrigo Jorge Neves

Em carta a Candido Portinari, de 18 de fevereiro de 1946, o autor de Vidas secas, ao comentar sobre a emoção sentida diante do quadro Criança morta (1944), indaga: “numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz, que tipo de arte surgiria?”. A reflexão ensejada pela obra integrante da série Os Retirantes, do pintor modernista, destaca a relação entre forma artístico-literária e conteúdo social na concepção do missivista, em uma evidente perspectiva lukacsiana. O conflito dessa consciência se aprofunda à medida que o romancista percebe que a matéria prima de sua literatura é justamente a dor daqueles por quem ele se compadece. No entanto, ele sabe que, para denunciar as condições que produzem esse sofrimento, é necessário expor as contradições impregnadas na própria forma literária. 

Assim, um aspecto construtivo nas estratégias narrativas utilizadas por Graciliano na expressão da condição dos desvalidos sociais é o silenciamento. O crítico e professor Wander Melo Miranda, em evento recente de lançamento da biografia sobre Graciliano Ramos, ressaltou a importância de compreender o silêncio na obra do escritor alagoano e apontou para a carência de estudos nesse sentido. Como sua obra expõe esse processo? De que maneira o gênero romanesco, o principal da trajetória intelectual de Graciliano Ramos, apresenta elementos estruturais que reproduzem, esteticamente, a condição dos infelizes e miseráveis? O carcará sobrevoa o sertão, a caatinga, um sobrado em ruínas. 

Não pretendo aqui, como mencionei no início, me deter em todos os romances de Graciliano, por razões evidentes. A pesquisa em torno da possibilidade de uso dessa chave interpretativa está em fase inicial. Neste sentido, conto com os colegas para discutir os pontos que precisam de aprofundamento ou até mesmo alguma mudança de rota. Assim, vou me deter em alguns elementos do romance Caetés, a estreia de Graciliano Ramos no gênero que o consagrou na nossa história literária. 

O livro foi escrito entre 1925 e 1928, com publicação em dezembro de 1933, pela editora do poeta e escritor Augusto Frederico Schmidt. Schmidt havia se interessado pela literatura de Graciliano ao tomar conhecimento dos famosos relatórios administrativos que este escreveu ao governador de Alagoas. Na ocasião, Graciliano era prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Por intermédio de Jorge Amado, que viajou em 1933 a Alagoas apenas para conhecer seu futuro amigo, a publicação do romance saiu, depois de muita relutância de seu autor. 

Com capa de Santa Rosa, parceria visual que se estenderia para os demais romances, Caetés é considerado o romance mais influenciado pelo realismo do século XIX do autor. O diálogo com Eça de Queirós, o determinismo do espaço provinciano, a crítica social, o anticlericalismo e a objetividade formal são alguns dos principais elementos que fazem com que essa obra seja considerada, por seus principais estudiosos, herdeira da escola oitocentista e também de transição para o modernismo dos romancistas de 1930. 

Segundo Antonio Candido, em Ficção e confissão (Todavia), ensaio incontornável sobre a obra do escritor alagoano, a “atmosfera geral do livro se liga também à lição pós-naturalista, voltada para o registro dos aspectos mais banais e intencionalmente anti-heróicos do cotidiano e com certo pudor de engatilhar os dramas convulsos de que tanto gostavam os fogosos naturalistas da primeira geração”. Não obstante o crítico literário reforce a qualidade da obra de estreia do autor e a identifique como de transição, como boa parte da fortuna crítica em torno do livro, vale a pena ressaltar também a sua análise sobre a construção das personagens secundárias: “A única dificuldade na leitura de Caetés é essa caracterização meio imprecisa dos personagens secundários, proveniente da relativa frouxidão psicológica”. 

Ao longo do ensaio, Candido recorda ainda da rejeição de Graciliano ao seu primogênito literário. E como sabem seus leitores, a rabugice do autor alagoano era também implacável. Ainda assim, a leitura de Caetés como obra de transição, como vemos na apreciação de outros autores por meio de livros menos bem sucedidos literariamente, não permite que possamos compreender o seu lugar dentro do contexto da formulação de uma estética do romancista e de que maneira, naquele momento, ela busca responder a condições que estão colocadas em seu projeto literário na figuração do outro. 

Luís Bueno, em obra também fundamental para o estudo da obra de Graciliano Ramos, Uma história do romance de 30, aponta para esse problema na leitura de Antonio Candido sobre Caetés. Para ele, há na crítica sobre o romance, de um modo geral, “a cristalização de uma visão acerca do protagonista, João Valério”, encaixado na perspectiva do romance realista do século XIX, da exposição da tragédia do indivíduo em face de um meio que o limita. Ainda segundo Bueno, “João Valério é o mais organicamente autocentrado de todos os heróis autocentrados”. A figuração do outro aqui se dá pela consciência de que ele está acima. A ascensão social de João Valério se dá após o suicídio de seu patrão Adrião. Então, ele se torna sócio da firma onde trabalhava, agora junto com Vitorino, irmão de seu ex-chefe. 

O vôo do carcará

Lembremos o enredo rapidamente: João Valério é um escriturário que trabalha para o comerciante Adrião, na pacata cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Paralelamente, escreve um romance histórico sobre os indígenas caetés. O protagonista se envolve numa relação amorosa com Luisa, esposa de seu patrão. Ao descobrir o adultério, Adrião comete suicídio. A relação entre João Valério e Luisa se esvazia, inicialmente pela culpa, e depois, de forma oportunista e cínica, pelo interesse na manutenção dos papéis sociais e dos privilégios materiais resultantes dos novos lugares ocupados naquela sociedade provinciana. O romance sobre os caetés não se realiza, pois a devoração social se revela diante da nova condição das personagens. 

Nessa devoração, pleno vôo do carcará, temos as personagens marginalizadas, vistas em sua caracterização como “frouxidão psicológica” por Antonio Candido, em seu ensaio “Ficção e confissão”. Contudo, a forma como aparecem no romance apontam para as condições estruturais desse gênero burguês e de que maneira o silêncio e a ausência de profundidade psicológica são reveladoras do lugar que ocupam nas dinâmicas sociais da província alagoana. Um desses personagens é Zacarias. Diferentemente de outros personagens, como o jornalista Isidoro Pinheiro, o tabelião Miranda Nazaré ou o advogado Evaristo Barroca, Zacarias não integra, como personagem secundário, o núcleo central da trama, portanto, não interfere diretamente em suas reviravoltas. Entretanto, é interessante observar como a representação de figuras como ele reproduz a estrutura social em que são jogados os desprestigiados. 

Zacarias é o personagem subalterno mais frequente na narrativa. Aparecem em praticamente todas as principais cenas domésticas do romance: abre o portão na primeira visita de João Valério à casa de Adrião, traz as bandeja, chama o médico quando Adrião adoece, avisa da morte do patrão, intercede nos dias de visitas de João Valério a Luísa na fase de cortejo pós-viuvez, chora no enterro carregando as coroas. Ele é como um eixo doméstico do romance. Vejamos algumas dessas passagens.

1 – A primeira visita de João Valério:

Domingo à noite fui à casa do Teixeira. Quando Zacarias abriu o portão, havia rumor lá em cima. Atravessei o jardim, subi a escada, cheguei à sala, aturdido. — Ora sim senhor, disse-me Adrião. Veio arrastado, mas veio. Luísa acolheu-me como se me tivesse visto na véspera.

2 – O anúncio da morte de Adrião:

Nem sei, com aquela balbúrdia. Às onze horas ouvimos pancadas, berros. Papai abriu, assustado. Era Zacarias a gritar que Seu Adrião estava morrendo. Imagine como nós ficamos. Eu nem pude arranjar-me, saí de chinelos.

3 – A indignação de João Valério por ser convocado por Zacarias:

— A sinhá mandou saber se v.mcê queria almoçar.

Voltei-me. Era Zacarias.

— Como?

— Mandou chamar para o almoço.

— Muito agradecido, respondi furioso.

E desejei despedir-me secamente de Luísa: “Dê-me as suas ordens.”

Fui à alcova nas pontas dos pés: Adrião dormia. Sentei-me à porta.

— Venha almoçar, João Valério, disse Vitorino do corredor.

— Obrigado.

Refleti com indignação naquele convite.

O médico e o promotor tinham desaparecido. Meio-dia.

Sim senhor! Mandar o preto convidar-me! Era, sem contestação, uma ofensa mortal. Pois não tornava a pisar ali. Fosse tudo para o diabo. Também não me fazia grande falta deixar de ouvir tocar piano e ver jogar xadrez, que não gosto de música nem de jogo. Que me importava o xadrez? que me importava o piano?

[…]

O criado preto! “Diga a seu Valério que venha comer.” Isto a mim, a mim que era… Procurei alguma coisa que eu fosse. Não era nada, realmente, mas tinha boa figura e os caetés no segundo capítulo. E vinte e quatro anos, a escrituração mercantil, a amizade de padre Atanásio, vários elementos de êxito.

Como podemos perceber, Zacarias, ao ocupar um papel à margem do desenvolvimento da narrativa, sustenta a estrutura em que a trama se desenvolve. Na última citação, a mais longa, a forma literária não registra como Zacarias pensa ou sente. Ele serve para demarcar a posição de João Valério na hierarquia social.

O carcará, como forma, sobrevoou e devorou a presença desse personagem, não para incorporá-lo em uma síntese, como na antropofagia, mas para eliminá-lo da paisagem e deixá-lo no canto, abrindo portas, chorando a morte de seus exploradores, carregando bandejas e servindo de base para a moldura da hipocrisia em que indivíduos, como João Valério, se sustentam na afirmação, como ressalta Luis Bueno, de seu lugar acima do outro. Ou, como disse Otto Maria Carpeaux sobre o estilo enxuto e contido do escritor alagoano, para a expressão de um mundo fadado a desaparecer. 

Graciliano Ramos, exemplo de luta contra o fascismo e as engrenagens históricas da manutenção das desigualdades sociais, expõe e denuncia, através da própria forma literária, a terrível realidade do nosso país. 

Caetés, de Graciliano Ramos/ Editora Record, 2019/ 336 pp.

  1. Texto apresentado oralmente, com algumas alterações, no II Congresso O Brasil e seus intérpretes: o romance brasileiro em perspectiva, no dia 21 de setembro de 2026, no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e publicado hoje em ocasião do aniversário de 134 anos de nascimento de Graciliano Ramos. ↩︎

MAR ABERTO

A conversa continua

Toda leitura é uma viagem. Compartilhe suas impressões, lance suas ideias ao mar e descubra outros horizontes de interpretação.

Comece a conversa

O mar ainda está em silêncio. Que tal ser a primeira pessoa a lançar uma ideia à água?

Seu e-mail não será exibido publicamente. Os comentários podem passar por moderação antes de aparecer no site.

Continue lendo

Relacionados

Ensaio

O Gênio Brasileiro e a Universidade

É mesmo curioso pensar que os dois maiores juristas do Brasil do século XIX, em um país escravocrata, tenham sido dois homens negros.

Por Raique Lucas de J. Correia · outubro 16, 2026

CAMPANHA DA REVISTA O ODISSEU

Apoie O Odisseu e faça parte da nossa comunidade.

Escolha sua faixa de apoio e tenha acesso a benefícios exclusivos da revista.