Crítica Ficção estrangeira

De uma liberdade ainda maior, possível e sem nome

Edição brasileira de Antes e depois, de Alba de Céspedes, obra publicada originalmente em 1955, chega num momento em que a escritora ítalo-cubana vive uma renovação internacional.

Capa: Getty Images/ Reprodução


“Aprender a compreender as coisas mínimas que acontecem todos os dias talvez seja aprender a compreender realmente o significado mais recôndito da vida”.
Caderno Proibido, de Alba de Céspedes

Há livros que chegam e ficam reverberando tanto que a sua leitura se converte imediatamente em tantas palavras, que a sua grafia acaba sendo um segundo momento que demora para ser realizado. O reverberar estica o fim e a escrita se impõe para além de um texto sob a estética convencional. As palavras são grafadas nos dias em que se vive se vive, e percebe-se que a obra vai além de um tempo/espaço e está agora mesmo exercendo o seu papel de enlace entre a consciência e o movimento.

Antes e depois, de Alba de Céspedes, foi publicado na Itália em 1955 e esteve longe do catálogo por muitos anos, esquecido atrás dos títulos novos que o mercado editorial consumia. A edição brasileira, lançada pela Bazar do Tempo em 2026, chega num momento em que a escritora ítalo-cubana vive uma renovação internacional. A edição da Bazar do Tempo traz a tradução e o posfácio de Francesca Cricelli. O prefácio é da escritora Nadia Terranova. Uma edição marcante que ilustra a força das vozes femininas do século XX, que não se encaixavam no molde do enquadramento violento patriarcalista do lugar conformado. Estamos diante de um romance breve que se assemelha a um conto longo, mas que carrega uma densidade emocional que assegura a capacidade da autora: a de fazer em poucas páginas o que muitos, em inúmeras, não chegam nem perto.

Lembrando muito as quebras nos contos de Clarice Lispector, a narrativa aqui também evoca um evento aparentemente banal para construir uma estratégia do contar que desestabiliza profundamente a protagonista.

A vida de Irene pode ser descrita com a perene imagem do equilíbrio. E algumas marcas tentam, de início, rotular a leitura, a amizade, o trabalho e as faces que não estão claras em suas relações. Na trama, a jornalista vive sozinha e tem uma colaboradora que trabalha em sua casa, a Ermínia, mas que, de repente, pede demissão para voltar para a casa da antiga patroa, uma ilustre e fria senhora que não lhe tratava com afeto, mas lhe possibilitava um lugar de exatidão em seu mundo futuro. Lembrando muito as quebras nos contos de Clarice Lispector, a narrativa aqui também evoca um evento aparentemente banal para construir uma estratégia do contar que desestabiliza profundamente a protagonista. A saída de Ermínia rompe com a harmonia estabelecida, fazendo-a questionar a si mesma. Céspedes traz uma narrativa que mostra o impacto da independência feminina em um mundo norteado por normas da tradição enraizada.

O romance é um exercício de sucesso que se apresenta, a partir de um fluxo de consciência contido, sem firulas e excessos. E assim, o leitor acompanha Irene em um caminho/pensamento que tenta refazer/lembrar das suas escolhas: o casamento burguês que rejeitou, uma possível ideia de independência, arranjos afetivos que a sociedade condenava. Escolhas traduzidas em caminhos que não mais podem voltar. E, nesse movimento, é que o leitor se depara com o poder de uma boa literatura, de uma obra que se espraia como sangue nas veias, os questionamentos entre uma página e outra de silêncios. O que vem depois da conquista? Qual é o verdadeiro preço de uma vida construída fora do script?

Alba de Céspedes tem uma trajetória importante na construção do pensamento crítico trazido por escritoras contemporâneas. Na década de 1940, ela conheceu a revista cultural Mercúrio e passou a ter contato com seus pares, escritoras de seu tempo como Ada Negri e Natalia Ginzburg, figuras importantes na reconfiguração do panorama italiano do pós-guerra. E é nesse momento que surge a correspondência entre Céspedes e Ginzburg sobre as questões do universo feminino, que eram tão profundamente responsáveis por uma imagem de apagamento e dor. A subtração e a introspecção, lugares em que as mulheres eram historicamente afundadas, é lá que Céspedes usa a literatura para pensar e tensionar o “ponto de ruptura”. Esse espaço de consciência que existe não é negado. Aqui se faz uma escolha que opera a partir da liberdade e do movimento, resistir diante de engrenagens sociais que agem para estruturar e condicionar a mulher em um papel de subserviência histórica que não se pretende qualquer mudança.

O que vem depois da conquista? Qual é o verdadeiro preço de uma vida construída fora do script?”

Lemos de alguma forma a soma da ilusão com a resistência, o seu resultado narrado em tramas. Um recorte possível é pensar o romance com um fio condutor de direção íntima; a demissão de Ermínia deixa de ser um desequilíbrio de ordem doméstica e se torna a entrega de um espelho por meio do qual Irene se entendia. A partida da empregada não é mercadológica, reta. É uma ameaça íntima, uma subtração pessoal. Se propusermos a chance de que havia uma repressão de interesses sexuais como temas de romances nessa época, devido à configuração social, pode ser entendido o que possibilita essa leitura. A perda de Ermínia é, de alguma forma, a verdade esvaziada diante do que poderia ter sido. Antes e depois, veste-se também com a alegoria argumentativa, que é a relação de Irene com Pietro, mas garante o oculto da atração subversiva que ela sente por Ermínia. Falamos de perdas e desilusões. Outra direção de leitura é a de que Irene foi uma mulher que participou coletivamente da luta antifascista e que, no pós-guerra, na sequência dos fatos e remendos históricos, se depara com uma sociedade que não realizou o prometido. E, novamente, o híbrido de desilusão e resistência.

Estamos diante de um livro que oferece ao leitor a imagem de uma mulher que analisa o caminho sem nostalgia e mira suas forças sem a ideia de um futuro romantizado. A sustentação vem do peso das escolhas, o que dialoga com o leitor contemporâneo brasileiro, com a leitora brasileira atual, que também consegue ler sua força espelhada na narrativa e a reconhece não como algo novo, mas como um traço que brilha dos inúmeros ressignificados que foram conquistados nas últimas décadas. Assim, a resposta que fica depois da leitura é que a liberdade que se anuncia é ainda maior, possível e sem nome.

Antes e Depois. Alba de Céspedes. Bazar do Tempo, 2026. 136 pp. Tradução e posfácio: Francesca Cricelli. Prefácio: Nadia Terranova

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